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“Por que não há indígenas em Aracaju, São Cristóvão, Geru, Cristinápolis e em outras partes de Sergipe? Foi o violento processo de colonização que criou essa realidade”

Pedro Abelardo de Santana é doutor em História Social pela Universidade Federal da Bahia e hoje é professor de História do Brasil na UFAL, Campus do Sertão. Pedro atuou muitos anos em Sergipe e é autor do importante livro “Os indígenas em Sergipe oitocentista: catequese, civilização e alienação de terras”.

Sobre a história dos indígenas em Sergipe, Pedro é categórico: “Sim. Podemos falar em silenciamento dos indígenas na história do Brasil, seja na colônia, império ou República, e, por extensão, na história de Sergipe”. Segundo ele, somente a partir da década de 1980 é que começam a surgir mais estudos históricos sobre o tema. Pedro lembra de historiadores e antropólogos nacionais como John Manuel Monteiro e Manuela Carneiro da Cunha, nomes de destaque nesses estudos. “Localmente, a professora Beatriz Góis Dantas foi pioneira no mesmo período, assim como Maria Thétis Nunes e Luiz Mott”, completa. Antes, a narrativa predominante tratava da colonização dos portugueses e com os indígenas ocupando um cenário secundário ou a posição de gente que atrapalhava a civilização. Porém, novos estudos nas últimas três décadas têm demonstrado a persistência ou resistência dos indígenas. 

Pedro afirma que há pouco mais de um século Sergipe tinha cinco aldeamentos, eram: Geru, Água Azeda (hoje povoado de São Cristóvão), Pacatuba, São Pedro de Porto da Folha e Chapada (atual Cristinápolis). Nesse mesmo período, 1853, aconteceu a extinção dos aldeamentos como uma tentativa de misturar os indígenas aos demais brasileiros, processo conhecido também como mestiçagem, incorporação. “Vivíamos no auge das teorias raciais que colocavam o indígena como inferior e tendente a desaparecer naturalmente. Porém, mesmo silenciados, os indígenas sobreviveram. Há quem defenda o silêncio como estratégia”, ressalta o professor. 

Segundo o pesquisador na década de 1980, esses povos ressurgiram, a exemplo dos Xokó e, mais recentemente dos Fulkaxó, que assumiram as suas identidades. “Graças às suas lideranças e os apoios da imprensa, igreja, universidade, judiciário e outras organizações da sociedade civil, esses povos estão ganhando cada vez mais visibilidade. O projeto de silenciamento não venceu. Hoje, além das memórias e dos monumentos que lembram os indígenas, convivemos com eles como lideranças políticas, historiadores, enfermeiras, etc.”, informa Pedro.

Os indígenas na historiografia de Sergipe

O professor chama atenção para o primeiro historiador sergipano que ganhou reconhecimento: Felisbelo Freire. Quando ele escreveu sua obra no fim do século XIX, o indígena era considerado inexistente, integrado ao restante da sociedade. “Portanto, Felisbelo retrata a mentalidade da época que valorizava o branco como civilizador, sendo os indígenas e pretos considerados coadjuvantes”, reforça Pedro Abelardo. Nesse período, ainda predominava a concepção do indígena como coisa do passado, idealizados como aqueles que ajudaram a colonização contra outra parte que se opôs, a oposição tupi/colaborador, tapuia/inimigo. 

O pesquisador diz que, a exemplo da sociedade nacional de fins do século XIX e da primeira metade do XX, em Sergipe, costumava-se valorizar os indígenas do passado, por isso, nomes de caciques como Aperipê, Baepeba e Siriri são bastante conhecidos. “Porém, no mesmo período, tínhamos indígenas em Água Azeda, Cristinápolis e Porto da Folha em conflito com latifundiários, disputando terras. Estes são poucos conhecidos, mas a nova historiografia está dando visibilidade a eles”, conta Pedro, acrescentando que alguns indígenas empreenderam viagens de suas vilas para as capitais São Cristóvão e Rio de Janeiro, depois, nos anos 1930, entraram na justiça buscando garantir suas antigas posses de terras. “Conhecer essas histórias é importante para entendermos que os indígenas não deixaram de ser protagonistas de suas histórias, não são uma invenção do fim do século XX e, embora misturados, assumem suas identidades com respaldo na memória e na história”, reforça o professor.

