
Com mais de cem filmes produzidos, Carlos Pronzato ainda insiste em manter as suas técnicas milenares. Não gosta de entrevistas curtas, é no diálogo que as suas fontes vão construindo o filme. Com a câmera na mão, Pronzato saiu pelo mundo afora capturando histórias de luta, guerrilha e revolução.
No mês passado, o cineasta aportou em Sergipe com duas missões. Ao chegar nas terras do Serigy, Pronzato foi à Universidade Federal de Sergipe e exibiu o seu documentário “Colônia Cecília — um sonho anarquista” no lançamento da disciplina do Programa de Pós-graduação em História sobre o anarquismo. O documentário tece a história da colônia paranaense que foi movida pelo desejo de libertação, seja do amor ou da política baseada em premissas anarquistas, visto que o Brasil se aventurava em um novo regime federalista no início dos anos 1890.
O outro foco de Pronzato aqui por Sergipe foi dar continuidade a produção do seu novo documentário sobre o sociólogo Clóvis Moura, que neste ano celebra seu centenário de nascimento. Movido por datas marcantes que ressoam pela memória, Pronzato se sente instigado em produzir filmes que registram momentos essenciais da história de luta política do Brasil e da América Latina.
“Eu vou me ligando muito no centenário porque são momentos que não acontecem nada politicamente, só acontece na política institucional, muito não me interessa. Não tem ocupações de escolas, como já fiz muito [documentário], não tem ocupações de prédios… a sociedade está hipnotizada, alienada com o xandão e a política institucional de Bolsonaro, então tudo puxa essa força centrífuga para estar na internet todo dia, falando bem ou falando mal, e ninguém faz nada. Então eu aproveito e faço esses filmes que tem a ver com memória histórica, aguardando que aconteça alguma coisa”, disse Pronzato.
Em setembro de 2023, a Mangue Jornalismo colocou no site o documentário “Desmascarando o Marco Temporal. Os Laklanõ Xokleng e a repercussão geral”, de Carlos Pronzato. Assista aqui.

Sobre o filme de Clóvis Moura, Pronzato afirma estar nos momentos iniciais, em cerca de 25% produzido. Mas a sua vontade é de que o documentário já esteja pronto em meados de novembro ainda deste ano. Clóvis Moura foi um piauiense que faleceu no ano de 2003, deixando um legado importantíssimo para os estudos brasileiros, no que diz respeito ao marxismo e às raízes negras do Brasil.
Moura foi um intelectual que por muito tempo não foi aceito pela academia. Os seus estudos revelam camadas do Brasil marcadas pela escravização, revoltas da classe trabalhadora, a libertação do ser humano da coisificação e as raízes do povo preto que sustentaram e sustentam o país.
Durante o processo de produção, Pronzato percebeu que não faria tanto sentido chamar apenas pesquisadores de Moura para compor o seu filme, visto que as reflexões do intelectual não estão presentes apenas dentro das academias. “Em algum momento eu tive o start de chamar a militância também para o filme, porque ia ser um filme só de pesquisadores, eu já tenho algumas figuras importantes, tanto na Bahia quanto aqui [Sergipe], pessoas que não são precisamente da área acadêmica, mas são da área de luta que o Clóvis Moura pregava, que era uma sociologia da práxis”, explicou Pronzato.
A luta pelo reconhecimento de Moura como um intelectual que debate e reflete questões sociais, foi o que motivou ainda mais Pronzato a seguir construindo a história de Clóvis Moura pelas lentes. “Eu me identifico muito com esse tipo de proposta de inserção na sociedade, de você não ficar encastelado numa cúpula de de cristal, e olhar o mundo de cima da tua intelectualidade, eu acho que tem que estar com os pés no chão. A história se escreve no chão.”
A Mangue Jornalismo já publicou uma entrevista com Pronzato, um cineasta que não se rende ao sistema. Na conversa, em agosto de 2023, ele afirmou: “Meu gesto político é poético e reivindica a luta popular na rua”. Leia a entrevista aqui.
História marcada pela luta e pelo cinema
Carlos Pronzato nasceu na Argentina e radicou no Brasil. Logo cedo, aos 18 anos, começou a adentrar no mundo da sétima arte. Influenciado pelo seu pai, Victor Proncet, também cineasta, Pronzato viu no cinema um lugar de mudança e de memória. O filme “Os Traidores” (1973), de Proncet, foi filmado clandestinamente e, quando foi lançado, recebeu uma censura por 10 anos enquanto o peronismo se ascendia. Pronzato só foi conseguir ver o filme do seu pai anos mais tarde no México, longe de casa.
De México a Portugal, o documentarista saiu por esse mundo coletando informações que fazem refletir o estado político de diferentes territórios. “Fui ao México direto em 1982, rodei todos os continentes de carona, trabalhando em tudo o que você imaginar, e cheguei em 1989 no Brasil, então todo esse estudo prático que eu fiz durante anos, na América Latina, na América Central, no meio das guerrilhas, Colômbia, Peru, tudo termina aqui, no Brasil.”

Pronzato passou por Sergipe algumas vezes, daqui produziu dois documentários sobre sergipanos. O primeiro, “José Calasans, tradutor do sertão” (2011), que mergulha no percurso do historiador que virou referência nos estudos sobre a Guerra de Canudos. O segundo, “Por que não se fala em Manoel Bomfim?” (2018), busca dar visibilidade a um pensador que acreditava no povo e na sua libertação.
Para ele, os filmes são armas de mudança social e nada lhe emociona mais do que ver as suas produções sendo propulsoras de debates. “Eu sou um agitador, sempre fui, desde criança. A partir desse todo meu trabalho eu dei causa a toda minha revolta com causa, porque eu fico feliz que as pessoas utilizam os materiais em todo o país, fazem debates, promovem ações políticas, sociais, e isso para mim é fundamental. O filme tem que servir, tem que ser uma arma de transformação social, agora qual seria essa transformação como um todo, no mundo macro, eu não sei, eu trabalho nas questões mais localizadas, territoriais, eu não sei como seria a nível do Estado, isso aí é outra história, é muito complexo, são interesses de multimilionários, são interesses de empresas que têm relações com máfias internacionais, então aí já é outro foco, eu prefiro trabalhar essas questões da memória.”
O cineasta vai produzindo os seus filmes ao redor de muitas pessoas, a maioria encontra pelo caminho que passa, nunca está só. É na coletividade que ele acredita, no fazer com muitas mãos para gerar mudanças. Um otimista inconformado por natureza. “Cada filme é uma cabeça de um diretor, de um grupo, é um processo coletivo, como toda arte. Toda arte é justamente uma tentativa de criar um mundo novo, o artista está para isso, para confrontar, para dificultar, para incomodar, é isso que é um artista.”


