O presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou uma Medida Provisória na última sexta-feira que acabou com a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas das bets e dos jogos de azar online em ambientes físicos e virtuais.

Não é de agora que a Mangue Jornalismo chama atenção para a tragédia das bets e dos demais jogos de azar online. Em agosto do ano passado, por exemplo, foi publicada uma reportagem exclusiva com relatos dramáticos de pessoas em Aracaju que perderam a saúde mental, os bens materiais e os empregos por conta da ludopatia, doença com registro na Organização Mundial da Saúde (OMS) e caracterizada pelo desejo incontrolável de continuar jogando.
A Mangue também publicou duas reportagens chamando a atenção de que o Governo do Estado, através do Banese, estava entrando no ramo dos jogos de azar online com a criação, aprovada pelos deputados estaduais na Assembleia Legislativa, da Lotese, a loteria estadual.
Na primeira matéria, a Mangue tentou conseguir a íntegra do contrato do governo com as empresas gestoras dos jogos de azar, mas teve o pedido negado sob o argumento de “sigilo comercial”. Com isso, o Banese pretende esconder por ao menos 20 anos os detalhes da negociação.
Na segunda reportagem, em abril deste ano, a Mangue publicou um longo material revelando que o Governo de Sergipe, através do Banese, teria feito parceria para operar loterias com uma empresa sem experiência no ramo de apostas e com capital de apenas R$ 1 mil. Parecer da área técnica do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe embasou uma decisão que abriu investigação sobre o arranjo com a Betsul Concessionária, empresa criada para explorar a Lotese.
Importante registrar que a Mangue Jornalismo é uma das poucas organizações de jornalismo profissional e independente do Brasil que jamais aceitou veicular anúncios de bets. Diante dos impactos das apostas online sobre o orçamento das famílias brasileiras, a Mangue assinou um manifesto com outros veículos nacionais que rejeitam anúncios e patrocínios de apostas online. Aliás, a Mangue não aceita veicular publicidade nem de governos e nem de empresas privadas.

Lula editou Medida Provisória que acaba com os jogos de azar online
Na última sexta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou uma Medida Provisória que acaba com a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa no país, as chamadas bets. A decisão alcança tanto as apostas esportivas quanto os jogos online, em ambientes físicos e virtuais, e se aplica também às concessões e autorizações estaduais e distritais. A proibição não abrange as demais modalidades lotéricas já autorizadas em lei.
Com a Medida Provisória, as bets até então autorizadas não poderão oferecer apostas nem fazer qualquer tipo de publicidade no país. As empresas têm até 5 de outubro para retirar material publicitário e de patrocínio veiculado em meios físicos e em peças de publicidade exterior.
Segundo o governo federal, a extinção das autorizações decorre de motivo de interesse público e não gera direito a indenização por lucros cessantes, por investimentos realizados ou por expectativa de continuidade da atividade, tampouco à devolução total ou parcial do valor pago pelas outorgas. Até o momento, foram concedidas 85 outorgas para exploração de apostas de quota fixa no país, cada uma no valor de R$ 30 milhões, totalizando R$ 2,55 bilhões pagos pelas empresas durante o processo de concessão.

Perdeu o apartamento em jogos online de azar
“Não estou tirando minha responsabilidade, entrei porque quis, mas digo uma coisa: não consegui sair na hora que quis. Chorei vários e vários dias, pedi força a Deus para me tirar de lá. Não sabia o que fazer, só chorar. Por causa desse vício, perdi a herança que meu pai me deixou, meu apartamento”. Este relato é de “Alice”, 28 anos, profissional da saúde que atua em Aracaju e que concedeu entrevista para a Mangue em 2025.
Ela conta que o vício não a fez perder só bens materiais, mas a vontade de sair, aumentou sua ansiedade, diminui a confiança, credibilidade e a “afastou de Deus”. “Fica uma sensação de vergonha. Eu perdi a herança que meu pai me deixou, meu apartamento. Ele trabalhou tanto para deixar todos bem. Eu não consigo me perdoar, eu peço a Deus todos os dias que Ele e meu pai me perdoem por isso, se não meu coração não vai sossegar”, desabafa Alice. Graças ao apoio familiar, ela está em processo de superação.

