
Sergipe é o 9º estado brasileiro onde se registra a pior remuneração média dos trabalhadores pretos e pardos, com apenas R$ 2.510. Os dados são oficiais e foram coletados e divulgados pela Agência Tatu a partir Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2024. Os trabalhadores brancos em Sergipe têm renda média de R$ 2.980, a segunda pior média do país.
A pior remuneração dos trabalhadores pretos e pardos no Brasil foi registrada na Paraíba, com R$ 2.280. A maior está no Distrito Federal, R$ 3.860.
O Nordeste concentra os quatro estados com as piores remunerações para os trabalhadores negros do país. Além da Paraíba, estão nesse patamar Piauí, Alagoas e Rio Grande do Norte. Em média, pagam R$ 2.321 para pretos e pardos, enquanto trabalhadores brancos recebem em média R$ 3.161 nesses estados, uma diferença de 36%.
Esses dados da RAIS são baseados nas declarações anuais prestadas pelos empregadores sobre seus contratados. Calculados pela média de todos os valores salariais existentes nas categorias de emprego, os números revelam o racismo a partir da distância que separa a renda entre os grupos raciais em todo o território nacional.
Essa diferença salarial é observada em todos os estados brasileiros. No país, profissionais negros recebem em média R$ 3.075, enquanto trabalhadores brancos ganham R$ 4.496, 46% de diferença.

Dados do Censo Demográfico 2022 do IBGE
Em 20 de outubro passado, a Mangue Jornalismo já tinha mostrado que, com base no Censo Demográfico 2022 do IBGE, apesar de a ocupação (trabalho) em Sergipe de pessoas acima dos 14 anos ser equilibrada entre brancos, pretos e pardos, há uma diferença racial significativa na relação aos rendimentos recebidos pelos trabalhadores.
O rendimento médio mensal em Sergipe, segundo o Censo, era de apenas R$ 2.129,46, valor que coloca o estado somente na 20ª posição do país. No entanto, entre a população branca, o rendimento sobe para R$ 2.783,43, enquanto entre os pardos, o rendimento médio cai para R$ 1.962,62 e entre os pretos, cai mais ainda, ficando só em R$ 1.729.04.
Esses valores relevam que o rendimento médio de uma pessoa branca em Sergipe é 62,1% maior do que o de uma pessoa preta. A média no Brasil é de 56,3%. O racismo materializado na renda no menor estado do Brasil ficou 5,8 pontos percentuais (p.p.) acima da média brasileira.
Comparando-se aos demais estados, segundo dados do IBGE, Sergipe tem a 4ª maior diferença de remuneração entre trabalhadores brancos e pretos do Nordeste, perdendo apenas para o Maranhão (63%), Paraíba (63,5%) e Alagoas (63,9%). No Brasil, e menor diferença está no Distrito Federal (49,3%) e a maior no Amapá (75,7%). Vale destacar que o valor do salário mínimo vigente quando o Censo 2022 foi realizado era de R$ 1.212.

Para a deputada estadual Linda Brasil (PSOL), “o racismo, o machismo, a misoginia e a pobreza ainda determinam quem tem acesso às melhores oportunidades. Não dá pra aceitar que o rendimento médio de uma pessoa branca seja 62% maior do que o de uma pessoa preta, nem que as mulheres continuem ganhando menos que os homens. Isso é reflexo de uma estrutura desigual, de um Estado que não olha pra quem mais precisa”.
Ainda sobre racismo, o Censo 2022 aponta que, entre os brancos, 17,2% tinham Ensino Superior completo. Entre os pardos, o índice cai para 11% e entre os pretos cai ainda mais, ficando apenas em 9,9%. Já entre pessoas brancas ocupadas sem instrução e fundamental incompleto o índice é de 37,2%. Entre pretos e pardos, o percentual sobre para 42%.
Em Aracaju, o percentual de pessoas ocupadas com mais de 14 anos de idade era de 55,9% e a renda média na capital ficou em R$ 3.369,71. Entretanto, os trabalhadores brancos em Aracaju têm renda que chegou a R$ 4.499,99 e os pretos só R$ 2.249,61. Na capital, as pessoas brancas ocupadas recebem 49,9% a mais do que um trabalhador negro.
A Mangue Jornalismo já publicou várias reportagens sobre o racismo em Sergipe. Em uma delas, revelou-se que é negra a maioria das 215 mil pessoas em Sergipe que não sabem ler nem escrever. O racismo se revela na alta taxa de analfabetismo e na baixa escolaridade. Leia aqui.
“Os dados, além de gravíssimos, indica a necessidade urgente de intervenção no modo de distribuir o orçamento público e de fazer política pública em Sergipe, pois, fica evidente a escolha deliberada dos governos estadual e municipais em focar políticas gerais, mas sem pensar em gênero e raça, e isso viola direitos humanos e a dignidade a maioria da população, formada por mulheres, negros e pessoas pobres”, analisou Ilzver Matos, professor do curso de Direito da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
O professor cita o exemplo da baixa sensibilidade para gênero e raça em Sergipe. “O estado já foi referência nacional em 2011 por ter uma Secretaria de Direitos Humanos e hoje somos um estado criticado por não termos uma Secretaria de Igualdade Racial, neste que é o quarto estado mais negro do Nordeste, do lado da Bahia, cuja Secretaria de Promoção da Igualdade Racial já possui mais de 15 anos”, completa Ilzver.
Para ele, Sergipe é um estado – sem esquecer das municipalidades – sem sensibilidade para os direitos humanos e para a igualdade étnico-racial e de gênero, pois, carentes de iniciativas que protejam, previnam, promovam e garantam os direitos das populações historicamente vulnerabilizadas. “Um estado ou município sensível aos direitos humanos e à igualdade étnico-racial e de gênero pensa na distribuição das receitas e despesas com o objetivo de garantir dignidade humana a todas as pessoas que habitam seu território ou que por ele transitam, não apenas para uns ou outros pelos quais possuem maior empatia ou identificação”, aponta o professor.


