Plano para enfrentar mudanças climáticas em Sergipe avança sob ausência de dados e sem verba definida

Documento, que deve ser lançado ainda em 2026, mostra sérios riscos de aumento de temperatura, secas e chuvas extremas no estado, à luz de alerta nacional sobre um ‘super El Niño’ para os próximos dois anos.

(Créditos: Defesa Civil de Sergipe)

Não dá mais para ignorar os efeitos das mudanças climáticas. Os principais órgãos mundiais que monitoram o clima projetam um “super El Niño” para 2026 e 2027, e avaliam que este próximo ciclo de aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial deve ser o mais forte dos últimos anos. Com ele, são esperadas inundações massivas, secas severas, ondas de calor e tempestades.

Diante dessa perspectiva preocupante, Sergipe está em vias de concluir seu Plano Estadual de Ações Climáticas (PEAC) sob obstáculos que colocam em dúvida a capacidade de execução das medidas previstas: ausência de dados meteorológicos em partes do território e indefinição sobre fontes de financiamento.

Uma versão avançada do documento, obtida pela Mangue Jornalismo, aponta riscos de aumento persistente das temperaturas, secas severas, chuvas extremas, erosão costeira e elevação do nível do mar. Por outro lado, o plano reconhece falhas na infraestrutura de monitoramento climático: nem todo o território sergipano possui cobertura de estações meteorológicas, o que limita a obtenção de informações confiáveis.

O financiamento das ações previstas também permanece indefinido. Após o lançamento do documento, o que deve ocorrer ainda para este ano, o Poder Público ainda precisará buscar recursos em órgãos nacionais e internacionais para viabilizar as ações previstas no plano. A incerteza preocupa especialistas diante do histórico de baixo investimento em políticas ambientais e climáticas no estado.

Uma reportagem da Mangue mostrou que, em 2024, a Prefeitura de Aracaju reservou apenas R$ 250 mil para ações de enfrentamento às mudanças climáticas e R$ 100 mil para monitoramento do clima, apesar dos sucessivos episódios de alagamentos registrados na capital ano após ano. 

Além da dificuldade financeira, especialistas ouvidos pela reportagem apontam obstáculos políticos e sociais para a implementação efetiva do plano. 

O coordenador do Fórum de Defesa da Grande Aracaju (FDGA), Joseilton Nery Rocha, avalia existir uma contradição entre o discurso oficial de participação social e a atual conjuntura política do estado. “A conjuntura política e o perfil dos dirigentes do Poder Executivo e dos integrantes do parlamento estadual são muito desfavoráveis. O conservadorismo impera, bem como a relação de compadrio entre os poderes e os senhores do mercado é estreita”, afirma. 

Segundo ele, a pressão de empreendimentos imobiliários e industriais sobre áreas ambientalmente sensíveis da Grande Aracaju vem agravando a vulnerabilidade socioambiental. “Populações ribeirinhas e nativas vêm sendo ameaçadas em seu habitat. Condomínios fechados se apropriam de rios, expulsam moradores e aterram lagoas”, diz.

(Créditos: Defesa Civil de Sergipe)

Crise climática ameaça agricultura e biomas

O PEAC está sendo elaborado há seis meses, amparado pela Lei nº 9.364/2024, que instituiu a Política Estadual sobre Mudanças Climáticas no estado (PEMC/SE). 

A Lei nº 14.904, de 27 de junho de 2024, que criou diretrizes para a elaboração de planos de adaptação nos estados, e pelo Acordo de Paris, também tem servido de bússola na construção do material. 

Entre os itens da legislação federal está a adoção de ações de mitigação – voltadas à redução das emissões e dos impactos ambientais – e de adaptação às mudanças do clima. “A gente tem debatido muito, mas os debates ficam no campo acadêmico. Na prática, o governo deve usar estes conhecimentos e pensar o planejamento”, explica Eliane Pinto, ex-professora do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Sergipe (UFS). 

De acordo com a pesquisadora, colocar em prática “um plano climático tão discutido e elaborado” depende da integração entre os diferentes setores da sociedade. “Cabe ao poder público compreender para agir, mas ações isoladas do governo não vão solucionar problemas que vêm com o avanço dos centros urbanos”. “A população tem que ter consciência. Por isso, acho fundamental a educação ambiental”, completa Eliane.

Sandro Holanda, coordenador do PEAC e professor titular do departamento de Engenharia Agronômica da UFS, afirma que o objetivo do plano é trazer ações que impeçam o estado de chegar a um “ponto de não retorno” – em que não será mais possível recuperar ecossistemas ou atividades perdidas devido às mudanças climáticas. Por isso, diz, a construção do plano foca em adaptar atividades e cuidar de áreas que estão sendo prejudicadas.

O cultivo de feijão pode ser um exemplo disso. Um estudo produzido pela Embrapa, em parceria com a Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), apontou que um pequeno aumento da temperatura média pode afetar a produção do alimento e diminuir a produtividade das lavouras. Segundo o professor da UFS, Sergipe já está adaptando áreas de cultivo e esse cenário pode se estender a outras culturas.

O ‘ponto de não retorno’ ao qual Holanda faz menção também tem se aproximado de alguns biomas importantes, como a Mata Atlântica e a Caatinga. Em entrevista à Mangue no final de 2025, o superintendente do Ibama em Sergipe, Cássio Murilo, destacou que o menor estado do País “está no limite de sua resiliência ambiental”. No caso da Mata Atlântica, disse ele, o bioma “praticamente desapareceu do território sergipano”, deixando comunidades rurais e litorâneas mais expostas a eventos extremos provocados pela crise climática. Já a Caatinga também sofreu forte pressão do desmatamento devido à abertura de fronteiras agrícolas voltadas ao milho, avanço que ocorreu em um contexto de ausência de coordenação institucional e enfraquecimento das políticas ambientais federais, segundo Cássio.

