A renovação de 54 das 81 vagas no Senado este ano deu maioria ao Partido Liberal, o PL, do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro: foram 19 novos senadores eleitos, totalizando 28 nomes do partido na Casa.
Foram dez candidatos concorrendo a duas vagas para representar Sergipe no Senado. O mandato de oito anos de senador(a) é estratégico para qualquer partido e esteve no centro das prioridades da direita e extrema direita este ano, já que compete aos senadores julgar autoridades como o presidente e vice-presidente da República, os comandantes das Forças Armadas e os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em caso de crimes de responsabilidade.
A renovação de 54 das 81 vagas no Senado este ano deu maioria ao Partido Liberal, o PL, do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro: foram 19 novos senadores eleitos, totalizando 28 nomes do partido na Casa. Dentre os novatos estão a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro (PL-DF), André do Prado (PL-SP) e Carol de Toni (PL-SC), além de vozes consagradas do antipetismo lavajatista, como o ex-procurador da República Deltan Dallagnol (Novo-PR), e do punitivismo de estado, caso do policial militar Guilherme Derrite (PP).
Os eleitores sergipanos apostaram em candidatos já conhecidos, renovando os mandatos de Rogério Carvalho (PT) e Alessandro Vieira (MDB). Delegado André David (Republicanos), André Moura (União Brasil) e Eduardo Amorim (Republicanos) foram, respectivamente, o terceiro, quarto e quinto mais bem votados. A diferença entre Alessandro Vieira e André David foi de 21.065 votos. Rodrigo Valadares (PL), grande aposta do bolsonarismo em Sergipe, conseguiu apenas 5,54% dos votos válidos, ficando em sétimo lugar.
Como parte da cobertura eleitoral de 2026, a Mangue Jornalismo resgatou o histórico político, as propostas de campanha e as polêmicas envolvendo os dois reeleitos ao Senado por Sergipe.
ROGÉRIO CARVALHO (PT)
Defensor fervoroso do Projeto Sergipe Águas Profundas e responsável por criar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), o petista Rogério Carvalho foi reeleito senador com 21,91% dos votos válidos.
Médico sanitarista graduado pela Universidade Federal de Sergipe, Carvalho foi secretário de Saúde do município de Aracaju e do estado de Sergipe, foi deputado estadual, deputado federal e se elegeu senador pela primeira vez em 2018. Teve destacada atuação durante a CPI da Covid-19, mas também protagonizou controvérsias, como nomear, em 2019, a então namorada Candisse Matos Correia (hoje Candisse Carvalho) como assistente parlamentar.
Natural de Lagarto, no interior sergipano, Carvalho é filiado ao PT desde 1990 e preside a sigla em Sergipe. Adversário de Fábio Mitidieri (PSD) na corrida pelo governo estadual em 2022, este ano ele esteve na mesma chapa que o governador reeleito, a quem havia tecido duras críticas em entrevista à Mangue quando da privatização da Deso.
Suas principais pautas de campanha este ano foram o fim da escala 6×1 e o combate à violência contra mulheres. Em votações importantes como a do projeto de lei conhecido como PL da Devastação, de afrouxamento das leis de licenciamento ambiental, votou contra. Contudo, trabalha para o retorno das atividades da Petrobras em Sergipe, com a extração de petróleo e gás em águas ultraprofundas, o que pode causar danos ambientais irreversíveis à fauna e flora marinhas, além de contribuir para a urgência climática.
Propostas e polêmicas da campanha eleitoral
Para Rogério Carvalho, 2026 tem sido um ano de relevar diferenças em prol do pragmatismo eleitoreiro. Além de se tornar colega de chapa de Fábio Mitidieri e fazer parte de uma coligação que inclui o PP e o União, o senador convidou para a suplência o empresário Bruno Costa (PT), que confessou sonegação de quase R$ 17 milhões em Minas Gerais e uso dos pais como ‘laranjas’ sem que eles soubessem. A íntegra do acordo de colaboração premiada com o Ministério Público de Minas Gerais foi obtido e revelado pela Mangue Jornalismo.
Desconhecido para o público sergipano, Costa se apresenta como empresário do setor de grãos e é defendido por Carvalho como alguém que pode trazer benefícios econômicos para Sergipe, uma vez que teria negócios no estado. Declarou possuir R$ 613 mil em bens, uma fração do valor que admitiu ter sonegado.
