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Prefeitura de Aracaju ataca a memória e a história da cidade. Palácio abandonado e estátuas de indígenas sem cabeça são símbolos dessa violência

CRISTIAN GÓES, da Mangue Jornalismo
ANA PAULA ROCHA, da Mangue Jornalismo

“Foi uma surpresa muito negativa. Algumas áreas da cidade estão um pouco melhores, mas essa região aqui está suja, quase tudo quebrado, prédios fechados e o guia alertou para a gente não circular pela praça”, contou para a Mangue Jornalismo a professora aposentada Cleonice Santana, 65 anos, uma turista de Salvador que, com uma excursão, visitava Aracaju na semana passada.

Quando ela falou “essa região aqui” estava se referindo à Praça Olímpio Campos, onde fica a Catedral de Aracaju, o Parque Teófilo Dantas, o restaurante Cacique Chá e a Galeria de Artes Álvaro Santos, bem no Centro da cidade. A turista tem toda razão, “essa região” está mesmo abandonada pela Prefeitura de Aracaju, um descaso que revela um violento ataque à história e memória da capital.

“Falaram no ônibus que a sede histórica da prefeitura fica aqui, na praça, mas que foi mudada. Pensei que no lugar tinham aberto um museu ou alguma coisa assim, mas não, cheguei do outro lado [ele estava na feirinha de artesanato] e me deparei com um prédio cercado e caindo aos pedaços”, lamenta o militar aposentado Antônio Correia, 66 anos que também estava na mesma excursão de Cleonice.

O militar baiano também tem toda razão. O imponente Palácio Inácio Barbosa, sede histórica da Prefeitura de Aracaju, está abandonado faz 18 anos, quando a sede da administração foi transferida para o Conjunto Costa e Silva. Um tapume mal colocado cercando o prédio não esconde a violência oficial contra o patrimônio público, memória e história da cidade. Pedaços se desprendem e o mato cresce na estrutura.

São tantos sinais de ataque ao patrimônio público, à memória e à história em uma pequena área do Centro de Aracaju que é impossível trazer tudo nessa reportagem. Vamos destacar alguns dos mais graves.

Prédio da antiga sede da prefeitura: abandonado faz 18 anos (Foto: Cristian Góes)

 

Estátuas de indígenas sem cabeças e braços

Do lado direito para quem está de frente para a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da cidade e catedral metropolitana, encontra-se um dos exemplos mais nítidos e significativos do ataque dos órgãos públicos de Sergipe à história. Trata-se dos restos de uma estátua onde existiam dois indígenas, e que os registros históricos informavam ser representações dos povos originários liderados pelo cacique Serigy.

A estátua dos indígenas não têm cabeças nem braços, formando um amontoado de pedras sujas que passam invisíveis a quem circula pela área. “Rapaz, nunca tinha visto isso. De quarta a sexta, passo por aqui, mas nunca tinha reparado. O que é isso mesmo?”, perguntou João Macedo da Silva, vendedor de pipoca que atende a turistas em frente ao centro de turismo.

O taxista “bandeira” José Ronaldo Linhares que faz ponto naquela área há 15 anos, do mesmo lado da estátua, e garante que nunca viu os indígenas completos. “Quando percebi que era uma obra de arte, só tinha o corpo e os braços. A cabeça dos dois não tinha mais. Passou o tempo e arrancaram os braços. Por mim, já tinha retirado tudo, pior é ficar como está, mas também ninguém liga para isso”, analisou o taxista.

Indígenas sem cabeças e braços: símbolo do ataque à memória e história (Foto Cristian Góes)

 

Ninfas abandonadas e estrutura circular ameaçada de cair

Na ponta direita do Parque Teófilo Dantas existia o famoso “Banho das Ninfas”, uma área histórica onde existia uma fonte e duas estátuas metálicas de deusas gregas. Essa área foi totalmente descaracterizada: não tem fonte, as deusas de alvenaria estão quase destruídas e a estrutura circular está com ferragens expostas, desgastadas e várias partes da alvenaria já caíram.

