
O sol repartia a pele do rosto e incendiava as bochechas, as orelhas e os olhos. Olhos sagrados, olhos de pureza, que viram a terra excomungar o bem e o mal. Numas toras de madeira forradas em palha de bananeira, Marília Santos fez de dormir e de parir os seus filhos. De dia, usava a terra para plantar o que não era seu; de noite, na penumbra, só a fome iluminava o seu lar. “No sofrimento da luz do candeeiro”.
Certo dia, vinha do Cabeço, povoado tomado pelas águas, um homem vestido de bom moço querendo trocar um gerador por votos. Os olhos brilharam, era tempo de iluminar a noite. O povoado da Resina fez o bom moço se consagrar vereador, a luz veio como prometido, e lhes foi tirada como castigo.
“Quando os homens lá na fazenda souberam que nós estávamos clareando com luz decente, eles mandaram chamar os moradores mais velhos. Ele disse, pois é para tirar, que a Resina lá é minha. Aí eles chegaram com tudo em casa, tudo desanimado. Tiraram. Tiremos tudinho. Fiquemos no candeeiro de novo.”
Os homens da fazenda emprestavam pouco dinheiro para o povo da Resina poder colocar comida na boca dos filhos, em troca os faziam trabalhar mais do que a dívida. No meio da escravidão que passava, Marília tentava se manter firme, pois ver os filhos comendo papa de coco e o curral ao lado cheio de gado, lhe revoltava. “A gente só não levava chicotada, a chicotada era da fome”
Dentro dos seus 75 anos, dona Marília gerou 16 filhos dentro do seu corpo. Oito homens e oito mulheres. Mas filhos mesmo, ela já perdeu as contas de quantos tem. Quando muito nova, era parteira. Em um lugar em que a ambulância demorava a chegar, dona Marília teve as suas mãos abençoadas pelo sagrado para dar a luz a muita gente. “Tenho muitos filhos por aqui”. De parteira a rezadeira, dona Marília sabe muito sobre gerar a vida e perpetuá-la com saúde.
Resina, Brejão dos Negros, Santa Cruz e Carapitanga são povoados de Brejo Grande, e juntos formam um território quilombola em Sergipe de pouco mais de 8 mil hectares. A Mangue Jornalismo recorreu a dona Marília para ajudar a contar um pouco da história dessa comunidade, especialmente da Resina. A entrevista com ela abre a série Brejão, quilombo de reexistência, que lembra das histórias dos antepassados sobre os fazendeiros da região, sobre a escravização, inclusive por dívida, mas também festeja a luta, a esperança e as conquistas. Para começar, dona Marília resume o começo da luta na Resina.
No próximo mês, o Território da Resina vai completar 18 anos que entrou no mapa do mundo conhecido. Não é que ele não existisse antes, muito pelo contrário. Desde o início dos anos de 1940, cerca de 60 famílias de pescadores artesanais viviam nesse pequeno povoado nas margens do Rio São Francisco e bem próxima à foz, geograficamente no município sergipano de Brejo Grande, a 115 km de Aracaju.
Muitos anos antes de 1940, os primeiros moradores da Resina já eram negros fugidos da escravização nas fazendas de Sergipe e Alagoas. Sem água encanada, sem energia elétrica, com casas de palha, sem poder público, restava apenas a busca por uma paz que animasse a luta por dias melhores. O lugar mais próximo era Piaçabuçu, em Alagoas. Qualquer necessidade maior, atravessava-se o Velho Chico.
A Resina sempre foi das negras e dos negros. Não havia um dono formal. Fazendeiros e seus conluios nos cartórios esticavam suas propriedades para o rio, apropriando-se de bens dos pescadores e que a União dizia que era dela. Aquelas terras ribeirinhas férteis no fim ou começo do mundo, em meio a manguezais e coqueirais, era um paraíso de difícil acesso, mas que sempre foram objeto da cobiça de fazendeiros e outros interessados.
Antes mesmo da Constituição de 1988, havia uma movimentação de trabalhadores rurais em Brejo Grande que buscava políticas públicas para aquele município dominado pelas forças opressoras de fazendeiros, meia dúzia de herdeiros de donos de engenhos escravistas. Política pública ali era a sonhada reforma agrária e nesse barco entraram os pescadores artesanais da Resina. Um feito que parecia impossível e que entrou pelos anos 2000 sem muita realização.
Em setembro de 2007, um empresário e dono da então construtora Norcon, de Aracaju, chegou à Resina. Anunciou que aquelas terras eram dele, que havia comprado de fazendeiros e ali seria construído um complexo hoteleiro para receber “gringos”. As terras em questão eram uma parte da Fazenda Capivara. Esse fato mudou para sempre a vida daquele povo. Os ancestrais donos e ocupantes daquelas terras teriam que perder o chão, o rio, a vida. Foi um desassossego.
A agonia se transformou em resistência e reexistência. Apesar de ameaças de mortes e de agressões por jagunços e policiais, de barracos queimados, de estratégias de divisão da comunidade, de perseguições do Judiciário, a Resina, Brejão dos Negros, Santa Cruz e Carapitanga venceram o medo. “O medo é do tamanho que a gente faz”, ensina dona Marília Santos, uma das tantas mulheres que atravessaram esse período e ainda estão firmes, uma força livre e consciente que só a ancestralidade explica.
Ela resume os primeiros embates de uma luta que se estendeu por mais de dez anos e ainda não foi finalizada. A comunidade espera a titularidade das terras pelo Governo Federal.
