Aracaju está no topo nacional de gastos com grandes shows. Dossiê aponta conexões de cachês milionários com poder político

Levantamento do observatório De Olho nos Ruralistas aponta R$ 39,2 milhões em cachês pagos a artistas investigados, além de analisar relações entre emendas Pix, famílias políticas e grandes eventos em Sergipe e no cenário nacional.

Os palcos das grandes festas de junho em Sergipe se tornaram também cenário de uma disputa por visibilidade, recursos públicos e influência política. A capital Aracaju foi a cidade brasileira que mais gastou com cachês de artistas analisados por um levantamento sobre grandes eventos financiados pelo Poder Público. Entre janeiro de 2024 e março de 2026, o estudo contabilizou R$ 39,27 milhões em contratações de artistas realizadas na capital sergipana, somando os principais eventos promovidos pelo governo estadual e pela prefeitura. Esse montante faz da cidade liderar o ranking nacional elaborado pelo observatório De Olho nos Ruralistas.

A maior parte dos recursos está concentrada nos dois maiores festejos juninos realizados em Aracaju: o Arraiá do Povo, promovido pela gestão Fábio Mitidieri (PSD) na Orla de Atalaia, que respondeu por cerca de R$ 24 milhões em contratações, e o Forró Caju, organizado pela gestão Emília Corrêa (Republicanos) na Praça dos Mercados, com aproximadamente R$ 13 milhões em cachês. Embora sejam eventos promovidos por entes distintos, o levantamento considera o total de contratações realizadas na cidade para compor o ranking nacional.

Os números aparecem no dossiê Farras, que analisou contratos firmados com os 40 artistas que mais receberam recursos de governos estaduais e municipais no período. Além dos valores pagos em cachês, o estudo cruza informações sobre emendas Pix, vínculos familiares entre agentes políticos, empresas do setor de entretenimento e a expansão das plataformas de apostas esportivas.

Segundo os pesquisadores, o objetivo não é apenas dimensionar os gastos públicos com grandes shows, mas identificar padrões de concentração de recursos e de articulação política em torno desses eventos. É nesse contexto que o estudo utiliza a expressão “coronelismo cultural” para descrever redes locais de influência estruturadas em torno de grandes festas populares, circulação de recursos públicos e fortalecimento de grupos políticos.

O levantamento também mostra que o Nordeste concentrou 72% de todos os valores pagos aos artistas analisados no período, consolidando a região como principal mercado de contratação pública de grandes atrações musicais. 

Tonsk Fialho, pesquisador e repórter do Observatório, explica que o relatório não questiona o investimento público em cultura ou em shows, mas procura entender como esse mercado funciona e como essas empresas passaram a controlar uma parcela significativa dos contratos públicos.

”Esperamos provocar uma discussão sobre a concentração do mercado. O relatório não é contra o investimento público em cultura nem contra grandes festas populares, como os festejos juninos de Petrolina ou Caruaru”, disse ele, em entrevista à Mangue. “Pelo contrário: são eventos importantes e devem continuar existindo. A questão é entender por que os recursos acabam concentrados em um número tão pequeno de artistas e produtoras, enquanto tantos outros artistas locais e regionais ficam fora desse circuito”. 

A reportagem solicitou manifestação ao Governo de Sergipe e à Prefeitura de Aracaju. A gestão estadual informou em nota que “a contratação das atrações que integram a programação dos festejos juninos observa rigorosamente a Lei nº 14.133/2021 e a jurisprudência consolidada do Tribunal de Contas da União (TCU)”. Além disso, ressaltou que “escolha das atrações é pautada por critérios técnicos e pelo interesse público, considerando a relevância cultural dos artistas, sua consagração perante a opinião pública ou pela crítica especializada, a adequação ao perfil dos festejos, a diversidade da programação, o potencial de atração turística, a disponibilidade de agenda e a compatibilidade dos valores com aqueles praticados pelo mercado”. Veja a íntegra ao final desta mantéria. A prefeitura não se manifestou até o momento.

(Créditos: Reprodução/Dossiê Farras/De Olho nos Ruralistas)

A capital sergipana no topo das ‘farras’

No recorte dedicado a Sergipe, Aracaju ocupa posição central por reunir alguns dos maiores contratos firmados com artistas nacionais e locais durante os festejos juninos. Um dos casos citados é o do cantor Wesley Safadão, que recebeu ao menos R$ 7,5 milhões em cachês por meio da empresa Camarote Shows, que o agencia. Os valores foram referentes a apresentações realizadas na cidade desde 2024.

