A 39 km de Aracaju, mulheres mantêm viva uma técnica com mais de cem tipos de pontos e enfrentam desafios econômicos, institucionais e sociais para que o ofício, reconhecido como patrimônio imaterial do Brasil, não se perca.

A cerca de 39 km da capital de Sergipe, Aracaju, na cidade de Divina Pastora, a renda irlandesa não é apenas artesanato. A história deste patrimônio cultural imaterial do Brasil, oficializado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2009, se entrelaça com a história, com a memória, com a identidade, não somente do município, como de muitas mulheres, que ao longo dos anos fizeram da renda irlandesa um caminho de autonomia financeira e emocional.
Esta arte produzida em Sergipe atravessa gerações como símbolo de identidade, resistência feminina e patrimônio imaterial. Tendo o município de Divina Pastora como principal referência nacional deste saber-fazer, a técnica permanece viva pelas mãos de rendeiras que transformam linhas, agulhas e tradição em sustento, arte e memória coletiva. Segundo o dossiê “Modo de Fazer Renda Irlandesa tendo como Referência este Ofício”, elaborado pelo Iphan, e que contou com o auxílio e pesquisa da antropóloga sergipana Beatriz Góes Dantas, a prática possui forte enraizamento no cotidiano das mulheres sergipanas e carrega um caráter profundamente coletivo.
O material destaca que a preservação deste patrimônio depende diretamente da transmissão dos saberes entre gerações e da consolidação de políticas públicas voltadas à sustentabilidade econômica e social das artesãs.
A história da renda irlandesa em Sergipe remonta ao início do século XX e o dossiê aponta que a técnica teria sido introduzida na cidade sergipana por Dona Ana Rolemberg, integrante de uma tradicional família ligada aos engenhos da região, que aprendeu a técnica com Violeta Sayão Dantas e a transmitiu a outras mulheres do município. Desde então, o ofício tornou-se parte essencial da identidade local.
Enquanto os fios passam delicadamente pelas mãos das rendeiras, histórias inteiras são preservadas. Histórias de mães, avós e bisavós que ensinaram, geração após geração, o modo de fazer que é reconhecido como patrimônio cultural imaterial brasileiro e registrado oficialmente no Livro de Registros de Saberes. E por falar em saber, este era compartilhado naturalmente. Nas calçadas da cidade, mulheres se reuniam nas portas de casa, sentadas em pequenas cadeiras de madeira, enquanto alinhavavam tecidos e criavam desenhos complexos que atravessariam décadas.
Em 4 de maio de 2023, a Mangue Jornalismo publicou a reportagem “A renda irlandesa de Divina Pastora é o único patrimônio imaterial sergipano registrado no Iphan. Outras seis expressões locais poderiam ser inscritas”.
De acordo com Maria José Souza, vice-presidente da Associação para o Desenvolvimento da Renda Irlandesa de Divina Pastora (ASDEREN), toda menina aprendia o ofício de rendar a partir dos oito anos de idade, em que ganhavam uma pequena tesoura, uma fronha e iam para a casa de uma mestra aprender. “O modo de fazer da renda irlandesa sempre esteve presente na vida das mulheres de Divina Pastora. Você passava na rua e via todas as mulheres bordando. Era uma coisa coletiva, amorosa, transmitida gratuitamente”, relembra.
Atualmente, o desafio é outro: impedir que esse conhecimento desapareça com o tempo.
Um patrimônio construído pelas mulheres
O Registro do Modo de Fazer da Renda Irlandesa, tendo como referência o ofício desenvolvido em Divina Pastora, reconhece oficialmente a importância dessa tradição para a formação cultural brasileira. A cidade carrega uma herança histórica singular. Localizada em uma região marcada pelos antigos engenhos de açúcar, Divina Pastora foi berço de famílias tradicionais e da aristocracia sergipana.
“Os enxovais de renda irlandesa eram símbolos de status social”, explica Vânia Maria Souza, rendeira e assessora jurídica voluntária da ASDEREN. “Quem pertencia à elite precisava ter peças de renda irlandesa. Não era uma peça só. Eram toalhas, colchas, jogos completos.” Segundo ela, havia até cerimônias de apresentação dos enxovais antes dos casamentos. As peças atravessaram o tempo e ganharam novos espaços: vestidos de noiva, moda autoral, acessórios e passarelas. Ainda assim, as rendeiras afirmam que o reconhecimento nem sempre acompanha a complexidade do trabalho.

