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Os Xokó em Sergipe, entre encontros e desencontros. O olhar da antropóloga Beatriz Dantas sobre a história de nosso povo

Imagens: Ivanilson Martins Xokó

A 13ª edição do livro “Povos Indígenas no Brasil”, do Instituto Socioambiental (ISA), faz um excelente mapeamento das comunidades no período de 2017 a 2022. O trabalho apresenta uma visão geral sobre 266 povos indígenas que vivem no Brasil, falantes de cerca de 160 línguas. Em Sergipe, somente há uma comunidade Xokó, sem língua própria, registrada no trabalho. Acesse e baixe AQUI o livro na íntegra.

Sobre os Xokó, a Mangue Jornalismo optou por resumir a história desse valente povo indígena, através do olhar precioso de uma das maiores estudiosas sobre os Xokó, a professora Beatriz Dantas. Assim, publicamos a seguir trechos de um trabalho dela intitulado de “Xokó, grupo indígena em Sergipe”, publicado em 1997. 

A professora revela que, “grafados sob diferentes formas – Shocó, Xocó, Chocó, Chocoz, Ciocó, Ceocose – surgem quase sempre associados a espaços missionários. Há registro de Xokó em tempos passados, num espaço geográfico que vai de Sergipe ao sul do Ceará. Entre os séculos XVII e XVIII, sua presença é indicada ora na margem esquerda, ora na margem direita do rio São Francisco, em terras que hoje integram os estados de Pernambuco, Alagoas e Sergipe”, escreve a antropóloga.

Processo de dispersão 

Segundo diz Dantas, também havia “referências a Ciocó em Pacatuba, missão fundada pelos capuchinhos no final do século XVII e mais tarde, já no século XIX, grafados como Ceocose, sua presença no território sergipano vai ser registrada em São Pedro do Porto da Folha, também uma antiga missão dos capuchinhos. São do início do século XIX notícias de que grupos de índios denominados de Shocó viviam errantes nos sertões de Pernambuco e sul do Ceará. Teriam fugido de missões e, embora relutassem em viver aldeados, terminaram sendo mais uma vez recolhidos a espaços missionários”.

No século XX, continua a professora, “persistem remanescentes de grupos identificados como Xokó em localidades que foram antigas missões como São Pedro do Porto da Folha (SE) e Porto Real do Colégio (AL). Nestas duas localidades hoje vivem os Xokó. Um grupo habita no lado sergipano do rio, mais precisamente na Caiçara e na ilha de São Pedro, no município de Porto da Folha. Do outro lado do rio, no município alagoano de Porto Real de Colégio, fica a aldeia dos Kariri-Xokó”. 

Beatriz Dantas explica que a presença dos Xokó junto aos Kariri é “resultante das migrações que os índios de São Pedro fizeram desde fins do século passado, quando as pressões do lado sergipano tornaram-se mais fortes. Diferentes levas buscaram abrigo entre índios da antiga missão do Colégio, formando a comunidade Kariri-Xokó. A proximidade geográfica e as relações de parentesco entre os dois grupos fizeram com que, ao longo dos tempos, eles mantivessem contatos, encontros e desencontros”.

Só cinco povoações/missões religiosas 

“Em Sergipe, ainda na primeira metade do século XIX, restavam cinco povoações indígenas: Aldeia de Água Azeda, Missão de Nossa Senhora do Carmo de Japaratuba, Missão de São Félix de Pacatuba, Missão de São Pedro do Porto da Folha e Vila de Tomar do Geru. Com exceção de Água Azeda, aldeia localizada perto de São Cristóvão, as demais aglomerações indígenas eram resultantes de missões, onde foram sendo recolhidos os índios, à medida que se expandia a ocupação da terra pelos colonos” (Dantas, 1991).

Escreve a professora que “a partir de 1849, os capuchinhos retornaram à missão de São Pedro. Vieram convidados pelo governo da Província para exercer a catequese, atividade que o governo imperial decidira a eles confiar. Nessa nova fase da ação missionária destacou-se a figura do Frei Doroteu de Loreto, um grande italiano que viveu na missão durante quase trinta anos, na segunda metade do século passado, e marcou profundamente o imaginário das populações locais”. 

Segundo os relatos dos Xokó, “o frade é apresentado como um santo homem a quem atribuem a fama de milagreiro. Ao mesmo tempo, ressaltam o empenho desse missionário em acabar com as práticas religiosas que os índios continuavam realizando às escondidas, no terreiro da Caiçara. Quando surpreendidos, eram severamente punidos, como admite o próprio frade, em 1859, ao flagrá-los em ritos que ele qualificava de “assembleias noturnas com danças supersticiosas contrárias à religião” (Cf. Dantas, 1988; 1994).

