‘Exu não é o diabo’. Povos de axé fizeram Padê a Exu no aniversário da capital e prefeita recebeu certificado antirracista

Reconhecimento do espaço das religiões de matriz africana na história de Aracaju acontece, ainda que aos poucos e em meios a falhas estruturais de garantias à cultura afro-brasileira.

Há algo que se desloca quando Exu é saudado. E, quando isso acontece no centro de Aracaju, entre o Mercado e o fluxo cotidiano da cidade, não é apenas o ritual que se realiza — é a própria ordem simbólica que se rearranja. Não só no plano das religiões de matriz africana, em que a entidade do panteão africano rege os mercados, a comunicação, o movimento, as trocas, mas também na forma como a cidade se percebe — ou começa, enfim, a se reconhecer.

Pela segunda vez consecutiva, o Padê de Exu integrou oficialmente a programação de aniversário da capital sergipana, reunindo mais de 100 casas de axé na Praça Hilton Lopes, no centro da cidade, nesta terça-feira (17).

A presença, hoje aparentemente institucionalizada nas celebrações alusivas à emancipação política da capital, é recente. E esse dado é central para compreender o significado do evento.

Apesar de existir uma lei municipal que prevê a realização de um culto campal com participação das religiões de matriz africana durante a Semana Cidade de Aracaju, a norma foi ignorada por anos sob a gestão do ex-prefeito Edvaldo Nogueira (PDT), mesmo diante de recomendações do Ministério Público Federal e do Ministério Público de Sergipe. A inclusão do Padê na programação oficial só ocorreu em 2025, já na administração da prefeita Emília Corrêa (Republicanos). 

Mais do que um ajuste de agenda, trata-se de uma inflexão no modo como o Poder Público se relaciona com uma parcela historicamente marginalizada da população. “A comunidade de terreiro sempre foi invisibilizada nas manifestações do aniversário de Aracaju”, comentou a deputada estadual Linda Brasil (PSOL), presente ao evento. 

Para a parlamentar, a realização da segunda edição do Padê é resultado direto da mobilização das casas de axé. “É fruto de muita luta, resistência e cobrança. Essa manifestação sempre foi marginalizada não só pela prefeitura, mas também por outras instituições”. A leitura de que o reconhecimento não foi espontâneo, mas conquistado, atravessa os relatos colhidos pela Mangue Jornalismo, que acompanhou a cerimônia.

O babalorixá Aldon Silva, do Ilê Axé Iyá Karêowsúnsí, na Barra dos Coqueiros, destaca que a realização do evento ainda enfrenta barreiras simbólicas e culturais. “Foi muito difícil para nós conseguirmos fazer esse evento. Mas é fundamental para desmistificar a ideia de que Exu é o diabo. Exu é o senhor dos caminhos, da prosperidade, do movimento. Sem Exu, nada começa”, disse.

A fala toca em um dos pontos mais sensíveis do debate: a construção histórica de estigmas em torno das religiões de matriz africana, frequentemente associadas, de forma equivocada, a elementos negativos no imaginário social.

Rafhael Almeida, sacerdote do Ilê Axé Águas de Ifé e integrante do Conselho Municipal de Participação e Promoção da Igualdade Racial (COMPPIR), reforçou o papel central de Exu na cosmovisão do Candomblé. “Exu é a origem da criação, da transformação, dos caminhos. A gente cultua Exu primeiro porque ele sustenta tudo que vem depois. Ele é quem recebe e suporta tudo que vem de fora antes de qualquer outra divindade”.

Nesse sentido, acrescentou o babalorixá, o Padê — ritual de oferenda e reverência a Exu — funciona não apenas como celebração religiosa, mas como afirmação pública de uma tradição historicamente relegada à margem.

A dimensão política desse gesto aparece também na fala do babalorixá Antônio de Oxóssi, do Ilê Axé Kilambodê. Para ele, a ocupação do espaço público é uma forma de enfrentamento direto à intolerância. “Esse evento é importante porque mostra que a gente também merece respeito. Ainda enfrentamos muitas críticas, muita intolerância. Estar aqui é uma forma de afirmar isso”.

