
Apesar do anúncio do cessar-fogo em Gaza anunciado por Israel, o genocídio continua. São anos de massacres que desumanizam milhares de pessoas, entre elas crianças, mulheres e idosos entre violências físicas e simbólicas. Desde outubro de 2023, universidade ao redo do mundo discutem e protagonizam ações sobre e por Gaza e os palestinos como um todo. A Universidade Federal de Sergipe é uma delas.
O doutor e pesquisador em Relações Internacionais Arturo Hartmann denomina a sequência de acontecimentos e violências na Palestina como confronto colonial. Segundo ele, dificilmente aconteceria o genocídio se não houvesse a participação internacional. “É nossa responsabilidade dialogar ou tentar influenciar o Estado brasileiro para que haja um debate mais amplo, mais profundo, sobre qual é a participação do Brasil e da sociedade civil brasileira na violência que ocorre na Palestina”, explicou Arturo.
É nesse contexto que tem início a Jornada de Solidariedade à Palestina, que promove debates acadêmicos e culturais para compreender e conscientizar sobre o que está em curso contra os palestinos. Estudantes, pesquisadores e produtores culturais se reuniram para debater conceitos e produções artísticas que estão emergindo diante da catástrofe humanitária na Palestina.
Pela primeira vez, Sergipe será sede desse encontro que trará em sua programação oficinas, conferências e um festival internacional de cinema. A Jornada de Solidariedade à Palestina de 2025 começa no dia 14 de novembro, com a abertura do Festival Internacional de Cinema Latino-Árabe (LatinArab) e segue até o dia 24, com uma roda de conversa na Sala Mangue Jornalismo, sobre Jornalismo, literatura e Palestina, durante o Festival de Artes de São Cristóvão, o Fasc.

A jornada surge a partir da criação do Comitê Sergipano de Solidariedade à Palestina, que reúne movimentos sociais, sindicais, grupos artísticos e estudantis. Em julho deste ano, a Mangue Jornalismo cobriu o ato que pedia o rompimento das relações do Brasil e de Sergipe com Israel. Leia a reportagem completa.
O evento posiciona o estado de Sergipe como uma potência intelectual em âmbito nacional e internacional, pois estabelece uma conexão entre a Universidade Federal de Sergipe (UFS) e a Universidade de Birzeit, na Palestina, além da organização CineFertil, na Argentina.






Participações destacadas na Jornada de Solidariedade à Palestina
Quem estará na Jornada é Suzan Abdaljawwad. Ela é arquiteta e pesquisadora, interessada nas interseções entre espaço e estruturas sociopolíticas. Atualmente, é mestranda em Estudos Israelenses na Universidade de Birzeit. Estagiou em arquitetura forense na Organização Al-Haq e trabalhou como assistente de pesquisa de campo para um doutorado sobre comunidades pastoris palestinas.
Presença garantida também de Abrar Qari, cineasta saudita premiada internacionalmente e mestra em Cinema pela Universidade de Columbia. É professora de cinema e participou dos festivais La Femis e Atelier Ludwigsburg-Paris com 20 cineastas de todo o mundo. Iniciou sua carreira como animadora em 2012 e é considerada uma das pioneiras da direção cinematográfica saudita. Sua filmografia inclui os filmes “Loteria” e “O Patriota Estrangeiro” (2023).
A Jornada contará com a importante participação de Ahmed Zoghbi. Graduado em Letras pela USP, mestre em História Comparada pela UFRJ e doutor em Filosofia pela UFS, sua pesquisa aborda a dimensão filosófica na obra do intelectual palestino Edward Said. Além disso, é tradutor de duas obras fundamentais de Ghassan Kanafani, “O que lhes restou” e “Retorno a Haifa”, publicadas pela Editora Tabla, que apresentam ao leitor brasileiro a profundidade afetiva e política da experiência palestina.
