No estado com menor índice de vegetação nativa do país, ‘Santuário’ reconecta fragmentos de Mata Atlântica e protege espécies ameaçadas de extinção

Com apenas 5 hectares no povoado Tejupeba, em Itaporanga d’Ajuda, iniciativa mostra como pequenos corredores ecológicos e respeito ao tempo da terra podem ajudar a salvar a biodiversidade sergipana da extinção.

Jonathan Calzavara

No povoado Tejupeba, em Itaporanga d’Ajuda (distante cerca de 34 km de Aracaju), uma área de 5 hectares serve como um verdadeiro corredor ecológico dos animais. O local tem como objetivo preservar a conservação da biodiversidade de um dos biomas mais ameaçados do Brasil: a Mata Atlântica. É um fato que o desmatamento na Mata Atlântica atingiu o menor nível histórico em sua série de monitoramento. De acordo com os dados consolidados do Atlas da Mata Atlântica (2024-2025), divulgado pelo INPE e pela Fundação SOS Mata Atlântica, houve uma redução de 40% na supressão de florestas maduras. A destruição dessas áreas caiu de 14.366 hectares no período anterior para 8.668 hectares, marcando a primeira vez em 40 anos que o índice anual de desmatamento de florestas maduras ficou abaixo de 10 mil hectares. 

Em novembro do ano passado, a Mangue Jornalismo mostrou que a realidade desse bioma em Sergipe também é preocupante. O menor estado do País “está no limite da sua resiliência ambiental” e já perdeu quase toda sua cobertura de mata, disse na ocasião o superintendente do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), Cássio Murilo. Leia a entrevista completa aqui. 

De acordo com os dados mais recentes, da Fundação SOS Mata Atlântica, restam cerca de 24% da cobertura original do bioma no Brasil. Sergipe é o estado brasileiro com a menor proporção de vegetação nativa preservada, com apenas 20% da vegetação nativa, atestou um monitoramento do MapBiomas. O desmatamento ilegal chegou a ser alvo de uma operação que reuniu diversos órgãos. A chamada “Operação Mata Atlântica em Pé” mirou, durante 10 dias, áreas que totalizam 98 hectares.  

Em meio a essas ameaças, existem trabalhos mobilizados pela sociedade civil em prol da preservação desse espaço e das espécies que vivem nela. Um deles é o Santuário da Mata. O projeto surgiu em 2021, quando Tito Garcez e sua mãe Marta decidiram comprar uma terra que servia, anteriormente, de plantação de laranjeiras. Há apenas cinco anos, a área era uma monocultura abandonada de laranja. O simples ato de deixar a terra ‘descansar’ fez com que a mata nativa ressurgisse e virasse abrigo para mais de 120 espécies de aves, transformando-se, também, em local seguro para primatas criticamente ameaçados de extinção.

Após 05 anos, a floresta cresceu e serve de abrigo para centenas de espécies.

“As pessoas aqui de Sergipe, e eu me incluo porque nasci aqui também, nasceram num ambiente já devastado. Então a fragmentação é histórica e, pouco a pouco, ainda tem alguns fragmentos que vão sendo diminuídos. Por sabermos que Sergipe é proporcionalmente o estado que menos tem Mata Atlântica, a gente quer conservar o que existe e tentar tirar ele desse mapa, expandindo essas áreas de vegetação nativa”, conta Tito.  

A regeneração da mata

Em vez de focar exclusivamente no plantio de mudas, ele apostou na força da própria terra. “Muito além de plantar mudas, a gente foi permitindo que tivesse regeneração natural”, explica.  A estratégia gerou estranhamento na comunidade logo no início. “A gente contratava pessoas do povoado pra nos ajudar a capinar, roçar. E eles nos chamavam de loucos, porque eles falavam: ‘Mas isso é mato, vocês vão deixar?'”, relembra Tito, destacando o choque cultural. Hoje, o turismólogo garante que a técnica foi a melhor escolha.

O objetivo do Santuário não é apenas proteger os seus cinco hectares, mas funcionar como uma ponte vital entre áreas maiores. A solução proposta pela iniciativa para o Estado não exige a criação de novas e imensas florestas, mas a reconexão das que restaram. “Para conectar as matas, a gente não precisa criar outras matas. Na verdade, são corredores de cinquenta metros, cem, duzentos”, explica Tito.

A reconexão entre as matas ocorre pela instalação de ‘corredores ecológicos’, para facilitar a passagem dos animais. (Créditos: Jonathan Calzavara)

Esse corredor seguro é uma esperança para espécies que lutam contra o isolamento genético e a extinção. Entre os moradores ilustres mapeados na região está o macaco-prego-do-peito-amarelo, classificado como “criticamente em perigo” pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). Trata-se de uma espécie de primata que, além de Sergipe, tem ocorrência no norte de Minas Gerais e na Bahia, vive nas copas das árvores e mantém uma alimentação variada, que inclui desde flores e frutos a pequenos répteis. Atualmente, estima-se que sua população varie entre 3 mil e 5 mil.