A ligação de Carvalho com figuras de Minas Gerais parece não estar restrita a Costa, pois o maior doador da campanha do senador este ano, desconsiderada a direção nacional do PT, foi o advogado mineiro Piehtro Silva de Queiroz, cujo repasse foi de R$ 250 mil.
Em sua declaração de bens registrada na plataforma DivulgaCand, o petista declarou R$ 885 mil referentes a dois veículos, uma casa em condomínio e 16,6% de uma empresa. Sua esposa, a candidata à assembleia estadual Candisse Carvalho (PT), registrou R$ 782 mil, valor combinado de um apartamento e um veículo.
Atuação no Senado
Em quase oito anos de Senado, Rogério Carvalho apresentou 229 projetos de lei e 109 propostas de emenda à Constituição, muitas delas relacionadas à saúde. Durante a CPI da Covid-19, em 2021, foi dos congressistas mais atuantes contra o negacionismo bolsonarista a respeito das vacinas.
Integrante da segunda maior bancada partidária do Senado – nove dos 81 senadores são do PT –, Carvalho se alinha com pautas históricas dos trabalhadores no Brasil, caso da diminuição da jornada laboral, aumento do piso salarial de várias profissões e do salário mínimo.
Especificamente sobre Sergipe, propôs PLs de reconhecimento de práticas culturais populares do estado como manifestações da cultura nacional, a exemplo da Chegança, Bacamarteiros, Taieiras , Parafusos de Lagarto, Lambe-Sujos e Caboclinhos. Porém, sua atuação maior é na saúde, indo de propostas que estabelecem novas obrigações na venda de medicamentos online até garantias para pessoas com doenças cardiovasculares e Transtorno do Espectro Autista.
Apesar dos inúmeros problemas de transparência na destinação de aplicação das chamadas “emendas Pix”, Carvalho defendeu sua manutenção quando questionado pela Mangue Jornalismo em reportagem de junho de 2023.

ALESSANDRO VIEIRA (MDB)
Um homem branco que se autodeclara pardo, nascido em 1975 na cidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e radicado em Sergipe desde a infância teve seu tempo no Senado estendido por mais oito anos: Alessandro Vieira, do MDB, é o segundo senador mais bem votado para representar Sergipe no mandato que inicia em 2027.
Com propostas voltadas para a segurança pública, o combate à corrupção e rigor fiscal, Vieira foi relator da CPI do Crime Organizado e do PL Antifacção. Antes de iniciar sua carreira política, atuou como delegado da Polícia Civil de Sergipe por 17 anos, passando pela direção da Coordenadoria Geral de Perícias (Codep) e pelo comando do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Foi também o primeiro delegado da Delegacia de Crimes Cibernéticos, e assessor da Superintendência de Polícia Civil.
Há dez anos, no auge da Operação Lava Jato, foi nomeado pelo ex-governador sergipano Jackson Barreto como Delegado-Geral da Polícia Civil de Sergipe. No entanto, a sua contribuição no cargo foi breve, e em 2017 foi exonerado e transferido para uma delegacia pequena no interior do estado.
Surfando na onda lavajatista, concorreu nas eleições de 2018 ao Senado pelo partido REDE e ganhou com 474.449 votos em um cenário parecido com o atual, no qual disputava o pódio com Rogério Carvalho. Os dois senadores reeleitos são acompanhados por Laércio Oliveira (PP).
Nas eleições de 2018, Alessandro declarou apoio a Jair Bolsonaro; dois meses após a cerimônia de posse do ex-presidente, declarou publicamente seu arrependimento. Nas eleições de 2022, o senador apoiou Lula, o que não se repetiu no primeiro turno deste ano, com voto declarado a Ronaldo Caiado (PSD).
Propostas e polêmicas da campanha eleitoral
Durante a campanha eleitoral deste ano, as principais propostas que o senador apresentou concentraram-se no combate à corrupção e crime organizado, além de pautas na área da saúde e políticas sociais. Algumas de suas ideias já foram encaminhadas ao Senado como projetos de lei, caso do PL 1308/2026, referente ao Estatuto da Pessoa com Diabetes Mellitus Tipo 1, e o PL 3013/2026, que “dispõe sobre o regime jurídico das pessoas expostas politicamente, com vistas à prevenção da corrupção, da lavagem de dinheiro e de outros ilícitos econômicos”.
