
Para vereador Iran Barbosa (PSOL), ser oposição à gestão da Prefeitura de Aracaju significa enfrentar um modelo de cidade que privilegia interesses privados em detrimento das necessidades populares. É isso que o parlamentar, que faz sua quarta passagem pela Câmara Municipal de Aracaju, disse à Mangue Jornalismo nesta entrevista.
Ele critica a continuidade da “cidade privatizada”, onde contratos duvidosos, falta de transparência e favorecimento a empresários de ônibus mantêm a lógica das gestões anteriores. Segundo o vereador, a atual administração ainda não rompeu com o “sistemão” que prometeu desmontar.
Os primeiros meses da gestão municipal reforçaram as dúvidas sobre alguma mudança. Iran aponta a manutenção de práticas tradicionais, como o loteamento de cargos e a condução questionável de um empréstimo milionário, sem diálogo com a população. Ele destaca que o discurso de campanha da prefeita, de oposição ao modelo vigente, não tem se traduzido em ações concretas.
Além do cenário local, o parlamentar também critica a movimentação política no estado, onde alianças entre diferentes grupos sugerem uma eleição para o governo quase sem oposição. Para ele, o PSOL segue como resistência, defendendo um projeto de sociedade pautado na coerência e na disputa contínua de ideias, sem se limitar ao período eleitoral.
Iran Barbosa tem uma longa trajetória política. Foi vereador por Aracaju, deputado estadual e federal por Sergipe. Após duas décadas no PT, migrou para o PSOL, onde reafirma sua postura de oposição ao atual governo municipal e estadual, afirmando defender políticas voltadas para a maioria da população.
Confira a entrevista:
Mangue Jornalismo (MJ): Depois de ter sido vereador por três períodos, deputado federal, deputado estadual, como é retornar à Câmara de Aracaju. Quem é esse Iran Barbosa vereador em 2025?
Iran Barbosa (IB): Considero este retorno como algo muito desafiador, uma vez que representar a população aracajuana nesta quadra histórica de tanta necessidade de garantia, primeiramente, da própria vida, frente às graves questões ambientais e humanitárias que enfrentamos; de necessidade de defesa e de luta pela Democracia, frente aos avanços de planos e atos golpistas que invocam ditaduras; de necessidade de insistência na formulação de políticas públicas comprometidas com as pautas populares, frente à diversidade de desafios de uma cidade complexa e carente da presença de um Estado garantidor de direitos; e da urgente necessidade de contraponto a um modelo de cidade privatizada que serve aos interesses de uma minoria, frente ao abandono de parcelas majoritárias do povo de Aracaju. Este Iran Barbosa, vereador, em 2025, do ponto de vista dos princípios e das bases que fundamentam o ser político que eu sou, é basicamente o mesmo Iran Barbosa, vereador, que foi empossado pela primeira vez, como parlamentar, há 20 anos. Obviamente que este Iran Barbosa de hoje tem uma caminhada que lhe garante mais experiência, mais vivência e, portanto, mais responsabilidade, frente a tantos desafios.
MJ: A prefeita Emília, do PL, vai completar três meses de gestão. Qual sua avaliação desse período? Quais os principais acertos e erros?
IB: Considero que esses primeiros três meses de gestão parecem demonstrar que há uma dificuldade de compreensão da necessidade de ruptura entre o momento eleitoral e o momento administrativo. Muitas vezes, as falas, as ações e o jeito de comunicar da atual gestão parecem confundir esses momentos. Desde a forma de composição do secretariado, passando pela relação com os setores da economia privada que dominam os serviços públicos e chegando às relações estabelecidas com o Poder Legislativo e com as entidades da sociedade civil; é perceptível como a prometida “ruptura com o sistemão” está longe de ser realizada. Como estamos no início da gestão, é preciso que reconheçamos que ainda há tempo para mudanças de rumos, mas as primeiras sinalizações estimulam bastante a dúvida. A lógica da “cidade privatizada” se mantém; a falta de transparência persiste, como ocorreu na tramitação do Projeto de Lei que autorizou o empréstimo de 161 milhões de reais; os problemas nos contratos com as empresas de limpeza urbana se avolumam; os benefícios para as empresas de ônibus seguem preponderando frente às necessidades da população usuária; tudo corroborando para a manutenção da velha forma de gerir a nossa cidade. Seguirei acompanhando, avaliando e buscando interferir, como parlamentar, neste cenário.

