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Ato do Comitê Sergipano de Solidariedade à Palestina pede que Brasil, Sergipe e Aracaju rompam relações com Israel

Ato público do Comitê Sergipano de Solidariedade à Palestina na Praça Fausto Cardoso

“Do rio ao mar, Palestina livre já”, “Estado de Israel, estado assassino. E viva a luta do povo palestino”. Estas foram algumas das frases pronunciadas ontem, terça (1), no Centro de Aracaju, por vários representantes de movimentos sociais, estudantis, sindicais e de partidos políticos. Todos participaram de um ato público na Praça Fausto Cardoso que cortou o Calçadão da Rua João Pessoa em direção à Praça General Valadão. O evento foi convocado e coordenado pelo Comitê Sergipano de Solidariedade à Palestina, composto por várias organizações.

Além de externar apoio e revelar vinculação humana com os palestinos, um povo que está sendo objeto de um genocídio pelo Governo de Israel, uma das pautas centrais do comitê apresentada no ato de ontem foi o rompimento imediato das relações diplomáticas e econômicas do Governo do Brasil com o Estado de Israel.

“Não adianta o presidente Lula reconhecer verbalmente que há um genocídio em Gaza. É preciso que o estado brasileiro rompa imediatamente relações com Israel”, defende Geraldo Campos, professor de Relações Internacionais na Universidade Federal de Sergipe (UFS), coordenador do Centro Internacional de Estudos Árabes e Islâmicos e um dos organizadores do Comitê Sergipano de Solidariedade à Palestina.

Na semana passada, o presidente Lula optou por não vetar o projeto de lei que estabelece 12 de abril como o Dia da Amizade Brasil-Israel no calendário oficial do país. A proposta foi aprovada no Senado no final de maio e o petista tinha 15 dias úteis para sancioná-la. O prazo foi expirado em 20 de junho. Decorrido esse prazo, “o silêncio do presidente da República importará sanção”, segundo o artigo 66 da Constituição Federal.

Pauta central: rompimento das relações diplomáticas e econômicas com o Estado de Israel

Segundo dados do Comitê Sergipano de Solidariedade à Palestina, em menos de dois anos, mais de 62 mil palestinos, incluindo 18 mil crianças, foram assassinados. Acredita-se que existam 30 mil crianças e adolescentes feridos. De acordo com estudo publicado pela Harvard Dataverse, pelo menos 377 mil pessoas em Gaza foram “desaparecidas”.

“No que restou da faixa de Gaza, cerca de 2 milhões de palestinos buscam sobreviver em meio aos constantes bombardeios e à imposição da fome. Lá existem verdadeiros centros de extermínio montados por Israel com participação dos Estados Unidos, que são centros falsos de distribuição de comida”, revela o professor Geraldo.

“Nós não podemos titubear sobre a investida colonial que o Estado de Israel faz na Palestina. Não é sobre ser contra ou a favor do povo judeu, nunca foi sobre isso, mas sobre o direito de o povo palestino viver com dignidade e integridade”, diz o professor Romero Venâncio, presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Sergipe (Adufs), organização que também integra o Comitê Sergipano de Solidariedade à Palestina.

O professor Geraldo destacou que o objetivo da ação do Estado de Israel não é só a expansão do projeto colonial, mas mostrar para os povos do mundo que tudo é possível. “Gaza é a ferida moral do século, um lugar onde se está definindo o que vai ser possível no estágio atual do capitalismo. Se nós nos silenciarmos perante Gaza, não tem mais fronteira para barrar outros processos de extermínio em massa que vão acontecer”, alerta.

Ato público contou com caminhada pelo Calçadão da Rua João Pessoa

Sobre o genocídio do povo palestino, a Mangue Jornalismo fez uma didática entrevista exclusiva com o jornalista Breno Altman em junho de 2024. Ele aborda as origens do sionismo, doutrina racial que estabelece as bases para a constituição do Estado de Israel.

O ato de ontem no Centro de Aracaju não foi o primeiro em Sergipe em solidariedade ao povo palestino. Em 5 de novembro de 2023, a Mangue Jornalismo publicou a reportagem: Sergipe realizou ato contra o genocídio do povo palestino. Organizações pedem que o Governo Lula seja enfático e condene os crimes contra a humanidade.

Cobranças ao governador de Sergipe e à prefeita de Aracaju

No ato de ontem, também se registrou forte cobrança para mudança de postura do governador Fábio Mitidieri (PSD) e da prefeita de Aracaju, Emília Corrêa (PL). Para Caroline Rejane, vice-presidente da CUT Sergipe, a criação do comitê é fundamental para organizar a luta não só em solidariedade e defesa do povo palestino, mas também para cobrar responsabilidade dos governos municipal, estadual e federal.