Alguns pacientes com esse transtorno chegam nas unidades públicas de saúde. Dados do Ministério da Saúde indicam que houve um grande crescimento de atendimentos ambulatoriais de pessoas com vício em jogos de azar online, principalmente depois do aparecimento das bets, empresas de apostas e casinos virtuais. A procura por socorro nas unidades do SUS no país saltou de 65 pessoas no ano de 2019 para 1.292 em 2024.
E esse grande aumento da procura das unidades de saúde foi impulsionado por três estados: Rondônia, Roraima e Sergipe (692 em 2023). Ou seja, Sergipe teve o maior número no país, em 2023, de atendimentos pelo SUS a pessoas viciadas em jogos de azar. Além disso, naquele ano em Sergipe três pessoas receberam auxílio-doença pelo INSS por conta desse vício. “É uma patologia, e não uma escolha do indivíduo ou um desvio de caráter”, explicou a psicóloga Ana Cristina Novelino Penna Franco.
Perdeu a loja de roupas em jogos online de azar
“Cláudia”, nome fictício de uma sergipana de 32 anos que aceitou conversar com a Mangue sobre seu vício em apostas online, era dona de uma loja de roupas na Zona Norte de Aracaju. Era, pois perdeu a loja no jogo. “Comecei a jogar online por curiosidade. Apareceu no celular. Era um passatempo. Jogava o mínimo no cartão. Fui ganhando e tudo que ganhava, jogava. De uma hora para outra, entrei na fase de perder. O que jogava, perdia e queria recuperar, mas não conseguia e jogava mais, sem parar”, contou a ex-empresária.
Mesmo torrando as economias da loja e jogando todos os dias, Cláudia disse que não se sentia viciada. “Só percebi que as coisas não estavam bem quando comecei a vender quase de graça as roupas para quem pagasse no Pix, no meu Pix, não no da loja. Fazia isso para jogar”, confessa. Sem receber o real valor pelas vendas, sem pagar fornecedores, sem repor as peças, deixou de pagar aluguel e fez empréstimos. “Não pensava em nada, queria recuperar o prejuízo. Jogava e perdia muito. Tive que me desfazer da loja e ainda tenho R$ 52 mil de dívidas. Devo, mas tenho como pagar”, afirmou Cláudia.
Perdeu o emprego porque desviava dinheiro para jogar
“Rosa”, nome fictício de outra entrevistada que também sofre de ludopatia, é formada em Administração e o seu último emprego foi como gerente de oficina de veículos em Aracaju. A empresa atende clientes de carros de luxo. “Jogo vicia. Não acreditava. Tinha um mecânico que perdeu o emprego lá porque estava atolado em dívidas de jogo. Não largava o celular e passou a abordar clientes pedindo empréstimos. Seis meses depois, eu fui demitida pelo mesmo motivo, aliás, pior, cheguei a desviar dinheiro para jogar”, confessa Rosa, envergonhada.
“Meu casamento quase acabou, mas prometi não jogar mais. Estou com atendimento psicológico, ainda no começo. Fico noites sem dormir só pensando em recuperar e pagar as pessoas que prejudiquei, mesmo sabendo que o jogo só vai me afundar. Cassino, Tigrinho, bets, tudo é feito para você perder. Mesmo sabendo que você vai perder, você quer jogar, é uma desgraça. Não entrem nisso, acaba com sua vida e de outras pessoas, mas é sempre é tempo de sair”, disse Rosa.

Apostar em jogo produz a mesma dependência que álcool e drogas
A psicóloga Raquel Martins Marins da Cruz relata que vem observando um crescimento notável na incidência desse transtorno em sua prática clínica. Ela assegura que a ludopatia é um vício igual ao de álcool e drogas. “São todos comportamentos compulsivos que causam grandes prejuízos à vida do indivíduo e de seus familiares, afetando, desorganizando a rotina pessoal, profissional, financeira e social”, explica.
A psicóloga Ana Franco reforça: “os jogos de azar são a terceira maior causa de vício no Brasil, só perdendo para o álcool e para o tabaco. O agravante da ludopatia é o fácil acesso aos jogos, disponíveis 24 horas por dia. Além disso, pela constante presença da tecnologia em nossas vidas, em muitos casos os jogos são considerados como mecanismos de entretenimento. Demora-se a reconhecer que está existindo um uso desequilibrado e não saudável dos jogos”, disse Ana.
Raquel Martins esclarece que o jogo de azar vicia porque mexe com mecanismos de recompensa do cérebro. “Ao jogar, o cérebro libera dopamina, um neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação. Essa sensação viciante cria uma busca incontrolável por mais prazer e excitação”. Ressalta Ana Franco que o jogador patológico tem uma visão distorcida da realidade, sensações de euforia, satisfação com a “habilidade” no jogo e isso acaba mascarando os prejuízos que a compulsão por jogar traz.
A psicóloga Raquel Martins chama atenção para alguns sinais que podem indicar que uma pessoa está começando ou mesmo já esteja viciada em jogos: “ter os pensamentos focados no jogo online, aumentando as apostas e perdendo o controle sobre o tempo e o dinheiro gastos, mesmo após tentativas de parar. Sinais como irritabilidade ao não jogar, uso do jogo para escapar de problemas, perda de interesse em outras atividades, o ato de mentir sobre seus hábitos, e a busca desesperada para ‘recuperar’ as perdas, tudo isso são fortes indicativos de um comportamento viciante”.
Segundo Ana Franco, infelizmente é parte da sociedade o julgamento. “Julgamos antes de tentarmos compreender todos os mecanismos e fatores que fazem a pessoa se tornar dependente. Somos seres únicos e complexos, e cada indivíduo possui sua história, visão de mundo, sonhos, medos e vazios. O viciado em jogos precisa de ajuda profissional e de sua rede de apoio para reconhecer seu vício e buscar formas para que essa dependência o prejudique cada vez menos, que ele possa ter uma vida mais digna e saudável”.
Para Raquel Martins, “julgar alguém com vício em jogos acontece por falta de conhecimento sobre o problema. Ninguém escolhe ser viciado. A melhor forma de ajudar é acolher, tentar entender o que a levou ao vício e, principalmente, incentivar a busca de ajuda profissional qualificada. O acolhimento é o primeiro passo”.