Alguns assentos no círculo do “Banho das Ninfas” servem de descanso para pessoas em situação de rua e também pessoas que fazem refeições no restaurante que fica no parque, bem próximo do Banho das Ninfas. Um lavador de carros que almoçava na área disse que o lugar é de uso livre de drogas. “Não é tráfico não, é só consumo mesmo. Ninguém vem aqui para passear”, disse o lavador. A Mangue Jornalismo optou por não expor o nome desse entrevistado por questões de segurança.

“Isso aqui é um perigo, não é por conta do pessoal que fuma aqui, mas porque essa estrutura pode cair. Já liguei para a defesa civil, mas disseram que não é com eles. Tomara que não caia. Se cair, que não tenha ninguém por perto”, alerta Milton Barbosa, um servidor público estadual aposentado que também frequenta o restaurante ao lado das estátuas das ninfas.

Ninfa abandonada e estrutura comprometida (Foto Cristian Góes)

 

Nem busto de Teófilo Dantas nem Parque Teófilo Dantas existem mais

Um outro símbolo do desprezo com a história e a memória é a base onde repousava o busto de Teófilo Dantas, a figura que dá nome ao parque. É um monumento ao nada, ao vazio, à ausência, ao abandono.

Segundo texto informativo que consta na Biblioteca do IBGE, o intendente de Aracaju, coronel Theophilo Correia Dantas, fez uma ampla reforma em 1928, criando ali um enorme parque no fundo da catedral, onde o destaque eram as águas, visto que o terreno alagava bastante e a situação complicava-se com as chuvas. A saída foi construir uma série de canais para escoar as águas das chuvas.

O resultado dessa ação de Theophilo Dantas foi a construção de um parque que contava com gruta, um grande riacho artificial, aquário (com peixes raros), pequeno zoológico, bosques, brinquedos, parque infantil, alamedas, equipamentos esportivos, instalação de obras como as estátuas dos índios (eram metálicas), e vários lagos, cascatas, entre eles, o do Banho das Ninfas.

O parque foi projetado e executado pelo arquiteto e escultor Corinto Mendonça, que introduziu no seu projeto inicial alguns elementos decorativos da antiga Praça de Santa Maria de Belém, no Pará. “No decorrer do tempo, oitizeiros, tamarindeiros, jatobás, ipês e uma vasta vegetação de espécimes da Mata Atlântica decoraram o logradouro, que também abrigava pássaros como faisões, pavões, garças, marrecos e animais da fauna brasileira”, informa o IBGE. Nada disso existe mais.

“Entre os bambus e esse canal podre, moradores de rua usam essa água para tudo. Também é muito perigoso aqui porque tem muita droga, parece uma área livre para isso. Só passo aqui porque não tem jeito”, reclama Sônia de Jesus, empregada doméstica em um condomínio localizado nas proximidades do parque.

Esta é a homenagem ao criador do Parque Theophilo Dantas (Foto Cristian Góes)

 

Palácio em homenagem ao fundador de Aracaju abandonado

Talvez o monumento que mais represente a repulsa à memória e história da capital sergipana é o da antiga sede da Prefeitura de Aracaju, localizada na Praça Olímpio Campos. “Isso aqui é uma vergonha. Jamais poderia ficar desse jeito. Deveria ser um museu da cidade, um teatro, uma casa de cultura, de arte, uma cafeteria chique (risos). Não entendo como deixaram isso acontecer”, reclamou a empresária Raquel Mesquita.

O prédio em homenagem ao fundador da cidade de Aracaju foi inaugurado em 1923 pelo Governo de Graccho Cardoso para a Intendência Municipal.