O estudo também chama atenção para um um episódio ocorrido durante o Forró Caju do ano passado. Após subir ao palco para sua apresentação, o cantor convidou a prefeita Emília Corrêa (Republicanos) para participar do show. Na ocasião, o deputado federal Thiago de Joaldo, que à época estava no PP (ele migrou para o Republicanos em abril, de olho nas eleições deste ano) anunciou a intenção de destinar emendas parlamentares para viabilizar uma futura contratação do artista, que voltou a se apresentar na festa em junho.

Para Tonsk, episódios como esse fazem parte da análise sobre a aproximação entre artistas, gestores públicos e parlamentares em eventos financiados pelo Poder Público. “O estudo cita ainda situações públicas envolvendo artistas e agentes políticos, como manifestações de apoio em eventos e participações em campanhas, além de destacar que empresários do setor e artistas de grande projeção já responderam a ações na Justiça Eleitoral relacionadas a esse tipo de atuação. Aracaju representa um dos casos mais emblemáticos para compreender como o mercado de shows públicos se cruza com estratégias de visibilidade política e concentração econômica”.

(Créditos: Felipe Bass/PMA)

O dossiê também destaca o menor estado do País pelo lado dos cantores, com o exemplo de Natanzinho Lima. Sergipano de Itabaiana, no agreste do estado, o artista aparece no levantamento como um dos que mais receberam recursos públicos entre os nomes analisados. Foram cerca de R$ 2,1 milhões por apresentações realizadas em Aracaju desde 2024, de acordo com o estudo, que aponta ainda uma forte valorização do cachê do cantor nos últimos anos.

Em junho de 2025, o governo de Sergipe contratou Natanzinho para uma apresentação no Arraiá do Povo ao custo de R$ 850 mil. O valor, diz o documento, é 34 vezes maior que o recebido por ele quando participou do mesmo evento um ano antes. Paralelamente ao avanço no cachê, o relatório também registra a busca de projeção política por familiares do cantor. 

Trata-se da reunião entre o empresário e pai do artista Éverton Nascimento, conhecido como Fiote das Castanhas, com o governador Fábio Mitidieri em dezembro passado. À época, a imprensa se apressou em noticiar que a tal reunião tinha o pleito deste ano como pano de fundo. Mitidieri lidera o diretório do PSD no estado e, na ocasião, teria oferecido o partido para que Fiote concorresse a uma vaga na Câmara dos Deputados; também surgiram rumores de que o pai de Natanzinho também fora convidado a integrar as fileiras do União Brasil, sigla chefiada em Sergipe pelo ex-deputado e pré-candidato ao Senado André Moura. 

No fim, Fiote filiou-se ao PP e, depois, migrou para o Partido Liberal, cujo líder no estado é o deputado bolsonarista Rodrigo Valadares. A possibilidade do voo nacional chegou a ser mencionada por Natanzinho em um dos shows que realizou em 2025. “Não foi no momento certo, mas eu amo muito meu pai. Eu não queria isso para ele, mas estou com meu pai até o fim. É melhor apoiar meu pai do que apoiar outra pessoa”, disse.

O pai de Natanzinho Lima ao lado do governador Fábio Mitidieri. (Créditos: Reprodução/Instagram) 

Além da capital: cidades do interior também aparecem no mapa dos grandes cachês

Embora Aracaju concentre os maiores valores absolutos do levantamento, o dossiê elaborado pelo De Olho nos Ruralistas aponta que o interior de Sergipe também participa desse circuito de grandes contratações públicas de artistas.

O caso mais expressivo é Itabaiana, município conhecido como “capital nacional do caminhão” e cidade natal do cantor Natanzinho Lima, artista apontado pelo relatório como líder nacional em contratos públicos entre os nomes analisados.

Segundo o levantamento, a cidade hoje governada por Zequinha da Cenoura (Republicanos) ocupa a 10ª posição no ranking nacional de gastos com shows, com R$ 14 milhões investidos em contratações no período analisado. O município também aparece no capítulo sobre emendas Pix e vínculos familiares na política, por envolver relações entre o ex-prefeito Valmir de Francisquinho (Republicanos) e o deputado federal Ícaro de Valmir (Republicanos), seu filho. Em março, a Mangue revelou que quase metade das emendas Pix enviadas por Ícaro em 2025 foram alocadas para Itabaiana, à época chefiada pelo seu pai.

