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Seis dos oito deputados federais por Sergipe foram reeleitos, o que mantém o perfil conservador da bancada. Yandra foi a mais votada

Deputados que votaram em projetos contra o povo continuarão por mais quatro anos em Brasília. Thiago de Joaldo e Rodrigo Valadares dão lugar a Cláudio Mitidieri, primo do governador, e ao bolsonarista Capitão Samuel.

Neste domingo, 4, Sergipe elegeu os oito deputados federais que irão ocupar as cadeiras da Câmara, em Brasília, a partir de janeiro de 2027. Yandra Moura (União), Ícaro de Valmir (Republicanos), Fábio Reis (PSD), Delegada Katarina (PSD), Gustinho Ribeiro (PP) e João Daniel (PT) permanecerão atuando por mais quatro anos. Cláudio Mitidieri (PSB), primo do governador Fábio Mitidieri (PSD), fará a sua estreia como deputado federal, e Capitão Samuel (União) retornará à cadeira em que foi suplente em 2022, e atuou por quatro meses em 2024.

O cenário da bancada de Sergipe na Câmara dos Deputados continuará quase o mesmo: inimiga do povo, isto é, votando contra projetos que beneficiem a maioria da população, como a Mangue Jornalismo mostrou nos últimos três anos. Yandra, Ícaro, Fábio, Katarina e Gustinho permanecerão, mesmo tendo proposto e votado em projetos que vão contra o povo, chegando Capitão Samuel e Cláudio Mitidieri, que possivelmente irão somar a esses votos. João Daniel permanece sendo a cadeira opositora dessa maioria.

Na eleição de ontem, Yandra Moura foi a mais votada com 115.903 votos, seguida de Cláudio Mitidieri (105.865 votos); João Daniel (88.900 votos); Fábio Reis (81.533 votos); Delegada Katarina (71.592 votos); Ícaro de Valmir (66.696 votos); Capitão Samuel (66.342 votos) e Gustinho Ribeiro (58.289 votos).

Ao longo de quatro anos, sete dos oito deputados federais por Sergipe votaram em projetos que enfraquecem os direitos do povo e fortalecem a prática corrosiva de elites. Por exemplo, Yandra Moura, Delegada Katarina, Fábio Reis, Gustinho Ribeiro e Ícaro de Valmir votaram a favor do Projeto de Lei n º 2720/2023, que blinda políticos e seus familiares de investigações. 

E mais, com exceção de Yandra Moura, que não esteve presente na votação, os outros quatro deputados votaram a favor do Projeto de Lei 490/07, que estabelece como Marco Temporal as demarcações de terras a partir de 1988, sendo um retrocesso os povos indígenas e originários do Brasil.

Outro projeto grave votado pelos deputados foi o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) nº 3/2025, em que restringe o aborto legal para crianças e adolescentes vítimas de estupro e que pode favorecer ao crime de pedofilia. João Daniel votou contra e Fábio Reis não registrou o voto.

O papel do deputado federal é propor, aprovar e até mesmo alterar projetos de leis, fiscalizar o governo executivo federal, discutir e aprovar o Orçamento da União Federal, em que são debatidas emendas parlamentares para educação, saúde, agricultura e infraestrutura, por exemplo. Também compete ao deputado, a participação em decisões nacionais, como reforma tributária e administrativa, mudanças na legislação penal, políticas ambientais, criação ou alteração de programas federais e impeachment de presidente, quando houver processo, por exemplo.

Cláudio Mitidieri (PSB)

É o único novo nome na câmara dos deputados representando o povo de Sergipe. É médico e ocupou o cargo de secretário de Estado da Saúde de Sergipe durante o primeiro mandato de governo do seu primo, Fábio Mitidieri (PSD). Em sua atuação como secretário, concluiu a obra do Hospital do Câncer, em Aracaju, projeto idealizado durante o governo de Marcelo Déda.

O novo deputado federal não possui uma trajetória política, é o primeiro mandato eletivo de Cláudio, em que construiu uma campanha eleitoral ancorada em sua gestão na secretaria da saúde. Em sua campanha, reforçou a promessa de enviar recursos para saúde, com promessas genéricas, sem projetos estruturados.

