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Vem aí a Afropédia Sergipana. O portal do Kizomba do Saberes reunirá conteúdos didáticos afro-sergipanos e biografias de personalidades negras

DÍJNA TORRES, da Mangue Jornalismo

Você conhece histórias de pessoas negras sergipanas que contribuíram para a construção da história e da cultura em Sergipe? Ótimo, então envie um texto sobre isso até 31 de maio, através do formulário (AQUI). Sua participação é muito importante para a construção de um portal que pretende reunir em um só local informações e trabalhos a respeito da cultura negra em Sergipe. Trata-se de um espaço que pretende colocar em evidência vozes negras historicamente silenciadas, biografias de personalidades negras sergipanas já falecidas e apagadas historicamente.

Ao final, esse trabalho resultará na Afropédia Sergipana, que é parte do Projeto Kizomba do Saberes, organizado pelo Grupo de Estudos e Pesquisa sobre História da África e Diáspora Africana (GEPHADA) e ligado ao Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe (UFS). O projeto conta com o apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do estado de Sergipe (Fapitec-SE). Esse trabalho é coordenado pela professora Mariana Bracks Fonseca (UFS).

Kizomba, do kimbundo, significa “reunião, ajuntamento, festa, festejo, divertimento”, e isso inspira o grupo idealizador do portal a criar esse espaço de encontro e de valorização dos vários tipos de saberes que permeiam a história e a cultura afro-sergipanas. Assim, o portal Kizomba dos Saberes, nossa Afropédia Sergipana, será uma plataforma inédita no cenário das tecnologias educacionais disponíveis para o público de docentes e discentes em Sergipe e no mundo.

“Atualmente, o corpo docente dos sistemas de ensino básico de Sergipe tem poucas condições de inserir a temática da cultura afro-sergipana em suas aulas: ou ele ignora o tema, desrespeitando a legislação, ou utiliza materiais de outras localidades que não refletem os processos históricos e identitários vivenciados no Estado”, afirma Mariana Bracks.

Para a professora do Departamento de História da UFS, o desconhecimento das histórias construídas pelos africanos e seus descendentes implica na não aceitação da identidade negra na sociedade sergipana. “À medida que reconhecemos a importância, beleza e riqueza da história e do patrimônio afro-sergipano, as crianças e jovens negros passam a ter orgulho desta identidade e se sentem pertencentes a esta nação, cidadãos dispostos a agir e contribuir para o desenvolvimento da sociedade”, ressaltou Mariana.

Quase 80% de negros em Sergipe

De caráter estrutural e sistêmico, a desigualdade entre brancos e negros na sociedade sergipana é inquestionável e persiste com a fragilidade de políticas públicas para o seu enfrentamento. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por exemplo, Sergipe é um Estado onde 79,7% de sua população se autodeclaram negros (pretos e pardos) no último censo. Este é um número expressivo que aponta para a força legatária oriunda da presença de africanas e africanos e seus descendentes que foram escravizados no Estado.

Entretanto, ao reconhecer esse legado na cultura sergipana, pode-se observar que pouco se sabe a respeito das histórias, heranças, cenários, práticas culturais, alimentares, estéticas, musicais e religiosas de matriz africana que permeiam a sociedade sem que tenham o devido reconhecimento e visibilidade.

Sim, Sergipe tem vasta presença de manifestações culturais de caráter afro-brasileiro, com diferentes tipos de atuação e formas, a exemplo de grupos de reisado, chegança, bacamarteiros, sambas de coco e de roda e mais um número amplo de segmentos ligados à cultura popular. Esses grupos podem ser entendidos como elementos que contam acerca da identidade cultural sergipana, porém a sua denominação étnico-racial sofre apagamento e falta de denominação, sobretudo na área do ensino.

Ocorre que essa condição tem sido amplamente ignorada enquanto constitutiva dos currículos das escolas sergipanas, contrariando o que preconizam as legislações e normatizações a nível federal e estadual, como a Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018) e o Currículo Sergipe – Educação Infantil e Ensino Fundamental (Seduc/SE, 2019).

É nesse sentido, que o portal Kizomba dos Saberes será uma ferramenta inovadora. Vai reunir em um só local informações e trabalhos a respeito da cultura negra em Sergipe, bem como a produção de material didático-pedagógico original por parte dos membros do seu núcleo executor que facilite o debate em sala de aula das diversas manifestações culturais das comunidades afro-sergipanas. Assim, poderemos ter o primeiro portal educativo digital exclusivamente voltado para o acervo da cultura negra sergipana nas suas variadas interfaces.

Afropédia Sergipana

Reforça a coordenadora do projeto, que o portal, que resultará numa Afropedia Sergipana, terá acesso livre e visa colaborar com o fomento à produção de conhecimentos pedagógicos atrelada ao uso de tecnologias educacionais como dispositivos de aprendizagem. “O portal irá trazer em linguagem transmídia, registros dos saberes e fazeres afro-sergipanos. Ele se traduz como um suplemento importante no que concerne ao mundo da educação digitalizada e sua interface com as relações étnico-raciais. Este portal tem por meta central o auxílio a professoras e professores dos sistemas de ensino da educação básica no uso de tecnologias digitais em ações pedagógicas”, informa a professora.

Mariana Bracks diz que o portal reunirá informações e conteúdos que, hoje, encontram-se muito dispersas na rede mundial de computadores, o que torna o seu acesso difícil para aqueles com pouca familiaridade com o mundo digital. “A intolerância religiosa e o racismo, que ainda se fazem presentes em nossa sociedade e escolas, só podem ser superados pela educação e o conhecimento. Por essas razões, um portal como o Kizomba dos Saberes reveste-se de fundamental importância para a adequação dos conteúdos escolares às leis e diretrizes governamentais, bem como para a valorização da história e cultura das comunidades afro-sergipanas e aproxima qualitativamente os educadores do Estado às demandas didático-pedagógicas impostas pela Lei 10.639/03”, avalia.

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