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Em 2025, quatro em cada 10 mortes ocorridas em Sergipe foram cometidas por policiais

Lógica do “atirar primeiro, perguntar depois” atravessa gestão de João Eloy de Menezes, chefe da SSP-SE há quase uma década ininterruptamente; gestão de Fábio Mitidieri (PSD) celebra suposta segurança de Sergipe, cujos casos de letalidade policial são omitidos da contagem oficial de homicídios.

A polícia de Sergipe é uma das que mais mata proporcionalmente no Brasil. (Créditos: André Moreira/PMSE)

Era manhã de quinta-feira, 18 de dezembro de 2025, quando policiais militares entraram no Conjunto Fernando Collor, no município de Nossa Senhora do Socorro, na Grande Aracaju, e mataram quatro pessoas dentro de uma casa.

Maycon William Nunes Santos tinha 22 anos. Seu irmão, Max William, 27. Renato de Oliveira Santos, primo de Maycon e Max, completaria 18 anos em 2026. Gladson de Jesus dos Santos tinha 19. Segundo a Polícia Militar de Sergipe (PMSE), os quatro foram atingidos durante um confronto iniciado depois de denúncias anônimas de tráfico de drogas na região. Os jovens foram levados ao Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), mas não resistiram aos vários ferimentos. 

A polícia informou à época que alguns tinham inquéritos por homicídio em andamento — uma narrativa suficiente para que a execução fosse justificada pelo órgão de segurança. Contudo, as mães de três dos jovens contam outra versão. Seus nomes serão preservados. 

Em conversa exclusiva com a reportagem, elas relataram que seus filhos estavam dormindo quando policiais invadiram a casa alugada pelos dois rapazes mais velhos, empresários do setor de criação de camarão, para uma celebração realizada no dia anterior. 

Os laudos cadavéricos confirmam a brutalidade das mortes: sinais de estrangulamento, tiros de cima para baixo (sugerindo que as vítimas estavam rendidas), tiros nas pernas e nos braços, com um dos jovens com nove marcas de bala em cada um dos braços. 

Segundo o relato de uma das mães, que reside próximo ao local onde ocorreram as mortes, seu filho tinha marcas de tiro nas costas, seu crânio foi quebrado e uma bala estava alojada em sua cabeça. “Foi horrível aquilo ali. Para mim foi a pior morte que pode acontecer para um ser humano”, disse à reportagem ainda bastante abalada pelas cenas e os gritos de socorro que ouviu no dia. 

Ao se dar conta de que os pedidos de ajuda vinham da casa onde o filho estava, ela correu até o local. “Eles [policiais] botaram a arma na minha cara, me ameaçaram se eu desse mais um passo para prestar socorro ao meu filho, que estava sendo morto ali”. Em meio ao desespero da situação, ela ainda viu os policiais comemorarem o resultado da ação. “Eles pegavam nas mãos uns dos outros, davam parabéns, ‘Olha o que vocês fizeram!’. Eles riam da nossa cara. Eles olhavam para a gente, a gente em dor ali, e eles riam.”

A população do local agiu imediatamente em protesto à violência policial se aglomerando na frente da casa onde os rapazes foram mortos, mobilização registrada em vídeos gravados pelos próprios moradores e por um canal de televisão que chegou pouco tempo após o ocorrido. 

Durante meses, as famílias pediram respostas e receberam apenas silêncio. Um inquérito sobre o caso foi concluído e arquivado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público estadual (MPSE). Quase quatro meses depois da operação, em abril passado, as mães foram finalmente ouvidas de forma oficial, mas não pelo MP ou pela Delegacia de Homicídios, e sim pelo Comando do 5º Batalhão da Polícia Militar, a mesma corporação cujos agentes, naquela manhã de dezembro, puxaram o gatilho contra seus filhos.

Até o momento, nenhuma acusação criminal de tráfico de drogas foi provada contra os quatro rapazes, nenhum policial foi punido pelas mortes e as circunstâncias do ocorrido naquela manhã de dezembro permanecem nebulosas. 

A mãe de dois dos jovens se consola com a presença dos quatro netos — a mais nova, de apenas três anos de idade — e luta por justiça e pela memória de seus filhos, cuja relação de irmandade era muito forte. “A gente vê aí onde reina a impunidade, quando eles alegam que houve troca de tiro, quando na verdade mais de 20 testemunhas oculares vivenciaram e viram que não houve [confronto] em nenhum momento”, disse à Mangue.

