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Mário Jorge, um dos mais importantes poetas sergipanos, completaria hoje 77 anos. O abandono do Monumento Pássaro Azul é sinal do ataque à sua memória

CRISTIAN GÓES, da Mangue Jornalismo
@josecristiangoes

Hoje Mário Jorge completaria 77 anos de nascimento (Foto Acervo da família)

Familiares e amigos de Mário Jorge, um dos maiores poetas sergipanos, travam uma luta sem trégua pela memória do seu legado e contra o apagamento de sua história. A Mangue Jornalismo se soma nessa batalha contra o esquecimento desse poeta e lembra que hoje, 23 de novembro, Mário Jorge faria 77 anos de idade.

Do outro lado, o poder público, especialmente a Prefeitura de Aracaju, tem atuado na invisibilização desse poeta. Talvez a história, as palavras, a permanência da memória viva de Mário Jorge ainda são uma dura afronta ao modo de fazer política hoje. 

Dois exemplos do descaso. Na Praça Tobias Barreto, no bairro São José, em frente à casa do poeta, foi implantado desde meados dos anos 1990, depois de muita luta de familiares e amigos de Mário, o Monumento Pássaro Azul em homenagem a Mário Jorge. Hoje, o espaço está abandonado, o pássaro perdeu a cor, os refletores estão quebrados e a placa de bronze indicativa foi furtada.

Outro menosprezo é a não realização do Concurso de Poesia Mário Jorge, que foi idealizado e realizado pela poeta e jornalista Ilma Fontes em 1996 durante as comemorações dos 50 anos de nascimento do poeta. O concurso, que deveria ser anual, entrou na agenda oficial de Aracaju. Contudo, além de 1996, ele só foi realizado em 2019. Depois, é só silêncio, ou “Cuidado, silêncios soltos”, que é o título de um livro de Mário Jorge, lançado em 1993.


Comunista e um resistente à ordem estabelecida

Grande parte do esforço para manter viva a memória sobre Mário Jorge se deu pela dedicação de sua mãe, a dona de casa e artesã Ivone de Menezes Vieira; pela jornalista e poeta Ilma Fontes e pela professora e ex-deputada estadual Ana Lúcia, irmã de Mário Jorge. Dona Ivone e Ilma morreram. Ana Lúcia resiste como uma guerreira.

“Mário era uma pessoa de uma inteligência privilegiada, um ser humano muito especial. A sua produção literária está em sintonia com a poesia concreta, neoconcretista, poema processo, poesia práxis, poesia social, tropicalismo e, sobretudo, a poesia marginal. Apesar de ter morrido aos 26 anos, ele viveu intensamente e muito além de seu tempo. Foi um artista comunista e um resistente à ordem estabelecida pelo capital”, destacou Ana Lúcia.

E quem pensa que Mário Jorge é passado está muito enganado. Neste ano, Katherine de Albuquerque Mendonça se tornou mestra em Letras pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), na área de Estudos Literário com uma dissertação sobre a poesia de Mário Jorge. O trabalho dela foi intitulado de “A pluralidade poética de Mário Jorge: do concretismo a outras expressões poéticas”. LEIA AQUI

“O conjunto da obra de Mário Jorge é próprio de um artista inquieto com seu tempo e com o mundo em que vive… O ato criador de Mário Jorge não se realizou apenas na poesia concreta, mas se apresentou como uma poética plural que flutuou e dialogou com outros movimentos literários contemporâneos. Os muitos elementos inovadores dos quais Mário Jorge se utiliza aparecem desde a forma até os conteúdos das suas próprias poesias”, analisou Katherine.

Para a pesquisadora, as produções de Mário Jorge dão luz ao contexto histórico e cultural do país, uma vez que seus poemas trazem uma enunciação crítica e propõem diálogos com os movimentos de Contracultura.

Mário Jorge e o poeta com artista plástico Joubert Moraes (Foto: Acervo da família)


Um pouco de Mário Jorge

Ele nasceu em Aracaju no dia 23 de novembro de 1946. Mário foi militante atuante no Movimento Estudantil e ativista filiado ao Partido Comunista Brasileiro. Entrou para a Faculdade de Direito de Sergipe e de Ciências Sociais em São Paulo, mas não concluiu nem dos cursos.

Em julho de 1968, ano duro da ditadura militar, publicou seu primeiro livro, intitulado de “Revolição”, que trata de uma coletânea de poesias e que, segundo críticos literários, introduzem o Concretismo em Sergipe. “Revolição” foi a única obra publicada com ele em vida. Não deu outra, Mário Jorge foi preso pelos militares por atividades “subversivas”, mas respondeu o processo em liberdade, sendo absolvido em 1972, um ano antes da sua morte.