Em dezembro de 2017, o prefeito Edvaldo Nogueira (PDT) assinou um projeto de lei que concedia o direito real de uso do Palácio Inácio Barbosa para a Universidade Tiradentes (Unit). A promessa era de restauração e criação de um Memorial de Sergipe até o fim de 2018. A assinatura desse projeto foi uma festa no auditório do Centro Administrativo Prefeito Aloísio Campos.

“Estamos preocupados em preservar a memória das pessoas que fizeram história nesta terra”, ressalta o reitor Jouberto Uchôa durante o discurso de agradecimento, lamentando que a memória arquitetônica não possa ser preservada, uma vez que ao longo dos anos imponentes prédios foram demolidos. Segundo o prefeito Edvaldo, a parceria entre a Prefeitura e a Unit vai permitir a revitalização do imponente prédio localizado no centro da capital sergipana.

Essa ação envolvendo a prefeitura e a Unit para salvar o Palácio Inácio Barbosa nunca saiu do papel.


Outra promessa da prefeitura sobre o palácio e nada mais uma vez

Em maio do ano passado, o prefeito Edvaldo Nogueira chamou a imprensa e prometeu mais uma vez que o Palácio Inácio Barbosa seria restaurado, transformando-se em uma Pinacoteca. Para o prédio, o prefeito levou o presidente do Instituto Pedra, Luiz Fernando de Almeida, e o diretor da empresa Amora Natureza e Cultura, Carlos Amorim.

“Estamos buscando apoio logístico da iniciativa privada para nos ajudar a tornar esse sonho realidade. Nossa ideia é fortalecer o polo cultural de Aracaju, transformando esse espaço, que já foi do poder público, em um ambiente cultural”, disse o prefeito no ano passado. “Estamos esperançosos de que, em dois anos, a obra estará concluída para inaugurarmos a Pinacoteca, um espaço exclusivo para as produções artísticas do nosso estado e que será um ponto de encontro desta rica cultura sergipana”, frisou Edvaldo.

Novamente, nada. A Mangue Jornalismo procurou a prefeitura para saber sobre o Palácio Inácio Barbosa, a Praça Olímpio Campos e o Parque Teófilo Dantas. Por meio de nota, a Prefeitura de Aracaju informou que, “no momento, não dispõe de recursos e de projeto para a restauração do Palácio Inácio Barbosa, cujo prédio está isolado por tapume. Sobre a praça, não há previsão de reforma. A administração municipal informa ainda que busca parceria junto à iniciativa privada para realizar a obra de revitalização do prédio”.

De promessa em promessa, palácio vai sendo destruído (Foto Cristian Góes)

 

Reforma da Catedral de Aracaju se arrasta há oito anos sem solução

Mais um símbolo de descaso é a reforma da Catedral Metropolitana de Aracaju, localizada na Praça Olímpio Campos. Faz oito anos que o principal prédio da Igreja Católica em Sergipe passa por reforma e não há prazo para conclusão.

Segundo informa a arquidiocese, a obra foi iniciada por uma construtora e, por motivos superiores, seu contrato foi rescindido. A partir de 2017, a reforma vem sendo realizada em etapas com apoio financeiro de emendas parlamentares. A igreja estaria buscando agora recursos para financiar a quarta e última etapa, na qual está prevista a restauração nas paredes, corredores laterais, altares e forros da sacristia, o que deve custar cerca de R$ 6,5 milhões.

Catedral de Aracaju na Praça Olímpio Campos: oito anos em reforma (Foto Cristian Góes)

“A catedral é um patrimônio de Sergipe e faz parte da história religiosa de Aracaju. Estamos buscando unir a Igreja, os parlamentares e a sociedade para reformar esse monumento tão importante para a nossa cidade”, ressaltou Dom Vitor Agnaldo, administrador apostólico da Arquidiocese de Aracaju.

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Uma resposta

  1. Infelizmente, sabemos que não há interesse nenhum dos atuais gestores em restaurar, cuidar, preservar a História de Sergipe. Elegem pessoas sem compromisso a própria história. É lamentável

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