O Santuário também conta com a preguiça-de-coleira, que circula na região junto com o Macaco-prego-do-peito-amarelo, ambos ameaçados de extinção.Créditos: Jonathan Calzavara

Turismo com foco no respeito

Para manter esse refúgio operando em segurança, o modelo de visitação precisou ser repensado. Formado em turismo e com experiência profissional na Patagônia argentina, Tito critica o ecoturismo convencional que, sem limites de capacidade, acaba degradando a fauna e a flora locais com pisoteamento e barulho. “O santuário surgiu dessa necessidade de eu querer conservar a Mata Atlântica aqui no estado, e aliar também a visitação”, conta. Apoiado voluntariamente por sua mãe e parceiros locais, o foco atual do projeto é o chamado Turismo de Observação de Vida Silvestre, um nicho que atrai pesquisadores, voluntários e observadores de aves.

Eduardo García e Amaia Lázaro Fernández foram dois voluntários espanhóis que estiveram no Santuário em agosto para a realização de pesquisas sobre os macacos. “Atualmente, estamos vendo as consequências de séculos de ações humanas prejudiciais à natureza. Felizmente, a conscientização e os esforços para a conservação da biodiversidade estão crescendo entre a população. Ainda assim, nunca é suficiente. Por isso, espaços assim são extremamente importantes, pois ajudam a aproximar as pessoas do conhecimento sobre a biodiversidade local e sobre os desafios relacionados à sua conservação, especialmente aquelas que vivem em constante interação com essas espécies”, asseverou Eduardo. 

Local que permite a observação de aves. Créditos: Jonathan Calzavara

Apesar do sucesso prático da regeneração na fazenda, o projeto esbarra em um problema estrutural do estado: a falta de apoio científico contínuo para a Mata Atlântica sergipana. “Tem muita gente estudando biologia, ecologia e outros cursos, mas eles são acostumados a estudar as espécies comuns. Poucos fazem atividades de campo para entender realmente como está a situação”, lamenta Tito.

A situação é tão crítica que as informações sobre primatas no estado estão defasadas. O idealizador do Santuário confessa que, hoje, há “mais interesse nas espécies ameaçadas de pessoas de outros estados, de outros países, do que das próprias pessoas aqui de Sergipe”. Vale destacar que a falta de estudos sobre passagens de fauna e corredores ecológicos pode atrasar a criação de políticas públicas, o que coloca os animais em risco constante. Tito acredita que, sem os cinco anos de preservação do Santuário, o estado poderia ter enfrentado perdas irreparáveis. “Talvez aceleraria um pouco mais o processo de extinção desses macacos ameaçados no entorno”, reflete.

Apesar das dificuldades, o santuário conta com a parceria do professor Edilson Divino de Araújo, que ministra aulas de Genética e Evolução no Departamento de Biologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e coordena o Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação (PPEC/UFS). 

O docente destaca que “as instituições vinculadas à conservação da biodiversidade são sempre muito importantes, de uma maneira geral, porque isso fortalece a camada institucional que precisamos para dar conta desse desafio. A conservação da biodiversidade não pode acontecer somente por meio de ações do governo. É importante também contar com outras organizações, inclusive organizações não governamentais, que possam dar esse apoio e contribuir para as ações de conservação. E Sergipe é bastante carente desse tipo de instituição”. 

Segundo o professor, a parceria com o Instituto Santuário da Mata começou a partir das pesquisas que alguns professores da UFS vinculados ao PPEC já desenvolviam naquela região, especialmente na área de herpetologia – ramo da zoologia dedicado ao estudo dos anfíbios (como sapos, rãs, pererecas e salamandras) e dos répteis (como serpentes, lagartos, tartarugas e jacarés). 

Divino de Araújo ressalta, porém, que existem outros interesses de pesquisa que também podem ser desenvolvidos dentro da área, como estudos com primatas, abelhas e outros grupos da fauna e da flora. É uma região importante justamente por apresentar fragmentos de Mata Atlântica e também pela própria natureza da instituição, que tem como objetivo a conservação. 

Reconhecimento

A luta solitária para reconectar as matas sergipanas recentemente ganhou reconhecimento global. No fim do ano passado, após passar por vistorias técnicas, o Santuário da Mata foi reconhecido como um Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Esse título é concedido através de um programa da UNESCO que certifica locais focados em conservação, educação ambiental e pesquisa científica. “No Brasil, acho que agora tem 100 postos avançados em todos os estados. Em Sergipe, temos apenas três ativos”, comemora Tito. 

Tito e Marta, idealizadores do Santuário da Mata. (Créditos: Jonathan Calzavara )

Mais do que salvar os primatas, a manutenção do local serve também como uma ferramenta direta contra os extremos climáticos vividos pela própria comunidade local. “Tem pessoas do povoado que acham que eu tô preocupado só com os macacos. Eles não entendem que se o macaco tá vivendo saudável, ele vai espalhar sementes, as matas vão crescer, tendo mais árvores, vai captar mais os gases de efeito estufa e vai ter mais chuva”, completa ele, pontuando que a conservação resulta em “menos ondas de calor” para a população.

