Sergipe é o 4º estado no país onde a polícia mais mata, mesmo com redução de homicídios e letalidade policial

Em Sergipe, o número de mortes pela polícia é maior do que em 17 outros estados (Crédito SSP/SE)

Sergipe reduziu 18,3% o número de homicídios no ano passado, sendo o 5º estado no país nesse item. Foram 80 mortes a menos do ano de 2023 para 2024. Outro dado importante foi a diminuição em 37,5% de casos de feminicídio, a segunda maior queda entre os estados.

No entanto, o menor estado brasileiro permanece com alta taxa de letalidade policial. Sergipe é o 4º onde as polícias mais matam alegando “confronto” em abordagens de agentes da segurança pública. Mesmo com a redução dessas mortes em 36,6% (2023-2024), o percentual de letalidade policial em Sergipe só ficou atrás de Amapá, Bahia e Pará.

Esses e outros dados são do Ministério da Justiça e foram divulgados no documento Mapa da Segurança Pública 2025, ano-base 2024. Os números mostram que o Brasil registrou redução de 6,33% do número de homicídios dolosos no ano passado. Também caíram as estatísticas de furto e roubo de veículos, roubo de cargas e roubo a instituições financeiras.

Apesar da redução nas estatísticas de casos de violência em Sergipe, saltam aos olhos outros dados que indicam problemas na segurança pública. Por exemplo, o estado registrou 672 tentativas de homicídio em 2024, o que equivale a 29,3% para cada 100 mil habitantes. O estado ficou na 8ª colocação no país nesse quesito, atrás do Espírito Santo, Rondônia, Mato Grosso, Amapá, Roraima, Acre e Tocantins. A média no Brasil foi de 19,2%.

Outro item no Mapa da Segurança Pública em que Sergipe não vai bem é sobre o número de mortes a esclarecer sem indício de crime. No ano passado, o estado teve 425 mortes nessas condições, obtendo uma taxa de 18,5 para cada 100 mil habitantes. A média brasileira desses crimes ficou 7,02 no ano passado. A taxa 18,5 em Sergipe coloca o estado na 5ª colocação, ficando atrás do Mato Grosso do Sul, Rondônia, Alagoas e Tocantins.

A jurista Andréa Depieri, professora do Departamento de Direito da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e reconhecida como uma das maiores especialistas em Segurança Pública no país, chama atenção de que Mapa da Segurança Pública toma por referência dados que chegam pelos boletins de ocorrência, em especial na Polícia Civil. “Outro aspecto importante quando abordamos a estatística criminal é considerar sempre uma significativa taxa de subnotificação. Nem todos os crimes são levados ao conhecimento de autoridades”, lembra.

A professora destaca que o aumento de registros relativos a um determinado delito pode refletir não necessariamente o aumento das infrações, mas uma melhora no atendimento dos serviços policiais. Ela lembra dos crimes contra as mulheres. “Quanto mais a estrutura de atendimento se aperfeiçoa e quanto mais se alastra a compreensão de que a violência contra a mulher não é algo a ser tolerado, mais registros são efetuados”, avalia.

Entretanto, afirma Andréa Depieri, que a queda em um índice não significa automaticamente que a quantidade de crimes daquela natureza diminuiu. “É assim, por exemplo, que no caso de homicídios se impõe considerar a quantidade de casos não resolvidos, ou ainda as taxas de desaparecimentos. Ou seja, devemos ler os dados com desvelo e sem precipitação. De qualquer forma, os dados apresentados lançam luz sobre diferentes ocorrências”, afirma.

Depieri: “a queda em um índice não significa automaticamente que a quantidade de crimes diminuiu” (Crédito OAB/SE)

Letalidade policial: “, três dos investigados reagiram à abordagem policial”

Em 29 de maio, policiais de Sergipe cumpriram 11 mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão no município de Simão Dias. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de Sergipe (SSP/SE), “foram apreendidos vários celulares, uma grande quantidade de drogas e quatro armas de fogo”. Mas, “no decorrer da operação, três dos investigados reagiram à abordagem policial e atiraram contra os agentes. Houve confronto, e os envolvidos foram atingidos, não resistiram aos ferimentos e vieram a óbito”, diz a secretaria.

No último sábado, dia 14, a SSP/SE noticiou que policiais em patrulhamento no município de Pacatuba receberam a denúncia de que “dois homens em uma motocicleta vermelha estariam armados”. Após diligências, os suspeitos teriam empreendido fuga. Segundo a SSP/SE, os policiais foram “surpreendidos com disparos de arma de fogo e revidaram a injusta agressão. Assim que cessou o confronto, os suspeitos foram levados ao Hospital de Neópolis, onde receberam atendimento médico, mas não resistiram aos ferimentos”.

Esses casos de letalidade policial não estão no Mapa da Segurança Pública 2025, mas foram inseridos aqui para mostrar que as mortes por “confronto” continuam mês a mês.

Em 2024, as polícias em Sergipe foram responsáveis pela morte de 145 pessoas suspeitas de crime, sendo que 100% delas eram do sexo masculino. Em Sergipe, há mais mortes por ação das polícias em número absolutos do que em 17 outros estados, a exemplo do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pernambuco e outros. Não há dados sobre raça das vítimas.

Quantidade de mortes por intervenção de agente do Estado no Brasil, por UF, em 2024.

