Crise hídrica em Sergipe era previsível, e tese de ‘sabotagem’ esconde falhas estruturais, diz dirigente do Sindisan

Em entrevista à Mangue, secretário-geral do sindicato que representa os trabalhadores da Deso afirma que a companhia já alertava autoridades sobre ferrugens e incrustações nos registros e denunciava a falta de manutenção e de recursos.

Há duas semanas, moradores de pelo menos 16 bairros de Aracaju e outros milhares de moradores da Região Metropolitana ficaram dias sem água na torneira. Aquela foi a segunda vez no mês de abril que vazamentos em adutoras interromperam o abastecimento em larga escala, agravando uma realidade há muito sentida por sergipanos das áreas periféricas da capital e do interior do Estado. 

Em meio à reação popular que incensou as ruas e as redes sociais, a Iguá, concessionária responsável pelo abastecimento hídrico em Sergipe, encontrou na narrativa de uma suposta sabotagem a explicação para a prolongada falta d’água nas torneiras dos moradores da zona sul de Aracaju –  onde, antes mesmo da alegada ação criminosa, moradores relatavam até dez dias sem abastecimento.

Um inquérito foi instaurado pela Polícia Civil, mas, até o momento, não há confirmação de dano estrutural ou de indícios que sustentem a hipótese de interferência externa no sistema. 

Tudo isso não surpreendeu o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Purificação de Água e em Serviços de Esgotos do Estado de Sergipe (Sindisan), que viu uma tentativa de acobertar o que considera “incompetência administrativa” da Iguá. Para o secretário-geral Aécio Ferreira, o desabastecimento é resultado de um longo processo de sucateamento da antiga Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso).

Em entrevista à Mangue Jornalismo, Ferreira diz que o sindicato já alertava às autoridades sobre problemas como ferrugens e incrustações nos registros e denunciava a falta de manutenção e de recursos. O Sindisan representa trabalhadores da Deso, da Coderse (Companhia de Desenvolvimento Regional de Sergipe), além daqueles que atuam nos Serviços Autônomos de Água e Esgoto (SAAEs) de Capela, Estância e São Cristóvão e da Iguá.

O dirigente sustenta que o sucateamento fez parte do planejamento dos governadores Belivaldo Chagas (2018-2022) e Fábio Mitidieri (PSD) para, na hora certa, conseguirem a aprovação da venda da companhia de água do estado, ocorrida em setembro de 2024.

Mesmo cercada por questionamentos, a entrega da Deso ao mercado financeiro foi concluída em uma sessão festiva na Bolsa de Valores, em São Paulo. Lá estiveram o então prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira (PDT), os senadores Laércio Oliveira (PP) e Alessandro Vieira (MDB), além de deputados estaduais, entre eles Jeferson Andrade (PSD), atual presidente da Alese e postulante a vice na chapa de Mitidieri à reeleição. 

A estatal foi entregue para a empresa privada Iguá Saneamento por R$ 4,5 bilhões. O negócio teve ágio de 122% porque o valor de venda estipulado pelo governo era de R$ 2 bilhões. Menos de 40 dias após a venda da Deso, cerca de 588 trabalhadores altamente especializados foram demitidos, o que pode ter comprometido as ações da empresa diante dos problemas de captação e abastecimento, como mostrou reportagem da Mangue.

Privatização da água, com a venda da Deso, foi festejada pelo governador e aliados (Créditos: Reprodução/Governo de Sergipe)

Sobre a crise da última semana, o secretário do Sindisan rebateu durante a entrevista a hipótese de sabotagem de uma das adutoras, narrativa utilizada pela Iguá para justificar a longa falta de água nas residências e replicada aos montes pela imprensa local. Ele afirma que os problemas decorrem da ausência de conservação e da demora nos reparos. 

“Quando o governo fala de sabotagem, de forma indireta ele diz que algum trabalhador da área de saneamento teve parte. Ou então, a oposição atual política. E a gente sabe que ninguém, nenhum trabalhador do saneamento, em consciência ia fazer uma sabotagem, ia causar risco para a população”, diz Ferreira. 