Capitão Samuel (União)

É policial militar, foi deputado estadual por três mandatos (2010, 2014, 2018) e, em 2022, foi suplente de deputado federal, tendo exercido o mandato por quatro meses em 2024. Durante a sua poderosa campanha eleitoral para deputado federal, Samuel apostou na expansão dos projetos que já tenta desenvolver no estado, como o Batalhão da Restauração, a Clínica do Batalhão e a Casa do Autista. 

Em 2015, Capitão Samuel, na época do PSC, teve o mandato cassado pelo TRE-SE, a pedido da Procuradoria Regional Eleitoral, e com a aplicação de R$ 106 mil em multa. Ele foi condenado por destinar mais de R$ 1 milhão em verbas para três entidades: Comunidade Evangélica de Barra dos Coqueiros, a Associação Eulina Caroline Lima (localizada em Muribeca) e a Associação dos Oficiais Militares da Polícia Militar (Assomise). Para a Assomise, Capitão Daniel destinou R$ 844 mil, entidade em que já atuou como presidente.

A atuação de Samuel na política ficou marcada pelo foco na segurança pública, apoio aos policiais e bombeiros, criação de projetos e instituições de apoio a dependentes químicos e proteção de crianças. É um político bolsonarista e que apoia pautas da extrema-direita.

Yandra Moura (União)

Conquistou a sua reeleição como deputada federal. Apoiada na trajetória do seu pai, André Moura, ela foi desenvolvendo o seu espaço dentro da política até ser eleita como deputada federal com mais votos em 2022.

A atuação de Yandra na Câmara foi marcada pelo apoio aos direitos das mulheres. No entanto, em 2025, votou a favor ao projeto de lei que dificulta o acesso ao aborto e favorece o crime de pedofilia. Como campanha para o segundo mandato, Yandra apostou no seu projeto de lei que cria o Estatuto de Proteção Integral à Mãe solo, ainda em tramitação.

João Daniel (PT)

Iniciou a sua trajetória política nas lutas populares, em que juntou-se ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), movimento que ajudou a organizar em Sergipe. Foi eleito deputado estadual em 2010 e, desde 2014, exerce mandatos consecutivos como deputado federal. Na atual campanha, suas principais pautas foram relacionadas à agricultura familiar, reforma agrária, transporte público gratuito e direitos dos trabalhadores. Em 2026, defendeu a tarifa zero no transporte público e o fim da escala 6×1. É o deputado federal mais presente e sempre vota em projetos que beneficiam à população.

Em 2015, quando ainda era deputado estadual, João Daniel teve o diploma cassado pelo TRE-SE e recebeu multa de R$ 106.410 por causa da destinação de verbas de subvenções sociais da Assembleia Legislativa em ano eleitoral. Segundo a decisão registrada pelo TSE, as verbas foram destinadas a entidades assistenciais por meio de emendas parlamentares. O caso envolveu também acusação de distribuição direcionada dos recursos. João Daniel recorreu da decisão e afirmou que caberia à Justiça provar qualquer desvio, negando irregularidades. Em 2018, o relator no TSE votou pela manutenção da cassação, mas o julgamento dos recursos foi suspenso por pedido de vista. 

A atuação de João Daniel na política é marcada pela defesa do povo, a partir de projetos de lei que abarcam a melhoria na agricultura familiar, assegura os direitos trabalhistas e uma aproximação com pautas ligadas aos povos indígenas e quilombolas.

Fábio Reis (PSD)

É filho do ex-deputado federal e ex-prefeito de Lagarto, Jerônimo Reis. Foi eleito deputado federal pela primeira vez em 2010, como suplente, e exerceu mandatos consecutivos a partir de 2014. Sua atuação ficou conhecida principalmente pela destinação de emendas nas áreas de saúde, infraestrutura e agricultura. Mas o projeto que ganhou mais destaque foi o que reconhece o seu município de berço, Lagarto, como a Capital Nacional da Vaquejada.

A trajetória política de Fábio Reis também é marcada por críticas relacionadas à influência da família Reis na política de Lagarto e à utilização de emendas parlamentares. Em 2022, uma investigação eleitoral envolvendo a candidatura de Marleide Cristina, apontada pela Justiça Eleitoral como candidata fictícia, levantou suspeitas de que pessoas formalmente contratadas por sua campanha teriam, na realidade, trabalhado para Fábio Reis. Em sua campanha eleitoral para a reeleição como deputado federal, Fábio realizou promessas rasas de destinação de recursos para os municípios sergipanos.