“Divina Pastora possui dois patrimônios reconhecidos: a tradicional igreja da cidade e o modo de fazer da renda irlandesa. Poucas cidades no Brasil têm isso. Às vezes as pessoas olham para a peça e acham caro. Mas não conhecem a história, o tempo, os pontos, a técnica. Tem peças com mais de cem tipos de pontos diferentes. Tem cliente de São Paulo que pede ponto por ponto e não pergunta o preço porque ela entende que aquilo é uma técnica rara”, explica Vânia. A associação sonha agora com oficinas permanentes, escolas de renda e até a inclusão do ensino sobre patrimônio cultural no currículo municipal, pois segundo elas, quando a criança entende o que é patrimônio, ela aprende a protegê-lo.
E por falar em aprender desde a infância, a presidente da Associação das Rendeiras Independentes de Divina Pastora (ASDRIN), Neidiele de Jesus Silva, começou a aprender a técnica aos 13 anos de idade, ensinada pela mãe e pela tia, em um contexto marcado por dificuldades financeiras. “Minha mãe estava desempregada e nós trabalhávamos na roça pela manhã. À tarde estudávamos. Minha irmã e minha mãe enfrentavam depressão e eu precisava ser a pessoa forte da família”, conta.
Ela afirma que a renda irlandesa transformou a vida da família e se tornou sua principal fonte de renda. “Hoje, aos 28 anos, a renda irlandesa é minha missão de vida”, declara Neidiele, que integrou a comitiva de rendeiras que participou de um intercâmbio cultural na Irlanda, entre 2023 e 2024, experiência que considera um divisor de águas para o reconhecimento internacional do ofício sergipano. “Foi emocionante perceber que a renda praticamente não existe mais na Irlanda e que Sergipe, através de nós mulheres, conseguiu preservar essa técnica. Muitas irlandesas se emocionavam ao ver nossas peças e chamavam nosso trabalho de artesanato de luxo”, relata.
Durante a viagem, as rendeiras participaram de encontros promovidos pela embaixada brasileira e pela prefeitura de Dublin, além de estabelecerem parcerias comerciais com lojas locais. “Voltei com ainda mais vontade de preservar o saber-fazer. Hoje ensino todas as mulheres que procuram aprender”, afirma. Ela conta que, apesar de muitas artesãs ainda dependerem de auxílios sociais, a valorização recente da renda irlandesa já apresenta impactos positivos na renda das mulheres. “Antes demorava muito para vender uma peça. Hoje, muitas são comercializadas logo após serem finalizadas”, destaca.

Segundo Neidiele, o apoio do Governo de Sergipe foi fundamental para ampliar a presença das artesãs em feiras nacionais e internacionais. “O governo oferece passagens, hospedagem, transporte das mercadorias e ajuda de custo. Também criou o projeto RendaVeste, que promove consultorias em design, modelagem e identidade visual”, explica.
Apesar dos apoios de empresas privadas e do governo estadual, o reconhecimento ainda é insuficiente para manter integralmente as mulheres que rendam, por isso, muitas rendeiras ainda possuem outros ofícios em paralelo, deixando a renda irlandesa como atividade complementar, como é o caso da professora e rendeira Maria Jivanilde dos Santos. Ela iniciou na renda irlandesa ainda criança, aos 11 anos, movida pela necessidade de continuar estudando. “Na época não existia escola no município que atendesse além do ensino primário. Então eu trabalhava fazendo renda durante o dia e estudava à noite para conseguir concluir os estudos e ter uma profissão”, relembra. Ela aprendeu o ofício com uma vizinha e afirma que a renda foi essencial para garantir sua formação educacional.
Atualmente vinculada à Associação dos Artesãos, Pequenos Agricultores, Pecuaristas, Renda Irlandesa e Outros Pluriatividade Pastorese (APRIQ), Jivanilde relata dificuldades enfrentadas pela entidade, que completa 20 anos em 2026. Segundo ela, a associação enfrenta fragilidade institucional e ausência de apoio governamental recente. “Atualmente a APRIQ está fora dos programas do governo. Não temos incentivo e muitas rendeiras acabam desistindo por falta de retorno financeiro, no caso da nossa associação, não temos o incentivo e a valorização que gostaríamos”, lamenta.