Areia Branca também aparece em destaque no levantamento. O município, cujo prefeito é o Talysson de Valmir, filho de Valmir de Francisquinho, ocupa a 3ª posição entre as cidades onde os gastos com shows representam a maior proporção do orçamento público. Lá foram destinados R$ 2,54 milhões para apresentações, valor equivalente a 2,27% de todas as despesas empenhadas pela prefeitura em 2024.

Já Itabi aparece na 11ª colocação no ranking de impacto orçamentário. Segundo o relatório, o município gastou R$ 550 mil em shows, valor que correspondeu a 1,64% do orçamento municipal. A cidade é governada por Gabi de Lica (PP). 

O levantamento também cita Indiaroba e Santa Luzia do Itanhy por realizarem festas voltadas a comunidades tradicionais, como eventos dedicados aos pescadores, que contrataram artistas presentes no chamado “Top 40” analisado pelo observatório.

Para os pesquisadores, esses casos se diferenciam por não estarem ligados apenas ao circuito tradicional de grandes vaquejadas e eventos associados ao agronegócio, mas também demonstram como artistas de alcance nacional passaram a ocupar diferentes tipos de celebrações financiadas pelo poder público.


Famílias políticas e emendas Pix: três municípios sergipanos entre os 20 primeiros do ranking

O levantamento elaborado pelo observatório também criou um ranking nacional de municípios que receberam emendas Pix de parlamentares com vínculos familiares diretos com prefeitos. Nesse recorte, três cidades sergipanas aparecem entre as 20 primeiras colocadas.

Areia Branca aparece na 16ª posição do ranking por ter recebido cerca de R$ 2,4 milhões em emendas Pix destinadas por Ícaro de Valmir (Republicanos), irmão do prefeito. Durante o período analisado pelo estudo, a cidade contratou 16 shows de artistas incluídos no levantamento e teria destinado mais de R$ 2,5 milhões em cachês.

Itabaiana aparece logo depois, na 17ª posição. O município recebeu, segundo o dossiê, mais de R$ 14 milhões em emendas Pix enviadas por Ícaro. No mesmo período, houve a contratação de 26 apresentações dos artistas analisados, com mais de R$ 14 milhões pagos em cachês.

Já Lagarto ocupa a 18ª posição. De acordo com o levantamento, o município administrado por Sérgio Reis (PSD) recebeu mais de R$ 2,9 milhões em emendas Pix enviadas pelo deputado federal Fábio Reis (PSD), seu irmão. Foram 19 contratações de artistas analisados pelo Observatório desde 2024, com gastos superiores a R$ 10 milhões em cachês.

O dossiê ressalta, porém, que a existência dessas relações não significa que as emendas Pix tenham sido utilizadas diretamente para financiar os shows. A análise apresentada pelos autores busca discutir uma possível conexão entre redes políticas locais, distribuição de recursos públicos e investimentos em grandes eventos.
Além dos cachês pagos aos artistas, outro eixo do dossiê Farras analisa a relação entre emendas Pix, parentesco político e realização de grandes eventos. (Créditos: Reprodução/Dossiê Farras/De Olho nos Ruralistas)

Arraiá do Povo e Forró Caju concentram artistas entre os maiores contratos públicos do país

As duas maiores festas juninas realizadas em Aracaju no ano de 2026, o Arraiá do Povo, promovido pelo Governo de Sergipe, e o Forró Caju, organizado pela Prefeitura de Aracaju, reúnem em suas programações uma parcela significativa dos artistas que aparecem no relatório Farras entre os nomes que mais receberam recursos públicos no Brasil. Segundo o levantamento, diversos artistas confirmados nos eventos integram o chamado “Top 40”, grupo formado pelas atrações que acumularam os maiores valores em contratos públicos entre 2024 e 2026.