Delegada Katarina (PSD)

É delegada de carreira da Polícia Civil, tendo comandado a instituição e ocupado funções como a Corregedoria e a Delegacia-Geral. Em 2020, foi eleita vice-prefeita de Aracaju na chapa de Edvaldo Nogueira (PDT), mas deixou o cargo em 2022 para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados, sendo eleita pelo PSD. Durante o mandato, direcionou recursos para Sergipe — incluindo mais de R$ 15 milhões em transferências especiais e cerca de R$ 14,6 milhões para a atenção básica em 2025 — e apresentou propostas relacionadas à proteção das mulheres, combate à violência sexual, saúde e cultura.

A atuação de Delegada Katarina (PSD) na Câmara também foi marcada por posições controversas em pautas ambientais, sociais e de segurança. Em 2023, ela votou a favor do projeto do marco temporal para demarcação de terras indígenas e, em 2024, votou contra uma proposta que aumentava a tributação sobre armas e munições. Em 2025, foi uma das deputadas sergipanas que votaram a favor do PDL 3/2025, que sustava uma resolução do Conanda sobre o atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual; Katarina justificou o voto afirmando que o conselho teria ultrapassado suas atribuições. No mesmo ano, porém, votou contra a chamada PEC da Blindagem, que ampliava as proteções a parlamentares contra investigações e ações judiciais.

Ícaro de Valmir (Republicanos)

Filho do prefeito de Itabaiana e candidato ao Governo de Sergipe, Valmir de Francisquinho, Ícaro de Valmir foi eleito deputado federal em 2022. Chegou à Câmara após o pai e o irmão, Talysson, terem sido impedidos de disputar aquela eleição pela Justiça Eleitoral. Em seu primeiro mandato, concentrou parte de sua atuação na destinação de emendas e em pautas como segurança pública, infraestrutura e serviços públicos.

Em 2026, a Mangue Jornalismo mostrou que 45% dos R$ 17,7 milhões em emendas Pix destinados por ele em 2025 foram para Itabaiana, então administrada por seu pai. Ícaro também é alvo de uma ação que pode levar à cassação de seu mandato por suposta fraude à cota de gênero nas eleições de 2022; em março de 2026, o julgamento no TSE foi interrompido após pedido de vista, com dois votos pela cassação até aquele momento.

Gustinho Ribeiro (PP)

Iniciou a trajetória política em Lagarto: foi vereador entre 2009 e 2010 e deputado estadual por dois mandatos, entre 2011 e 2019. Em 2018, foi eleito deputado federal e, em 2022, reeleito. Para a campanha de uma nova reeleição, Gustinho apresentou como principais propostas a redução da jornada de trabalho para quatro dias semanais, medidas de proteção a pessoas com doenças crônicas incapacitantes e incentivo à agricultura familiar.

No entanto, em ação de improbidade relacionada às antigas subvenções da Assembleia Legislativa, ele foi condenado em processo que apontou desvio de mais de R$ 1 milhão em recursos públicos; em 2026, um acordo de não persecução civil relacionado ao caso estava sendo analisado pela Justiça após decisão do STJ determinar nova avaliação pelo TJSE. O TRE-SE, entretanto, deferiu o registro de sua candidatura em setembro de 2026, considerando a situação jurídica decorrente do acordo naquele momento. 

Também há questionamentos sobre a destinação de emendas para Lagarto, cidade que foi administrada por sua esposa, Hilda Ribeiro: o levantamento da Mangue apontou que 98% dos R$ 11,4 milhões recebidos pelo município via Emenda Pix entre 2020 e 2022 vieram de Gustinho. Mais recentemente, a Mangue revelou ainda que ele destinou R$ 177,6 mil de cota parlamentar a uma empresa ligada a um ex-assessor de sua mãe, que administra um portal com conteúdo favorável ao grupo político dos Ribeiro.

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Valter Davi

Jornalista (DRT 2945/SE) e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Sergipe (PPGCOM/UFS), em que pesquisa Narrativa de Sofrimento no campo do Jornalismo. Fotojornalista e escritor, atua como repórter e tem experiência em assessoria de comunicação.

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