Ela faz questão de enfatizar que teve o melhor dos filhos nos pouco mais de vinte anos de convivência. “Eles foram muito amados e me amaram muito”. 

“Atirar primeiro, perguntar depois”

Não é novidade que a polícia do Estado de Sergipe é uma das mais violentas do Brasil. Ano a ano, as estatísticas criminais confirmam aquilo que parte da população periférica, principalmente jovem e negra, vive cotidianamente.

Enquanto alguns estados reduziram seus índices de letalidade policial, a menor unidade da federação segue ampliando o número de mortes decorrentes de intervenções policiais. Somente no ano passado foram 193 homicídios cometidos por agentes do Estado, de acordo com dados obtidos pela Mangue Jornalismo via Lei de Acesso à Informação (LAI). 

Ou seja, quatro em cada 10 óbitos contaram com as digitais de policiais. Trata-se de um aumento de 33,10% em relação à quantidade de mortes cometidas pelas forças de segurança em 2024 — naquele período, o estado chefiado por Fábio Mitidieri (PSD) contabilizou 145 óbitos. O primeiro ano da gestão pessedista foi o mais letal, com 229 vítimas da polícia

Somando-se os números dos três anos, disponíveis no Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), Sergipe registrou 567 mortes decorrentes de intervenção policial, conseguindo a prata no ranking de estados do Nordeste onde a polícia mais mata, atrás apenas da Bahia, onde ocorreram 4.828 assassinatos no período. 

A taxa de letalidade no menor estado do País é de 8,4 por 100 mil habitantes, ficando atrás do Amapá, líder de casos, e da Bahia. 

Na avaliação da advogada Victória Moitinho, que se debruçou sobre o tema da letalidade policial em sua dissertação de mestrado em Direito pela Universidade Federal de Sergipe, esses dados não representam episódios isolados, mas a consolidação de um padrão de atuação estatal. 

Para ela, o avanço de Sergipe entre os estados com maiores taxas de mortes decorrentes de intervenção policial reflete um modelo de segurança pública baseado na lógica do confronto permanente e da eliminação de pessoas identificadas como inimigas.

“No Brasil, as instituições policiais operam através de um modelo bélico e de uma cultura de vingança, cujo alvo é todo corpo lido como ‘suspeito’. Não se prende para investigar. Elimina-se sumariamente sem qualquer prova ou julgamento. As corporações policiais, especialmente a Polícia de Sergipe, parece funcionar como exército autônomo cuja diretriz é o aniquilamento potencial do inimigo. E o inimigo é alimentado por um imaginário social e racista, construído em torno de pessoas negras e pobres”, explica Moitinho.

(Créditos: USP/Elaboração por Mangue Jornalismo)

Em comunicados oficiais, governo de Sergipe omite dados sobre letalidade policial 

Quase que diariamente, os veículos de imprensa sergipanos divulgam informações repassadas pela Secretaria da Segurança Pública (SSP-SE) dando conta que policiais entraram em confronto com “bandidos” e os “criminosos” foram mortos pelos agentes como “reação”. Raramente estes noticiários contestam ou duvidam dessas ações e também não existe discussão sobre a necessidade de investigações que esclareçam, comprovem e informem a população sobre as circunstâncias desses óbitos. 

No início deste ano, a pasta convocou jornalistas para uma coletiva de imprensa com o objetivo de divulgar os dados sobre as mortes violentas registradas no estado ao longo de 2025. A cúpula da secretaria compareceu em peso ao convescote, cujo tom era de comemoração. 

Diante das câmeras, João Eloy de Menezes, chefe da SSP-SE há quase uma década ininterruptamente, anunciou o que classificou como mais uma prova de uma “transformação histórica” na segurança pública: Sergipe seria, pelo terceiro ano consecutivo, o estado mais seguro do Nordeste, nas palavras dele. 

O principal argumento apresentado foi uma queda expressiva nas mortes violentas. De acordo com os números divulgados pela pasta sobre o ano de 2025, 304 pessoas teriam sido vítimas de Crimes Violentos Letais Intencionais, classificação conhecida pela sigla CVLI, o menor registro desde o início da série histórica iniciada há uma década. 