Entre os nomes presentes nas duas programações está Natanzinho Lima, artista sergipano apontado pelo dossiê como líder nacional em valores contratados, com R$ 158,17 milhões acumulados e 336 apresentações identificadas pelo estudo. O cantor foi atração dos dois festejos em meio a uma trajetória de crescimento acelerado dos cachês. Também aparecem nas programações artistas como Wesley Safadão, Simone Mendes, Calcinha Preta, Zé Vaqueiro, Seu Desejo, Pablo, Taty Girl, Dorgival Dantas, Murilo Huff, Limão com Mel e Solange Almeida, todos citados pelo relatório entre os artistas que concentram dezenas de milhões de reais em contratos públicos.

No Forró Caju 2026, a programação reuniu nomes como Wesley Safadão, Elba Ramalho, Mestrinho, Simone Mendes, Natanzinho Lima e Calcinha Preta, além de outras atrações que aparecem no levantamento, como Pablo, Zé Vaqueiro, Seu Desejo, Dorgival Dantas, Murilo Huff, Eric Land, Limão com Mel e Solange Almeida. A festa contou com 109 atrações musicais, segundo a Prefeitura de Aracaju, com mais de 67% dos artistas anunciados sendo sergipanos.

Para os pesquisadores responsáveis pelo dossiê, a presença recorrente desses artistas em grandes eventos financiados pelo poder público revela um processo de concentração do mercado de shows, no qual um grupo reduzido de atrações circula por diferentes municípios e estados, acumulando contratos milionários. 

O levantamento também destaca que gêneros como piseiro, arrocha e forró eletrônico passaram a dominar parte expressiva dessas contratações, especialmente no Nordeste, região que concentrou 72% dos valores pagos aos 40 artistas analisados.

Além dos cachês, o relatório chama atenção para as conexões entre esse mercado musical e outros setores, como o das plataformas de apostas esportivas. Artistas presentes nos festejos sergipanos, como Wesley Safadão e Natanzinho Lima, são citados no estudo pela relação com marcas de bets e pela transformação dos grandes shows em espaços de divulgação dessas empresas.

(Créditos: Reprodução/Dossiê Farras/De Olho nos Ruralistas)

Bets, patrocínios e a nova economia dos grandes shows

Um dos capítulos mais controversos do dossiê Farras relaciona a expansão das casas de apostas esportivas, conhecidas como bets, ao financiamento e à promoção de grandes eventos culturais em todo o Brasil.

O relatório classifica Aracaju como um dos chamados “Betmunicípios”, termo utilizado pelos pesquisadores para identificar cidades onde eventos públicos com grandes investimentos em artistas possuem conexão com marcas de apostas ou loterias.

Um dos exemplos citados é o Arraiá do Povo 2025, que teve a Loteria do Estado de Sergipe (Lotese) como patrocinadora. Segundo o levantamento, o evento esteve associado a um valor de R$ 11,43 milhões. Lançada em maio passado, a Lotese estreou oferecendo cassinos virtuais, como o jogo do tigrinho. Em meio à repercussão negativa, o governador Fábio Mitidieri (PSD) determinou a exclusão dos games da plataforma, mas a oferta foi retomada em março deste ano. 

Na economia do País e das famílias, as consequências das chamadas bets já são sentidas na pele e são motivo de preocupação para autoridades: elas vão do aumento do endividamento e da diminuição de recursos para itens básicos ao adoecimento mental e até suicídio. 

Quase metade da renda dos brasileiros está comprometida em dívidas com instituições financeiras, segundo a autoridade monetária. Há seis anos, em janeiro de 2019 – antes da legalização das apostas online –, esse percentual era de 39%.

Reportagem da Mangue Jornalismo publicada em 4 de agosto de 2025 contou, no detalhe, as histórias dos aracajuanos que perderam tudo em razão da ludopatia — como é chamada a doença das pessoas viciadas em jogos de aposta, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A reportagem da Mangue recebeu o título: “Perdi meu apartamento por causa de jogos de azar online”, os relatos de pessoas em Aracaju viciadas em apostas.

Estudo divulgado em março pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo em parceria com a FIA Business School mostra que as apostas já despontam como principal fator associado ao endividamento familiar no Brasil. O impacto é quase o dobro daquele provocado pelos juros — mesmo em patamares historicamente elevados — e pelo crédito. A análise indica ainda que, a cada aumento de 1% no volume de apostas, o endividamento cresce 0,23%.