MJ: Em tão pouco tempo, existem questões sérias envolvendo a prefeita: contratos estranhos do lixo, favorecimento aos empresários de ônibus, empréstimo de R$ 161 milhões sem transparência, loteamento de cargos para o sistemão que ela prometeu furar a bolha. Aracaju escolhe mal ou é assim mesmo?
IB: Sob a minha perspectiva, qualquer escolha de candidatura que se alinha ao chamado bolsonarismo e tudo o que isso representa é uma escolha ruim. Ademais disso, parece que prometer “furar a bolha” na campanha eleitoral é bem mais fácil do que romper efetivamente com ela. Parece-me que a escolha feita pelos aracajuanos teve muito a ver com a apresentação de uma promessa eleitoral de mudança, lastreada na atuação crítica e de oposição da atual prefeita quando era vereadora, que não vem se confirmando com as práticas administrativas. Eu não defendo que seja assim mesmo. Acredito que a coerência política deve ser um dos principais fundamentos da nossa ação.
MJ: Aracaju apresenta gravíssimos problemas de transporte público, mobilidade, meio ambiente, saúde, educação, e a nova gestão parece que ainda não buscou se movimentar para transformar. Repetiremos as trágicas gestões de João Alves e Edvaldo Nogueira?
IB: Não tenho como prever isso e, sinceramente, não é isso que desejo para Aracaju. Porém, os elementos que já estão disponíveis para avaliação permitem-me dizer que, até o momento, temos assistido a ações que trilham por fazer o que costumamos chamar de “mais-do-mesmo”.
MJ: Vários vereadores foram eleitos em siglas que estavam em oposição à candidatura de Emília, a exemplo do PDT, do ex-prefeito. Entretanto, nas votações até agora muitos nessa condição participam da bancada de apoio à prefeita. Isso só reforça a lógica do senso comum de que partido não importa, o que vale mesmo é buscar esquemas financeiros para garantir um alto padrão de rendimento com a política?
IB: Se você me pergunta se “o que vale mesmo é buscar esquemas financeiros para garantir um alto padrão de rendimento com a política”, a minha resposta é um sonoro e inabalável “NÃO”! Eu já fui eleito para ser parlamentar na base de quem dirige o Poder Executivo, já fui eleito para compor bancadas de oposição e sempre me mantive fiel aos papéis para os quais fui eleito. Não sou adepto do “pragmatismo político”!
MJ: Do ponto de vista estadual, ao que tudo indica, Sergipe terá uma eleição para o governo do estado quase sem oposição, talvez com candidato único. Grande parte do PT e o prefeito de Itabaiana Valmir de Francisquinho (PL) já conversam animadamente com o governador Fábio Mitidieri (PSD). Todos devem estar juntos. Qual o caminho do PSOL? Oposição para fazer constar?
IB: Ainda temos muito caminho a percorrer. O PSOL é oposição ao governo estadual e, oportunamente, definirá, em suas instâncias deliberativas, qual será a nossa tática eleitoral para 2026. Contudo, devo dizer que uma oposição à esquerda nunca se coloca apenas para “fazer constar”. A defesa de um projeto democrático e popular de disputa da sociedade passa pelas eleições, mas não começa e nem termina nelas. A disputa é real, cotidiana e permanente. Ela é facilitada, evidentemente, com um resultado eleitoral positivo, mas não pode ser vista como uma disputa momentânea, efetuada apenas para marcar posição em caso de derrota eleitoral. A disputa eleitoral integra um amplo espectro de ações necessárias para a construção da sociedade de iguais que alimenta a nossa utopia.