
A Mangue Jornalismo publica a segunda reportagem da Série Brejão, quilombo de reexistência. Na primeira, dona Marília Santos, 75 anos, contou um pouco das histórias dos antepassados daquele lugar, a crueldade escravista dos fazendeiros, as ameaças, perseguições, mas também lembrou das lutas e conquistas que só a ancestralidade viva e potente ficada no quilombo pode explicar. Leia a primeira reportagem em: “O medo é do tamanho que a gente faz”.
Poucas nuvens inundavam o céu acima do Rio São Francisco, que há poucos dias foi banhado pelas chuvas do inverno. Nesse tempo, é por barco que se chega mais fácil nas plantações de arroz. Longos hectares de vida florescendo dentro de vida. O vento, minucioso que é, mostrava a sua forma pelas folhagens verdes que saíam do meio da lama. Se desenhava. Eneias Rosa, agricultor e um dos 16 filhos de dona Marília, pisa sem medo nas terras macias. Com um facão, ele passeia pelo arrozal cuidando de toda espécie de vida, arrancando do caminho o que dali não pertence ou virou excesso.
Seus olhos são espertos. Sabe muito bem quando o nível da água está desigual, o que pode comprometer o crescimento linear do arroz. Arregaça as mangas, joga-se dentro d’água e começa a tirar dali as madeiras que a prende. Em instantes, a água da chuva que se acumulou no lote vai se encontrar com o Velho Chico. Eneias controla o deságue e arruma o desfiladeiro. Mas não apenas ele, como também todas as mais de 40 famílias que fazem do arroz o seu sustento de vida.
Eneias Rosa, com os seus 40 anos de idade, tem a seriedade pairada em seu rosto. Ele já se mostra um homem sabido, fala quando é perguntado e no tom certo, sem mais nem menos. A sua base é forte, nascido e criado na Resina que, junto com as comunidades Brejão, Santa Cruz e Carapitanga, todas formam o Território Quilombola Brejão Negros. Foi assim que ele se tornou uma das lideranças que toca a produção do ouro branco do Velho Chico.

O arroz é um dos principais motores de uma revolução quase silenciosa que tem ocorrido no Território Brejão dos Negros, nas margens do Rio São Francisco e próximo à foz, em Brejo Grande/SE, 115 km de Aracaju. Mas, para ser revolução não é qualquer arroz, é de um arroz plantado, cuidado, colhido e distribuído de modo artesanal, solidário e, principalmente, com profundo respeito ao meio ambiente, sem qualquer uso de agrotóxico. A Resina tem a área de maior produção de arroz agroecológico de Sergipe e o quilombo é o único no estado a cultivar desse modo.
Com o despejo de esgoto e agrotóxico no São Francisco, com o avanço do mar sobre o rio, com a implantação de hidroelétricas e com a criação desordenada de camarões, o Velho Chico agoniza. Uma das tantas consequências disso é a drástica redução do peixe, elemento vital para a sobrevivência dos pescadores artesanais. Também por isso, a então plantação do arroz, que sempre fora produzida com veneno, foi retomada pelos ribeirinhos no quilombo, entretanto, desta vez, eles resolveram fazer a experiência ancestral: cultivar o arroz e tudo o que aquela área pode oferecer sem uso de agrotóxicos.
Somente no ano passado, as comunidades da Resina e Santa Cruz produziram juntas mais de 350 toneladas de arroz agroecológico, tudo artesanal, sem apoio de governos e sem uso de veneno. “Para o ano de 2025 nossa expectativa é superar essa produtividade porque o regime de chuva está regular e as plantas estão muito bonitas”, disse Eneias. Na Resina são 40 hectares e na comunidade de Santa Cruz seis, ou seja, com o manejo garantindo um profundo respeito ao meio ambiente, a produtividade no quilombo ultrapassou as 7,6 toneladas por hectare, um feito que tem reforçado cada vez mais essa revolução socioambiental e que vai muito além do arroz e de outros produtos.