Não houve nenhum questionamento sobre as mortes ocorridas por agentes do estado — pelo número apresentado, seria preciso admitir que a polícia simplesmente deixou de matar em 2025, uma hipótese tão improvável quanto conveniente. Afinal, em anos recentes, as próprias estatísticas oficiais registram cerca de 150 mortes anuais em intervenções policiais. Trataria-se, portanto, de feito inédito: a polícia de Sergipe teria passado um ano inteiro sem disparar um único tiro fatal. 

A leitura dos dados completos, porém, conta uma história bem menos festiva. Isso porque a Mangue Jornalismo identificou, ao comparar as informações repassadas pela pasta à imprensa com aquelas disponíveis no painel do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), que o número apresentado pelo governo estadual deixou de fora outras categorias de mortes violentas, como letalidade policial.

Quando esses casos entram no cálculo, o retrato estadual muda, com um salto de 304 para 508 mortes violentas registradas no ano de 2025 em Sergipe. Na prática, representa cerca de 38% de todas as mortes violentas registradas no estado.

A diferença também muda significativamente o tamanho da queda anunciada pelo governo. Enquanto a SSP-SE anunciou redução de 21% (índice posteriormente revisado para 16,4%), os números completos indicam que a diminuição entre 2024 e 2025 foi de apenas 14 casos — o equivalente a menos de 3%. 

Questionada sobre isso, a Secretaria de Estado da Segurança Pública rechaçou ter omitido informações e informou que “os indicadores apresentados periodicamente à imprensa referem-se aos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs), categoria composta por homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte”. 

“As mortes decorrentes de intervenção policial possuem classificação própria nos sistemas nacionais de estatísticas em segurança pública e são contabilizadas separadamente, conforme a metodologia adotada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Por esse motivo, não integram o consolidado dos CVLIs apresentado nas coletivas de imprensa”, diz o comunicado, que ainda cita o pedido de LAI da Mangue. Veja a íntegra da manifestação abaixo.

Interiorização da letalidade policial em Sergipe

Os dados obtidos via LAI pela Mangue permitem, pela primeira vez, enxergar a geografia da letalidade policial em Sergipe com algum detalhe. Os registros cobrem 338 ocorrências entre 2024 e 2025, todas classificadas como MILAE (Morte por Intervenção de Agente do Estado), e revelam padrões que a narrativa do governo estadual faz questão de não nomear.

Nossa Senhora do Socorro foi o município onde a polícia mais matou em 2025: 27 óbitos no período. Com 200 mil habitantes, a cidade é vizinha de Aracaju e possui conjuntos habitacionais construídos décadas atrás para abrigar populações removidas do centro da capital sergipana. Em 2024, o município tinha 15 registros de mortes por intervenção policial. 

Em seguida vem Itabaiana, no agreste sergipano, com 24 mortes, uma queda em relação aos 31 casos registrados em 2024, quando liderava o ranking estadual. A capital sergipana aparece em terceiro, com 21 óbitos. Propriá, cidade de cerca de 55 mil habitantes no Baixo São Francisco, acumula 15 mortes em 2025, mais do que municípios muito maiores. Os dados mostram pelo menos três ocorrências registradas na rodovia federal BR-101 em um único dia, 8 de setembro.

Lagarto (10), Tobias Barreto (8), Campo do Brito (6) e São Cristóvão (6) completam o topo da lista. De acordo com os registros obtidos pela reportagem, 44% das mortes ocorreram em residências — dentro de casas, não em confrontos na rua. Outros 40% se deram em vias públicas. 

Ao longo de 2025, pelo menos dez episódios concentraram três ou mais mortes num mesmo dia e local, o que configura, na prática, chacinas, como destaca o Dicionário de Favelas Marielle Franco. O caso envolvendo os quatro jovens em Nossa Senhora do Socorro se enquadra nessa classificação. 

O mês de outubro do ano passado foi o mais letal: 25 mortes. Novembro registrou 22. O ano começou violento, com 15 ocorrências em janeiro, e manteve ritmo elevado praticamente em todos os meses, sem nenhum período que sugerisse qualquer redução estrutural.

O endereço mais recorrente nos dados é, não por acaso, o mesmo da cena que abre esta reportagem. O Conjunto Fernando Collor aparece quatro vezes nos registros entre 2024 e 2025: 28 de agosto de 2024; 25 de janeiro de 2025 (três mortes); 4 de junho de 2025 (uma morte); e 18 de dezembro de 2025 (quatro mortes). 

