Quilombo Brejão dos Negros festeja colheita de mais de 250 toneladas de arroz agroecológico Velho Chico

Arroz Velho Chico é orgulho da comunidade quilombola (Crédito Associação Quilombola da Resina)

Depois de meses de um trabalho que parece não ter fim, a comunidade quilombola Brejão Negros, no município sergipano de Brejo Grande, a 115 km de Aracaju, parou um pouco para festejar mais uma grande conquista: a colheita de mais de 250 toneladas do arroz agroecológico Velho Chico, um produto coletivo de resistências e sonhos, que surge forte e limpo (sem agrotóxico) cultivado em 40 hectares bem próximo à foz do Rio Francisco. 

No último final de semana, o território reuniu agricultores e agricultoras familiares, lideranças quilombolas, parceiros e a comunidade da Resina, Brejão dos Negros, Santa Cruz e Carapitanga, povoados que formam esse território quilombola em Sergipe de pouco mais de 8 mil hectares. 

“Há três anos colhemos cerca de 130 toneladas. Para nós é uma grande alegria comemorar isso hoje reconhecendo parceiros como a Cáritas NE3 e Cáritas de Propriá que estão conosco nesses 20 anos de luta pelo território do qual ainda não temos a decretação de posse. Reforçamos a importância da parceria com a Cáritas e com a Universidade Federal da Bahia (UFBA)”, comemorou Enéas Rosa, liderança quilombola na Resina, ao lembrar das oficinas de cura e cuidado com ervas medicinais junto ao grupo de mulheres do território, uma parceria da Cáritas com a UFBA.

“Para nós é uma satisfação enorme caminhar junto a uma entidade dessa que é tão importante e tão responsável nessa peleja pelo clima, pela comida saudável, pelos direitos humanos. Enfim, só gratidão e que a gente permaneça nessa parceria por muitos anos”, reforçou Enéas.

A Mangue Jornalismo já publicou várias reportagens sobre o território quilombola Brejão dos Negros, principalmente sobre a cultura do arroz. Em agosto deste ano, por exemplo, foi publicada a série Brejão, quilombo de reexistência, com três reportagens especiais. Na primeira, dona Marília, lembra que “o medo é do tamanho que a gente faz”. Ela contou a história de luta da Resina no Quilombo Brejão dos Negros. 

A segunda reportagem mostrou que o arroz agroecológico Velho Chico promove revolução socioambiental no Quilombo Brejão dos Negros. Na terceira, a Mangue Jornalismo denunciou que a falta de titulação das terras ameaça Quilombo Brejão dos Negros, a proteção ambiental e o arroz agroecológico.

Arroz agroecológico Velho Chico promove revolução socioambiental em Sergipe (Crédito Divulgação)

O arroz é um dos principais motores da revolução quase silenciosa 

Com o despejo de esgoto e agrotóxico no São Francisco, com o avanço do mar sobre o rio, com a implantação de hidroelétricas e com a criação desordenada de camarões, o Velho Chico agoniza. Uma das tantas consequências disso é a drástica redução do peixe, elemento vital para a sobrevivência dos pescadores artesanais. Também por isso, a então plantação do arroz, que sempre fora produzida com veneno, foi retomada pelos ribeirinhos no quilombo, entretanto, desta vez, eles resolveram fazer a experiência ancestral: cultivar o arroz e tudo o que aquela área pode oferecer sem uso de agrotóxicos.

O arroz é um dos principais motores de uma revolução quase silenciosa que tem ocorrido no Território Brejão dos Negros, um arroz plantado, cuidado, colhido e distribuído de modo artesanal, solidário e, principalmente, com profundo respeito ao meio ambiente, sem qualquer uso de agrotóxico. A Resina tem a área de maior produção de arroz agroecológico de Sergipe e o quilombo é o único no estado a cultivar desse modo.

“Tudo começou com o arroz. O manejo agroecológico mudou nossa vida, nos deu consciência e renda, foi a libertação do nosso povo”, afirma Eneias, que complementa: “a gente não pensa só na quantidade ou quanto vai tirar, a gente pensa também na qualidade, porque a agroecologia é qualidade, é você trabalhar vendo a terra feliz, os bichos reaparecendo, fortificando a planta. A gente trabalha feliz e saudável, com harmonia com a natureza, consumindo e entregando um produto de qualidade, livre de veneno”. A revolução começa com a consciência de que toda forma de vida em um território é significante.

Romper com o uso do agrotóxico fez parte desse processo revolucionário de liberação. “Hoje, graças a Deus, a gente faz os nossos inseticidas com ervas, castanha de caju, com produtos naturais da própria comunidade. Não temos mais esse risco de manusear veneno, adubo químico. Hoje é tudo trabalhado na forma de aproveitamento, a palha do arroz, o próprio arroz que vira adubo orgânico, com a cama da galinha, algumas compostagens que a gente faz com a urina da vaca, tudo para fortalecer a planta”, disse Eneias.

Sem os agrotóxicos, os hectares produzem além do arroz, produzem vida. Minhoca, caranguejo, siris, tudo embrenhado dentro das plantações se cultivando delas e as deixando mais fortes. A vida adubando a vida. Ao redor do mar verde que brotará o arroz, é possível ver a vastidão de outros cultivos: banana, coco, goiaba, mel, maxixe, quiabo, macaxeira, melancia e tantas outras. Como bem reforça Eneias, não existe o desejo de ter uma monocultura, o campo é vasto de possibilidades.