“Tudo começou com o arroz. O manejo agroecológico mudou nossa vida, nos deu consciência e renda, foi a libertação do nosso povo”, afirma Eneias, que complementa: “a gente não pensa só na quantidade ou quanto vai tirar, a gente pensa também na qualidade, porque a agroecologia é qualidade, é você trabalhar vendo a terra feliz, os bichos reaparecendo, fortificando a planta. A gente trabalha feliz e saudável, com harmonia com a natureza, consumindo e entregando um produto de qualidade, livre de veneno”. A revolução começa com a consciência de que toda forma de vida em um território é significante.
Além das questões específicas da agroecologia, quase todo o arroz produzido no Território Quilombola Brejão dos Negros é entregue para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e para a Secretaria de Estado da Assistência Social, Inclusão e Cidadania (Seasic) que, por sua vez, repassam para entidades da sociedade civil. Duas organizações centrais para a produção, assessoramento e destino do arroz agroecológico são a Rede Balaio de Solidariedade e a Cáritas Arquidiocesana, esta última ligada à Igreja Católica. Sim, o arroz de qualidade, agroecológico e produzido artesanalmente por quilombolas sergipanos mata a fome de milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade alimentar em Sergipe. A próxima reportagem da Mangue Jornalismo dessa série será sobre isso.
“O arroz que chega até nós vem na perspectiva de fortalecer a comunidade da Resina e todo território quilombola de Brejão dos Negros, um arroz que é vida também para pessoas que estão em situação de vulnerabilidade. Não se trata só dar comida, a gente também mostra a eles que o arroz é agroecológico e tem toda uma luta por trás, tem toda a defesa da vida, uma defesa do meio ambiente, a defesa da nossa Casa Comum, um chamado também do nosso saudoso Papa Francisco”, analisa Paulo Evangelista, da Cáritas.
Revolução pelo arroz produziu libertação de território
A escravização deixou marcas profundas no território quilombola, que vão desde a forma de enxergar o mundo até a sua relação com a terra. Por longos períodos, ribeirinhos trabalhavam nas fazendas de cana-de-açúcar, algodão e arroz, não recebiam salário e a comida para sobrevivência era vendida pelos próprios fazendeiros, uma dívida que nunca se acabava. Por muitos anos, sem ter direito à terra e às águas, as comunidades em Brejo Grande se tornaram recebedoras de cestas básicas, reatualizando a escravização.
“Quando a gente conseguiu um pequeno espaço de terra, começamos a produzir arroz para matar a fome. O peixe quase sumiu. Quando teve as primeiras colheitas, logo apareceu o atravessador e a gente ficou refém dele. Ele colocava preço, levava o produto, ganhava dinheiro e a gente só ficava com a trabalheira. Mas tudo mudou quando a gente começou a fazer o manejo agroecológico, fazendo reuniões, isso nos deu consciência e organização, passamos a produzir mais, melhor e sem atravessador”, conta Eneias.
Mauro Cibulski representa a Rede Blairo de Solidariedade e atua junto com a Cáritas Brasileira na região. Um gaúcho de pé firme, ligado aos movimentos sociais, especialmente aos assentamentos de reforma agrária, que percebeu de longe o potencial agroecológico vivenciado nas margens do Rio São Francisco. “Essa é uma área fantástica, com um povo trabalhador e nós só mostramos que a produção poderia ser maior e melhor se os alimentos produzidos tivessem manejos agroecológicos”, disse Mauro.
A produção do arroz Velho Chico é mais do que renda na comunidade, “significa libertação, porque é você que trabalha com seu produto, conhece as fases do arroz, sabe que está fazendo uma plantação de acordo com a questão climática, ambiental. Assim, você consegue ajudar, cuidar do meio ambiente, então, isso tem impacto muito grande dentro da comunidade e na nossa região”, completou Eneias.
Entretanto, ainda faltam passos fundamentais para se consolidar a libertação do quilombo, sendo o principal dele a titulação das terras. Faz dois anos que o Governo Federal reconheceu o Território Quilombola Brejão dos Negros, mas até hoje não o titulou. A ausência desse instrumento produz gravíssimos problemas, principalmente não coíbe o permanente ataque ao meio ambiente local e à comunidade, além de deixar restritas uma série de políticas públicas.
“Hoje a gente faz um pouco de tudo, sem ajuda do governo, tudo manual, feito por nós mesmos. Se a gente tiver incentivo, políticas públicas discutidas com as comunidades, a gente vai melhorar mais, e aí é a libertação de vez, a libertação do território, com o povo tendo uma fonte de renda mais sossegada. Historicamente, a gente trabalhou para enriquecer os outros, para formar o filho do fazendeiro como advogado, juiz, promotor e uma ruma de coisas, e o nosso ainda vive na situação de pobreza”, afirma Eneias.


