Segundo organizações internacionais de direitos humanos, o país perpetra genocídio contra palestinos em Gaza, incluindo o uso da fome e estupro contra civis. Procurada, prefeitura diz que arranjo tem foco na “promoção do respeito e da convivência democrática”

Desde que assumiu a Prefeitura de Aracaju, em janeiro de 2025, Emília Corrêa (Republicanos) tem se empenhado em aproximar a capital sergipana do Estado de Israel. Até o momento, o movimento de maior repercussão para a cidade foi a assinatura, no ano passado, de uma Declaração Conjunta de Cooperação com Foco na Inovação entre o Município de Aracaju e o Ministério das Relações Exteriores do Estado de Israel.
O documento, de apenas duas páginas, inclui parcerias futuras na “agricultura, gestão de recursos hídricos e saneamento, ciência e tecnologia, segurança pública e quaisquer outras áreas de interesse comum dos participantes, com foco na inovação”. Assinado pela prefeita e pelo embaixador de Israel para o Brasil, Daniel Zohar Zonshine, o arranjo não foi divulgado pela gestão municipal no Diário Oficial do Município, e também não há menções à declaração ou a seus termos no site oficial da prefeitura, como constatou a reportagem.
A Mangue Jornalismo teve acesso à íntegra da declaração – disponível no final da matéria – por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), respondida após mais de dois meses da solicitação. A lei determina que os pedidos devem ser atendidos em até 20 dias corridos contados a partir da data da solicitação, prorrogáveis por mais dez dias com o devido informe ao solicitante.
A reportagem perguntou à Prefeitura de Aracaju o porquê de não ter publicizado a declaração, quais ações de cooperação estão sendo pensadas em parceria com o Ministério das Relações Exteriores de Israel e se há previsão de início para a implementação de alguma delas. Em nota, a assessoria da Prefeitura disse que “por se tratar de uma declaração de intenções, sem geração de obrigações financeiras, administrativas ou normativas, o instrumento não exige publicação no Diário Oficial, conforme a legislação vigente, já que não configura contrato ou convênio executivo com efeitos jurídicos diretos”. Segundo a resposta enviada à Mangue, não há projetos executivos, ações operacionais ou cronograma de ações definidos até o momento no âmbito da cooperação com Israel.
Especificamente sobre segurança pública, a gestão municipal afirmou que “não existe qualquer acordo operacional, militar ou de treinamento policial com Israel. Eventuais referências ao tema dizem respeito exclusivamente a tecnologias urbanas e inteligência para gestão da cidade, como videomonitoramento, iluminação pública e prevenção, respeitando os direitos humanos e os princípios democráticos”.
A Embaixada de Israel no Brasil não respondeu às tentativas de contato da reportagem. O espaço segue aberto.
Apesar de Emília Corrêa comemorar nas redes sociais o acordo, sua aceitação pelo Poder Legislativo Municipal não foi unânime. Em julho passado, a vereadora Professora Sônia Meire, do PSOL, apresentou à Câmara Municipal de Aracaju uma moção para que a prefeita suspendesse os acordos firmados com Israel. Durante a votação, além de Sônia Meire, apenas Camilo Daniel (PT), Elber Batalha (PSB) e Selma França (PSD) votaram a favor da moção.
“A relação da atual gestão com o governo de Israel faz parte de uma política da extrema direita em fortalecer projetos locais de controle social tanto ideológico, como é o caso de possíveis alterações curriculares de forma autoritária, quanto na segurança com a compra de equipamentos bélicos, além de métodos de controle policial autoritário frente aos grupos mais vulneráveis”, disse Sônia Meire à reportagem.
Dentre os 11 vereadores que votaram contra a moção – e, portanto, a favor da aproximação de Aracaju com Israel – os mais vocais são Moana Valadares (PL) e Lúcio Flávio (PL), ambos grandes apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes.
Eles foram contatados pela Mangue para comentar o apoio a Israel apesar das inúmeras denúncias por grupos de direitos humanos de que o país perpetra uma guerra genocida contra os palestinos na Faixa de Gaza. Em mensagem de texto, Lúcio Flávio disse “não tenho interesse em responder”. Moana não havia respondido aos e-mails e mensagens até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.
