Quilombo faz ação de reflorestamento de manguezal agredido pela carcinicultura, especulação imobiliária e petróleo

Ação de reflorestamento contribui para a consciência da defesa do manguezal (Crédito Coletivo de Comunicação Popular do Projeto Povos das Águas)

Integrantes da Comunidade de Santa Cruz, parte do Quilombo Brejão dos Negros, em Brejo Grande/SE (115 km de Aracaju), realizaram uma importante ação de reflorestamento de uma área de manguezal naquele território. Praticamente todo quilombo, ainda composto pelas comunidade da Resina, Brejão, Carapitanga e Brejo Grande fica nas margens do Rio São Francisco e é cortado por manguezais.

“Nosso pais levavam a gente para ensinar a pescar, a pegar o caranguejo, a gente tinha muita andada de caranguejo, hoje já não tem tanto. Tinha o plantio de arroz dentro do mangue, respeitando a biodiversidade, a água adoçava no inverno e a gente plantava. Não consigo enxergar nossa região sem o mangue, porque ele foi o pai e a mãe de muitos de nós. Crescemos sustentados pelo mangue”, diz Maria Izaltina, liderança no quilombo.

No entanto, todo território tem sofrido com fortes e permanentes agressões de fazendeiros, políticos, empresários, e muitas dessas ações são contra a área de manguezal. Existem ataques diretos por meio da carcinicultura (criação de camarões em viveiros), da especulação imobiliária e da exploração de petróleo e minérios.

Em razão desse cenário, surgiu o reflorestamento do manguezal, desenvolvido pelo Projeto Povos das Águas. A ação foi realizada pela Associação dos Pequenos Agricultores do Estado de Sergipe (Apaese), com o apoio do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e do Território Quilombola Brejão dos Negros, e em parceria com a Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental. 

As ações de coleta de propágulos de mangue (que são estruturas que se desprendem de uma planta adulta e funcionam como sementes) e a formação em produção de mudas ocorreram na Santa Cruz, sendo uma iniciativa que une saberes tradicionais, mobilização comunitária e fundamentos técnicos da restauração ecológica. “Reflorestar o mangue é reflorestar a vida”, afirma Izaltina.

No território Quilombola Brejão dos Negros, o manguezal não é apenas um dado ambiental, mas parte da história viva do quilombo. Gerações de pescadores, marisqueiras e catadores de caranguejo aprenderam, desde cedo, a ler o tempo, a maré e o comportamento do mangue para garantir o sustento das famílias sem romper o equilíbrio da natureza.

O manguezal ainda atua como barreira natural contra a erosão, protege o território contra eventos extremos, como cheias e avanço do mar, e é um dos maiores sumidouros naturais de carbono, armazenando até cinco vezes mais carbono do que florestas tropicais terrestres, de acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.“Quando falamos de reflorestamento do mangue, também estamos fazendo uma denúncia. Se é preciso reflorestar, é porque houve a degradação do ecossistema. E uma das maiores consequências do desmatamento do manguezal é a escassez de alimentos. Isso interfere diretamente na soberania alimentar dos territórios”, pontuou Elielma Vasconcelos, coordenadora pedagógica do projeto e militante do MPA.

Território se envolveu na formação de mudas para o reflorestamento (Crédito Coletivo de Comunicação Popular do Projeto Povos das Águas)

Da carcinicultura à exploração de mineração no quilombo

Em maio de 2023, a Mangue Jornalismo publicou uma reportagem revelando que os quilombolas de Brejão dos Negros conseguiram a condenação de um criador de camarão por destruir o manguezal. Na ação do MPF/SE, o Governo de Sergipe também foi condenado por conceder licença ambiental irregular.

Em agosto de 2024, a Mangue publicou outra reportagem denunciando que as comunidades costeiras de Sergipe estavam alertando para o avanço da destruição dos manguezais. Um ano depois, novamente a Mangue Jornalismo publicou a série Brejão – quilombo da reexistência também trazendo denúncias de ataque aos manguezais.

