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Sergipe é terra indígena lavada em sangue e esquecimento. Como a elite local apagou da história as resistências e os genocídios dos povos originários

Éramos Tupinambá, Kiriri, Fulkaxó, Boimé, Karapotó, Kaxagó, Caeté, Aramuru, Xokó e mais de uma dezena de outros povos originários a viver em terras que hoje constituem o estado de Sergipe. Éramos muito mais de 20, 30, 40 mil quando da chegada dos invasores europeus por volta de 1530, ou até antes. Muitos outros indígenas, fugidos da escravização na Bahia, foram ainda acolhidos por estas terras.

Toda a diversidade de povos e de culturas em Sergipe foi objeto de ódio, escravização, massacres e genocídio. Além do intenso extermínio físico, os primeiros sergipanos foram vítimas de um perverso e permanente apagamento histórico. Assim, Sergipe nasce como estado elitista, um latifúndio lavado em sangue indígena, um grande cemitério de mulheres e homens martirizados e que, ao longo do tempo, consolidou uma forte política de apagamento dessa mesma história.  

A violência contra os povos indígenas em terras sergipanas foi tão absurda que em Sergipe não restou sequer uma comunidade verdadeiramente originária. Depois de mais de 400 anos do grande massacre em 1590, que a história oficial trata como a “Conquista de Sergipe”, somente nos anos 1980, cerca de 200 caboclos dispersos na divisa com Alagoas, passam a se reconhecer como povo Xokó, fixando-se na Ilha de São Pedro, em Porto da Folha e, depois, tornando-se a única comunidade indígena oficial em Sergipe. 

“O que se conhece sobre os Xokó é resultante do encontro e desencontro entre índios, negros e brancos”, escreve a sergipana Beatriz Dantas, uma das mais importantes antropólogas brasileiras. Além dos Xokó, muito recentemente, os Fulkaxó e os Kaxagó, em povoados no município de Pacatuba, também começaram a se reconhecer e a se organizar em comunidade. Muitos deles são caboclos dispersos, alguns retornando de terras alagoanas.

Mesmo diante de extremas violências físicas e étnicas, Sergipe nomeou lugares de Japaratuba, Siriri, Pacatuba, Muribeca, Aperipê, entre outros, nomes de lideranças indígenas escravizadas, torturadas e assassinadas pelas mesmas elites que os homenageiam, como uma espécie de troféu dada aos vencedores. Aliás, cinicamente Sergipe é também nome indígena, “rio dos siris”, em Tupi.

O brasão do Governo de Sergipe conta com uma ilustração do cacique Serigy, escravizado e barbaramente morto pelos invasores. A simbologia indica os indígenas como “colaboradores” da civilização. No símbolo, Serigy está embarcado em um balão. Certamente foi embora para nunca mais voltar. O “porvir” faz referência a um futuro, certamente sem indígenas. A data que conta no brasão (18 de maio de 1892) é a da primeira constituição do Estado e a inscrição em latim Sub Lege Libertas (Sob a Lei a Liberdade), é também uma cínica ironia diante do cacique Serigy.

Narrativa das elites sergipanas

O professor Antônio Wanderley de Melo Corrêa, um dos autores do livro didático História de Sergipe (3ª ed. 2022), esclarece que a história, de um modo geral, é escrita pelos vencedores. O que se costuma denominar é a narrativa e o discurso ideológico dos dominadores. “Mas a historiografia sergipana trabalha sobre o tema com honestidade. Felisbelo Freire, em ‘História de Sergipe’ (1ª ed. de 1891) e Beatriz Góis Dantas em ‘Terra dos Índios Xocó’ (1980), entre outros, trazem relatos e análises esclarecedoras sobre o extermínio e o etnocídio dos indígenas de Sergipe”, informa Antônio Wanderley.

Para o professor, as elites, seja a aristocracia dos senhores de terras seja burguesia urbana, sempre discursaram fazendo omissões que lhes interessavam e distorções que lhes eram convenientes. Esse é o caso da narrativa da inexistência de “índios puros”, que foi sistemático entre autoridades, imprensa, aristocratas e até intelectuais no século XIX, estendendo-se por décadas do século XX. “Assim, o indígena que vestia roupa, assistia missas, falava o português e tinha a cor da pele branqueada ou enegrecida, não era mais reconhecido como ‘índio puro’, era qualificado como ‘caboclo’, logo, um não-indígena”, analisa o professor.

Antônio Wanderley reforça que Sergipe registrou um permanente massacre contra os povos originários e o resultado disso é que Alagoas, um estado vizinho e com uma população e território equivalentes ao nosso, tem mais de uma dezena de povos indígenas reconhecidos oficialmente, mas em Sergipe só existe um. “É importante registrar que os indígenas de Sergipe não foram ‘colaboradores da civilização’. Eles tentaram sobreviver no mundo que não era mais deles, tendo que se adequar ao modelo dos colonizadores portugueses e, posteriormente, ao da sociedade nacional”, destaca.