Defensores da militarização, Moana propôs na Câmara projeto de lei para a criação de escolas cívico-militares municipais na capital sergipana, enquanto Lúcio Flávio é o autor do PL que muda o nome da Guarda Municipal de Aracaju, a GMA, para Polícia Municipal de Aracaju. As duas propostas foram aprovadas pela maioria do legislativo aracajuano em dezembro de 2025.
Ao firmar parceria, Prefeitura de Aracaju ignorou denúncias de estupros cometidos contra palestinos
A inclusão da área de segurança pública na declaração de cooperação acende alerta sobre quais intenções e concepção de segurança guiam as ações da gestão de Aracaju.
Israel é conhecido por sua forte indústria de tecnologia militar, inclusive cibervigilância, cuja efetividade é testada principalmente contra civis palestinos para então ser vendida aos mais diversos governos e ditaduras com intenções de uso arbitrário. Essa foi a constatação da extensa investigação do jornalista Antony Loewenstein no livro Laboratório Palestina: como Israel exporta tecnologia de ocupação para o mundo, publicado em 2024 pela Editora Elefante.
Apesar de se definir como “o exército mais moral do mundo”, as autodenominadas Forças de Defesa de Israel – mais conhecidas pela sigla em inglês IDF – são acusadas de uso sistemático do estupro como arma de guerra contra civis palestinos e seus apoiadores.
Em 2024, veio à tona um vídeo que mostra reservistas israelenses estuprando um palestino em Sde Teiman, base militar israelense. Exames médicos posteriores comprovaram lesões retais na vítima. A autorização para vazar o vídeo veio da major-general Yifat Tomer-Yerushalmi, ex-procuradora do exército de Israel, presa em novembro de 2025 e classificada por parte da população israelense como traidora.

Mesmo antes do vazamento do vídeo, vários palestinos já haviam relatado violências sexuais, incluindo estupros sistemáticos por parte de militares israelenses. Há também casos recentes envolvendo ativistas pró-Palestina, como a jornalista alemã Anna Liedtke, que afirmou ter sido violentada por soldadas das IDF após ser arbitrariamente presa no início de outubro passado. Liedtke estava em uma das embarcações da Flotilha Global Sumud, que tentou furar o bloqueio israelense a Gaza, mas acabou interceptada por Israel em águas internacionais.
Entrevistado em dezembro pela Mangue para o podcast Mariscada, o doutor em Filosofia (UFS) e tradutor de literatura palestina Ahmed Hussein Zoghbi explicou que a crença em uma superioridade moral “é também um elemento constitutivo dessa ideia de si mesmo” adotada pelo movimento sionista na construção de Israel como Estado nacional. Segundo ele, essa crença é usada como argumento contra contestações aos crimes que Israel comete.
“Isso vale para a colonização ibérica na América, vale para os espanhóis chegando no México e dizimando completamente a civilização Maia, vale para o mesmo projeto colonial espanhol que dizima também a população inca no Peru. Isso vale para os portugueses aqui no Brasil”, afirmou Ahmed, que é também um dos fundadores do Centro Internacional de Estudos Árabes e Islâmicos (CEAI), com sede na Universidade Federal de Sergipe.
Para a vereadora Sônia Meire, “não há nenhum projeto de desenvolvimento com Israel que traga benefício ao povo aracajuano”. Ela enfatiza que “no momento que o poder executivo faz acordo com um país que desrespeita as convenções internacionais e a própria determinação da ONU sobre a paz e o rompimento de acordo multilaterais, essa gestão está dizendo que o melhor para a cidade é o autoritarismo, a entrega dos nossos bens e da nossa liberdade”.
Turismo em meio a genocídio e lobby israelense
No final de fevereiro de 2025, poucas semanas depois de empossada como prefeita, Emília Corrêa enviou a Brasília seu secretário de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Dilermando Garcia Ribeiro Júnior, e o diretor de Atração de Empresas e Fomento à Inovação, Jorge Brandão, para uma “reunião estratégica” com o embaixador israelense no Brasil.
