Na eleição de 2022, o empresário Luciano Franco Barreto doou R$ 1,3 milhão para a campanha de Mitidieri; este ano foram R$ 400 mil, e outros R$ 2,8 milhões para 13 candidatos à Câmara Federal, todos do partido do governador.

Fábio Mitidieri, atual governador de Sergipe e candidato à reeleição pelo PSD, tem um amigo com quem pode contar desde sua primeira campanha pela gestão do estado, há quatro anos. Luciano Franco Barreto, fundador e presidente da construtora sergipana Celi, foi o maior doador da campanha de Mitidieri em 2022, com um repasse de R$ 1,3 milhão, e também este ano, com a doação de R$ 400 mil até o momento, segundo dados da plataforma DivulgaCand, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Na estreia de Mitidieri no pleito ao governo estadual, a cifra correspondeu a 22% do total utilizado ao longo de sua campanha; em 2026, a ajuda responde por 6,06% do gasto registrado no DivulgaCand até o dia 30 de setembro. Em 2018, quando concorreu ao cargo de deputado federal, Mitidieri não recebeu nenhuma contribuição de Luciano Barreto.
A generosidade vista nas últimas eleições gerais, de acordo com dados levantados com exclusividade pela Mangue Jornalismo, é recíproca. Ao analisar todos os contratos assinados entre o governo do estado de Sergipe com construtoras no período que vai de 01 de janeiro de 2023 a 30 de setembro de 2026, a reportagem descobriu que a Celi é a segunda com o maior valor total de contratos firmados com a administração estadual: foram R$ 386,9 milhões.
Em primeiro lugar está a Heca, também sergipana, que conseguiu R$ 413,9 milhões em contratos no mesmo período. O dono da construtora, o engenheiro civil e empresário Carlos Alberto Luduvice, fez uma doação de R$ 17 mil para a campanha de Mitidieri ao governo em 2022. Até a publicação desta reportagem, a prestação de contas do governador ainda não registrava qualquer contribuição de Luduvice.

Os contratos mais recentes da Celi incluem obras como a construção da Ponte SE-438 no município de Capela, restauração das rodovias estaduais SE-100/SE-50 e a construção do Complexo Materno-Infantil Nossa Senhora de Lourdes. Uma das obras mais importantes, acertada antes da gestão Mitidieri, foi a construção do Hospital do Câncer.
Do que depender de Luciano Barreto, não faltará apoio para ter boa interlocução com o poder público nos próximos anos. Além da contribuição de R$ 400 mil à candidatura de Fábio, o empresário doou mais R$ 2,8 milhões para as campanhas de 13 candidatos à Câmara Federal por Sergipe: R$ 500 mil para Dr. Manuel Marcos (PSD); R$ 400 mil para Neto Batalha (PSD); R$ 400 mil para Nitinho Vitale (PSD); e R$ 300 mil para Flávio Brasil (PSD).
Procurado para comentar as doações — vale ressaltar, legais — para nomes do PSD nas duas últimas corridas eleitorais, Luciano Barreto afirmou em nota que “todos os contratos firmados com o Governo de Sergipe decorreram de processos licitatórios, conduzidos nos termos da Lei de Licitações e sujeitos ao controle dos órgãos competentes”. Disse ainda que as “doações citadas foram realizadas por pessoa física, as mesmas observam integralmente a legislação eleitoral, foram declaradas à Justiça Eleitoral e são de acesso público”.
Já a campanha de Fábio Mitidieri ressaltou que as doações de campanha são “atos voluntários e pessoais do doador, regulados pela legislação eleitoral vigente e sujeitos à fiscalização da Justiça Eleitoral”.
Também por meio de nota, destacou “as contratações realizadas pelo Governo do Estado, por sua vez, obedecem a procedimentos próprios, com critérios definidos em processo licitatório, e não guardam qualquer relação com escolhas individuais de doadores de campanha”, enfatizando que encontram-se sujeitos ao controle dos órgãos competentes.