Os números ajudam a contextualizar essa percepção. De acordo com o Painel de Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, Sergipe registrou 44 denúncias e 67 violações relacionadas à liberdade religiosa em 2025 — um aumento expressivo em relação a 2024, quando foram contabilizadas 14 denúncias e 22 violações. O crescimento dos casos aponta para a permanência de um problema estrutural, que vai além de episódios isolados.

Titular da Delegacia de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV) em Aracaju, a delegada Meire Mansuet avalia que o reconhecimento institucional é um passo importante, mas ainda inicial. “Estamos falando de um racismo que é estrutural, que vem da história da escravização do povo negro e que se manifesta até hoje. O enfrentamento ainda é um processo em construção”, afirmou ela, que também é Mam’etu Kaialomina do Inzo Kisimbi Orodomim, um terreiro da nação Angola localizado na capital. 

Segundo a sacerdotisa, a existência de estruturas especializadas, como a delegacia voltada ao atendimento de crimes raciais, coloca Sergipe em posição de destaque no cenário nacional, mas não elimina a necessidade de avanços. “É fundamental que o Estado e o município reconheçam essas práticas religiosas para que possamos enfrentar o racismo religioso de forma efetiva”.

A inserção do Padê na programação oficial também produz efeitos simbólicos relevantes: desloca essas manifestações do campo da tolerância — historicamente marcado pela concessão — para o campo do direito, onde o reconhecimento passa a ser entendido como dever do Estado.

Durante o evento, a prefeita Emília Corrêa, que é evangélica, procurou demarcar a separação entre fé pessoal e posição pública. Em discurso, defendeu o respeito à diversidade religiosa e o papel institucional da gestão. “A diversidade religiosa e cultural faz parte da nossa cidade e não é só na fala, é na atitude também, é no respeito, é no acolhimento. A fé é algo de foro íntimo”, afirmou.

A mesma cena que sinaliza abertura, no entanto, também expõe tensões. A prefeita recebeu um certificado de pessoa antirracista concedido pelo Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Comppir). A homenagem, embora simbólica, ocorre em um contexto em que o reconhecimento institucional das religiões de matriz africana é recente e fruto de pressão social, não de uma política consolidada ao longo do tempo. 

Ao receber o título, Emília reforçou o tom de compromisso. “Esse certificado antirracista revela o que eu carrego no meu coração. Contem com esta prefeita nas políticas públicas. O remédio para tudo isso é o respeito”, disse. Em outro momento, recorreu à sua própria matriz religiosa: “Deus, Jesus nunca fez essa separação de pessoas”.

A entrega, no entanto, não veio desacompanhada de cobrança. A presidente do Comppir, Elisângela Santos, deixou explícito que o reconhecimento também funciona como instrumento de pressão institucional. “A prova é a realização do Padê de Exu. Nós estamos reafirmando que a Prefeitura, na pessoa da prefeita, está tentando combater o racismo”, afirmou. Não deixou, porém, de frisar a necessidade de avançar em medidas concretas.

Entre elas, a regularização de estruturas dentro da gestão e, sobretudo, a elaboração de um plano municipal de combate ao racismo, ainda inexistente. “A gente precisa encarar com urgência a construção desse plano. Só assim será possível estruturar políticas públicas de forma mais efetiva”, pontuou Elisângela. 

No plano simbólico, o que se viu na Praça Hilton Lopes, em Aracaju, não se resume a imagens. É a expressão viva de uma disputa histórica por visibilidade, respeito e pertencimento, que agora ocupa, também, o centro da cidade.

Quando Exu é saudado, não é apenas o ritual que se realiza. É a própria cidade que começa, ainda que tardiamente, a reorganizar seus caminhos entre presença, memória e reconhecimento. 

Acompanhe na fotorreportagem:

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Rossella Cecília

Repórter em formação, baiana e graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Suas linguagens favoritas da comunicação são a fotografia e o texto, fortes aliados na contação de histórias. Acredita que o jornalismo independente é lugar de resistência contra as armadilhas da imprensa burguesa.

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