Em 1970, teve alguns poemas e artigos publicados em revistas e jornais sergipanos, participou de festivais, colaborou em peças e shows e chegou a atuar como um dos editores do jornal Toke em 1972. No ano seguinte, com apenas 26 anos, foi vítima de um acidente de carro.

Depois de sua morte, teve várias obras reunidas e publicadas, sendo a primeira dessa fase “Poemas de Mário Jorge”, de 1982. A segunda e a terceira obras póstumas foram “Silêncios soltos” e “Cuidado, silêncios soltos”. Alguns anos depois é lançado “De repente, há urgência” e, depois, “A noite que nos habita”.

Em novembro de 2016, quando do relançamento do livro “De Repente Há Urgência”, o então poeta e jornalista Amaral Cavalcante disse que “Mário Jorge foi uma espécie de antena, transmitindo sinais de rebeldia e coragem entre nós. Ele nos ensinou a explodir os limites provincianos da poesia e a inventar novos horizontes de afirmação cidadã. Mário Jorge foi o poeta visionário da nossa geração”.

Nesse mesmo evento, Jeová Santana, professor de literatura, poeta e escritor, lembrou que “Mário tem uma importância cultural, porque estava nos anos 70, um momento bastante singular, numa cidade pequena como Aracaju, num estado pequeno e conseguiu deixar obras que estão em sintonia com o nosso tempo até agora”.


“O pássaro passa cantando e fica o azul riscando de ausências sob um sol de janeiro”

Esse e outros versos de Mário Jorge remetem ao pássaro, a exemplo de: “Vou falar do pássaro Que vi voar sem destino”. Há um poema com esse título: Pássaro Azul.

Para a pesquisadora Katherine “é possível interpretarmos esse pássaro como símbolo da liberdade, que era tão almejada pelos jovens da época, uma vez que era comum ao pensamento contracultural a ideia de se libertar, não só dos padrões de comportamento e pensamento que eram impostos pela sociedade e cultura vigente, mas também, e talvez na poesia de Mário Jorge principalmente, o desejo de se libertar das censuras e perseguições das quais o poeta muitas vezes foi vítima”.

A então presidenta da Fundação de Cultura de Aracaju (Funcaju), Ilma Fontes, na gestão do prefeito Almeida Lima, resolveu implantar o Monumento Pássaro Azul em frente à casa do poeta na Praça Tobias Barreto. Depois de seguidas reformas na praça, a escultura do Pássaro Azul foi retirada, sendo apenas recolocada em fevereiro de 2017, graças a Dona Ivone, Ana Lúcia e outras pessoas.

A família de Mário Jorge doou uma réplica do desenho feito pelo próprio poeta no poema Pássaro Azul, produzido em aço pelo escultor Antônio Cruz, que foi reinstalado na mesma praça.

Na reinauguração do Monumento Pássaro Azul (Foto Ascom PMA)

A reinauguração do Monumento Pássaro Azul foi regada a poesia, música e teatro. No evento, o ex-prefeito João Augusto Gama disse que “Mário Jorge é um marco em Sergipe muito forte e tenho certeza que continuará sendo. A sua poesia ficou”. Na ocasião, Ilma Fontes falou da trajetória de Mário Jorge, ressaltando sua dedicação às lutas sociais e sua poesia engajada. “Como não amar uma pessoa que amou tanto a humanidade?” resumiu Ilma.

Situação hoje do Monumento Pássaro Azul (Foto Cristian Góes)

Naquele ano, o prefeito de Aracaju já era Edvaldo Nogueira e ele restabeleceu o Concurso de Poesia Mário Jorge, por parte da prefeitura de Aracaju. “O prêmio passará a ser realizado anualmente e a entrega aos vencedores ocorrerá todo dia 23 de novembro, quando é comemorado o aniversário de nascimento de Mário Jorge”, disse o prefeito e não cumpriu o prometido.

Ana Lúcia lembra também que a família fez a doação à prefeitura de 50 troféus confeccionados pelo artista Ará com material reciclável (latas fundidas). Eles têm o formato do Pássaro Azul e seriam entregues nas premiações aos vencedores das primeiras edições do concurso. Somente em 2019 ocorreu a edição do 1º Prêmio Mário Jorge de Poesia. Cerca de 50 poesias foram inscritas e 10 poetas foram premiados com o Troféu Pássaro Azul e um certificado. Na época, o presidente da Funcaju era Silvio Santos.

A Comunicação da Empresa Municipal de Serviços Urbanos (Emsurb) informou que realiza permanentes ações de cuidados nas praças, o que incluiu atenção com os monumentos instalados. Não conseguimos contato com a Funcaju.

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