Nas eleições gerais de 2018, Barreto doou R$ 500 mil para a campanha de Belivaldo Chagas (então no PSD, hoje no Podemos), que ganhou o pleito ao governo de Sergipe no segundo turno. O segundo maior financiador da campanha de Belivaldo naquele ano dentre as pessoas físicas foi o também empresário da construção civil Romeu Medeiros Barbosa, com um repasse de R$ 200 mil. Medeiros é dono da Sercol Saneamento e Construções, sediada em Aracaju.
Celi e a mão amiga do setor público
Fundada em 1968 pelo engenheiro civil sergipano Luciano Franco Barreto, a Construtora Celi atua em “empreendimentos imobiliários, de edificações públicas e particulares, obras industriais, construção de conjuntos habitacionais, saneamento e infraestrutura básica”, conforme consta em seu site.
A matriz da construtora fica em Aracaju, mas ela também está presente em outras capitais estaduais, como São Paulo, Recife, Maceió, Salvador, João Pessoa, Fortaleza e Rio de Janeiro. Em 2008, a Celi lançou a Stanza, incorporadora e construtora com foco no setor habitacional voltado a famílias de menor renda e impulsionado pela instituição do programa Minha Casa, Minha Vida, em março de 2009.
O empurrão estatal se mostra também no quesito incentivos fiscais. Entre janeiro e agosto de 2024, a Celi Empreendimentos Hoteleiros LTDA recebeu concessão de R$ 2,4 milhões em desoneração da folha de pagamento, como informou o Ministério da Fazenda, à época comandado por Fernando Haddad, ao liberar dados sobre empresas contempladas pelo governo federal na Declaração de Incentivos, Renúncias, Benefícios e Imunidades de Natureza Tributárias (Dirbi).
Paralelamente a esses benefícios previstos em lei, a empresa está na mira de órgãos de fiscalização. O Neruda, um dos edifícios residenciais da Celi ainda em construção, faz parte do grupo de 11 empreendimentos de alto padrão identificados pelo Ministério Público Federal em Sergipe localizados em áreas de preservação permanente. O condomínio fica na praia da Atalaia, Zona Sul de Aracaju, e sua localização pode diminuir o fluxo de vento na área, aumentando a temperatura local, além de as luzes serem potencialmente prejudiciais a tartarugas marinhas.
Funcionamento das doações de campanha eleitoral
As regras sobre doações para campanhas eleitorais no Brasil permitem a doação de pessoas físicas, com o teto de até 10% do rendimento bruto obtido no ano anterior e desconsiderados bens móveis ou imóveis cujo valor não supere R$ 40 mil. O autofinanciamento também é legal, contanto não passe de 10% do valor total determinado para gasto no cargo pleiteado pelo candidato.
Desde 2015, após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), são proibidas doações de pessoas jurídicas. Doações por meios não rastreáveis – caso das moedas virtuais ou criptomoedas – também não são permitidas.
Antes da mudança aprovada pelo Supremo, repasses de empresas dominavam o cenário do financiamento de campanhas no país, o que fora permitido pelo Congresso após os escândalos de corrupção do governo Fernando Collor de Mello. Dentre os impactos registrados por pesquisadores durante o período de vigência das doações empresariais estão o acesso facilitado a empréstimos de bancos estatais e o aumento das chances de a empresa doadora fechar contratos públicos caso o candidato apoiado fosse eleito.
A alteração causou a migração das maiores doações das empresas para seus donos, agora em valores menores, ainda que significativos. Nas eleições de 2022, Rubens Ometto, presidente do conselho de administração da Raízen, maior empresa sucroalcooleiro do Brasil, esteve no topo das doações para candidaturas e diretórios de partidos: o empresário distribuiu R$ 8,9 milhões, sendo quase R$ 4 milhões para a campanha de Jair Bolsonaro (PL).
Dois anos antes, já em plena pandemia de Covid-19, Bolsonaro participara da inauguração da primeira planta comercial de biogás da Raízen, no município paulista de Guariba. Na ocasião, o então presidente afirmou que “hoje em dia, [Ometto] conta com um parceiro de peso, que é o Chefe do Poder Executivo e seus ministros para os seus empreendimentos”.
(Levantamento de dados: Matheus Rodrigues; edição: Wendal Carmo)