O dirigente sindical também criticou o processo de transição da gestão no sistema de abastecimento, incluindo uma crítica direta à antecipação do fim da chamada “operação assistida” entre a Deso e a Iguá. O contrato de concessão dizia que a equipe da Deso deveria realizar o treinamento com a Iguá por um período previsto para 180 dias. 

O fim, no entanto, aconteceu em 135 dias, e foi endossado pela Agência Reguladora de Serviços Públicos de Sergipe (AGRESE) em 28 de abril de 2025. Essa antecipação, para Aécio, prejudicou muito o início da operação do sistema hídrico pela Iguá.

Em nota enviada à Mangue, a Iguá disse que atendeu a todos os requisitos contratuais para início da operação em 1º de maio de 2025. Acrescentou também que, à época, já havia dado início às obras emergenciais “de quatro adutoras em seis municípios no interior do estado”, antes mesmo da antecipação da operação assistida.

“As frentes totalizam 59 km de adutoras, contemplando mais de 70?mil moradores em Poço Redondo, Porto da Folha, Itabaiana, Moita Bonita, Lagarto e Riachão do Dantas”, completou a concessionária.

A Mangue Jornalismo acompanhou todos os passos da privatização da água em Sergipe, alertando para os graves perigos dessas ações, como aumento da tarifa, falta de água, redução de investimentos, demissões, etc. Foram várias reportagens, além da produção e distribuição gratuita do e-book “Água, um direito humano essencial não pode ser privatizado”. A publicação tem download gratuito e foi apoiada pelas leitoras e leitores da Mangue. Baixe aqui.

(Créditos: Arquivo pessoal)

Confira os destaques a seguir.

Mangue Jornalismo – Como o Sindisan encara, de modo geral, a crise hídrica atual em Sergipe? 

AF: A crise hídrica já era anunciada pelo sindicato, desde antes de o processo de privatização se iniciar. O sindicato já denunciava que havia um processo de sucateamento e falta de investimento na empresa, para prejudicar os serviços. Isso foi patrocinado pelos governos Belivaldo Chagas e Fábio Mitidieri, para que, quando fosse apresentada a opção de privatização, a população fosse a favor.

Aquelas ferrugens, aquelas incrustações, já vinham sendo denunciadas pelos sindicalistas. Os registros deveriam ter passado por um processo de conservação e manutenção. Esse processo foi comprovado por uma pesquisa do IBGE [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) 2025] a qual mostrou que, nos últimos 10 anos, Sergipe teve a maior diminuição do abastecimento de água do país. Agora, infelizmente, a Iguá está executando esse problema.

MJ – Qual foi a posição do sindicato diante da privatização da Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso) e da compra pela empresa Iguá?

AF: Sempre foi contrária. Somos associados da Federação Nacional dos Urbanitários, que  representa todos os trabalhadores do Brasil da área de energia e saneamento. A gente tem contato com todos os processos de privatização que vêm ocorrendo no Brasil, como a concessão da água no Rio de Janeiro, e a energia em São Paulo. A gente sabia que isso [a crise] ia acontecer.

Durante esses dois anos de luta, até o processo dessa concessão privada, a gente alertou a população, alertou o meio político, vereadores, estado, todos os prefeitos, deputados federais, senadores, TCE (Tribunal de Contas do Estado), Ministério Público, Governo. Mas o sistema não permite [bloquear a venda].

MJ – Quais foram as mudanças na operação do sistema hídrico do estado desde a mudança de gestão? 

AF: A Deso conseguia fazer um equilíbrio hidráulico entre os reservatórios que abastecem a cidade. A Iguá ainda não tem o “know how” (conhecimento técnico) para isso. O trabalho de conserto, quando há um problema, demora muito mais tempo.

