Levantamento da Mangue na plataforma AdaptaBrasil, do Ministério de Ciência e Tecnologia, aponta risco “alto” de estresse hídrico em Sergipe por conta de eventos climáticos extremos. Cenário pode evoluir para “muito alto” em 2030 e se manter assim em 2050.

Um levantamento exclusivo realizado pela Mangue Jornalismo na Plataforma AdaptaBrasil, que é o Sistema de Informações e Análises sobre Impactos das Mudanças Climáticas, do Ministério de Ciência e Tecnologia, revelou que Sergipe é o estado que lidera no país o alto risco de estresse hídrico e de comprometimento de sua já frágil biodiversidade em razão da emergência climática.
Até parece que a música “Asa Branca”, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, lançada no distante ano de 1947, ainda parece fazer sentido diante dos dados que descortinam um ataque longo e contínuo ao meio ambiente em Sergipe. Na música, a pergunta deveria incomodar: “Por que tamanha judiação?”.
Para revelar esse quadro danoso em Sergipe em razão de eventos climáticos extremos, a AdaptaBrasil reuniu pesquisas dos últimos dez anos e combinou vulnerabilidades, exposições e ameaças climáticas Esse levantamento de risco considera ainda o nível de sensibilidade que o estado tem diante de ocorrências climáticas graves e o seu grau de capacidade adaptativa.
Os dados oficiais sobre Sergipe nessas duas áreas (proteção da água e dos biomas ainda resistentes) não são nada bons e deveriam ser motivo de alerta e tomada de providência urgentes. Entretanto, infelizmente, algumas as políticas públicas nessa área no estado vão em sentido contrário, aprofundando os graves problemas já existentes.
Em julho de 2025, a Mangue Jornalismo publicou ampla reportagem mostrando que na contramão da emergência climática o Governo de Sergipe facilitou a dispensa de licenciamento ambiental. A Assembleia Legislativa aprovou o Projeto de Lei 200/2025, do governador Fábio Mitidieri (PSD) que dispensa o licenciamento ambiental em áreas rurais, abrindo caminho para a devastação do meio ambiente. Veja a reportagem completa AQUI.
Agora, o sistema de acompanhamento do Ministério de Ciência e Tecnologia, além de trazer dados preocupantes sobre o estresse hídrico e a biodiversidade, ainda apresenta informações relevantes sobre segurança alimentar, saúde, desastres geo-hidrológicos, infraestrutura rodoviária, ferroviária e portuária e segurança energética.

Sobre o comprometimento da água
A classificação geral do risco de cada estado vai de 0 a 1, e Sergipe atingiu o maior índice nacional em estresse hídrico, 0,72, considerado alto e acima de estados como Pernambuco (0,72), Alagoas (0,69), Paraíba (0,69), Ceará (0,68), Rio Grande do Norte (0,67) e Distrito Federal (0,67). Na outra ponta, isto é, com o risco mais baixo do país, está o Tocantins com apenas 0,20.

Risco climático e estresse hídrico



A plataforma ainda mostra outro dado preocupante para Sergipe. Os pesquisadores fizeram uma projeção do risco de estresse hídrico para os anos de 2030 e 2050. Sergipe que hoje tem risco alto (0,72), pode passar em 2030 para muito alto com índice de 0,83. No ano de 2050, o risco também deve se manter muito alto com 0,82, mantendo Sergipe na liderança entre todos os estados. Em 2030 e 2050 só Sergipe e Alagoas devem ter risco muito alto.
Tendência de estresse hídrico para 2023 e 2050




