Produção da Mangue sobre racismo na infância é finalista de premiação nacional

A audiorreportagem, de autoria de Gabriella Salmeron e Hector Sousa, aborda como o racismo atravessa a experiência de crianças negras desde os primeiros anos de vida, afetando autoestima, pertencimento e relações sociais.

(Créditos: Reprodução/Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal)

Uma audiorreportagem produzida pela Mangue Jornalismo está entre as finalistas do Prêmio Primeira Infância em Pauta 2026, iniciativa nacional promovida pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para reconhecer produções jornalísticas voltadas aos desafios e direitos da infância no Brasil.

De autoria da repórter Gabriella Salmeron e do produtor audiovisual Hector Sousa, o material aborda como o racismo atravessa a experiência de crianças negras desde os primeiros anos de vida, afetando autoestima, pertencimento e relações sociais. A produção também discute a importância da representatividade em livros, brinquedos e demais produções culturais como ferramenta de enfrentamento às desigualdades raciais na primeira infância. Ouça aqui.

A reportagem concorre na categoria de áudio e aborda os impactos do racismo na infância, reunindo relatos, análises de especialistas e reflexões sobre representatividade e desenvolvimento infantil. Ao todo, mais de 200 trabalhos de todo o País foram inscritos na premiação. Apenas três produções foram selecionadas como finalistas em cada categoria.

“É uma honra ter sido selecionada como finalista em um prêmio que aborda um tema socialmente tão relevante quanto o Primeira Infância em Pauta. Ainda mais com a primeira audiorreportagem da Mangue Jornalismo, o que torna esse reconhecimento ainda mais especial”, destaca Gabriella.

Segundo ela, abordar o racismo ainda na primeira infância é fundamental para compreender os impactos duradouros da discriminação racial. “Esse espaço da Mangue para discutir temas que atravessam profundamente a nossa sociedade também é muito importante para nós, jornalistas, exercermos nosso papel de fala, escuta e transformação social, algo que a nossa profissão permite e exige”.

Hector, por sua vez, destacou a importância de um veículo independente ser finalista ao lado de grandes organizações de mídia do país. “É uma prova da nossa potência fazendo um jornalismo diferente do que crescemos lendo, ouvindo e assistindo em Sergipe”, declara. “Sou um homem negro que no ambiente em que cresci, não tive acesso a esse tipo de reflexão. Falar sobre racismo na infância não é apenas denunciar a violência sofrida por crianças negras, mas também conscientizar pessoas brancas sobre o tema que impacta tanto a sociedade”.

O prêmio Primeira Infância em Pauta 2026 conta também com apoio da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-UFS), InovaUSP e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Entre os critérios de análise estão consistência editorial, rigor informativo, clareza, alcance e acesso à informação.

O evento de premiação ocorrerá em julho, na cidade de São Paulo (SP). Os vencedores receberão premiação em dinheiro, conforme a categoria: R$ 10 mil para áudio, vídeo, texto e redes sociais; R$ 15 mil para reportagem especial; e R$ 5 mil para estudante.

No ano de 2025, a Mangue Jornalismo recebeu o “Prêmio de Reconhecimento Cultural Acadêmica Ilma Mendes Fontes”, da Academia de Letras de Aracaju; o Prêmio de Integridade do Instituto Não Aceito Corrupção (3º lugar), em São Paulo, a reportagem Municípios de Sergipe receberam mais de R$ 133 milhões via Emenda Pix de deputados federais e senadores, de Ana Paula Rocha; e o Prêmio de Jornalismo Sebrae (3º lugar na categoria texto), com a reportagem Das mangabas à rede de mulheres, como a luta ambiental se transformou em luta pelo direito à existência, de Díjna Torres e José Cristian Góes. 

Além disso, teve duas reportagens investigativas entre as finalistas da 7ª edição do Prêmio Livre.jor de Jornalismo-Mosca 2025. A premiação reconhece trabalhos jornalísticos e projetos que promovem a cultura da transparência e o direito de acesso à informação pública. A premiação busca valorizar jornalistas e estudantes que se dedicam a transformar dados, documentos e registros oficiais em reportagens de interesse coletivo, além de destacar iniciativas que fortalecem o ecossistema informativo, como o Troféu Rastilho, dedicado a projetos da sociedade civil que libertam dados e ampliam o acesso à informação.

Um dos trabalhos finalistas pela Mangue foi a reportagem Exclusivo: Banese vai esconder detalhes de contrato público sobre loteria estadual até 2045 alegando ‘sigilo’, dos repórteres Wendal Carmo e José Cristian Góes. Nesse material, a Mangue solicitou, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), que o banco público de Sergipe apresentasse cópias dos contratos públicos celebrados entre o banco e empresas para a exploração e operação da loteria estadual, a Lotese. O Banese afirmou não ser possível disponibilizar documentos porque as informações estariam “protegidas por sigilo comercial”. 

No entanto, a Mangue descobriu que em um comunicado de fevereiro deste ano, o Banese revelou que o contrato tem vigência de 20 anos, ou seja, ele vai ficar escondido pelo menos até o ano de 2045. Em abril, o Tribunal de Contas do Estado de Sergipe (TCE-SE) abriu uma investigação sobre a loteria estadual após a área técnica da Corte encontrar irregularidades na parceria firmada pelo banco para viabilizar a plataforma.

A segunda reportagem foi de autoria da repórter Ana Paula Rocha. Ela mostrou que o Governo de Sergipe usa “sem restrições” ferramenta israelense de invasão a celulares. Nesse material, a Mangue investigou a expansão do chamado tecnovigilantismo como abordagem na segurança pública em Sergipe. Com o uso de ferramentas de intrusão como a israelense UFED (sigla para Universal Forensics Extraction Device), que desbloqueia e extrai dados de dispositivos digitais, o governo de Sergipe colocou de lado a proteção de dados dos cidadãos, optando por gastar centenas de milhares de reais com uma ferramenta que atua numa lacuna normativa do Brasil onde os direitos à privacidade não são resguardados.

Para o editor-chefe da Mangue, Wendal Carmo, o reconhecimento nacional evidencia tanto a relevância do tema quanto os desafios enfrentados pelo jornalismo independente produzido em Sergipe. “Fazer jornalismo independente no menor estado do país significa lidar diariamente com limitações financeiras, custos de produção e dificuldades estruturais para manter reportagens aprofundadas e socialmente relevantes. Ainda assim, seguimos apostando em pautas que muitas vezes não encontram espaço nos grandes veículos”, afirma.

“Esse reconhecimento dá fôlego e mostra que estamos no caminho certo, mas também reforça a necessidade de as pessoas contribuírem e apoiarem iniciativas independentes. Produções como essa exigem tempo, equipe, investimento e dedicação constante”, conclui.

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