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Candidatos ao governo de Sergipe tratam Cultura como atração turística, deixam diversidade religiosa de lado e detalham pouco ações para a área

Embora mencionem festas populares, patrimônio e economia criativa, planos deixam sem resposta como o governo do Estado pretende financiar, descentralizar e preservar a produção cultural sergipana nos próximos quatro anos.

A Mangue Jornalismo segue com sua cobertura eleitoral profissional, independente e qualificada. Depois da reportagem sobre as propostas para a Saúde, a série temática chega à área da cultura e turismo. A Mangue vasculhou os planos dos candidatos ao Governo de Sergipe registrados no Tribunal Regional Eleitoral (TRE/SE) e traz aqui um resumo das propostas deles para a área, que podem ser úteis aos eleitores.

Em suas propostas de governo, os candidatos e a candidata observam a cultura a partir de duas dimensões: a identidade e a comercialização. De um lado, trazem propostas para fortalecer a cultura sergipana, mas sem muito detalhamento de como será feito. Do outro, enxergam a cultura como um grande potencial de exportar a imagem de Sergipe para além das fronteiras, com isso aplicando a cultura em diferentes frentes do turismo.

No entanto, não há, em nenhum programa, objetivos de preservar a diversidade religiosa do estado, visto que ela é fundamental tanto na vida cotidiana das pessoas como na estruturação de muitas manifestações culturais, como o Reisado, Taireia, Cacumbi e Chegança. Nos planos de Valmir de Francisquinho (Republicanos) e Taty Cristina (DC), a religiosidade aparece apenas como um fator de turismo religioso.

Apesar de apresentar propostas mais amplas para a cultura, Ricardo Marques (PL) afirma que implementará um calendário de festas religiosas, mas com o objetivo de aumentar o fluxo de turistas pelo estado. Para a área da cultura, o candidato propõe um forte incentivo, como “implantar uma política permanente de circulação cultural e formação de público”.

Dr. Helton (PSOL) traz uma proposta simplificada para a cultura, com a criação do projeto Culture-se, incluindo no planejamento quilombolas, ribeirinhos e indígenas, mas não acrescenta como esse fomento será realizado. Porém, para o turismo, o candidato foca os seus esforços em um caminho de profissionalização e educação, tanto de guias turísticos quanto da sociedade em aprender sobre a sua história.

Movimento semelhante acontece com as propostas de Emanuel Cacho (PSDB), em que utiliza a da importância social e identitária da cultura para atrair mais turistas, focando apenas no retorno financeiro que ela pode contribuir para o estado.

Taty Cristina (DC) apresenta uma proposta fraca em detalhes sobre como irá conduzir o fomento e a valorização da cultura, limitando-se apenas a “fortalecer” as áreas culturais e “ampliar” a circulação de artistas. 

Valmir de Francisquinho (Republicanos) separa as suas propostas em diferentes eixos: 1) cultura, em que afirma que irá valorizar o setor, mas sem apresentar como fará; e 2) economia criativa e empreendedorismo cultural, permanecendo em fortalecer as ações existentes, sem propor mudanças significativas.

O atual governador e candidato à reeleição, Fábio Mitidieri (PSD), não foge do que já vem sendo feito em sua gestão (2023-2026), que foi alvo de críticas sobre os contratos milionários com cantores de outros estados. Além disso, em seu plano de governo, o candidato, reconhecido pela promoção de grandes eventos, parece querer centralizar o investimento cultural na capital, Aracaju, fortalecendo cinco projetos que já acontecem no município e indicando apenas a criação de um projeto que irá circular pelos interiores.

A seguir, um resumo padrão das propostas dos planos dos candidatos para a cultura e o turismo:

O candidato olha para a cultura como um motor de turismo para o estado. Parece descartar o impacto que a cultura de Sergipe tem na vida dos sergipanos, principalmente para mestres e praticantes de expressões culturais, artistas, produtores, por exemplo. O foco do candidato está em investir na cultura para que seja um atrativo, não como uma preservação da identidade cultural do estado. “As cadeias criativas, das festas populares ao artesanato, da gastronomia ao audiovisual e à música, movimentam renda real e projetam a imagem do Estado para além de suas fronteiras. Tratá-las com profissionalismo é estratégia de desenvolvimento.”

