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Exclusivo: Banese vai esconder detalhes de contrato público sobre loteria estadual até 2045 alegando ‘sigilo’

Banco do estado estabeleceu sigilo de 20 anos sobre contratos públicos (Crédito: Banese)

WENDAL CARMO e JOSÉ CRISTIAN GÓES, da Mangue Jornalismo
(@euwen.dal e @josecristiangoes)



O Banese, banco público do Estado de Sergipe, recorreu ao argumento do “sigilo comercial” para esconder — por ao menos 20 anos — os detalhes do contrato celebrado pela instituição com um consórcio de empresas responsável por gerir os serviços da Lotese, um loteria local. A negativa se deu em pedido feito via Lei de Acesso à Informação (LAI) pela Mangue Jornalismo.

Lançada em maio, a Lotese estreou oferecendo cassinos virtuais, como o jogo do tigrinho. Na economia do país e das famílias, as consequências das chamadas bets estão aparecendo e causando preocupação: elas vão do aumento do endividamento e da diminuição de recursos para itens básicos ao adoecimento mental e até suicídio. Em abril, o Banco Central informou que os brasileiros gastaram cerca de R$ 30 bilhões por mês com apostas online, em 2024.

Reportagem da Mangue Jornalismo publicada em 4 de agosto contou, no detalhe, as histórias dos aracajuanos que perderam tudo em razão da ludopatia — a doença das pessoas viciadas em jogos de aposta, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A reportagem da Mangue recebeu o título: “Perdi meu apartamento por causa de jogos de azar online”, os relatos de pessoas em Aracaju viciadas em apostas.

A oferta de cassino e jogo do tigrinho pelo Governo do Estado, através do Banese e da Lotese virou escândalo nacional e forçou um recuo: alguns dias após o lançamento, o governador Fábio Mitidieri (PSD) mandou remover os cassinos onlines da plataforma.

No final de junho, a Mangue solicitou ao Banese a cópia integral dos contratos celebrados entre o banco e o consórcio Culloden Participações S.A. e TSA Informática Ltda., formalizados por meio da Sociedade de Propósito Específico (SPE) Betsul Concessionária de Serviços Lotéricos do Sergipe, para a exploração e operação da Lotese.

A Mangue também pediu as cópias de eventuais arranjos estabelecidos entre o banco e empresas desenvolvedoras ou fornecedoras de jogos de cassino virtual, como PG Soft e Pragmatic Play, que operassem ou tivessem operado na loteria estadual.

A resposta veio em 9 de julho. Recorrendo ao inciso II do artigo 23 da LAI, o Banese afirmou não ser possível disponibilizar os documentos devido a “informações que estão protegidas por sigilo comercial”. Segundo o banco, a divulgação dos contratos “comprometeria a estratégia competitiva e a segurança jurídica” da Lotese.

Sobre eventuais parcerias com empresas desenvolvedoras, o Banese declarou não possuir contratos com elas. “A obrigação de aporte da tecnologia, incluindo o desenvolvimento, fornecimento e integração dos jogos ofertados na plataforma da loteria estadual, é exclusiva da SPE selecionada no Procedimento de Manifestação de Interesse”, escreveu a instituição.

Mangue Jornalismo recorreu dessa informação de “sigilo comercial”. Foi argumentado que, conforme os artigos 24 e 30 da LAI, qualquer informação classificada como sigilosa deve indicar claramente o grau de confidencialidade (reservado, secreto ou ultrassecreto) e o prazo da restrição. A resposta apresentada inicialmente pelo Banese não informava nenhum desses pontos, o que poderia indicar um descumprimento da legislação sobre acesso à informação.

Além disso, a jurisprudência da Controladoria-Geral da União (CGU) é clara: contratos administrativos devem ser, como regra, públicos. O sigilo é uma exceção, admissível apenas em cláusulas específicas. No recurso, a Mangue pediu, portanto, a reavaliação da negativa e a disponibilização do contrato integral ou parcialmente ocultado, com tarjas sobre cláusulas que, de fato, estivessem resguardadas pelo alegado “sigilo comercial”.

Na última quinta-feira, 14 de agosto, o Banese informou que manteve o sigilo sobre os detalhes do contrato com a Betsul Concessionária, sem informar o grau de restrição nem o período em que a parceria permanecerá na sombra.

Um comunicado ao mercado enviado em fevereiro pela própria instituição, contudo, revela pistas sobre esse prazo: o contrato tem vigência de duas décadas. Ou seja, o Banese esconderá, pelo menos até o ano de 2045, os detalhes de um negócio público que movimentará centenas de milhões de reais e destinará parte dessa arrecadação aos cofres do Estado.

Na devolutiva, o Banese recorreu mais uma vez ao argumento do sigilo comercial como “essencial para a manutenção da competitividade e para a segurança das operações financeiras e comerciais da instituição e de seus parceiros”. O banco reconheceu que a LAI prevê a necessidade de indicação do grau e prazo de confidencialidade, mas argumentou que, neste caso, “a proteção está diretamente relacionada ao segredo de negócio”.

“O Banese, por ser uma instituição financeira, opera em um ambiente competitivo e as informações contidas nos contratos celebrados com parceiros comerciais podem conter estratégias de negócios, informações financeiras sensíveis e dados técnicos que, se divulgados, podem causar prejuízo à instituição e à sua competitividade no mercado. A divulgação dessas informações não seria do interesse público, já que colocaria em risco a saúde financeira e a sustentabilidade da empresa, comprometendo a prestação de serviços à população”, escreveu o banco.