Fonte: SINESP (Dados fornecidos pelos estados e Distrito Federal) Data da extração: 13/02/2025

Apesar da redução de 36,6% na redução de mortes por intervenção de agentes do estado no ano de 2024, Sergipe registrou uma taxa de 6,33 mortes de suspeitos “em confronto” para cada 100 mil habitantes, deixando o estado na 4ª colocação nesse item. Enquanto isso, a média nacional dessa taxa é de 2,89. Veja na tabela abaixo.

“No Mapa da Segurança Pública 2025 não há dados sobre as vítimas de uma maneira geral, nem sobre os supostos autores dos crimes. O Mapa, por si só, não é capaz de subsidiar ações efetivas na área de Segurança Pública. Sergipe apresenta decréscimo em vários dos índices informados, o que é realmente digno de interesse. Não obstante, esses dados não podem conduzir, automaticamente, à inferência de que a criminalidade em Sergipe diminuiu”, afirma a professora Andréa Depieri.

A jurista ressalta que há, no Mapa da Segurança Pública 2025, dados não exclusivamente criminais, como registro sobre suicídio e mortes no trânsito. “Por outro lado, não há como não considerar que os delitos selecionados para registro são aqueles que causam mais impacto na opinião pública. Além dos homicídios e outros delitos ‘seguidos de morte’, a estatística fixa-se (segundo os padrões do próprio sistema) nas figuras típicas que compõem o imaginário popular acerca do que é o crime, a exemplo do tráfico de entorpecentes ou do furto de veículos, como se crimes de colarinho branco ou crimes contra o meio ambiente, por exemplo, não importasse tanto assim”, avalia a professora.

Taxa de mortes por intervenção de agente do Estado no Brasil, por UF, em 2024.

Fonte: SINESP (Dados fornecidos pelos estados e Distrito Federal) Data da extração: 13/02/2025

Ao longo dos últimos dois anos, a Mangue Jornalismo vem publicando várias reportagens chamando a atenção para a alta letalidade policial em Sergipe. Segundo dados oficiais, nos últimos cinco anos, as polícias Civil e Militar de Sergipe mataram 955 pessoas suspeitas de atos criminosos. Em todas essas mortes, a mesma justificativa unilateral e oficial foi “confronto”. Nesses cinco anos, quatro policiais foram mortos em combate.

Para cada morte nessa condição de “confronto”, espera-se por um inquérito da própria polícia e, quando há, sempre termina arquivado com a atribuição da culpa quase que invariavelmente ao morto. Entre 2020 e 2024, Sergipe registrou 3761 homicídios, ou seja, 25,4% dessas mortes foram em abordagens policiais.

Com os dados de 2023, a Mangue publicou uma reportagem revelando que policiais de Sergipe matam três vezes mais que a média nacional. O estado naquele ano foi o 3º mais letal do país e os municípios de Itabaiana e Lagarto se destacaram como os mais violentos.

SSP/SE: dados confirma avanço consistente de Sergipe na redução da violência

Para a SSP/SE, em nota encaminhada para a Mangue Jornalismo, “o Mapa da Segurança Pública 2025 (ano-base 2024), divulgado pelo Ministério da Justiça, confirma o avanço consistente de Sergipe na redução da violência. O estado registrou uma queda de 18,3% nos homicídios dolosos, com 80 mortes a menos em relação a 2023, e uma redução de 37,5% nos casos de feminicídio — o segundo melhor resultado do país”.

Sobre a letalidade policial, a secretaria informou que “embora Sergipe ainda esteja entre os quatro estados com maiores taxas, houve uma redução significativa de 36,6% nas mortes decorrentes de intervenção policial. Esse resultado mostra que o estado está avançando de forma firme e contínua nesse indicador”.

A nota informa que “a redução é fruto de uma série de medidas adotadas pela gestão da Segurança Pública, entre elas: capacitação constante dos policiais, com ênfase em uso proporcional da força, mediação de conflitos e direitos humanos; atualização dos protocolos operacionais, priorizando a preservação da vida; investimento em tecnologia e inteligência policial, que proporciona operações mais estratégicas e com menor risco de confronto; e a integração entre as forças de segurança, com foco na prevenção, investigação e combate ao crime de forma qualificada”.

SSP/SE: “o estado tem se consolidado como referência nacional na redução da violência letal” (Crédito SSP/SE)

A SSP/SE garante que “o trabalho é realizado com o acompanhamento direto do Ministério Público e do Poder Judiciário, que têm acesso pleno às informações das ocorrências e participam ativamente do controle institucional, fortalecendo a transparência e a legalidade nas ações”.

A secretaria ainda afirma que “Sergipe não só apresenta uma queda histórica nos homicídios — saindo de quase 70 mortes por 100 mil habitantes em 2016 para menos de 16 em 2024 — como já superou a meta nacional prevista para 2030 pelo Ministério da Justiça. Além disso, o estado tem se consolidado como referência nacional na redução da violência letal e no enfrentamento qualificado ao crime organizado, mantendo-se fora da rota das grandes facções criminosas que atuam em outras regiões do país”.

A nota conclui informando que a SSP/SE “reafirma seu compromisso com uma segurança pública cidadã, moderna e eficiente, pautada na proteção da vida e no combate estratégico à criminalidade”.

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Cristian Góes

Jornalista pela Universidade Tiradentes, mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação e Sociabilidade pela Universidade Federal de Minas Gerais. Experiência como repórter e assessor de Comunicação nas áreas sindical e pública.

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