De acordo com a Plataforma AdaptaBrasil, do Ministério de Ciência e Tecnologia, a situação da capital sergipana também é de risco alto na saúde e no abastecimento de água em razão das emergências climáticas.

Depois de revelar que o estado de Sergipe lidera no país o alto risco de estresse hídrico e de comprometimento de sua já frágil biodiversidade em razão da emergência climática (LEIA AQUI), a Mangue Jornalismo se dedicou a observar os dados apenas sobre Aracaju e a situação encontrada não é diferente.
A Plataforma AdaptaBrasil, do Ministério de Ciência e Tecnologia, traz Aracaju como uma das quatro capitais do Nordeste com risco muito alto de impacto em seus biomas em razão de desastres climáticos. Os estudos revelam ainda que a capital sergipana figura em risco alto na saúde e no estresse hídrico em razão de problemas graves do clima.
Importante registrar que esse quadro danoso para Aracaju em razão de eventos climáticos extremos é resultado de pesquisas dos últimos dez anos e combina vulnerabilidades, exposições e ameaças. Os riscos também consideram ainda o nível de sensibilidade que a cidade tem diante de ocorrências climáticas graves e sua capacidade adaptativa.
A classificação geral do risco definida pelos pesquisadores do Ministério de Ciência e Tecnologia de cada cidade vai de 0 a 1, e Aracaju atingiu 0,82 como índice de ameaça à biodiversidade, que deixa a capital na faixa de muito alto. Apenas considerando-se as capitais do Nordeste, Aracaju só perde nesse quesito para Salvador (0,90) e Teresina (0,86). O menor risco na região, mesmo sendo médio, é de São Luís (0,49).
Em resumo, Aracaju é uma das capitais em que os eventos climáticos extremos podem impactar severamente os já frágeis biomas na cidade. Podem ser afetados manguezais, lagoas intermitentes, restingas, organismos vivos terrestres e marinhos, que não poderiam suportar e não teriam condições de se recuperar de “perturbações impostas pela dinâmica ambiental natural ou pelas perturbações humanas”, dizem os pesquisadores.

Para chegar ao índice de 0,82, risco muito alto à biodiversidade em Aracaju, a Plataforma AdaptaBrasil considera outros indicadores, como ameaça climática, que tem risco médio, com 0,46; exposição com 0,80 (muito alto) e vulnerabilidade, com 0,72, com risco alto.
Procurada pela Mangue, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Aracaju (Sema) informou que acompanha os dados e estudos relacionados às mudanças climáticas e que “o índice apresentado pelo AdaptaBrasil é um indicador composto de risco climático e não representa, isoladamente, uma avaliação da atuação da prefeitura ou um percentual de perda da biodiversidade. Além disso, o indicador reúne fatores ambientais, climáticos, territoriais e socioeconômicos, muitos deles estruturais e que não estão sob responsabilidade ou capacidade de intervenção exclusiva do município”, esclarece a Sema.

Aracaju não fica sozinha em Sergipe com o risco muito alto de ameaça à biodiversidade, outros 17 municípios também possuem essa classificação, sendo que os maiores são Pirambu (0,86) e Estância, Barra dos Coqueiros, Cumbe e Santana do São Francisco, todos com índice muito alto de 0,84; Japaratuba (0,83) e Pacatuba (0,82). O município com mais baixo risco ao bioma é Amparo do São Francisco, apenas 0,38.
Além de dados que revelam um risco muito alto em Aracaju para sua biodiversidade em razão de emergências climáticas, a plataforma do Ministério de Ciência e Tecnologia mostra que os riscos para a capital de Sergipe são altos quando se observam os dados da saúde e dos recursos hídricos.
No caso específico da saúde, a pesquisa mostra riscos altos sobre a leishmaniose visceral (Calazar) e também sobre a leishmaniose tegumentar americana (LTA). Ainda o risco é alto para arboviroses (Dengue, Zika e Chikungunya).


A Secretaria de Meio Ambiente de Aracaju disse ainda que “não pretende substituir as competências dos órgãos responsáveis pela saúde pública, mas reconhece que a questão climática é transversal e que as condições ambientais do território podem influenciar a vulnerabilidade da população”. Por isso, completou a pasta, “ações de fiscalização, conservação ambiental, manejo adequado dos espaços e educação ambiental também fazem parte da contribuição da política ambiental para a construção de cidades mais resilientes”.
Sobre o estresse hídrico em Aracaju, a Sema diz que o índice (0,77, alto) também reúne diversos fatores ambientais, climáticos, econômicos e de infraestrutura, incluindo elementos que ultrapassam a competência direta da Sema. “A atuação da secretaria nesse campo está relacionada principalmente à conservação dos ecossistemas, à proteção ambiental, à fiscalização de lançamentos clandestinos e à recuperação da vegetação e dos manguezais, contribuindo para a resiliência ambiental do território”, explicou em nota.