Padre Isaías Nascimento, um religioso dedicado à luta do povo pobre em Sergipe, especialmente na região do Baixo São Francisco, lembra que “ao longo da história, a igreja vem condenando as atitudes missionárias que não condizem com o evangelho. Contudo, principalmente com o papa Francisco, esse protesto é muito mais forte, a exemplo do que houve com os povos indígenas do Canadá”. Padre Isaías lembra que em Sergipe, as comunidades eclesiais de base se envolveram muito na luta pelo reconhecimento e pela reconquista das terras do povo Xokó. 

“Não conseguiram calar nossa voz”

Itamar Peregrino é indígena desaldeado do povo kariri. Ele busca reforçar sua condição no diálogo permanente com seus parentes em Sergipe e, principalmente, fora do estado, e com estudiosos sobre a questão indígena. Ele analisa a permanente matança contra os povos originários, com o objetivo de apagamento, “mas não conseguiram calar nossa voz, não conseguiram nos apagar”, afirma Peregrino, que é comunicador, educador popular e artesão. Ouçam abaixo a fala completa de Itamar Peregrino.

Com essa reportagem especial de estreia no Dia dos Povos Indígenas, a Agência Mangue Jornalismo busca revelar parte de uma história pouco conhecida entre nós: das invasões às terras sergipanas, da escravização e dos massacres dos povos originários, da gigantesca resistência indígena, da formação da elite local e do apagamento dessa história. Leia em Os três grandes massacres contra os indígenas em Sergipe. A história oficial apaga, transforma o genocídio em conquista e os assassinos em heróis , uma narrativa da histórica crítica sobre os primeiros povos indígenas em terras sergipanas e o extermínio deles, principalmente em três grandes massacres.

Como parte dessa reportagem especial, a Mangue Jornalismo dedica um espaço exclusivo para o único povo indígena em Sergipe reconhecido pelo Estado brasileiro, os Xokó. Nesse sentido, buscamos contar um resumo da história de luta do povo Xokó em Sergipe através do olhar de uma das mais importantes antropólogas brasileiras, a professora sergipana Beatriz Dantas. Certamente, Dantas é a pesquisadora que mais se dedicou a estudar os povos indígenas em Sergipe, de modo especial os Xokó. Essa é uma leitura fundamental porque passamos a conhecer a história desse povo. Leia em A reexistência entre encontros e desencontros dos Xokó em Sergipe. O olhar da antropóloga Beatriz Dantas sobre a história desse povo.

Ainda abordando a questão dos Xokó, a Mangue Jornalismo publica uma entrevista com Ivanilson Martins Xokó, professor e mestrando em História pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Ele faz uma excelente análise sobre o violento apagamento dos povos indígenas no Brasil e em Sergipe, claro, incluindo os Xokó. Junto com a entrevista, trazemos um vídeo-documentário sobre músicas, danças e cosmologia do Xokó. É um trabalho de 2021 realizado pelo Sesc com o Grupo Pintados do Tamariná. No documentário há importantes falas da liderança dos Xokó, Lucimário Apolonio Lima, o cacique Bá. Veja tudo em “A História oficial tentou ocultar as (re)existências feitas por nós, povos indígenas. Quase deu certo, mas estamos (re)escrevendo nossa história como protagonistas”.

Dentro dessa reportagem especial da Mangue Jornalismo em sua estreia, publicamos a análise precisa do professor Pedro Abelardo de Santana, doutor em História e professor na UFAL. Ele revela a enorme violência dos invasores europeus contra os povos originários, mas garante o professor: “O projeto de silenciamento não venceu. Hoje, além das memórias e dos monumentos que lembram os indígenas, convivemos com eles como lideranças políticas, historiadores, enfermeiras, etc.”. Pedro é autor do livro “Os indígenas em Sergipe oitocentista: catequese, civilização e alienação de terras”. Leia a entrevista com ele em “Por que não há indígenas em Aracaju, São Cristóvão, Geru, Cristinápolis e em outras partes de Sergipe? Foi o violento processo de colonização que criou essa realidade”. Já a professora aposentada do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Maria Nely dos Santos Ribeiro, uma das mais importantes pesquisadoras e estudiosas nordestinas, participa desse debate com uma contribuição fundamental. Em artigo exclusivo para a Mangue Jornalismo, ela afirma que é desrespeitoso o esquecimento em Sergipe para com as histórias de luta e resistência dos caciques Serigy, Aperipê, Siriri, Japaratuba e Surubi. Leia em “É dever dos estudiosos quebrarem o silêncio e reagirem contra a omissão da memória/história dos indígenas”.

CRISTIAN GÓES

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3 respostas

  1. ,ou estudante de pedagogia,e fazendo uma busca sobre a história dos indígenas em Sergipe,me deparo com essa reportagem incrível,obrigada,ganhou uma leitora.

  2. Me interessei pela pesquisa, pois meus pais são de Sergipe, e minha mãe sempre relatou que a sua avó era indígena, fato esse que a cultura de certa forma chegou a minha avó, que era parteira, benzedeira e curandeira , usava as plantas para tratar as moléstias.
    Infelizmente tudo isso se foi, minha avó morreu há muito tempo e levou consigo os costumes e conhecimentos.

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