Segundo o Banese, a divulgação do contrato com a Betsul Concessionária não é uma questão de interesse público (Reprodução/Banese em resposta à Mangue)

Lotese nasceu com promessa de transparência e finalidade social

A Lotese começou a ser gestada há quatro anos, após a Assembleia Legislativa aprovar um projeto que permitiu ao Executivo estadual gerir sua própria loteria, com base em decisão do Supremo Tribunal Federal de 2020 que tirou da União o monopólio do serviço.

No ano passado, o governador Fábio Mitidieri (PSD) propôs modificar a lei de 2021 para permitir que o Banese atuasse no planejamento, organização e exploração da loteria estadual. Para isso, poderia criar uma subsidiária, optar por uma holding de participações ou integrar uma estrutura societária.

A proposta ainda concedia à Agrese, agência reguladora estadual, o poder de fiscalizar as operações. A plataforma, porém, saiu do papel apenas em maio. Durante o evento de lançamento, o presidente do banco público, Marcos Queiroz, comemorou: “A Lotese vai possibilitar que os sergipanos tenham acesso a jogos seguros, com toda a transparência e fiscalização necessárias. Os recursos arrecadados serão investidos no desenvolvimento e na melhoria da qualidade de vida do nosso povo”.

A plataforma atua nos 75 municípios de Sergipe com mais de 600 tipos de jogos nas modalidades de cota fixa (jogos online), prognóstico numérico (quando o apostador tentar acertar os números que serão sorteados) e instantâneos (conhecidos como “raspadinhas”).

O Banese garante que apenas pessoas que estiverem no estado poderão ter acesso aos jogos online. Cerca de 5% dos valores arrecadados devem ser obrigatoriamente destinados ao Estado. A divisão sobre a receita líquida obtida com as apostas acontecerá da seguinte forma, segundo o banco: 35% para a secretaria estadual de Inclusão e Assistência Social; 25% para Cultura; 25% para Esporte; e 15% para Meio Ambiente. Os prêmios não reclamados em até 90 dias também retornarão aos cofres públicos.

A loteria do Estado de Sergipe começou a ser gestada há quatro anos, mas a plataforma só saiu do papel em maio deste ano (Crédito: Banese)

Como dizer, portanto, que não há interesse público sobre as operações da Lotese? Este é o questionamento feito por Marina Atoji, diretora da ONG Transparência Brasil, em entrevista à Mangue Jornalismo. “Na negativa, o Banese não demonstra o risco concreto que a divulgação do contrato causaria à estratégia da Lotese, apenas afirma genericamente que se aplica o sigilo comercial. A afirmação do banco de que não há interesse público no contrato é descabida, já que a loteria objeto do contrato renderá receitas ao estado”, observa a pesquisadora.

Um dos pontos elencados por Atoji ao criticar a negativa da instituição é que, no caso da Lotese, há ainda mais elementos que reforçam essa obrigação: a loteria foi criada por lei estadual com finalidade social, já que reverte parte da sua arrecadação a políticas públicas, e utiliza ativos de um banco público para viabilizar sua operação. “É improvável que o contrato inteiro comprometa a estratégia da empresa. O Banese deveria disponibilizar o conteúdo, ocultando apenas trechos específicos e devidamente justificados”, pontua.

Para o jurista Márcio Ricardo Staffen, doutor em Direito Comparado e professor da Universidade do Vale do Itajaí (Univali-SC), a decisão do Banese é equivocada. Ele lembra que o direito de acesso à informação tem base constitucional, e não pode ser limitado por normas infraconstitucionais como a LAI, sob pena de esvaziar o princípio da publicidade e da transparência previsto na Constituição.

“O Banese usa fundamentos que não se sustentam juridicamente. Não se trata de segredo industrial, nem de risco diplomático internacional. O contrato é de natureza pública e, portanto, deve estar sujeito à transparência”, observa Staffen.

Na avaliação do especialista, a justificativa do banco é frágil porque o artigo 22 da LAI, que trata de sigilo industrial e de propriedade intelectual, não se aplica a contratos como o da Lotese por não envolver “patentes, marcas ou modelos de utilidade”, mas sim a concessão de um serviço público. Ele também considera problemática a utilização do inciso II do artigo 23, a restringir o acesso apenas em casos que possam comprometer negociações ou relações internacionais do Brasil — uma hipótese, segundo ele, totalmente “alheia” ao contrato com a Betsul Concessionária.

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Wendal Carmo

Editor-chefe da Mangue Jornalismo. Formado pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), é jornalista (DRT 2796/SE) com experiência em investigações nas editorias de Política, Direitos Humanos e Judiciário. Além disso, é repórter da revista CartaCapital no Nordeste. Passagem pelas redações do Correio Sabiá, da revista In Magazine do Expresso Jornalismo. Foi vencedor nacional do Expocom 2024, na categoria “reportagem em jornalismo impresso”, e do Prêmio INAC de Integridade 2026 na categoria "comunicadores locais". Finalista do Prêmio Mosca 2025 com dois trabalhos. Apaixonado por café e pelos bastidores do poder, está sempre em busca de historias cativantes para contar. Também é membro do Conselho Gestor do Centro de Estudos em Jornalismo e Cultura Cirigype.

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