Porém, recentemente o debate sobre valorização do artesanato ganhou novo impulso com a atualização da legislação federal que alterou as Leis nº 12.634/2012 e nº 13.180/2015, passando a dispor sobre o Dia Nacional da Artesã e do Artesão e sobre a regulamentação da profissão de artesã e artesão no Brasil. Para as rendeiras, o reconhecimento institucional é importante, mas ainda insuficiente diante da dimensão cultural e econômica do trabalho desenvolvido, sobretudo em Sergipe.
Mesmo diante das dificuldades, Jivanilde reforça o significado econômico e emocional da renda irlandesa para as mulheres da comunidade. “Quando conseguimos vender nossas peças, isso ajuda no orçamento da casa e traz muita satisfação. Seria maravilhoso se as rendeiras pudessem viver integralmente de seus trabalhos, algumas conseguem, mas é muito difícil, pois é necessário que mais políticas públicas sejam feitas e que o Estado olhe mais por nós”, pontua.
“Quando falamos da renda irlandesa de Divina Pastora, estamos falando de um patrimônio vivo, construído pelas mãos, pela memória e pela resistência de gerações de mulheres. O nosso papel é criar oportunidades para que esses artesãos ocupem espaços cada vez maiores, participem de feiras nacionais e internacionais e tenham reconhecimento compatível com a grandeza do trabalho que realizam”, diz o secretário de Estado do Trabalho, Emprego e Empreendedorismo de Sergipe, Jorge Teles.
Segundo o secretário, a gestão estadual entende o fortalecimento do artesanato como estratégia de desenvolvimento social, geração de renda e valorização cultural.
“O governo estadual mantém políticas contínuas de apoio às artesãs, incluindo participação em feiras, qualificação profissional, incentivo à sucessão geracional e integração do artesanato às políticas de turismo e economia criativa. A orientação do governador é clara: cuidar das grandes obras, mas sem esquecer que o maior patrimônio de Sergipe é o seu povo”, conclui.
Moda como valorização do patrimônio
Apesar do reconhecimento nacional e internacional, as rendeiras acreditam que Sergipe ainda valoriza pouco o próprio patrimônio cultural. “Você não valoriza aquilo que não conhece”, diz Maria José. Para elas, falta investimento contínuo em educação patrimonial, turismo cultural e políticas públicas permanentes. Maria José e Vânia contam que, durante muitos anos, houve uma enorme dificuldade na gestão administrativa da associação. Faltavam conhecimentos técnicos sobre contabilidade, editais, organização financeira e estrutura institucional.
“A nossa associação completa 26 anos neste ano e passou por uma transformação que vai muito além da preservação cultural. E para além do apoio do Governo, que foi e é importante em alguns momentos, mas ainda não é suficiente, foi o Sebrae que abriu os nossos olhos, pois trouxeram cursos de gestão financeira, administração, organização. Foi ali que percebemos que precisávamos profissionalizar a associação. A partir disso, a ASDEREN começou a estruturar uma equipe técnica com advogada, contadora e apoio administrativo”, disse Vânia.
A profissionalização também trouxe autonomia financeira para muitas mulheres. “Antes, a rendeira fazia a peça e esperava três, seis meses para receber. Hoje, ela entrega a peça, passa por curadoria e recebe semanalmente. Além disso, a partir do nosso trabalho, fizemos e ainda fazemos muitas parcerias com estilistas. A moda é uma vertente importante para a valorização do nosso trabalho, pois apresenta outro viés do uso da renda irlandesa, e apesar de o uso da renda irlandesa em vestidos, golas, já ser algo comum, o contato com estilistas abriu outras possibilidades de público”, disse Maria José. A rendeira Vânia complementa destacando que o trabalho entre rendeiras e estilistas devem ser pensados de maneira coletiva, valorizando de onde veio a peça e quem é a rendeira por trás de cada uma delas, pois cada peça carrega uma história.
E por falar em continuidade, moda e história, a historiadora e estilista Rafaela Castro, da marca autoral sergipana Severinas, trabalha de forma rotativa com rendeiras de diferentes municípios, como Divina Pastora, Laranjeiras e São Cristóvão, ampliando a circulação econômica do ofício entre as artesãs sergipanas e relata que a sua relação com a renda irlandesa começou ainda na universidade, durante um trabalho acadêmico sobre patrimônio cultural. “Eu me deparei com a renda irlandesa e me apaixonei. Vi um potencial muito grande, mesmo sem ainda trabalhar com moda. Anos depois, já à frente da marca Severinas, criada em 2018, eu decidi incorporar a renda irlandesa às peças da marca como elemento de identidade, pois ela é o único patrimônio com Indicação Geográfica do estado. Então eu trouxe a renda irlandesa como elemento de diferenciação da marca”, explica.