Para realizar esse percurso, Emanuel Cacho (PSBD) afirma brevemente que “ o fomento será organizado em calendário permanente de editais públicos e transparentes, alcançando o audiovisual, as festas populares, tratadas como os ativos turísticos que efetivamente são, o artesanato e a gastronomia.”

Também está incluído em seu programa o aumento de rotas turísticas, em que promete “ampliar o fluxo turístico estadual mediante a estruturação de novos roteiros e a ampliação da conectividade aérea ao longo do mandato; instituir, em até vinte e quatro meses, calendário permanente de editais de fomento à cultura e à economia criativa; e apoiar continuamente a preservação e o uso sustentável do patrimônio histórico sergipano.“ Leia o plano na íntegra AQUI.

A proposta do candidato apresenta um esforço para potencializar o turismo por meio de bases comunitárias e profissionalização, ampliando a formação de escolas de turismo, focando no aumento de rotas turísticas pelo estado. Além de propor a inclusão de saberes populares, como indígenas, quilombolas e povos tradicionais na concepção de planos estratégicos. Com apenas o projeto “Culture-se”, a partir da criação de uma Rede e de um Fórum Estadual de Cultura Popular, o candidato pretende incluir um “fomento direto aos fazedores de cultura, criação e revitalização de espaços como bibliotecas, museus, teatros, centros culturais e rádios públicas, feiras, festivais e circuitos culturais permanentes para além do calendário tradicional, além de escolas públicas de idiomas, formação de público, economia solidária na cadeia da cultura e políticas específicas para povos indígenas, quilombolas e tradicionais.”

O maior foco de Dr. Helton (PSOL) está na profissionalização dos “trabalhadores da cultura”, com a promessa de realizar “concursos públicos, preservação do patrimônio, intercâmbio cultural e inclusão da cultura sergipana no currículo das escolas, assegurando acesso universal aos bens culturais como direito e não como mercadoria“

Além disso, apresenta o projeto Rede Estadual de Turismo de Base Comunitária que integra “pescadores, quilombolas, indígenas, artesãos, guias locais e mulheres”, idealizando a sua realização até 2028. Como também promete a criação da Escola Pública de Turismo Comunitário, em que serão ofertados “cursos gratuitos de guia local, cozinha tradicional sergipana, hospitalidade, gestão, idiomas e marketing digital.” Leia o plano na íntegra AQUI.

O plano apresenta um grande esforço em acentuar a produção cultural na capital, Aracaju. O fomento em outras produções culturais interioranas parecem ficar em segundo plano. Isso é observado quando em seu programa de governo afirma que “serão fortalecidos os eventos âncora (Arraiá do Povo, Verão Sergipe e as vilas temáticas da Páscoa, das Crianças e do Natal), já consolidados como marcas institucionais e de promoção do destino Sergipe”, sendo que apenas o programa Verão Sergipe chega em alguns municípios do estado, os outros concentram-se em Aracaju. 

Mas para fortalecer o setor cultural, Fábio Mitidieri (PSD) promete facilitar “a gestão dos equipamentos culturais, através de parcerias privadas e/ou OSC, simplificar o acesso aos editais e investir na formação de gestores e agentes culturais, bem como em ações de educação patrimonial, consolidando a cultura como instrumento de inclusão social, preservação da identidade sergipana e fortalecimento da economia criativa.”

O plano apresenta a proposta do projeto Circuito de Eventos Regionais, em que “visa descentralizar e interiorizar investimentos em cultura e turismo, fortalecendo a identidade sergipana, ampliando o fluxo turístico ao longo do ano, e impulsionar a economia criativa nos territórios” nas oito regiões do estado. Sobre o turismo, o candidato não apresenta propostas bem formuladas, apenas aposta na atração de eventos e negócios, além de vislumbrar a projeção da imagem de Sergipe para outros estados do Brasil. Leia o plano na íntegra AQUI.