Por outro lado, um levantamento encomendado pelo Senado ao Banco Central e divulgado em agosto de 2024 ajuda a dimensionar quem são os brasileiros que sustentam esse mercado. A maior concentração está entre jovens de 20 a 30 anos. Nessa faixa etária, o gasto médio gira em torno de R$ 100 por mês. Entre idosos, porém, o cenário muda drasticamente: usuários com mais de 60 anos chegam a desembolsar mais de R$ 3 mil mensais. 

Para os pesquisadores, a presença dessas bets no financiamento de grandes festas cria uma aproximação entre entretenimento, publicidade e o mercado de apostas, especialmente porque muitos dos artistas contratados também atuam como divulgadores dessas plataformas.

O principal caso analisado em Sergipe é novamente o de Natanzinho Lima, cuja projeção nacional teria ocorrido após uma live de lançamento da Ganha Bet, em agosto de 2024. A plataforma era uma sociedade entre os cantores Wesley Safadão e Gusttavo Lima, e o crescimento da carreira do artista sergipano teria ocorrido em meio a uma disputa empresarial envolvendo os dois artistas nacionais, que atuavam como seus apoiadores. 

Também há no estudo menções a Natanzinho e Safadão como exemplos de artistas que seriam “embaixadores” de bets, devido ao fato de associarem suas imagens a marcas do setor.

De acordo com o dossiê, em municípios que recebem eventos patrocinados por casas de apostas, como Aracaju, a população apresentou uma média de apostas 61% superior à média nacional. Em Sergipe, o governo do Estado e Prefeitura de Aracaju somaram aproximadamente R$ 37 milhões em investimentos em shows de artistas que, em sua maioria, possuem algum vínculo de divulgação com plataformas de apostas.

Outro lado: governo Mitidieri diz que contratações são pautadas por ‘critérios técnicos e interesse público

Confira a nota enviada nesta quinta-feira (9) pela assessoria de comunicação do governo de Sergipe:

1. Quais os critérios utilizados para a escolha das atrações contratadas para os festejos juninos?
O Governo de Sergipe informa que a contratação das atrações que integram a programação dos festejos juninos observa rigorosamente a Lei nº 14.133/2021 e a jurisprudência consolidada do Tribunal de Contas da União (TCU) [https://licitacoesecontratos.tcu.gov.br/5-10-1-2-artista-consagrado-pela-critica-ou-pela-opiniao-publica-inciso-ii/]. A escolha das atrações é pautada por critérios técnicos e pelo interesse público, considerando a relevância cultural dos artistas, sua consagração perante a opinião pública ou pela crítica especializada, a adequação ao perfil dos festejos, a diversidade da programação, o potencial de atração turística, a disponibilidade de agenda e a compatibilidade dos valores com aqueles praticados pelo mercado.

As contratações são realizadas por inexigibilidade de licitação, conforme prevê o art. 74, inciso II, da Lei nº 14.133/2021, que dispõe ser inexigível a licitação para a “contratação de profissional do setor artístico, diretamente ou por meio de empresário exclusivo, desde que consagrado pela crítica especializada ou pela opinião pública”.

O Governo de Sergipe também segue a recomendação do TCU, quando orienta que a comprovação da compatibilidade dos preços deve considerar contratações semelhantes realizadas pelo mesmo artista, observando as especificidades do mercado artístico, e não comparações entre artistas distintos. Da mesma forma, o Tribunal consolidou o entendimento de que a consagração exigida pela lei pode decorrer da crítica especializada ou da opinião pública, bastando a comprovação de um desses requisitos.

2. Qual a justificativa para os valores dos cachês pagos aos artistas citados pelo levantamento?
Os valores dos cachês correspondem aos preços praticados pelo mercado do entretenimento e são previamente analisados pela Administração Pública, conforme determinam os artigos 23 e 72 da Lei nº 14.133/2021, que exigem a demonstração da compatibilidade do preço com os valores praticados no mercado.

O Tribunal de Contas da União também orienta que essa compatibilidade seja aferida a partir de apresentações semelhantes realizadas pelo próprio artista, considerando características como período do ano, local da apresentação e demais condições da contratação.

É importante considerar que o período junino representa a maior temporada de apresentações para artistas ligados ao forró e aos gêneros tradicionalmente associados às festas de São João. Como ocorre em qualquer segmento econômico, a elevada demanda concentrada nesse período influencia diretamente a formação dos preços.

