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Falta de água em Sergipe não é “fatalidade” como disse o governador, mas resultado da privatização da Deso

Estima-se que mais de 880 mil de pessoas ficaram em água na Grande Aracaju (Crédito Marcos Rodrigue)

Desde a última sexta-feira, 12, moradores de grande parte dos municípios de Barra dos Coqueiros e Nossa Senhora do Socorro e de cerca de 44 bairros de Aracaju estavam ou ainda estão sem uma gota d’água nas torneiras. O governador Fábio Mitidieri (PSD), em viagem pela Europa, disse em vídeo veiculado nas redes digitais que se trata de “fatalidade”. Quem acompanha a Mangue Jornalismo sabe que essa gravíssima crise de falta de água é resultado da privatização da Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso).

A informação oficial é de que rompeu a adutora do São Francisco, em um trecho que fica no município de Capela. O que restou da parte pública da Deso foi mobilizada no final de semana para estancar o problema. Depois de resolver, outro ponto da mesma adutora também teria se rompido e, novamente, os poucos trabalhadores que ficaram da Deso estão buscando solucionar o problema. Ontem, no início da noite, o governador em exercício Zezinho Sobral garantiu que todos os trabalhos já tinham sido concluídos e que a água estará de volta hoje, terça, 16.

Estima-se que mais de 880 mil pessoas foram e estão afetadas por essa grave crise da água na Grande Aracaju. No final de semana, muitos restaurantes fecharam as portas por falta de água. Na segunda, algumas escolas e unidades de saúde não funcionaram de modo normal. “A cidade está um caos. Temos mais de 650 moradores aqui no condomínio, acabou nosso reservatório e não estamos conseguindo comprar água em carro-pipa”, disse Marta Silva, síndica de um prédio no bairro Salgado Filho, em Aracaju.

Em 17 de outubro do ano passado, a Mangue Jornalismo denunciou em reportagem que os primeiros 585 trabalhadores foram demitidos depois da privatização da água e da venda da Deso. Isso aconteceu 40 dias depois do governador Fábio Mitidieri ter entrado para a história de Sergipe como aquele que privatizou a água e vendeu a Deso. A Iguá Saneamento, de capital internacional, ficou de pagar R$ 4,5 bilhões.

Privatização da água, com a venda da Deso, é festejada pelo governador e aliados (Reprodução)

A saída de 588 trabalhadores com expertises da Deso, depois da privatização, pode ter comprometido as ações da empresa diante dos problemas de captação e abastecimento, a exemplo do que ocorreu com a adutora do São Francisco.

“Essa situação não é de responsabilidade dos trabalhadores e trabalhadoras da Deso, mas de uma política de décadas de sucateamento da companhia por parte de sucessivos governos, inclusive o atual, que deixaram de fazer os investimentos necessários para que problemas como esse fossem evitados ou mitigados. Há anos o Sindisan, sindicato filiado à CUT-SE, denuncia essa situação de precarização das estruturas da companhia”, denunciou em nota pública a Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Sergipe.

Os trabalhadores da Deso sempre denunciaram que o processo de sucateamento e desinvestimento ocorreu para que a população apoiasse a privatização da água. O rompimento da adutora do São Francisco pode ser reflexo desta política.

“Na Deso existia uma equipe de manutenção especializada que percorria diariamente as adutoras para detectar problemas e corrigi-los em tempo, e essa equipe foi simplesmente retirada sob justificativa de que era dispendioso mantê-la. Passamos, então, da manutenção preventiva para os serviços corretivos, somente quando o problema estoura, como agora”, esclareceu a CUT.

Ainda segundo a nota da Central Única dos Trabalhadores em Sergipe, “o Sindisan também vem denunciando que a Deso já recebeu da Iguá Saneamento cerca de R$ 362 milhões referentes à parte (80%) da outorga da concessão do saneamento do estado de Sergipe ao qual a Companhia tem direito. Entretanto, até o presente momento, a direção da Deso, que é indicada pelo governador Fábio Mitidieri, não utilizou esses recursos para melhorias nas unidades e em infraestrutura para melhorar a produção de água tratada, o que inclui a manutenção das adutoras de captação de água, como a do São Francisco. Ao que se sabe, o montante recebido está ‘parado’, rendendo juros em aplicações no mercado financeiro”.

Os vereadores por Aracaju, Sônia Meire e Iran Barbosa, ambos do PSOL, e Camilo Daniel (PT), também usaram as redes digitais para denunciar o caos da cidade pela falta de água e os três responsabilizam a falta de investimentos do governo do estado para com a parte pública a Deso. “A situação crítica de desabastecimento de água em Aracaju e na Grande Aracaju é consequência do desinvestimento dos últimos governos estaduais na empresa pública Deso e da concretização do seu desmonte com o leilão realizado pelo governador Mitidieri, com aval de 74 prefeitos e da maioria dos deputados estaduais de Sergipe”, afirmou Sônia Meire.

