THIAGO PAULINO, especial para Mangue Jornalismo

Em uma reunião de mobilização da comunidade do Robalo, no que se chamava Zona de Expansão em Aracaju, escutava-se a seguinte frase: “A ganância é como um vírus”. A autora desse dizer era uma moradora antiga da comunidade e o contexto era o seguinte: um grande condomínio em construção estava impedindo a comunidade de acessar o rio por uma estrada que estava ali há mais de 50 anos.
A construtora havia cercado a área e colocado cancelas. A obra continua avançando e está quase concluída. Em um outdoor espalhado na cidade, propagandeando um condomínio de luxo, há o slogan: “Um Rio para você chamar de Seu”. O Rio em questão é o Vaza- Barris, um dos patrimônios naturais mais belos de Sergipe e foi um dos temas de uma tensa Audiência Pública provocada pelo #MovimentoSalveoVazaBarris na última quarta, dia 17.
O Vaza Barris que não só ajuda na sobrevivência da comunidade, mas tem ainda uma importante e necessária função de lazer para todos que ali vivem. Na Audiência Pública, técnicos contratados e gestores da Prefeitura de Aracaju tiveram que escutar diversas queixas e questionamentos de moradores e membros do movimento. Os técnicos da prefeitura que foram apresentar informações do Relatório de Impacto Ambiental de um obra que está atacando o rio e destruindo manguezal e lagoas talvez não esperassem uma comunidade organizada e questionando diversos pontos.
Em 3 de julho de 2024, a Mangue Jornalismo publicou uma ampla reportagem denunciando que a Prefeitura de Aracaju tem aterrado o manguezal e ameaçado o Rio Vaza-Barris. Marisqueiras, pescadores e todo o ecossistema do manguezal são os principais afetados. Leia reportagem completa aqui.
“Estão vindo de madrugada destruir os mangues. Não existe metodologia que justifique isso. Enquanto o planeta está plantando o manguezal, vocês estão destruindo”, afirmou a pesquisadora Mariana Galvão, educadora popular e consultora em políticas culturais e uma das integrantes do movimento #SalvemosVazaBarris.
A professora da UFS, Myrna Landim, também moradora da região, disse que o atual projeto de “macrodrenagem” em implantação na Zona de Expansão, deverá, muito provavelmente, ter as mesmas consequências dos demais canais da cidade e se transformar em novos “canais de esgoto”, com o adensamento populacional e a ineficiência do poder público em coibir a sua contaminação por resíduos e esgotamento sanitário.
Para a professora, essa obra serve mais para a especulação imobiliária do que de fato para a drenagem. Em outra ocasião, a professora defendeu que a preservação das lagoas de restinga são essenciais para a drenagem da região.

O terapeuta Matheus Caetano, que vive há muitos anos na região e atua também com bioconstrução, questionou a superficialidade dos estudos apresentados. Ele afirma que na extensa área que está sendo construída a obra e possíveis construções posteriores, diversas espécies poderão desaparecer da região. O estudo apresentado pela prefeitura não mostra essa riqueza local. “Na hora de dizer qual a fauna local, ficou bem evidente a pobreza do estudo. Meia dúzia de pássaros, meia dúzia de peixes, menos de meia dúzia de répteis. Não existe cobra, tartarugas marinhas, cágados, botos, raposas, teiús”, revelou Caetano.
Análise semelhante é endossada pelo biólogo e doutor em ciências ambientais Marcus Aurélio D’Alencar e que também mora há uma década na região. “O estudo da prefeitura é fraquíssimo, feito às pressas, com insuficiências e lacunas evidentes de dados, mas convenientes; de baixa qualidade técnico-científica, tanto na parte ambiental quanto social. Mas é o que se espera de um estudo encomendado”, pontuou Marcus.

PROGRESSO PARA QUEM?
Um ponto central dos questionamentos e que os estudos não conseguem responder é: a obra traz progresso para quem? Está sendo usada uma antiga e contraditória noção de progresso e que não leva em consideração as formas de vida de uma população que secularmente convive com a natureza: marisqueiras e pescadores. O avanço de condomínios de luxo na região prejudica essa população e eles são favorecidos pela falta proposital de um Plano de Diretor atualizado e atende apenas os interesses das empreiteiras na cidade.
Em sua página do Instagram, os membros da Instituição Casa de Mar, Martha Sales e Herbert Aragão, que também integram o movimento, reforçaram que “há um ano e meio estamos todos na luta, mas não somos ouvidos. Essa audiência foi a oportunidade para debatermos aspectos do projeto e seus impactos que nos afetam, mas a gestão não considera essa comunidade como comunidade tradicional de pescadores, marisqueiras e outros povos. Há toda uma invisibilização dessa particularidade e identidade territorial. Quanto a essas obras, apesar de serem necessárias trazem impactos ambientais, sociais e culturais que podem ser irreversíveis”, disse Martha.
O movimento #SalvemosoVazaBarris pretende mobilizar diversos movimentos para pressionar o poder público e sociedade para:
– Denunciar as devastações ambientais e o flagrante desrespeito às comunidades envolvidas;
– Propor e cobrar compensações e contrapartidas;
– Replantio de manguezais, matas ciliares e árvores nativas no entorno das áreas devastadas pelas obras;
– Repovoamento com alevinos de peixes adequados para o estuário do rio vaza-barris;
– Garantir acesso aos rios construindo ruelas estratégicas para as comunidades ribeirinhas, marisqueiras e de pescadores;
– Aplicar pavimentação em paralelepípedo ou piso intertravado nas vias, ruas dos povoados;
– Destinação de recursos públicos para financiar projetos ambientais e culturais na região (Anjos do Rio, Samba de Côco, Canoas Sergipanas, Festivais culturais, etc;
– Mapeamento e construção de portos e cais estratégicos para mobilidade aquaviária entre os povoados ribeirinhos da região.
– Construção de calçadas de acesso aos povoados.



Uma resposta
Thiago, vc herdou o saber do seu querido pai, o saudoso e querido Zé Paulino, parabéns!