Dois fatos chamam a atenção nos dados registrados pela candidatura de Alessandro na plataforma DivulgaCand: a autodeclaração como pardo e a estagnação dos seus bens declarados, que desde 2018 consistem apenas em um imóvel em Aracaju com valor estimado em R$ 900 mil.
Também segundo dados da plataforma, o prefeito de Nossa Senhora do Socorro, Samuel Carvalho (Cidadania), doou R$ 35 mil para a campanha de Vieira. A primeira-dama de Socorro, a assistente social e empresária Adriana Carvalho (MDB), é suplente de Vieira.
Ao longo de oito anos, Vieira passou pelo REDE Sustentabilidade, Cidadania e PSDB antes de se firmar no MDB. Nos tempos de PSDB, quando se candidatou a governador de Sergipe em 2022, se declarou pardo. No ano seguinte, o Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe decidiu que a federação PSDB-Cidadania deveria devolver pouco mais de R$ 34 mil aos cofres públicos recebidos indevidamente de recursos destinados a candidaturas de pessoas negras.
Atuação no Senado
No primeiro ano do seu mandato, lançou o programa de emendas participativas, um modelo de destinação de recursos públicos no qual a própria população sergipana decide por votação quais projetos e municípios devem receber verbas das emendas parlamentares individuais. Para isso, é utilizado um edital aberto estruturado em três etapas: a inscrição das propostas, análise técnica de viabilidade e, por fim, a votação popular online.
Embora o senador defina o projeto como inovador e inclusivo, a aplicação das emendas parlamentares têm limitações temáticas e não abarcam propostas de grande porte. Além disso, há complexidade técnica por causa dos critérios do edital, resultando em dificuldades para que instituições sem corpos jurídicos ou administrativos possam inscrever propostas. Ainda assim, Vieira prometeu aumentar o alcance do programa e ampliar a participação de projetos sergipanos.
Entre suas atuações de destaque, está a CPI da Covid-19, instalada para apurar as ações e omissões da gestão Bolsonaro durante a pandemia. Vieira foi um dos membros suplentes mais ativos, protocolando o requerimento de convocação do empresário Carlos Wizard e insistindo na convocação do general Walter Braga Netto. Além disso, em outubro de 2021, formalizou um relatório com sugestões para o documento final propondo o indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outras dezessete pessoas influentes na gestão da saúde pública bolsonarista.
O senador foi relator da CPI do Crime Organizado por escolha de Davi Alcolumbre, presidente do Senado Federal à época, para investigar a ocupação de facções no território brasileiro, lavagem de dinheiro e infiltração dessas organizações criminosas no Poder Público. Depois de quase quatro meses, apresentou um relatório de 220 páginas no qual pedia o indiciamento dos ministros do STF Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além do Procurador Geral da República, Paulo Gonet. Como resultado teve o relatório rejeitado.
Vieira também foi o relator da PEC da Blindagem e optou pela rejeição integral, junto aos outros 26 parlamentares presentes, da proposta aprovada pela Câmara dos Deputados que requeria permissão da Câmara ou do Senado Federal para que o STF pudesse processar criminalmente deputados e senadores. Essa proposta é semelhante à regra da imunidade processual que estava prevista no art. 53 da Constituição de 1988, extinta em 2001 pela Emenda Constitucional nº 35/2001.
Outra atuação relevante foi para aprovar o PL Antifacção, do qual também foi relator no Senado depois de seis versões apresentadas pelo deputado federal Guilherme Derrite (Progressistas-SP), um dos relatores do projeto na Câmara dos Deputados. Ao apresentar a versão final, Vieira teve um retorno positivo e mudou pontos apresentados por Derrite.
Entre as recentes atividades parlamentares de Alessandro, destacam-se a PET 56/2026, representação contra o Ministro do Supremo Alexandre de Moraes; a REQ 129/2026, requerimento de audiência pública destinada a discutir os desdobramentos institucionais da sessão plenária do STF; e o PL 4752/2026, que “institui o Programa Envelhecer nos Territórios e o Programa Viva Mais Cidadania, voltados à promoção e proteção dos direitos humanos das pessoas idosas”.
As informações sobre atuação parlamentar apresentadas nesta reportagem foram extraídas da plataforma online Mamute Político, do Correio Sabiá, que monitora em tempo real o trabalho de senadores e deputados federais. A Mangue apoia, assina e já fez uma reportagem sobre a plataforma, além de um tutorial de como usar.