Padre Isaías Nascimento é uma das personalidades centrais na revolução pelo arroz no Brejão dos Negros. Quando ele chegou lá, a pobreza era extrema, muita fome e processos de escravização nas fazendas, sem qualquer ação do poder público. Muitas pessoas, especialmente na Resina, abrigavam-se em palhoças que não mediam dois metros de largura. “Era um escândalo porque a prefeitura recebia muitos recursos do petróleo. Nossa intromissão ali empoderou os pobres a denunciar essas violências. Lembro de Cida, Iraneide, da turma do Brejão, com muita coragem eles enfrentaram isso”.
O sacerdote ressalta que a produção do arroz agroecológico é resultado da dignificação do ser humano que antes era coisificado e aprendeu a se apoderar do próprio corpo e com ele reconhecer os seus direitos.
“Antes, eles eram tratados como objeto dos ricos, subservientes. Hoje são sujeitos do seu próprio destino, apesar da existência de um sistema de opressão, como gente do Judiciário e fazendeiros, e de alguma divisão interna. Agora, essa produção de arroz é bonita demais, porque tem humanização, porque busca comunhão de vida, a ponto deles enxotar o agrotóxico. É uma concepção revolucionária. Esse exercício humanista da igualdade social e da pertença ao coletivo é também lugar da espiritualidade”, disse padre Isaías.
Agroecologia do quilombo é combate à crise climática
O impacto do manejo agroecológico é enorme em Brejo Grande, sendo o quilombo um polo de resistência socioambiental contra as agressões do desmatamento ilegal, da carcinicultura predatória de lagoas e de mangues, do envenenamento das produções de alimentos em perímetros irrigados e que despejam resíduos tóxicos no rio, afetando toda área, principalmente desembocando na foz do São Francisco.
A produção do arroz convencional contribuiu para o agravamento da crise climática e pode causar sérios danos para produtores e consumidores. “O principal motivo disso é o uso do veneno, da química e são os plantadores quem ficam em perigo e sofrem os primeiros problemas. No tempo que a gente plantava assim, o arroz, antes de amadurecer, cacheava, as palhas ficavam secas, feias, era um arroz queimado, um negócio muito esquisito”, lembra Eneias.
Ele também conta que ao jogar o veneno nas plantações de arroz alagadas com águas do Velho Chico para matar lagarta e outros insetos “também morria o camarão, o siri, o peixe, tudo pequeno, em fase de crescimento, morria tudo porque eles entravam nas levadas d’água nos lotes. Morria tudo. Até a abelha desapareceu, vagalume, borboleta, tudo isso chegou a desaparecer aqui na comunidade por causa do agrotóxico. O veneno ia na gente, nas plantas, na terra, nas águas e no ar. Era um desastre”.


Romper com o uso do agrotóxico fez parte desse processo revolucionário de liberação. “Hoje, graças a Deus, a gente faz os nossos inseticidas com ervas, castanha de caju, com produtos naturais da própria comunidade. Não temos mais esse risco de manusear veneno, adubo químico. Hoje é tudo trabalhado na forma de aproveitamento, a palha do arroz, o próprio arroz que vira adubo orgânico, com a cama da galinha, algumas compostagens que a gente faz com a urina da vaca, tudo para fortalecer a planta”, disse Eneias. “Hoje nossa planta é muito resistente, muito mais bonita, verde, forte. Se o arroz passar um pouco da colheita, ele não cai, fica com a cana firme, antes ele era frágil”. A história dos quilombolas do Brejão também se repete na plantação.
Sem os agrotóxicos, os hectares produzem além do arroz, produzem vida. Minhoca, caranguejo, siris, tudo embrenhado dentro das plantações se cultivando delas e as deixando mais fortes. A vida adubando a vida. Ao redor do mar verde que brotará o arroz, é possível ver a vastidão de outros cultivos: banana, coco, goiaba, mel, maxixe, quiabo, macaxeira, melancia e tantas outras. Como bem reforça Eneias, não existe o desejo de ter uma monocultura, o campo é vasto de possibilidades.


O reflexo mais imediato desta revolução pelo arroz é renda, mesa farta e trabalho comunitário que envolve diretamente no trabalho de produção 45 famílias, mas que acolhe todo território porque muitas pessoas que mexem com pesca e outras atividades são chamadas para trabalhar na cadeia do arroz, colheita, secagem, beneficiamento, empacotamento, destruição.
“Esse arroz é consumido por nós, mas a grande maioria é distribuído para fora daqui. Conseguimos ser inseridos no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) tanto do governo federal quanto do estadual. Hoje, graças a Deus, a gente vende toda produção e queremos ampliar para que nosso produto agroecológico, sem veneno, chegue nas mercearias e supermercados das cidades”, festeja Eneias.
Quem festeja também é dona Marília. Ela diz que perdeu as contas de quantas vezes viu caminhões entrando na comunidade para carregar com arroz, banana, macaxeira, goiaba, coco. “Nosso arroz aqui é especial, vai para fora, arroz da gente, plantado com todo o amor, sem esse veneno que faz adoecer as pessoas, a terra, as águas. Nosso arroz já foi até para Brasília, uma menina daqui foi apresentar, colocou na mão do Lula. Ah, faz dois anos que temos aqui a festa do arroz, em outubro, uma festa bonita, maravilhosa”, conta ela.
Arroz e produtos dos quilombos em Aracaju
Em Aracaju, a Rede Balaio de Solidariedade montou uma pequena loja no Centro da Cidade (Praça Olímpio Campos, nº 283, num espaço cedido pela Arquidiocese, onde funciona o bazar permanente Santa Dulce dos Pobres. O novo espaço reúne uma diversidade de produtos produzidos por empreendimentos solidários, com destaque para o trabalho de mulheres de várias regiões do estado de Sergipe, especialmente quilombolas. Lá também pode ser encontrado o arroz agroecológico Velho Chico. Representantes da Rede Balaio, da Cáritas e das comunidades quilombolas também levam seus produtos para as feiras agroecológicas que ocorrem em Sergipe.