Poucos trabalhadores da Deso foram heróis para a solução da crise (Crédito Marcos Rodrigues)

Para completar, a Iguá – que comprou a Deso – teria assumido os serviços em ser amplo conhecimento da situação em Sergipe, especialmente sobre as ações de manobra das redes de água. O jornal Invest News, no mês passado, informou que o novo CEO da Iguá, René Silva, assumiu a companhia e “herda uma crise que ameaça a concessão no Rio de Janeiro — a mais importante da empresa — 32 anos antes do previsto. Paralelamente, a companhia ainda lida com a integração das atividades em Sergipe, um contrato que custou caro e se mostrou mais complexo que o previsto”.

Na linha de frente contra a privatização da água e a venda da Deso estava o sindicato dos trabalhadores em saneamento básico do estado de Sergipe (Sindisan). Foram realizados vários estudos, publicados inúmeros alertas, realizou-se atos públicos, mas nada sensibilizou grande parte da classe política sobre os graves erros dessa privatização.

Para não esquecer: a Mangue Jornalismo publicou em 4 de setembro de 2024 uma reportagem mostrando que a água em Sergipe foi privatizada e a Deso, um dos maiores patrimônios públicos do estado, foi vendida pelo governador e seus aliados em uma sessão festiva numa bolsa de valores em São Paulo. Lá estiveram o então prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira (PDT); os senadores Laércio Oliveira (PP) e Alessandro Vieira (MDB); deputados estaduais, entre eles o presidente da Assembleia Legislativa, Jeferson Andrade (PSD).

“Temos um povo para tomar conta, para proporcionar mais saúde por meio do saneamento e da dignidade de ter água na porta. Vamos encerrar aquela página triste de ter caixa d’água na porta de casa no interior do estado. Vamos inaugurar um novo tempo e fazer história juntos, e que venha um futuro abençoado para o nosso povo”, disse Fábio Mitidieri quando privatizou a água e vendeu a Deso.

“Foi o dia nefasto para os trabalhadores e para a população de Sergipe”, Silvio Sá (Crédito: Arthur Soares)

A Mangue Jornalismo acompanhou todos os passos da privatização da água e a venda da Deso, alertando para os graves perigos dessas ações, como aumento da tarifa, falta de água, redução de investimentos, demissões, etc. Foram várias reportagens e a produção e distribuição gratuita do e-book “Água, um direito humano essencial não pode ser privatizado”. A publicação tem download gratuito e foi apoiada pelas leitoras e leitores da Mangue. Baixe AQUI.

E-book da Mangue mostra que água é um direito humano essencial não pode ser privatizado (Crédito EBC)

Governo montou comitê e garante água para hoje, terça

O governador de Sergipe em exercício, Zezinho Sobral montou um Comitê de Gerenciamento de Crises para tentar responder o mais rápido possível as demandas surgidas com o amplo desabastecimento de água. “Em comparação ao fim da tarde do domingo, 14, e da manhã da segunda, 15, os mapas apresentados pela equipe mostraram uma redução significativa na mancha vermelha de desabastecimento, com gradativa retomada na região da zona sul até a Zona de Expansão. Além disso, a área central está com um abastecimento relativo, e houve uma melhora considerável em Nossa Senhora do Socorro, enquanto a Barra dos Coqueiros apresentou desabastecimentos”.

Ainda segundo nota do comitê, “o número de caminhões pipa disponíveis também aumentou, passando para 86. Eles atuam em três grandes situações: equipamentos públicos prioritários, bairros, e demandas da sociedade relacionadas pela equipe da Iguá, com colaboração da Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso) e Defesa Civil. Há também as manobras de rodízio, que estão sendo feitas em conjunto com a Deso e a Iguá. A ideia é concluir o mais rápido possível o serviço de interligação e junção da Adutora do São Francisco, normalizando o serviço”.

Ontem, no início da noite, o governo informou que “com a conclusão das obras pela Deso na Adutora do São Francisco, no trecho em Capela, o abastecimento na Grande Aracaju será retomado, por meio da Iguá, de forma gradativa, respeitando a pressão na rede. O trabalho técnico envolveu soldagem dos pontos rompidos e a instalação de vigas de sustentação para reduzir as vibrações na estrutura e possíveis novos rompimentos. Enquanto o sistema se normaliza, os caminhões-pipa seguem em operação até terça-feira, 16, com acompanhamento contínuo do Comitê de Crises, garantindo apoio à população”.

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Cristian Góes

Jornalista pela Universidade Tiradentes, mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação e Sociabilidade pela Universidade Federal de Minas Gerais. Experiência como repórter e assessor de Comunicação nas áreas sindical e pública.

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