Não foi falta de aviso. Crise no abastecimento que deixou 16 bairros de Aracaju sem água é resultado da privatização da Deso

Uma semana após governo Mitidieri e Iguá Saneamento anunciarem plano para “melhorar abastecimento”, rompimento de adutora provoca caos na capital, impacta serviços de saúde e leva moradores às ruas.

A Mangue Jornalismo publicou vários alertas sobre o caos da privatização da água (Crédito: Divulgação/ Empresa Brasileira de Comunicação)

Abrir a torneira e não sair água deixou de ser exceção e passou a fazer parte da rotina de muitos moradores da região metropolitana de Aracaju — que, além da capital, abrange São Cristóvão, Nossa Senhora do Socorro e Barra dos Coqueiros. Nesta quarta-feira (22), porém, o caos se estabeleceu, embora essa realidade seja há muito sentida na pele por sergipanos espalhados pelo interior do estado.

Moradores de ao menos 16 bairros da capital estão sem água nas torneiras. É a segunda vez apenas neste mês que vazamentos em adutoras interrompem o abastecimento em larga escala. O histórico recente amplia o quadro: em setembro do ano passado, mais de 880 mil moradores de Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora do Socorro e de cerca de 44 bairros de Aracaju ficaram sem água. Na ocasião, o governador Fábio Mitidieri (PSD), que estava em viagem à Europa, classificou o episódio como “fatalidade” em vídeo publicado nas redes sociais.

Não é. Quem acompanha a Mangue Jornalismo sabe que essa crise de falta de água é resultado da privatização da Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso). Em 4 de setembro de 2024, mesmo com a privatização repleta de indícios de irregularidades e com ações ainda tramitando, a Deso foi entregue para a empresa privada Iguá Saneamento por R$ 4,5 bilhões. Não faltaram alertas mostrando que a privatização da água em Sergipe poderia dar errado. Nos estados que fizeram isso, a população ficou sem água e viram suas contas aumentarem exponencialmente. 

Desta vez, o desabastecimento ocorre uma semana após o pessedista convocar a imprensa e anunciar, ao lado do presidente da Deso e do CEO da Iguá, um plano de ação voltado à melhoria do abastecimento de água em Sergipe. 

A informação oficial é que houve um rompimento na adutora responsável pelo abastecimento da Estação Elevatória de Água Tratada 3 (EETA 3). O porta-voz da Iguá, Flávio Vieira, disse à rádio Fan FM que o vazamento começou na segunda-feira (20), mas só foi identificado no dia seguinte. A tubulação rompida tem 800 milímetros de diâmetro e estaria localizada em uma área de difícil acesso, segundo ele. As fortes chuvas que atingiram a capital nos últimos dias, ainda conforme Vieira, teriam atrasado o reparo, cuja previsão de conclusão era ao meio-dia de quarta-feira (04). Mas ao menos até o final da noite, as redes sociais foram inundadas de críticas e reclamações pela falta d ‘água. 

Há relatos de moradores que falam em mais de 24 horas sem água e casos em que o desabastecimento chegou ao terceiro dia consecutivo. A situação é tão grave que uma clínica de nefrologia precisou interromper sessões de hemodiálise cerca de 1h30 antes do previsto em razão do desabastecimento.  

A interrupção no abastecimento atingiu bairros das zonas sul, oeste e central, incluindo Farolândia, Augusto Franco, Salgado Filho, Grageru, Treze de Julho, São Conrado, Jabotiana, Ponto Novo, Suíssa, Jardins, Santa Maria, São José, Mosqueiro, Areia Branca, Matapuã e Inácio Barbosa. Há relatos também nos bairros Luzia, Siqueira Campos e Atalaia. No José Conrado de Araújo, os moradores afirmam estar há três dias sem nenhuma gota na torneira. Por esta razão, interditaram parte da Avenida Osvaldo Aranha em protesto.

