Em 2025, o deputado federal por Sergipe Gustinho Ribeiro (ex-Republicanos, atualmente no PP) usou R$ 177.651,91 de cota parlamentar para pagar Rayllan Robson Monteiro Fernandes LTDA por “serviços de marketing digital”, mais especificamente “para divulgação parlamentar nas redes sociais” do congressista. Essa definição é a que consta nas oito notas fiscais referentes ao período de maio a dezembro do ano passado disponíveis no sistema de prestação de contas da Câmara dos Deputados.
À primeira vista, o pagamento não é um problema, apesar do valor ser alto mesmo para os padrões do Congresso Nacional. Sob o nome oficial de Cota para Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP), esse recurso concedido a deputados federais e senadores no Brasil foi criado em 2009 e funciona como um reembolso para os gastos das atividades relativas ao mandato, como passagens aéreas, despesas com escritório e divulgação das ações do político.
Cada domicílio eleitoral (isto é, o estado pelo qual o congressista foi eleito) possui um valor fixo disponível por mês aos parlamentares. Quanto mais distante de Brasília for o estado, maior será o valor que os deputados federais e senadores que o representam terão à sua disposição. No caso de Sergipe, a cota mensal para os deputados é R$ 45.933,06. O valor não gasto fica acumulado e pode ser usado ao longo do ano. Em 2025, a despesa total dos oito deputados federais sergipanos com cota parlamentar foi de R$ 3.872.692,33.
Apesar da previsão orçamentária do recurso para pagamento de divulgação de atividade parlamentar, ao apurar quem, afinal, é o destinatário dos mais de R$ 177,6 mil pagos por Gustinho, surgem dúvidas sobre a validade da contratação.
Rayllan Robson é ex-auxiliar do gabinete da deputada estadual por Sergipe Áurea Ribeiro (Republicanos), mãe de Gustinho. Os pagamentos do parlamentar para Rayllan começaram assim que ele deixou de trabalhar para Áurea na Assembleia Legislativa de Sergipe (Alese), onde atuou de março de 2024 a maio de 2025. Antes disso, Rayllan havia assessorado o também deputado estadual sergipano Ibrain de Valmir (PV) no período de fevereiro de 2019 a fevereiro de 2024.
Com a saída da Alese, Rayllan passou a dedicar mais tempo ao portal Hoje em Sergipe, criado em 2023, e à conta homônima com mais de 20 mil seguidores que administra no Instagram. A postagem mais antiga desse perfil é de junho de 2025. Em ambos, todas as publicações sobre Gustinho Ribeiro, sua mãe e sua esposa, a ex-prefeita de Lagarto Hilda Ribeiro, são elogiosas. O cenário é distinto do apurado pela reportagem acerca dos conteúdos sobre um dos principais oponentes políticos dos Ribeiro, o atual prefeito de Lagarto, Sérgio Reis (PSD).
Sérgio é irmão do deputado federal Fábio Reis, também do PSD, e venceu o grupo político de Gustinho nas eleições municipais de 2024 no município do centro-sul sergipano por uma diferença de quase 4 mil votos. Na disputa, o atual prefeito obteve 51,21% dos votos válidos, enquanto Rafaela Ribeiro (Republicanos), sobrinha de Gustinho e candidata apoiada por Hilda, alcançou 46,55%.

Dentre os conteúdos disponíveis no feed do Hoje em Sergipe, está um vídeo gravado por César de Oliveira Lima, morador de Lagarto, afirmando que ele e sua família estariam sendo perseguidos pelo prefeito da cidade, inclusive com ameaças de morte. Em agosto do ano passado, Sérgio Reis abriu dois processos contra Rayllan Robson por ter repostado o vídeo no perfil do portal de notícias no Instagram. Uma das ações foi por calúnia, difamação e injúria; a outra, por danos morais. Nos dois processos, Reis pedia a remoção do vídeo.
A queixa-crime no caso de calúnia, difamação e injúria foi rejeitada pelo Ministério Público de Sergipe sob o argumento de que “o querelado [Rayllan Robson] é parte ilegítima e a conduta é atípica, porquanto não foi o autor dos conteúdos reputados ofensivos, mas apenas responsável/titular da página em que foram divulgados”. A decisão também ressalta o fato de o autor do vídeo com as acusações, César de Oliveira Lima, não figurar no processo, bem como a “ausência de comprovação da data em que os supostos fatos típicos teriam ocorrido [postagem do vídeo], inviabilizando a análise quanto à configuração de crimes contra a honra”. O arquivamento da ação ocorreu em novembro de 2025.