Os dados revelam ainda a gravidade do tema: 71 dos 75 municípios sergipanos têm risco alto de estresse hídrico em razão de eventos climáticos extremos. Apenas Pedra Mole (0,45), São Miguel do Aleixo (0,51), Nossa Senhora Aparecida (0,53) e Barra dos Coqueiros (0,58) foram classificados como de médio risco. Quem lidera o risco alto em Sergipe é o município de Nossa Senhora da Glória, com índice de 0,78, bem acima da média no estado (0,72). Aracaju e outras oito cidades sergipanas atingiram risco de 0,77. No país, o município que lidera é Recife com 0,83.
Segundo o Sistema de Informações e Análises sobre Impactos das Mudanças Climáticas, considera-se estresse hídrico as alterações no regime de vazões em bacias hidrográficas em função do déficit de água provocado pela diminuição abrupta ou prolongada de chuvas por um período (uma estação, um ano ou vários anos). Ou seja, isso pode resultar em escassez de água para alguma atividade, grupo ou setor ambiental.
“A escassez hídrica resulta em perdas econômicas e sociais significativas para diversos setores, desde a agricultura, abastecimento humano, indústrias, energia ao turismo, provocando efeitos profundos nas comunidades locais. Déficits mais frequentes implicará em aumento de custos para a sociedade, necessitando de estratégias de adaptação por parte dos usuários de água”, informa os pesquisadores do AdaptaBrasil.

Frances Andrade, engenheiro Florestal em Sergipe, mestre e doutorando em Ciências Florestais, lembra que Sergipe possui 23 municípios no Semiárido, uma região naturalmente suscetível aos processos de desertificação, secas recorrentes e as irregularidades das chuvas que comprometem severamente a agricultura.
“Esse contexto reflete a profunda incoerência do que é dito pelos governos locais e o que a região e as pessoas de fato vivem e vão vivenciar. Os planos de desenvolvimento focados prioritariamente em asfalto, expansão das rodovias e na construção de grandes pontes precisam ser analisados com extrema cautela, pois podem resultar em má-adaptação, servindo apenas como os especialistas estão chamando de ‘greenwashing’ ou mentira verde”, analisa Frances, que também é membro da Rede Brasileira de Biodiversidade e Clima e da Rede Global de Jovens pela Biodiversidade.
O professor doutor Sandro Holanda, do Departamento de Engenharia Agronômica da Universidade Federal de Sergipe (UFS), lembra que o estado tem solos e grandes reservatórios naturais de água na paisagem submetidos à erosão, compactação, perda de matéria orgânica e manejo inadequado. Para o professor, os solos degradados apresentam menor capacidade de infiltrar, armazenar e disponibilizar água, ampliando o escoamento superficial e a vulnerabilidade aos períodos de seca.
“Somam-se a isso as mudanças climáticas e os desafios estruturais de captação, armazenamento e distribuição de água para o consumo humano. Portanto, segurança hídrica, conservação dos solos, vegetação nativa e biodiversidade precisam ser tratadas de maneira integrada”, defende Sandro, que também atua no Programa de Pós-Graduação em Agricultura e Biodiversidade/UFS.
Sobre ao comprometimento da biodiversidade
Também sobre o impacto aos biomas no estado, a classificação geral do risco vai de 0 a 1, e Sergipe atingiu o maior índice nacional nesse quesito com 0,72, considerado alto. No Brasil, só Sergipe e Alagoas registraram risco alto, sendo Alagoas com pontuação de 0,67.

Considerando-se apenas o Nordeste, os demais estados registraram risco médio e baixo. Paraíba e Ceará, com 0,30; Rio Grande do Norte, 0,33 e Piauí, 0,38 são exemplos de risco baixo. No Brasil, o menor risco está no Amazonas, com 0,03.