Privatização da água, com a venda da Deso, foi festejada pelo governador e aliados (Créditos: Reprodução)

“É preciso que esta Casa tome uma atitude conjunta, firme e séria diante da falta de água sem precedentes que estamos enfrentando em nosso estado. Precisamos dar voz ao grito de socorro que vem das ruas”, discursou a deputada estadual Linda Brasil (PSOL) na tribuna da Assembleia Legislativa de Sergipe (Alese), ao falar da crise no abastecimento. 

A psolista é autora de um requerimento que pede a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a “precarização dos serviços de abastecimentos e possíveis aumentos indevidos nas tarifas de água”. Dos 24 parlamentares que compõem a Alese, apenas três endossaram o pedido (são necessárias oito): além de Linda, os deputados Georgeo Passos e Marcos Oliveira, ambos do Republicanos. Luizão Dona Trampi (PL) chegou a anunciar publicamente que apoiaria a instalação do colegiado, mas recuou um dia depois. 

“Não dá mais para aceitarmos a crise hídrica que se instalou em Sergipe. O que estamos vendo hoje é inadmissível: comunidades passando dias e até meses sem abastecimento, tarifas aumentando de forma absurda e cobrança de taxa de esgoto onde sequer existe saneamento básico”, disse Linda em conversa com a Mangue. “O governo vendeu a DESO sob a promessa de melhoria e ampliação do serviço. A realidade é oposta: municípios que nunca tiveram histórico de desabastecimento agora vivem em colapso, chegam denúncias de todas as regiões do estado”.

Depois da privatização da água e da venda da Deso pelo governador e seus aliados essa cena se tornou cotidiana em Sergipe (Créditos: Marcos Rodrigues)

Do outro lado da Praça Fausto Cardoso, na Câmara Municipal de Aracaju, a vereadora Professora Sônia Meire (PSOL) afirmou que o desabastecimento tem sido recorrente em diferentes áreas da cidade.

“O bairro que eu moro quase todos os dias passa por momentos de falta de abastecimentos. Estamos com mais de 24h sem acesso à água em bairros da zona sul e também do centro. E é impressionante como sempre se coloca o problema, com uma dificuldade de se antecipar aos rompimentos de adutoras e canos. Essa empresa não tem tecnologia capaz de identificar um problema antes de acontecer?” perguntou Sônia.

Enquanto não deixa de levar água às torneiras dos sergipanos, a Iguá acumula multas. Desde dezembro passado, a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de Sergipe (Agrese), responsável por fiscalizar o contrato com a concessionária, já aplicou quase R$ 6 milhões em penalidades à empresa por problemas no abastecimento. Nesta quarta-feira, por exemplo, a Agrese informou ter autuado a Iguá em R$ 2,3 milhões após o órgão identificar “irregularidades relacionadas à descontinuidade no fornecimento de água em municípios do estado e em bairros da capital”. 

Como se deu a privatização da água em Sergipe

Mesmo cercada por questionamentos, a entrega da Deso ao mercado financeiro foi concluída em uma sessão festiva na Bolsa de Valores, em São Paulo. Lá estiveram o então prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira (PDT), os senadores Laércio Oliveira (PP) e Alessandro Vieira (MDB), além de deputados estaduais, entre eles Jeferson Andrade (PSD), atual presidente da Alese e postulante a vice na chapa de Mitidieri à reeleição. 

A estatal foi entregue para a empresa privada Iguá Saneamento por R$ 4,5 bilhões. O negócio teve ágio de 122% porque o valor de venda estipulado pelo governo era de R$ 2 bilhões. Esse montante a mais indica que a Deso é muito lucrativa e valia bem mais que a estimativa oficial.

No mês passado, a Mangue mostrou que os deputados estaduais aprovaram um projeto de lei que ampliou o poder de gasto de prefeitos e do próprio governo Mitidieri sobre os recursos bilionários arrecadados com a venda da Deso. Antes, o dinheiro só poderia ser destinado a projetos estruturantes, como obras de infraestrutura. Com a mudança, portanto, está liberado o uso dos recursos também em despesas correntes — como custeio de políticas públicas, serviços e outras obrigações do dia a dia da Administração Pública.