Arroz agroecológico ajuda a matar a fome de pessoas em situação de vulnerabilidade 

Além das questões específicas da agroecologia, quase todo o arroz produzido no Território Quilombola Brejão dos Negros é entregue para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e para a Secretaria de Estado da Assistência Social, Inclusão e Cidadania (Seasic) que, por sua vez, repassam para entidades da sociedade civil. 

Duas organizações centrais para a produção, assessoramento e destino do arroz agroecológico são a Rede Balaio de Solidariedade e a Cáritas Arquidiocesana, esta última ligada à Igreja Católica. Sim, o arroz de qualidade, agroecológico e produzido artesanalmente por quilombolas sergipanos mata a fome de milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade alimentar em Sergipe.

“O arroz que chega até nós vem na perspectiva de fortalecer a comunidade da Resina e todo território quilombola de Brejão dos Negros, um arroz que é vida também para pessoas que estão em situação de vulnerabilidade. Não se trata só dar comida, a gente também mostra a eles que o arroz é agroecológico e tem toda uma luta por trás, tem toda a defesa da vida, uma defesa do meio ambiente, a defesa da nossa Casa Comum, um chamado também do nosso saudoso Papa Francisco”, analisa Paulo Evangelista, da Cáritas.

Parcerias são fundamentais para o desenvolvimento do território quilombola (Crédito Divulgação)

O coordenador da Cáritas Diocesana de Propriá, padre Isaías Nascimento, também comemorou a colheita do arroz na comunidade quilombola da Resina, na Foz do Rio São Francisco. “Esse é um momento importante para ressaltar o quanto a comunidade afro está resistindo no cultivo do arroz agroecológico. É importante para a formação da própria comunidade, no fortalecimento de seus membros. Toda essa caminhada é feita com a parceria da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 3 e da Cáritas Diocesana de Propriá que unem esforços para que essa comunidade cresça com dignidade na produção e com a preservação da vida do povo, das águas e da terra”, afirmou.

Para o secretário Regional da Cáritas NE 3, Jardel Nascimento, é um momento de celebração para o território quilombola Brejão dos Negros e para todos os parceiros que se somam na caminhada por uma produção agroecológica e sem veneno. 

“Celebrar a colheita é sempre pensar na questão da prosperidade e na fraternidade entre as comunidades, entre as pessoas. É celebrar o que foi plantado com suor e sacrifício e que está dando frutos e alimentando as famílias, além de garantir a geração de renda com a comercialização do arroz beneficiado. Tudo isso é fruto de um povo que vem de uma situação vulnerável e que a partir da luta por independência vem construindo a organização comunitária junto a instituições como a Cáritas Diocesana de Propriá e a Cáritas Brasileira Regional Nordeste 3”, avaliou ao lembrar da resistência dos quilombolas e incidência buscando políticas públicas de produção agroecológica.

“Aquele arroz que antes só servia aos programas emergenciais, hoje é vendido para os programas do Governo Federal, tudo graças a incidências de lideranças quilombolas e do povo organizado”, completou Jardel Nascimento.

Padre Isaías: “dignidade na produção e com a preservação da vida do povo, das águas e da terra” (Crédito Divulgação)

A importância de parceiros para fortalecer a luta

Maria Izaltina Silva também é quilombola e lembrou da importância de comemorar a colheita do arroz agroecológico. “É um momento muito importante, sobretudo porque contradiz aqueles que falam que quilombolas não produzem. E nós mostramos que, sim, produzimos comida de qualidade, sem veneno, como é o caso do arroz agroecológico. Estamos há 20 anos na luta pela titulação do nosso território, aguardando somente a assinatura do decreto”, destacou. 

Izaltina lembrou dos problemas ambientais que o território enfrenta, como a devastação dos manguezais, onde a população quilombola vem sentindo de perto os efeitos das mudanças climáticas. “A Cáritas que vem sempre aqui nos ajudando nessa produção, com incentivos para que a gente continue produzindo, muitas vezes fazendo o papel do estado e do município, já que as secretarias de Agricultura não chegam para ajudar as comunidades na produção do campo, na agricultura familiar”, concluiu. 

A dirigente do MPA-SE, Elielma Barros, comemorou a fatura do arroz. “Para nós e para toda a comunidade esse é um momento muito simbólico, de resistência. A festa mostra que as comunidades estão construindo a soberania alimentar com ações concretas a partir da produção do arroz agroecológico. Vamos fazendo enfrentamento ao modelo do capital com alternativas frente às mudanças climáticas”, acrescentou.

Além da Cáritas de Propriá e da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 3, entre os parceiros estavam na 3ª edição da Festa da Colheita do Arroz Agroecológico o Movimento de Pequenos Agricultores do Estado de Sergipe (MPA-SE), Conselho da Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP), Movimento das Marisqueiras, Fórum de Povos e Comunidades Tradicionais de Sergipe, Secretaria de Estado da Assistência Social, Inclusão e Cidadania (SEASIC), Conselho de Segurança Alimentar e nutricional/SE e Conab.

Produzido pelos quilombolas a partir de práticas agroecológicas (Foto Divulgação)

*Com informações de Rafael Lopes, Allan Lusttosa, Alexsandro Nascimento, Cristian Góes, Valter Davi e Bruno Costa

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Respostas de 2

  1. Excelente matéria! Vocês fazem um trabalho muito importante. Gostaria de saber onde eu posso comprar o Arroz Velho Chico?

    1. Olá, Laís.

      Você pode encontrar o arroz na sede da REDE BALAIO DE SOLIDARIEDADE, que tem uma lojinha no Centro de Aracaju, Praça Olímpio Campos, nº 283, bem próximo da Catedral Metropolitana.

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