No século XIX, relembra a professora, vigorava no Brasil a ideologia assimilacionista para construção da nação e a “mestiçagem” foi usada para diluir a etnia indígena. O interesse aqui era econômico: os fazendeiros queriam tomar as terras dos indígenas. Assim, em 1853 o governo decreta a extinção da Diretoria de índios em Sergipe (1853). “A existência de índios passa a ser negada. No final do século, os registros oficiais já não fazem referência a índios em Sergipe. Nos levantamentos censitários aparece a categoria caboclo, uma nova forma de classificar os habitantes das antigas aldeias. 

Enquanto isso, diz Beatriz Dantas, “vão sendo tomadas medidas que culminam com a perda das terras por muitas comunidades indígenas. Na missão de São Pedro, o Frei Doroteu manteve-se como missionário e interlocutor das autoridades nas questões relativas aos índios. No final da década de setenta do século XIX, com a morte do frade, as terras do antigo aldeamento foram doadas à Câmara da Ilha do Ouro. Passaram depois para a Câmara de Porto da Folha e foram aforadas aos fazendeiros (1888). Mais tarde, passaram para a prefeitura e, tempos depois, foram vendidas a particulares”, escreve a professora Beatriz.

A retomada e a reafirmação dos Xokó

Constata a professora que, somente “na passagem da década de 70 para 80 do século passado, descendentes dos habitantes da missão de São Pedro, que atravessaram quase cem anos tentando reaver as terras do antigo aldeamento, vão encontrar condições de realizar o seu intento. Iniciam então o movimento de retomada da ilha. Os ‘caboclos da Caiçara’, trabalhadores rurais que têm uma história vinculada aos índios da antiga missão de São Pedro, reativam a memória, trabalham a identidade Xokó, lutam pelas terras que tinham perdido há quase um século e conseguem reavê-las, apoiados por muitas alianças que envolvem setores da igreja católica, como a diocese de Propriá, o Conselho Indigenista Missionário – CIMI, a Comissão Pró-Índio de Sergipe (1981-1986), estudantes e professores universitários, sindicatos, imprensa, intelectuais, entidades governamentais e não governamentais”. 

Não demorou e a Fundação Nacional do Índio – FUNAI – reconheceu os Xokó como indígenas, “com direitos sobre as terras da Caiçara e ilha de São Pedro. Esta é desapropriada pelo governo estadual (Decreto 4.530 de 07/12/1979) e repassada para a União para se constituir território indígena. Sob a influência da FUNAI e a presença de agentes religiosos, vinculados à ala progressista da igreja católica, se desenvolve a implantação da comunidade na pequena ilha de 96 hectares. Somente em 1993 se efetivou a posse da Caiçara – área de 4.220 hectares – que fora homologada com área indígena pelo Governo Federal (Decreto 401 de 24/12/1991)”.Importante registrar que em maio de 2019 morreu aos 58 anos, José Apolônio dos Santos, ex-cacique da única tribo indígena de Sergipe. Estava internado no Hospital Regional de Nossa Senhora da Glória, onde morreu na companhia de familiares. Fazia tratamento para problemas decorrentes do diabetes e do coração.

CRISTIAN GÓES

Referências:
DANTAS, B. G. A tupimania na historiografia sergipana. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, n. 29, 1987.
DANTAS, B. G. Os índios em Sergipe. In: DINIZ, D.F.L.(org.). Textos para a história de Sergipe. Aracaju: UFS/Banese, 1991. p. 19-60.
DANTAS, B. G. Xokó: Grupo Indígena em Sergipe. Aracaju: Gráfica Opção, 1997.
PORTO ALEGRE, S.; MARIZ, M.; DANTAS, B.G. Documentos para a história indígena no Nordeste. São Paulo: NHII/USP/FAPESP, 1994.
REGNI, V. Capuchinhos na Bahia. São Paulo: Palloti, 1988.

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Uma resposta

  1. Que texto maravilhoso sobre os estudos da pesquisadora antropóloga Beatriz G. Dantas. Faz a gente entrar na história e viajar no tempo. Lembro -me que em princípio dos anos 90 o povo Xokó estava acampado da então de denominada ” Fazenda São Geraldo” as margens do Rio São Francisco, perto do Mocambo em Porto da Folha. Participei de uma atividade promovida pela CUT Sergipe: passar um domingo em visita ao povo Xokó, apoiando essa luta para reaver a posse da Terra. Foi uma riqueza de aprendizado político Cultural. Jamais esquecerei dessa vivência.
    Parabéns ?????? Mangue Jornalismo por recuperar essa história.

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