O palestino Basil Farraj é diretor do Instituto Ibrahim Abu-Lughod de Estudos Internacionais e professor do Departamento de Filosofia e Estudos Culturais da Universidade de Birzeit. Sua pesquisa aborda as interseções entre memória, resistência e arte produzida por prisioneiros e outras pessoas que se encontram na condição de vítimas da violência. Basil é doutor em Antropologia e Sociologia pelo Geneva Graduate Institute com tese que aborda o surgimento do regime prisional moderno de Israel, traçando as mudanças nos modos e nas ramificações do encarceramento que se seguiram à assinatura dos Acordos de Oslo.
Arturo Hartmann é doutor em Relações Internacionais, pesquisador do Centro Internacional de Estudos Árabes e Islâmicos da Universidade Federal de Sergipe (CEAI-UFS) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu). É jornalista e atua como repórter colaborador da Revista Carta Capital, além de ter sido coordenador de internacional do jornal Brasil de Fato (2021-2023). Também foi codiretor e pesquisador do documentário “Sobre Futebol e Barreiras” (2011).
A Jornada de Solidariedade à Palestina contará ainda com a participação da palestina Mai Al- Battat, arquiteta e pesquisadora, com foco na imaginação radical como ferramenta para investigar as políticas espaciais urbanas e as práticas de resistência, incluindo a contracartografia e justiça urbana feminista. Ela é bacharel em Engenharia Arquitetônica pela Universidade de Birzeit (Palestina) e mestre em Design Integrado pela Universidade de Ciências Aplicadas de Colônia, Alemanha. Atualmente, é doutoranda na Université Libre de Bruxelles e Assistente de Pesquisa no Instituto Ibrahim Abu-Lughod de Estudos Internacionais da Universidade de Birzeit.
Não é apenas uma ação de empatia, mas de compromisso
“A Jornada estabelece a solidariedade como um movimento ativo, não apenas como uma manifestação de empatia, mas como a manifestação de um espaço acadêmico, cultural, científico, social e político que busca também discutir alternativas, buscar respostas e construções coletivas ao enfrentamento da violência e à violação dos direitos em diferentes lugares do mundo”, explicou o professor e coordenador do Centro Internacional de Estudos Árabes e Islâmicos (CEAI), da UFS, Geraldo Adriano Campos.
O Festival Internacional de Cinema Latino Árabe chega em sua 11ª edição em 2025 e a primeira em Sergipe. Durante os três dias de evento, que acontecerão no Cine Walmir Almeida, no Centro de Aracaju, o LatinArab reunirá pesquisadores e cineastas árabes, como é o caso da diretora saudita Abrar Qari, que irá debater com o público sobre o seu filme “Onde está o Iman?” (2024).
“Não é por acaso que os filmes palestinos ocupam um lugar central nesta edição. Diante da violência e do despojo, o cinema palestino emerge como ato de resistência, memória viva e testemunho de um povo que se recusa a desaparecer”, reforça Christian Mouroux, cofundador e codiretor do Festival LatinArab.
Também está inclusa na programação da Jornada uma visita ao Assentamento MST Quissamã, em São Cristóvão, no dia 17 de novembro, em que será promovido uma conversa sobre Estado, violência e formas de resistência entre Sergipe e Palestina.
Na Universidade Federal de Sergipe, no dia 18, a cineasta Abrar Qari irá ministrar uma oficina de cinema, “Como fazer o meu primeiro filme”, apresentando elementos introdutórios para a prática cinematográfica.
O centro de estudos que amplia a visão sobre a Palestina
Em Sergipe, o Centro Internacional de Estudos Árabes e Islâmicos (CEAI/UFS), da Universidade Federal de Sergipe, propõe debates sobre os países árabes e estabelece conexão entre o Brasil e a Palestina desde 2019. O centro de pesquisa viabiliza uma interconexão entre os cursos da universidade integrando estudantes e pesquisadores de Relações Internacionais, Jornalismo, Letras, História e Sociologia.
“Os estudos no CEAI são centrados em algumas premissas, em primeiro lugar o processo de formação permanente dos estudantes, não apenas uma formação acadêmica, mas uma discussão também permanente epistemológica sobre como nós produzimos o próprio conhecimento sobre os países árabes, as sociedades árabes, a partir de que lugar nós pensamos isso e quais as particularidades e como produzirmos esse conhecimento a partir do Nordeste do Brasil, de Sergipe”, disse Geraldo Campos.