SSP-SE infringe lei federal e nega dados à Mangue Jornalismo

A Mangue tentou acessar também os documentos que descrevem como cada uma dessas mortes aconteceu. Via LAI, a reportagem solicitou à SSP-SE a íntegra dos registros produzidos nos 193 casos de mortes por intervenção policial em 2025: boletins de ocorrência, relatórios, autos e demais peças, com anonimização prévia dos dados pessoais de vítimas e testemunhas, conforme previsto na própria LAI e na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Sem surpresas, o pedido foi negado. 

Na primeira barreira, o oficial investigador de Polícia Sidney Teles, diretor do CEACRIM/PC/SE, argumentou que atender à solicitação demandaria “trabalho adicional de análise, interpretação ou consolidação de dados”, já que seria preciso tarjar dados sensíveis. A Mangue recorreu, uma vez que anonimizar documentos não é produzir informação nova, mas uma obrigação legal prevista no art. 7º, §2º da LAI e desde o início mencionada pela reportagem. 

Em segunda instância, a decisão foi mantida, mas com um acréscimo: a SSP-SE informou que o único caminho para acessar os documentos seria apresentar “trabalho formal contendo justificativa detalhada quanto à finalidade e ao uso das informações”, a ser submetido à apreciação pessoal do Secretário de Segurança Pública, o que causa estranheza. 

Criada em 2011, a LAI surgiu para romper uma cultura histórica de opacidade na administração pública brasileira, onde o acesso a dados governamentais era restrito e frequentemente condicionado à vontade do gestor de turno. Qualquer pessoa, independentemente de idade, nacionalidade ou vínculo com o Estado, pode solicitar informações aos Três Poderes em todas as esferas da federação e sem necessidade de apresentar qualquer justificativa para o pedido. 

Em um segundo recurso, a reportagem apontou a ilegalidade da exigência. A SSP-SE, por sua vez, alegou que a referência ao “trabalho formal” não havia sido uma condicionante ao direito de acesso, mas apenas “indicação de procedimento administrativo excepcional eventualmente apto a viabilizar modalidade alternativa de consulta presencial supervisionada”, hipótese “por vezes utilizada em atividades acadêmicas”. A decisão de indeferimento foi mantida.

Sem acesso aos boletins de ocorrência, não é possível saber como cada morte foi descrita por quem puxou o gatilho, muito menos verificar se os relatos de confronto são compatíveis com as circunstâncias do local. 

Íntegra da nota enviada pela SSP-SE à Mangue Jornalismo

A Secretaria da Segurança Pública de Sergipe esclarece que os indicadores apresentados periodicamente à imprensa referem-se aos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs), categoria composta por homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte, utilizada historicamente para o acompanhamento da violência letal no estado e para a avaliação das políticas públicas de segurança.

As mortes decorrentes de intervenção policial possuem classificação própria nos sistemas nacionais de estatísticas em segurança pública e são contabilizadas separadamente, conforme a metodologia adotada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Por esse motivo, não integram o consolidado dos CVLIs apresentado nas coletivas de imprensa.

Não houve qualquer omissão de informações. Durante a coletiva de apresentação dos indicadores de 2025, jornalistas presentes solicitaram os dados de letalidade decorrente de intervenção policial e receberam essas informações imediatamente, inclusive com divulgação ao vivo e utilização dos números nas publicações realizadas ao longo do mesmo dia. Da mesma forma, esses dados são encaminhados sempre que solicitados por veículos de comunicação, pesquisadores e cidadãos, inclusive já tendo sido disponibilizados anteriormente ao portal Mangue Jornalismo.

Assim, a apresentação dos indicadores segue um critério técnico e metodológico consolidado, preservando a transparência sobre todos os dados da segurança pública, cada qual dentro da sua classificação estatística específica”.

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Ana Paula Rocha

É jornalista (DRT: 0002920/SE) e tradutora. Integra a 8ª geração da RedLatam de Jóvenes Periodistas de Distintas Latitudes e foi trainee de checagem da 2ª edição do Programa Mirante da Agência Lupa. Uma de suas reportagens para a Mangue foi finalista do Prêmio Megafone de Ativismo 2025, categoria mídia independente, e uma sobre emendas Pix em Sergipe ficou em terceiro lugar no 5° Prêmio INAC de Integridade, categoria comunicadores locais.

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