Índice de risco à integridade do bioma



Os pesquisadores também fizeram projeções do risco à biodiversidade em Sergipe para os anos de 2030 e 2050. Os estudos mostram que o estado deve manter o risco alto em 2030, com os mesmos 0,72 pontos, mas em 2050 existe a possibilidade de reduzir para 0,66, ainda permanecendo na escala de risco alto. Nesse ponto, apenas os estados do Mato Grosso do Sul (0,82) e Tocantins (0,83) devem atingir um risco muito alto em 2050.
Apenas um município dos 75 de Sergipe tem risco considerado baixo, Amparo do São Francisco, com índice de 0,38. Chama atenção que o estado tem 17 municípios com risco muito alto de impacto da emergência climática na biodiversidade. Os destaques são Pirambu (0,86), um dos mais altos do país, Estância, Barra dos Coqueiros, Cumbe, Santana do São Francisco, todos com risco de 0,84 e Japaratuba com 0,83. A capital também está no grupo de risco muito alto com 0,82.
Para o AdaptaBrasil, o índice de risco à integridade do bioma é resultante da resiliência climática, ou seja, da interação entre os eventos climáticos que afetam os limites fisiológicos de tolerância e que garantem o adequado funcionamento dos ecossistemas naturais, bem como avalia a vulnerabilidade e da exposição desses sistemas.
Para os pesquisadores, “as mudanças gradativas das condições ambientais podem reduzir a capacidade de auto-organização dos ecossistemas após um distúrbio e, consequentemente, comprometer sua estrutura e funcionamento, a integridade dos ecossistemas”. Um bioma (mata atlântica, caatinga, etc) tem integridade quando suas características ecológicas dominantes podem suportar e se recuperarem da maioria das perturbações impostas pela dinâmica ambiental natural ou pelas perturbações humanas.