Já o processo por danos morais, que além da retirada do vídeo pedia também o pagamento de indenização e retratação “em sua própria rede social [@hojeemsergipe] e em um veículo de imprensa de grande circulação”, foi encerrado sem julgamento de mérito.
A assessoria e o advogado de Sérgio Reis foram questionados pela Mangue Jornalismo sobre se o prefeito sabia da ligação entre Gustinho Ribeiro e o dono do portal/Instagram Hoje em Sergipe quando foram abertos os dois processos contra Rayllan Robson. Não houve resposta até o fechamento da reportagem.
Questionado pela Mangue sobre se os valores pagos por Ribeiro em 2025 dizem respeito também às postagens sobre sua atividade parlamentar feitas no portal Hoje em Sergipe e no @hojeemsergipe, Rayllan afirmou que os pagamentos “referem-se exclusivamente a serviços de marketing digital, prestados sob o CNAE 17.06, não abrangendo serviços de publicidade institucional, nem divulgação no portal Hoje em Sergipe ou em perfis vinculados ao portal, que operam sob CNAE próprio (63.19-4/00) em outras parcerias e/ou contratos para divulgação no veículo”.
Gustinho e a deputada Áurea Ribeiro também foram procurados, diretamente e por meio de suas assessorias, mas não retornaram. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.
Transparência sobre uso de cota parlamentar é baixa
A cota parlamentar está no centro de investigações recentes sobre desvio de dinheiro público por deputados federais. Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy, ambos do PL do Rio de Janeiro, estão na mira da Polícia Federal (PF) desde 2024, quando mensagens nos celulares de seus assessores indicaram o possível desvio de valores por meio de contratos falsos com empresas de locação de veículos, despesa coberta pela CEAP.
Em 19 de dezembro passado, uma operação deflagrada pela PF encontrou R$ 430 mil reais em um dos imóveis utilizados por Cavalcante, que nega qualquer irregularidade e afirma que recebeu o valor como pagamento pela venda de um imóvel. Já Jordy se diz alvo de “perseguição” e “intimidação” pelo Judiciário.
A Mangue Jornalismo publicou em outubro de 2023 investigação sobre possíveis anormalidades no uso de cota parlamentar por deputados federais sergipanos. Um dos indícios encontrados ao longo da apuração diz respeito a contratos de Fábio Reis com uma locadora de veículos em Lagarto que não possuía sede física há anos. À época da publicação, Reis não respondeu aos contatos da reportagem. Em 2021, ele e outros 27 congressistas e ex-congressistas foram investigados pelo Supremo Tribunal Federal por irregularidades envolvendo cota parlamentar.
A reportagem de 2023 da Mangue mostrou também que, entre os conteúdos pagos com verba destinada à divulgação de atividades parlamentares, havia matéria em defesa da gestão de Hilda Ribeiro, então prefeita de Lagarto.
Saramandaia x Bole Bole
O município de Lagarto se destaca em Sergipe como centro de movimentações políticas que repercutem até mesmo em Brasília. Com cerca de 106 mil habitantes, a cidade possui três congressistas de um total de 11 que representam Sergipe na capital federal.
Desde os anos 1970, Lagarto assiste ao desenrolar da rixa política entre o grupo dos “Bole Bole” e o dos “Saramandaia”, respectivamente os Ribeiro e os Reis, como explica o livro Uma cidade em pé de guerra: Saramandaia x Bole Bole (2008), organizado pelo historiador lagartense Claudefranklin Monteiro Santos.
A inspiração para as alcunhas veio da disputa política entre famílias interioranas apresentada na novela Saramandaia, escrita por Dias Gomes e lançada pela Rede Globo em 1976. Treze anos antes, em abril de 1963, Rosendo Ribeiro Filho, avô de Gustinho Ribeiro, havia assumido a Prefeitura de Lagarto. Era o coroamento dos Bole Bole na cidade, uma vez que Ribeirinho, como era mais conhecido Ribeiro Filho, havia antes sido vereador por Lagarto (1954-1958) e deputado estadual por Sergipe (1959-1962).
Do lado dos Saramandaia, o primeiro grande nome foi Artur de Oliveira Reis, avô dos irmãos Sérgio e Fábio Reis. Artur Reis foi deputado estadual por Sergipe em mais de um mandato e prefeito de Lagarto de 1983 a 1988. Durante sua gestão, a cidade recebeu a visita do ditador General João Batista Figueiredo.
Os patriarcas Reis e Ribeiro chegaram a ser colegas de partido no Arena e no PSD, mas mantendo os desentendimentos políticos e acaloradas disputas por espaço. Hoje, seus netos são os principais representantes dos grupos Bole Bole e Saramandaia.