Sandro Holanda, doutor em Agronomia e professor do Departamento de Engenharia Agronômica da Universidade Federal de Sergipe (UFS), lembra que “segurança hídrica, conservação dos solos, vegetação nativa e biodiversidade precisam ser tratadas de maneira integrada”. Para ele, os dados revelam um cenário “que ganha maior relevância diante das pressões exercidas sobre os biomas Mata Atlântica e Caatinga, importantes para a conservação da água e da biodiversidade”, alerta o professor, que também atua no Programa de Pós-Graduação em Agricultura e Biodiversidade/UFS.
Já Frances Andrade, engenheiro Florestal em Sergipe, mestre e doutorando em Ciências Florestais, avalia que esse “contexto reflete a profunda incoerência do que é dito pelos governos locais e o que a região e as pessoas de fato vivem e vão vivenciar”. “Os planos de desenvolvimento focados prioritariamente em asfalto, expansão das rodovias e na construção de grandes pontes precisam ser analisados com extrema cautela, pois podem resultar em má-adaptação, servindo apenas como os especialistas estão chamando de ‘greenwashing’ ou mentira verde”, analisa Frances, que também é membro da Rede Brasileira de Biodiversidade e Clima e da Rede Global de Jovens pela Biodiversidade.
Diante desse cenário, o que nós, enquanto sociedade, e o poder público estamos fazendo para reverter uma situação tão preocupante? O professor Sandro Holanda defende a implantação do Plano Estadual de Ações Climáticas (PEAC) que, segundo ele, é “uma oportunidade para repensarmos a forma como manejamos nossos recursos naturais — solo, água e vegetação —, transformando planejamento em ações efetivas de conservação, restauração e adaptação climática, capazes de impactar positivamente esse cenário e aumentar a resiliência dos nossos territórios”, aponta o professor.

Secretaria diz reconhecer emergência climática
Em nota enviada à Mangue Jornalismo, a Sema diz que “reconhece a emergência climática como um dos principais desafios ambientais contemporâneos e vem trabalhando para estruturar uma política climática municipal cada vez mais consistente. Nesse sentido, a Secretaria está se preparando para iniciar um processo de conformidade climática que contempla a construção de uma governança climática, a elaboração do Inventário de Gases de Efeito Estufa, a Análise de Risco e Vulnerabilidade Climática, a construção do Plano de Ação Climática, com a perspectiva de neutralização de carbono até 2050, e a elaboração de normativas que consolida uma política municipal voltada às mudanças climáticas”.
Segundo a Sema, também está em processo a estruturação de um Departamento de Mudanças Climáticas e, para isso, vem buscando referências em experiências de outras capitais brasileiras e mantendo diálogo com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, com o objetivo de construir uma estrutura moderna, integrada e alinhada às políticas climáticas nacionais e aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. “Embora a estrutura específica esteja em processo de consolidação, a agenda climática já está presente nas decisões e projetos desenvolvidos pela Sema, que busca incorporar a perspectiva climática ao planejamento ambiental do município”, diz a nota.
Sobre especificamente a biodiversidade, a Sema informa que um dos exemplos de conservação é o AjuéMangue, um “plano de ação voltado à conservação dos manguezais de Aracaju, que reúne ações de reflorestamento, monitoramento, fiscalização e educação ambiental. A iniciativa também está alinhada ao reconhecimento dos manguezais como importantes ecossistemas para a adaptação climática e para o armazenamento de carbono azul, além de constituírem uma importante solução baseada na natureza, contribuindo para a proteção da biodiversidade, dos recursos naturais e do território”. E mais: “a Sema também atua na ampliação e recuperação da cobertura vegetal por meio do plantio de espécies arbóreas nativas e de iniciativas de arborização urbana”.
Ainda em nota, a Sema assegurou que “desde 2025, a secretaria já realizou centenas de ações em diferentes territórios e com públicos diversos, alcançando mais de 14 mil pessoas. A gestão entende que a conservação ambiental e a adaptação climática dependem também do envolvimento da sociedade e, por isso, trabalha para aproximar a pauta ambiental do cotidiano da população. Outra frente de atuação é a intensificação da fiscalização ambiental, especialmente em situações de descarte irregular de resíduos e lançamentos clandestinos de esgoto, que podem contribuir para a degradação dos ecossistemas, comprometer a qualidade ambiental e ampliar riscos à saúde e ao bem-estar da população”.
Os dados utilizados para construir essa reportagem podem ser acessados AQUI.