Para os festejos juninos organizados pelo Governo do Estado, não houve contratação de artistas por valores fora dos parâmetros praticados pelo mercado. Os cachês observam a realidade nacional do setor e refletem a notoriedade das atrações contratadas, circunstância expressamente reconhecida pela Lei nº 14.133/2021 ao admitir a contratação direta de artistas consagrados.

O reconhecimento público dessas atrações é amplamente comprovado pela capacidade de mobilizar milhares de pessoas na Praça de Eventos da Orla da Atalaia, contribuindo para ampliar o fluxo turístico, fortalecer a economia e consolidar Sergipe como um dos principais destinos juninos do país.

3. Quais os impactos econômicos, culturais e turísticos dos investimentos realizados no Arraiá do Povo?
Os dados consolidados de 2026 ainda estão sendo elaborados pelo Observatório de Sergipe, uma vez que o ciclo junino segue até o encerramento da programação de julho. Mas os indicadores de 2025 evidenciam de forma muito precisa a dimensão dos impactos gerados.

No último ano, foram investidos na realização do ciclo junino R$ 40 milhões, com recursos próprios e oriundos de patrocínios, resultando em mais de R$ 250 milhões em circulação direta no estado. Ao longo do período foram registradas mais de 2,5 milhões de participações em todo o estado e a chegada de mais de 219 mil turistas.

Os impactos também alcançaram diversos segmentos da economia. Ao todo, 104 atividades econômicas foram potencialmente beneficiadas pelos festejos, 66.545 pessoas estiveram envolvidas no mercado formal de trabalho relacionado ao período e Sergipe alcançou o recorde histórico de 348.849 empregos formais em junho de 2025. A taxa média de ocupação hoteleira durante o São João chegou a 77%, enquanto a arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS) registrou crescimento de 12,5% em comparação com junho de 2024.

Esses resultados demonstram que os impactos inegáveis dos investimentos realizados pelo Estado vão muito além da realização de espetáculos musicais. Os festejos impulsionam o turismo, fortalecem o comércio, movimentam os setores de hotelaria, alimentação, transporte e serviços, estimulam a economia criativa e geram emprego e renda para milhares de sergipanos.

4. Como o Governo avalia a relação apontada pelo dossiê entre grandes contratos públicos, artistas e o mercado de entretenimento?
O Governo de Sergipe entende que a contratação de artistas de projeção nacional constitui um instrumento legítimo de execução de políticas públicas, desde que observados, com rigor, os requisitos previstos na legislação, o que ocorre em todas as contratações realizadas pelo Estado de Sergipe.

É importante destacar que, em Sergipe, a análise das contratações não pode ser feita sob a ótica de apresentações isoladas. O ciclo junino promovido pelo Governo de Sergipe reúne mais de 60 dias de programação, distribuídos entre o Arraiá do Povo, a Vila do Forró, a Segundona do Turista, a programação da Tradicional Rua São João, o Arrastapé do 18, os Concursos de Quadrilhas do Arranca Unha e do Gonzagão e o Arrasta Fé.

A programação não é direcionada apenas aos grandes shows. A valorização da cultura sergipana é um dos pilares dos eventos. Entre 29 de maio e 28 de junho deste ano, o Arraiá do Povo contou com 117 atrações, sendo 72 sergipanas, o equivalente a 61% da programação, e 45 atrações nacionais. Já a Vila do Forró mantém programação integralmente composta por artistas e manifestações culturais do estado. Entre 29 de maio e 28 de junho foram realizadas 216 apresentações e, até o encerramento da programação, serão mais de 400 atrações, todas sergipanas, entre bandas, trios pé de serra, grupos folclóricos e espetáculos teatrais.

Dessa forma, a contratação de grandes artísticas é uma ação complementar, que se soma às demais iniciativas que ampliam o fluxo turístico e promover o destino Sergipe, ao fortalecimento da produção cultural local, garantindo espaço e investimento permanente nos artistas e nas manifestações tradicionais do estado.”

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Gabriella Salmeron

É jornalista, pesquisadora e criadora de conteúdo com atuação em jornalismo cultural e reportagens investigativas que atravessam temas como feminino, primeira infância, cultura digital, crimes ambientais e direitos humanos. Especializada em cultura pop, cinema e audiovisual, também desenvolve trabalhos sobre fandoms, comportamento nas redes e experiências de consumo digital.

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