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Sem cumprir as metas estabelecidas para educação, analfabetismo perdura em Sergipe. Percentual entre jovens é quase o dobro da média brasileira

Por Camila Farias e Irion Martins

A recente pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em maio revelou dados preocupantes sobre o analfabetismo em Sergipe. Para além da má colocação no ranking nacional, a persistência dos índices entre os jovens indica um cenário que, sob o olhar de especialistas, ainda deve perdurar por anos.

Os dados do Censo Demográfico 2022, do IBGE, revelaram que 240.415 mil pessoas em Sergipe com 15 anos ou mais são analfabetas. Isso representa 13,8% da população no estado e o 7º maior percentual do país.  Em 2010, o percentual era de 18,4%, o que representa dizer que em 10 anos houve uma ligeira redução de 4,6 pontos percentuais. 

Em termos numéricos, Aracaju apresenta o maior número de pessoas analfabetas, com 25.611. Porém, em termos percentuais, o município de Gararu se destaca, com 27,67% da sua população nesta condição. O município é seguido por Poço Redondo (26,61%) e Riachão do Dantas (26,09%). 

A professora Adjunta do Departamento de Educação da Universidade Federal de Sergipe (UFS), doutora em Educação e especialista em História da Cultura Africana e Afro-brasileira, Livia Almeida, explicou que o analfabetismo é um problema grave que indica o fracasso do Estado brasileiro no desenvolvimento de políticas estratégicas específicas.

“Cabe apontar que a erradicação do analfabetismo já estava prevista como meta no Plano Nacional de Educação de 2001-2010, mas essa meta não se concretizou, e findando neste ano o Plano Nacional de Educação de 2014-2024 essa meta está longe de ser concretizada, tendo em vista que a redução dos índices tem sido mais lenta do que esperado”, apontou.

Ainda, a professora Lívia explicou que em 10 anos, o estado de Sergipe não avançou muito na erradicação do problema. “Quando afunilamos os dados para o estado de Sergipe apontando um índice de 13,8% analfabetos, é possível verificar poucas alterações em relação às publicações anteriores, pois éramos a sexta maior taxa do país em 2010 e passamos, nessa nova publicação do IBGE, para sétima”, lamenta.

Para a professora, “essa lenta alteração oferece fortes indícios de que as ações e programas desenvolvidas em todos os níveis têm sido pouco efetivos para incidir sobre a problemática, demonstrando a carência de realinhamento político e de implementação de políticas mais efetivas de combate ao analfabetismo no estado”. 

O analfabetismo não atinge somente os idosos e está presente em diversas faixas etárias

A pesquisa do IBGE realizou a divisão por idade, para entender quem são as pessoas analfabetas no país. Entre os jovens de 15 a 19 anos, Sergipe apresentou um percentual de 0,26%, o que representa 4.491 pessoas em todo o estado. O maior percentual de jovens analfabetos de Sergipe está nos municípios de Monte Alegre de Sergipe e Arauá (ambos com 0,72%). Inclusive, esses municípios estão na lista dos 100 municípios brasileiros com maiores percentuais de analfabetos jovens. No Brasil, esse percentual é de 0,14%. Entramos em contato com as prefeituras de Monte Alegre de Sergipe e Arauá, mas não obtivemos resposta. 

Em relação à idade, das 240 mil pessoas analfabetas, 104.195 são idosas, ou seja, possuem 60 anos ou mais. Isso significa dizer que mais da metade das pessoas analfabetas em Sergipe não são idosas. Por exemplo, na faixa entre de 25 a 34 anos 13.420 pessoas são analfabetas, já entre 35 a 44 anos são 34.561 em todo estado. 

A professora Lívia analisou esses dados e observou que o fenômeno do analfabetismo em Sergipe incide em todas as faixas etárias demarcadas pelo IBGE, o que em sua opinião “não difere em grandes proporções do que acontece nacionalmente, contribuindo para o rompimento da lógica perversa e muito propagada de que o analfabetismo é um problema que afeta apenas os idosos e que por isso ao longo do tempo o analfabetismo seria erradicado”.

Professora Lívia, da UFS/ Foto: Reprodução

Livia indicou ainda que não há uma tendência de erradicação do analfabetismo no estado para os próximos anos, apesar disso está previsto no Plano Estadual de Educação para 2025. Inclusive, a professora apontou que há diversos problemas ocorrendo como a “invasão de entidades privadas nas secretarias de educação, o crescente fechamento das turmas de Educação de Jovens e Adultos e de Escolas do Campo, bem como diversas outras questões que impedem o combate efetivo ao analfabetismo”.

Educação de Jovens e Adultos (EJA) pode ser aliado para combater o analfabetismo, porém, carece de investimento

Os jovens com 15 anos ou mais e adultos que não tiveram acesso ao ensino ou não concluíram o ensino fundamental podem acessar a modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Foto: Marcos Panxão /Ascom da Prefeitura de Aracaju

O Governo de Sergipe divulgou que, atualmente, existem 14.530 pessoas matriculadas na EJA,  2.980 das quais estão no ensino fundamental e 11.550 no ensino médio. Das 319 escolas estaduais, somente 140 atendem ao público da EJA no estado.

A professora da EJA há 23 anos, Josi Siqueira, explicou que ” as escolas que  contam com a modalidade de EJA vem se esforçando muito para desenvolver um bom trabalho, porém não vejo muito investimento por parte daqueles que detém o poder. O último livro didático a que tivemos acesso foi publicado em 2013. De lá para cá, nenhum material novo chegou na escola onde leciono”, pontuou.

Josi ainda explicou que ela e outros colegas professores precisam criar apostilas, jogos, projetos e outros mecanismos educacionais  para assegurar o aprendizado dos alunos e lamentou que ” infelizmente, o Eja é uma modalidade invisível”.

Apesar das dificuldades, Josi reafirmou a importância dessa modalidade de ensino. “Já tive alunos de Eja que entraram na UFS e voltaram como estagiários. Esse ano, uma aluna de 56 anos, passou em Museologia. Uma outra entrou no Mestrado em Geografia. O próprio diretor da escola que leciono, é fruto da EJA. Com essa nova visão de mundo, eles sentem que é possível sonhar e ir além. Investimento em EJA é acima de tudo, dar condições de vida para muitos que estavam à margem”, concluiu.

A equipe da Mangue Jornalismo realizou uma busca na Lei Orçamentária Anual do Estado de Sergipe (2024), com a finalidade de identificar o valor específico para a EJA. Porém, a educação para jovens e adultos só é citada 2 vezes em um arquivo de 600 páginas, dentro do ensino fundamental e médio e sem especificação Orçamentária para essa ação.

A professora Lívia ressalta que é importante pensar no desenvolvimento de políticas específicas articuladas com o entendimento das múltiplas injustiças econômicas e sociais produzidas pelos contextos de exclusão e pobreza da lógica capitalista.  ?Historicamente as populações que têm o seu direito à educação constantemente atacados e negados são populações negras, indígenas, campesinas e quilombolas”, conclui Lívia.

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