“O povo de Sergipe deve cobrar do governo Lula que rompa relações diplomáticas com Israel. Importante denunciar que o governador Fábio Mitidieri e a prefeita Emília Correa mantém relações com um país que promove o assassinato de mulheres, crianças, idosos, de um povo como um todo, na faixa de Gaza. O primeiro ao comprar armas de uma empresa israelense, usadas pela polícia militar, e a segunda por enviar, às custas do dinheiro dos aracajuanos, um secretário municipal para atender ao lobby de uma empresa do mesmo país, além de ter ‘aulas’. Repudiamos ambas as ações”, disse Caroline.

Artes representavam Netanyahu, Trump, Lula, Emília e Fábio Mitidieri

Em novembro de 2023, no mesmo dia em que a Mangue Jornalismo publicou a reportagem sobre o ato em favor do povo palestino em frente à sede da CUT em Aracaju, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que a faixa de Gaza estava se tornando um “cemitério de crianças”.

“Quem disse isso não foi alguém do Hamas, da Palestina. Foi uma pessoa das Nações Unidas. Qual foi a resposta do governador Fábio Mitidieri a essa declaração? Que Gaza é um cemitério de crianças? Ele estendeu a bandeira de Israel em frente ao Palácio de Governo. Estendeu a bandeira do país que estava exterminando crianças com bala na cabeça e que agora, porque eles vão sofisticando as formas de morte, não é só bala na cabeça de criança, agora é matar crianças de fome”, lembrou o professor Geraldo.

Em 11 de novembro do ano passado, a Mangue Jornalismo publicou outra reportagem revelando que o Governo de Sergipe comprou quase R$ 3,7 milhões em armas de ex-estatal israelense ligada a massacres de palestinos. Ao todo, 274 carabinas da empresa Israel Weapon Industries foram adquiridas entre 2022 e 2023. A empresa é uma das fornecedoras das forças armadas israelenses, envolvidas no genocídio contra os palestinos.

Na última segunda-feira, 30, a Mangue Jornalismo também mostrou que as relações do Governo de Sergipe com Israel são muito maiores. O governo do estado tem usado “sem restrições” uma ferramenta israelense de invasão a celulares. A reportagem, parte de uma série especial, descobriu que a Secretaria de Segurança Pública de Sergipe utiliza um software de intrusão a aparelhos digitais como celulares, computadores e tablets chamado de UFED, que desbloqueia e extrai até dados deletados. Essa ferramenta é condenada pelo uso na perseguição a jornalistas, opositores políticos e ativistas em vários países.

A cidade de Aracaju também começou a estabelecer fortes relações com o Estado de Israel. Um mês depois de tomar posse, a prefeita levou o seu secretário de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Dilermando Júnior, e o diretor de inovação, Jorge Brandão, para uma “reunião estratégica na Embaixada de Israel, em Brasília, com o embaixador Daniel Zohar Zonshine. O encontro teve como foco principal o fortalecimento de parcerias que possam impulsionar o desenvolvimento econômico e tecnológico de Aracaju”, conforme nota oficial da prefeitura.

Em maio passado, o secretário Dilermando Júnior esteve em Israel, quando o Irã foi bombardeado e o funcionário ficou retido por alguns dias, junto com uma comitiva brasileira que foi conhecer as ações de tecnologia de segurança daquele país e participar de reuniões de propaganda de Israel contra o povo palestino.

“Só no mês de maio foram cerca de 500 crianças palestinas internadas por subnutrição. E quando seus pais, desesperados, famélicos, carregando os filhos no ombro iam buscar comida, um punhado de farinha, os soldados israelenses faziam tiro ao alvo, exterminando. Isso foi dito pelos próprios soldados de Israel, isso saiu na imprensa israelense. E o que fez a prefeita Emília Corrêa? Mandou o secretário para visitar esse país enquanto crianças estavam sendo morta de fome e seus pais exterminados”, lembrou o professor Geraldo Campos.

O ato de ontem do Comitê Sergipano de Solidariedade à Palestina também marcou o início de um processo de consulta popular, uma espécie de plebiscito que acontece até 7 de setembro, com votação em todo o país. Os movimentos buscam saber a opinião da população sobre a redução da jornada de trabalho sem redução de salário, o fim da escala de trabalho 6×1 e a isenção do imposto de renda para quem recebe até R$ 5 mil, com mais impostos para quem ganha acima de R$ 50 mil mensais.



Com Henrique Maynard
Crédito das fotos: Cristian Góes e Iracema Corso

Picture of Cristian Góes

Cristian Góes

Jornalista pela Universidade Tiradentes, mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação e Sociabilidade pela Universidade Federal de Minas Gerais. Experiência como repórter e assessor de Comunicação nas áreas sindical e pública.

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