Apesar de ter um plano mais amplo para a cultura em comparação aos demais candidatos, as propostas do candidato e vice-prefeito de Aracaju focam no incentivo da cultura e nos fazedores de cultura sergipanos. Porém apresenta apenas uma criação de projeto para isso, o “Programa Sergipe em Cena”, em que tem o intuito de “fortalecer a produção, difusão e projeção da cultura sergipana, com editais e programas específicos”. 

Para isso, Ricardo Marques (PL) promete “implantar uma política permanente de circulação cultural e formação de público, garantindo que espetáculos, exposições, shows, mostras, festivais, oficinas, livros, filmes, ações formativas e manifestações populares circulem entre capital, interior, comunidades rurais, periferias urbanas e territórios tradicionais.“

O plano do candidato também observa o investimento nas culturas locais como um atrativo turístico e de circulação de renda. ““Promover a estruturação, qualificação e comercialização de grandes rotas turísticas integradas, abrangendo os circuitos fluviais e rurais do Alto Sertão, a Rota do Cangaço, a Rota dos Umbuzeiros, as rotas do Rio São Francisco, os corredores turísticos do Litoral Sul, a Rota dos Engenhos, os circuitos da citricultura, da cerâmica, do artesanato, do turismo religioso, das serras, do ecoturismo e das comunidades tradicionais.” Leia o plano na íntegra AQUI.

As propostas da candidata parecem condensar todos os setores culturais em um mesmo balaio. A falta de propostas concretas e visíveis faz sentir uma fraqueza na governança, em que não fica claro como a candidata enxerga esse setor, a sua importância e como ele opera. Apenas afirma que irá “fortalecer música, dança, teatro, audiovisual, literatura, artes visuais e culturas populares”, “integrar cultura, turismo e economia criativa” e “ampliar circulação de artistas pelo interior e fora do Estado”, sem mostrar como isso tudo será feito.

Para o turismo, Taty Cristina (DC) promete que “será tratado também como política de geração de emprego e renda, conectando hotéis, restaurantes, transporte, guias, artistas, artesãos, produtores culturais e comércio. Leia o plano na íntegra AQUI.

As propostas de Valmir de Francisquinho (Republicanos) são divididas em cinco eixos. No entanto, parecem apenas se importarem com o aumento vantajoso de lucro para o governo. A importância social desse setor vai para escanteio, principalmente quando o candidato promete fortalecer as ações que já realizadas do governo atual, mesmo afirmando que “a cultura será compreendida como política pública essencial, instrumento de cidadania, educação, inclusão social e desenvolvimento econômico.“

No eixo da cultura, o plano apresenta os programas “Revitalizar Sergipe”, com o foco em recuperar espaços históricos, e o “Cultura em Todo Lugar”, em que tem o objetivo de fomentar ações culturais nos interiores do estado. Porém não há explicações sobre a forma que esses projetos serão articulados e como os municípios poderão receber os auxílios.

O eixo de turismo é o que apresenta maior destaque a partir de projetos como o “Programa Destino Sergipe 2035”, em que visa “Instituir uma política estadual integrada de desenvolvimento turístico”, o “Programa Rotas Integradas do Turismo Sergipano”, propondo uma expansão das rotas turísticas do estado, e o “Programa Aeroporto e Turismo Regional”, prometendo “ampliar a conectividade aérea de Sergipe mediante articulação com companhias aéreas, Governo Federal e setor privado.”

Já no eixo de economia criativa e empreendedorismo cultural, o candidato afirma que irá fortalecer os mais diversos setores, mas sem apresentar como esse fomento será realizado. Além de destacar o fortalecimento do artesanato e do audiovisual, como também o estímulo de jovens empreendedores pelo “Programa Juventude Criativa”. Leia o plano na íntegra AQUI.

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Valter Davi

Jornalista (DRT 2945/SE) e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Sergipe (PPGCOM/UFS), em que pesquisa Narrativa de Sofrimento no campo do Jornalismo. Fotojornalista e escritor, atua como repórter e tem experiência em assessoria de comunicação.

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