Em 2019, no aniversário de um ano da empresa, a estilista lançou peças de moda praia utilizando renda irlandesa — iniciativa que, segundo ela, ainda é pioneira em Sergipe. A partir daí, o trabalho ganhou projeção nacional. A estilista destaca ainda, que o apoio do Sebrae foi decisivo para o fortalecimento da marca. “Foi um divisor de águas. Eu estava num momento muito esgotada no empreendedorismo e o Sebrae me direcionou para caminhos importantes, através de cursos, consultorias e editais, e este reconhecimento me levou a integrar o programa Conecta, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, como uma das embaixadoras nacionais da instituição”, relembrou.
Com o crescimento da marca, a renda irlandesa passou a ocupar lugar central nas criações de Rafaela. O primeiro trabalho de grande repercussão foi um figurino produzido para Expedita Ferreira, filha de Lampião e Maria Bonita, durante um desfile da escola de samba Mancha Verde, em São Paulo. A roupa esteve em programas como o Fantástico e Mais Você, ambos da TV Globo, e teve grande repercussão. Posteriormente, artistas como Nattanzinho Lima, Mestrinho, João Gomes e Jota Pê também utilizaram peças com renda irlandesa produzidas pela estilista, inclusive no projeto musical “Dominguinho”.

Apesar da projeção, a estilista reforça a fala das rendeiras e acredita que ainda existe desconhecimento sobre o valor real da renda irlandesa. “As pessoas precisam entender primeiro o que é patrimônio. Precisam compreender quanto tempo leva para produzir uma peça e que essas mulheres precisam ser remuneradas de forma justa. É necessário educar as pessoas para que entendam o valor e não apenas o preço”, ressalta.
A renda como rede de proteção
Apesar de toda a história da renda irlandesa para Sergipe e toda a construção e manutenção da memória deste patrimônio ser tecida pelas mãos de mulheres, as rendeiras Vânia e Maria José lembram histórias de superação e força para retirar as mulheres de situações de violência doméstica. Elas contam que durante muitos anos, o pagamento das peças era feito em “dinheiro vivo”, e que muitos maridos esperavam as mulheres na porta da associação ou nos bares próximos para tomar o dinheiro recebido. “A gente sabia que no dia do pagamento teria briga em casa”, conta Vânia. Foi então que a associação iniciou um processo silencioso de transformação.

Através de uma mobilização sutil e precisa como o alinhavar da renda, as mulheres passaram a abrir contas bancárias próprias e o dinheiro começou a ser depositado diretamente nelas. O processo, porém, não foi simples.“Isso evitou muita violência patrimonial, porém, não foi fácil, pois muitas mulheres nunca tinham saído de Divina Pastora, e as contas só podiam ser abertas em Aracaju, pois no município ainda não era possível. Já tivemos casos de rendeiras que não tinham nem o RG. Tinha mulher que dizia: ‘como vou falar para meu marido que vou para Aracaju?’. A associação organizava grupos, acompanhava as mulheres até a cidade e ajudava em cada etapa: da documentação à abertura da conta bancária. Era um trabalho de segurar na mão mesmo”, relata Maria José.
Mais do que renda financeira, o trabalho passou a representar acolhimento, autoestima e fortalecimento emocional. “Em Divina Pastora tem mulher que ficou surda de tanto apanhar do marido. São muitas histórias de violência, de todos os tipos que você possa imaginar. E a gente não julga. A gente acolhe. Faz ela entender que é uma pessoa importante, que o trabalho dela é importante, que o que ela faz é importante, inclusive para sair de situações de violência a partir de suas peças.O nosso trabalho é fazer essa mulher entender que ela merece respeito”, continua Vânia. As conversas acontecem naturalmente entre linhas, tecidos e bastidores da associação, e são entre esses fios fortes e delicados, entre as agulhas e os mais de cem pontos minuciosos, que a renda irlandesa segue costurando passado e futuro em Sergipe. Mais do que técnica artesanal, o ofício permanece como símbolo de resistência cultural, autonomia feminina e permanência da memória coletiva sergipana rendada por mulheres.