Plano tenta identificar riscos a eventos climáticos extremos

O PEAC também deve mapear os principais riscos a eventos climáticos extremos no estado, estudando, por exemplo, o aumento das temperaturas médias. Segundo o documento, há uma tendência crescente e persistente nas temperaturas em todo o estado, o que traz riscos ao ecossistema por completo. 

De acordo com o plano, os efeitos tendem a ser sentidos com mais intensidade pela população moradora de áreas rurais e urbanas com pouca cobertura vegetal, uma realidade no estado noticiada pela Mangue desde a sua fundação. No ano passado, publicamos: Está quente? Pode piorar. Sergipe é o estado com menos árvores em vias públicas no Brasil. Antes disso, já havíamos mostrado, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD), que a menor unidade da federação estava em 3º lugar no ranking nacional sobre aumento no desmatamento em 2022. À época, os municípios de Nossa Senhora da Glória e Poço Redondo apareciam no topo da lista. 

Também há no plano um mapeamento sobre a possibilidade de áreas de secas. O fenômeno já é característico do sertão sergipano, mas o documento prova que, agora mais ainda, o estado apresenta uma probabilidade significativa de enfrentar secas extremas e severas. Essa possibilidade se torna ainda mais real com as previsões para o El Niño em 2026 e 2027.

(Créditos: Defesa Civil de Sergipe. Foto de 2023)

Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), no momento, o El Niño está se desenvolvendo abaixo da superfície do oceano, o que aumenta as possibilidades de alterações climáticas mais extremas. Enquanto no Sul do Brasil, historicamente, ele aumenta o risco de chuvas acima da média, o Norte e o Nordeste costumam enfrentar redução das precipitações. Assim, cenários de previsões apontam para secas na Amazônia e no Nordeste no verão e outono de 2027. 

Por outro lado, o plano também mapeia as chances de chuvas extremas e inundações, situações que, com pesar, se tornaram comuns em Aracaju. Holanda, coordenador do PEAC, explica que, apesar de dependerem do comportamento dos fenômenos El Niño e La Niña, as chuvas extremas devem ficar mais frequentes devido ao aumento da temperatura, assim como os alagamentos, devido à falta de cobertura vegetal. “A tendência é aumentar os alagamentos, porque aumentamos o asfaltamento da cidade. Não damos oportunidade para a infiltração da água”.

O documento mapeia ainda os riscos de erosão costeira e elevação do nível do mar, o que aumenta a vulnerabilidade de construções em áreas de remanso e bacias de inundação. A Praia do Saco, em Estância, exemplifica este cenário. Inserida no bioma Mata Atlântica, a área reúne ecossistemas de restinga, dunas, manguezais e lagoas naturais, com lençol freático superficial e vegetação típica que desempenha papel essencial na estabilização do solo. Ao mesmo tempo, está sob pressão crescente da especulação imobiliária, com registros de construções avançando sobre a faixa de areia (que, pela legislação, é classificada como área de preservação permanente e possui regras de exploração mais rígidas).

Há duas semanas, a Justiça Federal de Sergipe homologou um acordo entre o Estado, o Ministério Público Federal (MPF) e a Advocacia-Geral da União (AGU) para solucionar problemas ambientais e urbanísticos que se arrastam há mais de 20 anos na praia. O arranjo pôs fim a uma ação civil pública movida pelo MPF em 2014, e contempla apenas órgãos públicos apontados como responsáveis por avalizar construções irregulares e provocar danos ambientais no local. 

Por fim, o plano sergipano de ações climáticas ainda dá destaque para o maior risco para idosos, crianças e pessoas de baixa renda, que possuem menor capacidade de resposta, evacuação e reconstrução diante de desastres climáticos.

Para o coordenador do grupo, lançar o PEAC abre, na teoria, um portal de possibilidades por parte do governo e da sociedade. “A ação do plano habilita o estado a criar, por exemplo, um fundo estadual para mitigação de mudanças climáticas, além de habilitar o governo a buscar recursos de fundos internacionais”, pontua Holanda. Outra perspectiva é de tornar políticas de educação ambiental fixas e efetivas, o que deve ocorrer com a regulamentação da lei estadual sobre mudanças climáticas.

Os integrantes da iniciativa também esperam envolver no debate sobre as mudanças climáticas diversos grupos da sociedade, a exemplo da população rural e de comunidades indígenas e quilombolas. 

O coordenador do Fórum de Defesa da Grande Aracaju, Joseilton Nery Rocha, vai além: esta é a última esperança de conservação dos ecossistemas na Grande Aracaju, que vêm sendo destruídos pela indústria e por empreendimentos imobiliários. Além disso, diz ele, é uma oportunidade de engrossar o debate público sobre o Plano Diretor da capital sergipana, produzido com dados de 1995. Esta lei deveria ter passado, por obrigação legal, por no mínimo duas revisões, mas, depois de 23 anos, isso jamais ocorreu. Acesse aqui o plano.

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Luísa Monte

Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, com experiência em reportagem, roteiro, podcast e documentário. Foi trainee do Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha de S. Paulo e repórter de cultura, saúde e comportamento no mesmo jornal. É sergipana que ama explorar o mundo e contar as histórias ao redor dele.

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