Um dos principais problemas é mesmo a carcinicultura. “Está cada vez pior, aumentando, empresas que entram aqui e a gente não sabe quem é. Fazem cercas, colocam cadeados, contratam jagunços, abrem estradas, levantam muros de alvenaria no mangue, entram com máquinas e destroem o mangue para criação do camarão”, denuncia Antônio Bonfim.A expansão ilegal dos tanques de carcinicultura no quilombo e em área de preservação ambiental permanente implica desmatar e envenenar os manguezais, um dos ecossistemas mais produtivos do planeta. Derrubam-se árvores e, para fazer o camarão crescer mais rápido, jogam-se venenos. “É no manguezal que várias espécies de peixes, caranguejos, siris, aratus, sururus, camarões nascem e se desenvolvem. Essas vidas convivem com a gente, nos alimentam e geram renda. Somos um povo que precisa do mangue vivo e saudável”, afirma Eneias Rosa.

Tanques de carcinicultura destroem manguezais no território (Crédito Ascom Cáritas Nordeste 3)

Antônio Bonfim reforça que “o mangue é energia, ancestralidade, orixá, sustentabilidade, vida. O manguezal é nossa mãe, nossa maior fonte de renda, nele catamos o caranguejo, guaiamum, os mariscos. A terra e as lagoas marginais são parte de nossa sobrevivência, com arroz, mandioca, milho, feijão, coco, legumes, frutos, pequenos animais, abelhas. Das nossas matas extraímos cambuí, araçá, aroeira, caju, murici, ubaia e tantas outras. Mas, tudo isso está seriamente ameaçado”.

E não é só a destruição pela carcinicultura, mas a presença de empresas de petróleo e mineração dentro do território. “Jamais nos esqueceremos do desespero ao encontrar pedaços de petróleo em nossas areias, nos rios, manguezais, tudo causado pelo derramamento. Até hoje não sabemos os responsáveis e nem o tamanho dos impactos para a natureza e para a nossa saúde”, revela Izaltina. 

Apesar do crime ambiental, a exploração de petróleo e minérios no território quilombola avançam. E os problemas podem se agravar. Foram vistos veículos de uma empresa de mineração – que não se sabe o nome – realizando um estudo para escavação e exploração de minérios como Zircônio, Titânio e Hematita. “Dizem que descobriram esses minérios aqui, mas não dentro da nossa área, só no entorno e que os estudos deles diziam que não tinham nada de vestígios de nossos antepassados. Isso não é verdade”, ressalta Izaltina.

Outro ponto que tem preocupado o Território Quilombola Brejão dos Negros é ação do Governo de Sergipe. Primeiro, foi realizado um gerenciamento costeiro que vai identificar áreas de manguezal, restinga, dunas no litoral, estabelecendo se pode ter ou não construções nelas. Segundo, estão querendo regularizar terrenos irregulares de produtores rurais. “O problema é que no mapa deles nós não estão identificados como quilombo. Isso é grave”, diz Eneias. Essas ações favorecem empreendimentos de turismo intensivo, especulação imobiliária, extração de petróleo e minérios, além da carcinicultura.

A especulação imobiliária também é um dos braços dos ataques ao território quilombola. Esquemas econômicos e políticos poderosos querem expulsar pescadores, marisqueiras, extrativistas artesanais e entregar a área para empreendimentos imobiliários e turísticos.

Próximos passos no Projeto Povos das Águas

Além das comunidades que fazem parte do projeto, a Associação de Produtores de Orgânicos de Ponta de Areia (APOP) também contribui diretamente para a ação de reflorestamento com formações e a estrutura de viveiros para a produção das mudas. Para a consultora ambiental do projeto, Ana Carolina Lessa, os próximos passos já foram desenhados coletivamente.

Ana Carolina: comunidades são essenciais para reflorestar o território (Crédito Coletivo de Comunicação Popular do Projeto Povos das Águas)

“Firmamos um compromisso com as comunidades de realização de monitoramento da florada do mangue para a realização da coleta de propágulos, também novas formações teóricas e práticas, vamos iniciar paralelamente a produção e manejo de mudas no viveiro da APOP e a avaliação da viabilidade de mudas até atingirem o tamanho ideal com cerca de 90 dias”, informou Ana Carolina.

A consultora ambiental assegurou que “é essencial destacar que a juventude e a comunidade como um todo estão envolvidas desde a coleta, passando pelos processos de formação, de manejo e avaliação no viveiro e plantio. E esse é o objetivo, que as comunidades saibam como preservar, manejar e reflorestar seus territórios”, afirmou Ana Carolina.

Com informações de Marília Souza/Assessoria do Projeto Povos das Águas

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Uma resposta

  1. Aqui no nosso pequeno litoral pode estar acontecendo e também no grade Delta do Parbaiba, não tinha noticias de reflorestamentos. O Caranguejo tem diminuido.

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