Cerca de 2,3 milhões de habitantes de Sergipe estão sob risco iminente
Para o professor Sandro Holanda os dados do AdaptaBrasil, do MCTI, revelam um cenário preocupante para a segurança hídrica e a biodiversidade em Sergipe. “Esse cenário ganha maior relevância diante das pressões exercidas sobre os biomas Mata Atlântica e Caatinga, importantes para a conservação da água e da biodiversidade”, alerta o professor.
Frances Andrade, engenheiro Florestal em Sergipe, mestre e doutorando em Ciências Florestais, afirma que diante dos dados cerca de 2,3 milhões de habitantes de Sergipe estão sob risco iminente, sendo os mais vulneráveis às consequências da crise climática e aos impactos da perda de biodiversidade. Essa realidade não apenas confirma a gravidade da situação, mas coloca a população no centro dos desastres.
“Acontecimentos recentes ameaçam os avanços no combate a essas crise. Não podemos esquecer os conflitos e as injustiças em Barra dos Coqueiros, onde as catadoras de mangabas sofrem ameaças devido à expansão imobiliária; as discussões sobre instalação dos data centers de alto consumo de água; até mesmo a privatização da companhia de água. São escolhas e vontades políticas que ameaçam o meio ambiente e colaboram diretamente com o agravamento das crises e desigualdades já existentes”, alerta Frances.
Sandro Holanda se pergunta: “Diante desse cenário, o que nós, enquanto sociedade, e o poder público estamos fazendo para reverter uma situação tão preocupante? Talvez a implantação do Plano Estadual de Ações Climáticas (PEAC) represente uma oportunidade para repensarmos a forma como manejamos nossos recursos naturais — solo, água e vegetação —, transformando planejamento em ações efetivas de conservação, restauração e adaptação climática, capazes de impactar positivamente esse cenário e aumentar a resiliência dos nossos territórios”, aponta o professor.
Governo diz que acompanha os dados e que atua para reduzir vulnerabilidades
Procurada pela Mangue Jornalismo, o Governo de Sergipe, por meio de sua Secretaria do Meio Ambiente, Sustentabilidade e Ações Climáticas (Semac), informou que “acompanha os dados e indicadores relacionados às mudanças climáticas, à disponibilidade hídrica e à biodiversidade e atua em diferentes frentes para reduzir as vulnerabilidades do território sergipano e ampliar sua capacidade de adaptação aos impactos da emergência climática. O cenário apontado pelo AdaptaBrasil reforça a importância de políticas públicas permanentes de prevenção, planejamento e gestão ambiental, que já vêm sendo desenvolvidas”.
Sobre os dados de estresse hídrico, a Semac assegurou que o “Estado vem fortalecendo os instrumentos de planejamento e gestão dos recursos hídricos, com a busca pela elaboração do Plano de Segurança Hídrica, o monitoramento das barragens e o acompanhamento das condições climáticas e de disponibilidade de água por meio da Sala de Situação da Semac. Sergipe também executa o Monitor de Secas da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), ampliando a capacidade de acompanhamento da evolução das condições de seca e de seus possíveis impactos. Paralelamente, vem avançando na governança dos recursos hídricos, com a criação de quatro novos Comitês de Bacias Hidrográficas e a implantação da cobrança pelo uso da água bruta, instrumento previsto na legislação nacional e que contribui para o uso racional e sustentável dos recursos hídricos”.
Segundo nota da Semac, “o planejamento climático também é parte dessa estratégia. A partir deste ano, Sergipe conta com o Plano de Ações Climáticas, o de Ação Estadual de Combate à Desertificação e o de Gerenciamento Costeiro, instrumentos que permitem identificar vulnerabilidades, estabelecer prioridades e orientar ações de adaptação e redução dos impactos da variabilidade e das mudanças climáticas, especialmente nas áreas mais suscetíveis à seca e à degradação ambiental”.
Estado afirma que conserva, recupera e amplia áreas protegidas
No que se refere ao risco à biodiversidade, a Semac assegurou que “o Estado atua na conservação, recuperação e ampliação das áreas protegidas. Atualmente, são mais de 58 mil hectares de Unidades de Conservação administradas pelo Estado, além de ações de recuperação de áreas degradadas. Mais de 60 hectares de áreas protegidas já foram reflorestados, com o plantio de mais de 26 mil mudas de espécies nativas, contribuindo para a recuperação dos ecossistemas, a conservação da biodiversidade e o fortalecimento da resiliência climática. Nesse processo, também se destaca a recente criação do Monumento Natural Serra da Melancia, no município de Gararu, ampliando a proteção de áreas de relevância ambiental no território sergipano”.
Segundo a nota do Governo do Estado, Sergipe “também aderiu ao programa Floresta Viva, iniciativa desenvolvida em parceria com o BNDES que prevê investimentos de até R$ 100 milhões para ações de restauração ecológica e recuperação de áreas degradadas no estado. O programa contempla ecossistemas como a Caatinga, os manguezais e as restingas e prevê ações de recomposição da vegetação nativa, implantação de sistemas agroflorestais e proteção de nascentes. São medidas que contribuem simultaneamente para a conservação da biodiversidade, a recuperação dos ecossistemas e a melhoria da capacidade do território de conservar e infiltrar água no solo, fortalecendo sua resiliência diante dos efeitos das mudanças climáticas. Outro avanço ambiental relevante foi o fechamento de 100% dos lixões do estado, medida que reduz riscos de contaminação do solo e dos recursos hídricos e fortalece a gestão ambiental dos municípios”.
A Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Sustentabilidade e Ações Climáticas afirma que “o enfrentamento dos efeitos da emergência climática em Sergipe não está concentrado em uma única ação, mas em um conjunto de políticas de planejamento, monitoramento, gestão dos recursos hídricos, conservação da biodiversidade, recuperação ambiental e prevenção. O objetivo dessas iniciativas é reduzir vulnerabilidades, fortalecer a segurança hídrica e aumentar a capacidade de adaptação de Sergipe diante de um cenário climático que exige planejamento de longo prazo e atuação contínua. A Semac tem atuado de forma preventiva, antecipando riscos e estruturando políticas que permitam ao território sergipano responder de forma cada vez mais preparada aos impactos das mudanças climáticas”.
TRANSPARÊNCIA: acesse todos os dados sobre essa reportagem da Mangue na Plataforma Adaptabrasil AQUI.