A construtora afirmava que a titularidade da área era sua, tudo registrado em cartório. Essa alegação foi contestada não apenas pelos moradores da Resina, mas também pelo Ministério Público Federal em Sergipe, que foi acionado pelos pescadores e pelo padre Isaías Nascimento, da Cáritas Diocesana de Propriá. O fato é que a grande maioria das terras pertence à União.
Diante da organização e resistência dos moradores da Resina, a então construtora propôs construir um conjunto habitacional num povoado próximo, no Saramém. Lá, os pescadores teriam casas de alvenaria, mas para isso todos precisavam abandonar definitivamente a Resina. Iniciou-se uma enorme e violenta pressão, com o objetivo de dividir a comunidade. Algumas poucas famílias aceitaram a proposta da construtora. Para a maioria que ficou, a violência passou a ser cotidiana. Dona Marília lembra muito bem desse período.
Nesses 18 anos são vários os episódios de violência para os moradores da Resina deixassem as terras. A pressão aumentou quando grande parte da comunidade passou a se reconhecer como remanescente de território quilombola junto com outros povoados, formando o Território Quilombola Brejão dos Negros. Era constante a presença de capangas, jagunços, policiais militares e várias forças poderosas mobilizadas contra os pescadores.
Pistoleiros contratados por fazendeiros impediam o acesso de moradores à produção do arroz, às lagoas e até o Rio São Francisco. A área foi cercada pela construtora, mas a comunidade em resistência sempre destruía as cercas da vergonha. Mais jagunços chegaram para proteger os funcionários responsáveis pela reconstrução da cerca.
Graças a entrada no caso do MPF/SE, a Polícia Federal foi acionada para acompanhar a questão. Na Assembleia Legislativa de Sergipe, a então deputada Ana Lúcia denunciou o caso e também acompanhou bem de perto os conflitos na Resina. A mesma coisa fez o então deputado federal Iran Barbosa, que deu visibilidade nacional àquela luta. Ambos alertaram para derramamento de sangue. A Norcon sempre negou as denúncias.
Entretanto, em dezembro de 2008, os moradores voltaram a contar novos episódios de violência, a exemplo de uma prisão arbitrária de um pescador idoso, acusado de furtar cocos da suposta “propriedade da empresa”. A detenção teria se dado pela ação de policiais militares, acompanhados de um funcionário da Norcon.
Além disso, casas teriam sido ilegalmente derrubadas e incendiadas e algumas lideranças da localidade foram ameaçadas de morte. Ainda no final daquele ano, tratores e funcionários da empresa teriam destruído cerca de 16 casas da comunidade. A construtora alegou ter negociado previamente essa ação com os respectivos proprietários.
Dona Marília lembra de um outro episódio marcante de violência contra os moradores daquela região, contra o padre Isaías Nascimento e até contra o bispo de Propriá, dom Mário Rino Sivieri. Os sacerdotes não concluíram uma celebração de uma missa em ação de graças pela vitória da demarcação das terras pelo Incra.
Em 2009 houve um acordo entre a Norcon e os moradores da Resina mediado pelo MPF, entretanto a pressão e violência de fazendeiros da região continuou. A luta era pelo reconhecimento por parte do Governo Federal daquela área e ele chegou no final de 2010, quando o Incra iniciou para valer a demarcação de aproximadamente 174 hectares para usufruto da comunidade. Agora, sim, a Resina se tornava oficialmente um território dentro da Comunidade Quilombola de Brejão dos Negros e a festa tomou conta de todo mundo.
Em julho de 2011, os membros da comunidade foram mais uma vez vítimas de violência. As denúncias na época mostram que cerca de 50 homens invadiram a área identificada oficialmente pelo Incra como território da comunidade e, com o auxílio de foices e tratores, destruíram pelo menos metade da cerca que demarcava a área reconhecida, além dos coqueirais e plantações de mandioca ali cultivadas há mais de um ano e ameaçar a todos com armas de fogo. Como consequência do ataque, o MPF solicitou proteção policial para os agora reconhecidos quilombolas da comunidade de Resina.
No entanto, nunca as ameaças deixaram de existir. Elas são constantes, muitas vezes visíveis, como soltar gado nas áreas para destruir as plantações de arroz, mas também violências veladas através de pressões no estado e em nível federal. Tudo isso ocorre porque ainda falta a titulação.
Muitas mãos tentaram tomar as terras de um povo, a história se repetindo, ora de forma velada, ora escancarada, para desfrutar do sangue escorrido. Mas os pés do povo que reconheceu a sua força fincaram o chão, se mantiveram ali firmes como âncora, mesmo que a tempestade insistisse em carregá-los para longe do rio. Hoje, o Território Quilombola Brejão dos Negros é berço de muitos frutos.
Com o reconhecimento e a demarcação, a comunidade passou a experimentar a liberdade sobre as terras e águas, produzindo de um tudo, como sempre fizeram. Entretanto, o que chama atenção é a grande produção de arroz e frutas orgânicas, sem uso de agrotóxicos. Já em 2012, os quilombolas comemoraram a primeira grande colheita de arroz (cerca de 2300 sacas do grão ou cerca de 138 toneladas) e, em julho de 2013, foram colhidas 450 toneladas em apenas dez lotes.
As vitórias da Resina são muitas, mas tudo com luta e coragem para a constituição de um território quilombola livre, protetor e promotor de uma natureza viva e saudável, com uma sobrevivência sustentável, sem esquecer do passado escravagista, para que nunca mais chegue a acontecer. Dona Marília sintetiza esse processo de luta e coragem por uma vida digna.


Uma resposta
Que história marcante, deu um nó na garganta imaginar tudo que dona Marília e as pessoas do Povoado Resina passaram. Meus parabéns aos jornalistas por trazer a tona as realidades do nosso Sergipe que até então estavam guardadas! Parabéns Davi!