Em publicação oficial celebrando o encontro com Zonshine, a Prefeitura de Aracaju não fez menção aos detalhes da conversa, mas afirmou que o diplomata “também apresentou um portfólio de empresas israelenses que podem fazer parte dessas cooperações, indicando novas oportunidades para inovação e crescimento no município”. Questionada por e-mail sobre quais empresas constavam no portfólio, a assessoria da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação não respondeu até o fechamento da reportagem.
Na semana passada, a Mangue ligou para a assessoria da secretaria, mas recebeu como resposta que a pessoa responsável pelo setor estava afastada por motivos pessoais e só poderia esclarecer as dúvidas a partir de hoje (02/02). A matéria será atualizada caso haja retorno.
Em junho, a gestão Emília estreitou ainda mais os laços com Israel por meio de uma viagem que o secretário Dilermando fez ao país. Segundo afirmou o secretário, ele participou do “programa de estudos realizado pelo Instituto de Desenvolvimentos de Lideranças Internacionais”, cujos principais tópicos incluíram, dentre outros, “projetos municipais de segurança cidadã”, “modelos de rotina e emergência” e “liderança municipal diante da complexidade da situação regional”. Dentre as atividades, esteve a participação na Expo Muni Israel 2025 e “visitas a empresas de tecnologia para municípios”.
O The Intercept Brasil reportou que boa parte da viagem foi bancada pela agência israelense de cooperação internacional, a Mashav, e o Instituto Internacional de Liderança, que representa trabalhadores de Israel. Além do secretário aracajuano – que representou a prefeita de Aracaju, a quem foi feito o convite – também integraram a comitiva brasileira outras autoridades municipais, como Álvaro Damião (União Brasil), prefeito de Belo Horizonte, e Jhonny Maycon (PL), prefeito de Nova Friburgo.
Programada para ocorrer entre os dias 10 e 20 de junho de 2025, o que era para ser apenas mais uma das inúmeras atividades de lobby israelense para encobrir sua péssima imagem no cenário internacional acabou interrompida no dia 12, quando o Irã respondeu a bombardeios israelenses. Os participantes da comitiva brasileira se esconderam em bunkers e publicaram atualizações nas redes sociais, tudo permeado por muitos agradecimentos ao país anfitrião.
Em reportagem de novembro de 2024, a Mangue revelou a compra pelas administrações sergipanas de Belivaldo Chagas (2018-2022) e do atual governador, Fábio Mitidieri (PSD), de carabinas da empresa israelense IWI, que desenvolve armamentos em colaboração com as IDF.
Desde o ataque do grupo palestino Hamas a Israel em 7 outubro de 2023, que vitimou mais de 1.200 israelenses, as forças armadas do país intensificaram a repressão mortal aos palestinos tanto na Faixa de Gaza quanto na Cisjordânia e territórios ocupados. Só em Gaza, o número de mortos supera 71 mil pessoas, incluindo mais de 260 jornalistas, segundo o Ministério da Saúde do território, administrado pelo Hamas. Contudo, milhares de corpos não foram recuperados dos escombros, e organizações internacionais estimam que as mortes podem ser mais que o dobro do número atual.
As violações israelenses continuam mesmo após a assinatura, em 10 de outubro de 2025, de um acordo de cessar-fogo dividido em fases e mediado pelos Estados Unidos, principal parceiro de Israel. No primeiro dia deste ano, o governo israelense suspendeu quase 40 organizações de ajuda humanitária de continuar suas atividades na Faixa de Gaza em meio a um inverno intenso, que já causou a morte por hipotermia de dez bebês, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Leia abaixo a íntegra da declaração de cooperação entre Aracaju e Israel:
O documento encaminhado à Mangue Jornalismo via LAI com o conteúdo da declaração de cooperação não inclui a data exata da assinatura. Questionada, a assessoria da Prefeitura não informou a data.



Uma resposta
Parabéns ao jornalismo limpo, independente e transparente. Sou jornalista e sofro com a decadência da grande maioria da chamada grande imprensa brasileira.