Apesar da privatização, o modelo adotado manteve com o Estado a parte mais onerosa do sistema: captação, transporte e tratamento da água, etapas que concentram custos elevados e riscos operacionais. À concessionária controlada pelo capital internacional, majoritariamente do Canadá, coube a fatia mais lucrativa, que envolve distribuição, esgotamento sanitário e faturamento.

Na versão do governo Mitidieri, a venda da Deso teve o objetivo de universalizar o “abastecimento de água potável e coleta e tratamento de esgoto no território sergipano, como preconiza o Novo Marco do Saneamento, cujo prazo de implementação total vai até 31 de dezembro de 2033. De acordo com a Lei, os estados devem assegurar o atendimento a 99% da população com água potável e de 90% da população com coleta e tratamento de esgoto”.

Menos de 40 dias após a venda da Deso, cerca de 588 trabalhadores com expertises foram demitidos, o que pode ter comprometido as ações da empresa diante dos problemas de captação e abastecimento. “Na Deso existia uma equipe de manutenção especializada que percorria diariamente as adutoras para detectar problemas e corrigi-los em tempo, e essa equipe foi simplesmente retirada sob justificativa de que era dispendioso mantê-la. Passamos, então, da manutenção preventiva para os serviços corretivos, somente quando o problema estoura, como agora”, explicou a Central Única dos Trabalhadores (CUT).
A Mangue Jornalismo acompanhou todos os passos da privatização da água em Sergipe, alertando para os graves perigos dessas ações, como aumento da tarifa, falta de água, redução de investimentos, demissões, etc. Foram várias reportagens, além da produção e distribuição gratuita do e-book “Água, um direito humano essencial não pode ser privatizado”. A publicação tem download gratuito e foi apoiada pelas leitoras e leitores da Mangue. Baixe aqui.

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Respostas de 7

  1. EXCELENTÍSSIMA EXPOSIÇÃO SOBRE À FALTA DE ÁGUA CONTÍNUAS EM ARACAJU; ONTEM; HOJE E SEMPRE SENDO ASSIM AGORA ??????

  2. A questão que permanece é: o que vamos fazer para mudar isso? Não adianta se indignar e repetir as mesmas escolhas nas urnas, elegendo políticos que não se comprometem com a população. Enquanto isso, vemos atitudes superficiais sendo normalizadas e até aprovadas.

    Ficar apenas nas redes sociais, com notas de repúdio, não resolve. Mudanças reais exigem mais do que manifestações pontuais: exigem consciência crítica, responsabilidade nas escolhas e participação ativa nas urnas e nas ruas. O foco deve ser o coletivo: eleger representantes que priorizem o bem-estar social, e não interesses individuais.

  3. Espero que esse homem tome vergonha e nem tente se reelerger! E se tentar que o povo não vote nele! É uma vergonha o que está acontecendo, esse problema tem sido recorrente e nada muda, apenas pedidos de espera e falsas promessas. Sergipe sempre teve problemas e dificuldades com o abastecimento de água, o que antes afetas a locais específicos, com a nova empresa se tornou um caos total. Em vez de melhorarem o que estava ruim, pioraram o que estava bom. Enfim, uma vergonha total e que as pessoas parem de vender seus votos e passem a votar de forma mais consciente. As eleições estão vindo, hora de fazer mudança.

  4. Estou quase uma semana sem água, quando chega a água vem sem força pra subir pras caixas, e a gente no final vamos arcar com o ar misturado com a água, quando será resolvido, o chat da Iguá, uma vergonha, não se têm um canal de reclamações , vergonha pra Sergipe essa Iguá, Volta Deso , governador tome vergonha e volte a Deso

  5. Vejo de uma outra perspectiva!
    Se acontecem rompimentos por não suportar uma vazão maior,é por que não vinha sendo feita a manutenção necessária!

  6. Concordo plenamente, a privatização é algo terrível, hoje pagamos caro por essa privatização! Espero que os Sergipanos não esqueçam quem praticou este absurdo com nosso estado!!

  7. É uma vergonha o que fizeram com o povo sergipano. Um povo de bem, sempre de sorriso no rosto… Ter empatia é o básico que todo ser humano deveria ter.

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