Inovação: Saneamento ecológico como modelo para a comunidade

Além do plantio e da conservação, o Santuário da Mata funciona como um laboratório de tecnologias sociais aplicadas ao meio ambiente. Um dos maiores problemas estruturais da região são as fossas convencionais, que não possuem isolamento e geram um risco constante de contaminação do lençol freático.

Para resolver essa questão dentro da propriedade e servir de exemplo para o entorno, o local implementou uma Bacia de Evapotranspiração (BET). “Trata-se de uma tecnologia social que trata os resíduos sanitários de forma autônoma e sustentável: os dejetos líquidos e sólidos são processados no sistema, que funciona como um ciclo fechado”, explica Tito.

O sistema substitui a necessidade de caminhões de sucção pela inteligência da própria natureza. “Utiliza plantas de folhas largas, como bananeiras e taiobas, que possuem alta taxa de evapotranspiração. Elas absorvem a umidade e os nutrientes dos resíduos, evitando o transbordamento”, detalha. O sucesso da iniciativa fez a equipe sonhar mais alto. O objetivo a longo prazo é buscar editais e emendas parlamentares para expandir o modelo para o resto do povoado, oferecendo uma “alternativa definitiva e ecológica ao saneamento básico precário da região”.

Mudança cultural: O orgulho de Tejupeba e as abelhas sem ferrão

O impacto do projeto vai muito além das fronteiras da fazenda e já começou a transformar a cultura local. O envolvimento comunitário é visto como uma estratégia fundamental de conservação. “Se antes todos os primatas de médio porte eram genericamente chamados de ‘gigós’, hoje muitos já identificam corretamente o macaco-prego e compartilham esse conhecimento”, orgulha-se Tito.

Essa nova consciência ambiental tem gerado um sentimento de orgulho nos moradores do povoado de Tejupeba, que agora recebem visitantes internacionais. Para fortalecer esse vínculo, o instituto iniciou ações de plantio com as crianças locais e já formalizou um pedido à prefeitura para assumir e revitalizar a antiga escola do povoado, atualmente deteriorada, para transformá-la na sede de suas ações comunitárias.

Um dos maiores trabalhos educativos desenvolvidos com os visitantes e as crianças da região é a desmistificação das abelhas. A área do Santuário conta com um meliponário voltado exclusivamente para espécies nativas, que possuem o ferrão atrofiado e são inofensivas, diferente das abelhas africanizadas.

“O nosso intuito é educar visitantes e crianças, demonstrando que muitos insetos que se confundem com pequenos mosquitos são, na verdade, abelhas nativas de extrema importância ecológica”, explica Tito. O espaço já serve de abrigo para quatro espécies: Jataí, Iraí, Marmelada e a Uruçu-nordestina, que, assim como muitos macacos da região, também se encontra ameaçada de extinção.

O professor da UFS, Edilson Divino, destacou sua área de interesse no estudo pelas abelhas. Ele destaca que deseja conhecer quais espécies de abelhas ocorrem nessa região, como elas interagem e qual é o efeito da fragmentação dos habitats sobre essas populações, tanto de abelhas solitárias quanto de abelhas que vivem em colônias.

Créditos: Jonathan Calzavara

“Então, existe um campo bastante amplo de possibilidades de pesquisa. A catalogação das espécies é um primeiro passo importante, mas, a partir dela, podemos avançar para compreender melhor como essas espécies estão distribuídas, como interagem entre si e com o ambiente e como respondem às alterações que ocorrem nesses fragmentos”, explicou Edilson. 

Entre os aprendizados práticos diários no Santuário, um detalhe chamou a atenção da equipe: a eficiência da dispersão natural de sementes feita pela fauna, em especial pelas aves que agora retornam à região. “Nota-se, inclusive, que as mudas plantadas por nós não se desenvolveram com o mesmo vigor que aquelas que surgiram naturalmente, as quais apresentam um estado excelente”, observa Tito.

Jonathan Calzavara

O retorno das aves também está intimamente ligado à recuperação de espécies vegetais que se julgavam perdidas. Tito relata que chegou a supor que não houvesse mais exemplares da palmeira-juçara na região. “A palmeira era a principal fonte de alimento dos tucanos; como hoje há poucas dessas árvores em Sergipe, a população de tucanos também diminuiu. Percebe-se, assim, como um fator está diretamente ligado ao outro”, analisa, celebrando a recente redescoberta da espécie na área do projeto.

O local realiza o plantio de algumas mudas. (Créditos: Jonathan Calzavara)

Contudo, apesar das vitórias na recuperação da flora, um alerta climático acendeu a atenção na mata. Durante uma caminhada ainda no inverno, período em que o volume de água costuma aumentar, Tito fez uma constatação preocupante: o poço no interior da mata não apresentava água corrente. “Esse fato é um sinal de alerta de que poderemos enfrentar uma seca severa no próximo verão”, prevê. É o temor de que, pela primeira vez em cinco anos, o brejo do Santuário possa secar, provando que, por mais forte que seja a resistência local, o fragmento ainda sofre as duras consequências das mudanças climáticas globais.

Tito e a equipe temem uma seca no local. (Créditos: Jonathan Calzavara)

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Camila Farias

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