Para abastecer a região metropolitana da cidade [Aracaju], usamos um sistema interligado de reservatórios, que são abastecidos com a água do Rio São Francisco, da Cabrita [povoado do município de São Cristóvão] e do Rio Poxim. Os engenheiros, encanadores e técnicos conseguiam fazer o equilíbrio de  todo o sistema e consertá-lo muito mais rápido.

Não é questão de abastecimento. Um estudo feito pelo BNDES [Banco Nacional do Desenvolvimento] mostrou que Sergipe produz 190 milhões de metros cúbicos de água tratada por ano. Já o consumo anual de todo estado é de 90 milhões de metros cúbicos por ano. Então sobram 100 milhões de metros cúbicos.

MJ – E o que houve com o treinamento ofertado na cláusula de Operação Assistida do contrato de concessão?

AF: Antes de a Iguá começar o serviço, foi montada uma equipe da Deso para passar os serviços. Durante esse período, todo o faturamento continuava com a Deso. Pensando em faturar o mais rápido possível, a Iguá pediu a antecipação da operação assistida, que durou somente 4 meses. Aí foi onde ela quebrou a cara. 

MJ – O que explica a falta d’água em larga escala registrada há algumas semanas, que afetou mais de 16 bairros só em Aracaju? A Iguá afirmou ter sido um rompimento em uma adutora… 

AF: Realmente, ocorreu o rompimento de uma adutora responsável pelo abastecimento da zona sul da cidade. Toda a área da Atalaia, Coroa do Meio e toda a zona de expansão. Esse rompimento pode ocorrer a qualquer momento. Mas, as pessoas têm que ter esse “know-how” de concertar o mais rápido possível. 

MJ – Alguns dias depois, o porta-voz da Iguá afirmou que havia possibilidade de ter havido um ato criminoso, o que prejudicou o mecanismo que abastece as residências. Isso faz sentido?

AF: Pode ter sido, mas é pouco provável. A gente [o Sindisan] defende que foi por falta de conservação e manutenção. 

É possível ver, por fotos [fornecidas pela Iguá], que o registro estava todo enferrujado. Além de que se tratava de um registro de entrada. A Deso, quando operava o sistema, nunca mexeu no registro de entrada, salvo em situações extraordinárias de limpeza, em que é preciso esvaziar o reservatório.

MJ – O Sindisan afirma que os trabalhadores da Deso vêm sendo prejudicados em meio a esta crise. Por quê?

AF: Quando o governo fala de sabotagem, de forma indireta ele diz que algum trabalhador da área de saneamento teve parte. Ou então, a oposição atual política. E a gente sabe que ninguém, nenhum trabalhador do saneamento, em consciência ia fazer uma sabotagem, ia causar risco para a população.

MJ – Como avalia a postura do governo do Estado em defender a investigação de um possível vandalismo no sistema?

AF: Somos a favor da investigação, mas queremos uma isenta e técnica. É tanto que vamos acompanhar, para evitar conflito de interesses. Nós temos engenheiros tecnólogos de saneamento que vão averiguar [com a Polícia Civil].

Picture of Luísa Monte

Luísa Monte

Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, com experiência em reportagem, roteiro, podcast e documentário. Foi trainee do Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha de S. Paulo e repórter de cultura, saúde e comportamento no mesmo jornal. É sergipana que ama explorar o mundo e contar as histórias ao redor dele.

Compartilhe:

Isso aqui é importante!

Fazer jornalismo independente, ousado e de qualidade é muito caro. A Mangue Jornalismo só sobrevive do apoio das nossas leitoras e leitores. Por isso, não temos vergonha em lhe pedir algum apoio. É simples e rápido! Nosso pix: manguejornalismo@gmail.com

Uma resposta

  1. Bando de incompetentes , ficaram uma vida sucateando a Deso . Agora não querem admitir que perderam a mamata .
    Acabou a ilusão.
    Menos discurso , menos politicagem e mais trabalho !

Deixe seu comentário:

CATADO DA MANGUE

Receba de graça as reportagens