Os indígenas sergipanos eram maioria e viraram minoria

Pedro Abelardo diz que termo genocídio tem uma conotação política e é polêmico entre historiadores. “De forma coloquial ele pode ser até empregado, mas raramente é escrito. Isso não impede que a palavra seja usada pelos movimentos sociais. Por outro lado, reconhecemos a violência, a escravização, a usurpação dos territórios ocupados, enfim, os indígenas sergipanos eram maioria e viraram minoria”, analisa. Ele convoca na entrevista o pensador sergipano, radicado no Rio de Janeiro, Manuel Bomfim, grande defensor dos indígenas. “Ele era contra a ideia de extermínio e defendia que os indígenas fossem a maioria na sociedade brasileira. Ele escreveu em 1905, com base em fontes restritas e tinha boas intenções ao falar da importância do indígena na formação nacional”, destaca. Hoje, afirma o pesquisador, “sabemos que a conquista de Sergipe significou a diminuição drástica da sua população originária, processo continuado nos séculos seguintes. A boa notícia é que no atual século a identidade e representatividade indígena vem aumentando nas estatísticas do IBGE”, constata.

Ele também convocou o trabalho do antropólogo Felte Bezerra, que falava na contribuição de indígenas, negros e brancos na formação de Sergipe. “Ele escreveu em um momento em que o indígena era considerado algo do passado. Porém, tínhamos e temos indígenas no território sergipano, mas são poucos em comparação ao século XIX e ao período da conquista, principalmente”, completa. Pedro Abelardo não tem dúvida que a violência foi a responsável pela diminuição dessa população, mas também a expansão da fronteira agrícola e pastoril. 

“Em Sergipe, na parte litorânea podemos dizer que o fumo, a mandioca e outros mantimentos exerceram essa pressão sobre os povos originários e, no sertão, foi a pecuária que reduziu os indígenas”, informa. Segundo o professor, Capistrano de Abreu fala que a colonização despovoou de indígenas o território para depois repovoar com europeus e mestiços. É o caso de Sergipe, as mudanças rápidas e drásticas ocorridas neste território fez desaparecer em grande parte, mas não totalmente a presença de indígenas.

A resistência dos Xokó e dos Fulkaxó 

Pedro Abelardo festeja a existência dos Xocó em Porto da Folha e dos Fulkaxó em Pacatuba, sendo que estes últimos fizeram o retorno de Alagoas para Sergipe na última década, precisamente em 2018. “Já são dois povos, realidade que há meia década não existia. Porém, por que não há indígenas em Aracaju, São Cristóvão, Geru, Cristinápolis e em outras partes de Sergipe?”, questiona o professor e logo responde: “O violento processo de colonização que criou essa realidade”. Ele analisa, porém, que a pequena extensão de Sergipe contribui para a diminuta representatividade e especificidades de nossa história. “Nosso vizinho, Alagoas, conta com quantidade muito maior de indígenas, no sertão são seis etnias. No sul da Bahia, os povos indígenas resistiram fisicamente também e contamos com milhares de pessoas”, constata.

Outra coisa importante que o pesquisador chama atenção é para os indígenas não aldeados que vivem ou transitam por Sergipe vindos de outros estados. “Além disso, também tem aumentado a compreensão de que devemos valorizar os povos originários, sua história e cultura, por isso, estudamos o tema nas escolas, discutimos na imprensa, dialogamos com os indígenas em diversos momentos. O tema vem ganhando relevância e, se antes era motivo de esquecimento, vergonha e piada, percebo uma melhor relação dos sergipanos com o assunto, o qual não pode desaparecer da história, nem do debate público”, conclui Pedro Abelardo.

CRISTIAN GÓES

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