Comunidade rejeita estudos da prefeitura e denuncia ataque ao Vaza-Barris e destruição de manguezais e lagoas

THIAGO PAULINO, especial para Mangue Jornalismo

Praia do Areal, estuário do Rio Vaza-Barris, local previsto para o deságue dos efluentes do canal principal do projeto de macrodrenagem da ZEA (Crédito: Myrna Landim, 2025)

Em uma reunião de mobilização da comunidade do Robalo, no que se chamava Zona de Expansão em Aracaju, escutava-se a seguinte frase: “A ganância é como um vírus”. A autora desse dizer era uma moradora antiga da comunidade e o contexto era o seguinte: um grande condomínio em construção estava impedindo a comunidade de acessar o rio por uma estrada que estava ali há mais de 50 anos. 

A construtora havia cercado a área e colocado cancelas. A obra continua avançando e está quase concluída.  Em um outdoor espalhado na cidade, propagandeando um condomínio de luxo, há o slogan: “Um Rio para você chamar de Seu”. O Rio em questão é o Vaza- Barris, um dos patrimônios naturais mais belos de Sergipe e foi um dos temas de uma tensa Audiência Pública provocada pelo #MovimentoSalveoVazaBarris na última quarta, dia 17. 

O Vaza Barris que não só ajuda na sobrevivência da comunidade, mas tem ainda uma importante e necessária função de lazer para todos que ali vivem. Na Audiência Pública, técnicos contratados e gestores da Prefeitura de Aracaju tiveram que escutar diversas queixas e questionamentos de moradores e membros do movimento. Os técnicos da prefeitura que foram apresentar informações do Relatório de Impacto Ambiental de um obra que está atacando o rio e destruindo manguezal e lagoas talvez não esperassem uma comunidade organizada e questionando diversos pontos.

Em 3 de julho de 2024, a Mangue Jornalismo publicou uma ampla reportagem denunciando que a Prefeitura de Aracaju tem aterrado o manguezal e ameaçado o Rio Vaza-Barris. Marisqueiras, pescadores e todo o ecossistema do manguezal são os principais afetados. Leia reportagem completa aqui.

“Estão vindo de madrugada destruir os mangues. Não existe metodologia que justifique isso. Enquanto o planeta está plantando o manguezal, vocês estão destruindo”, afirmou a pesquisadora Mariana Galvão, educadora popular e consultora em políticas culturais e uma das integrantes do movimento #SalvemosVazaBarris. 

A professora da UFS, Myrna Landim, também moradora da região, disse que o atual projeto de “macrodrenagem” em implantação na Zona de Expansão, deverá, muito provavelmente, ter as mesmas consequências dos demais canais da cidade e se transformar em novos “canais de esgoto”, com o adensamento populacional e a ineficiência do poder público em coibir a sua contaminação por resíduos e esgotamento sanitário.

Para a professora, essa obra serve mais para a especulação imobiliária do que de fato para a drenagem. Em outra ocasião, a professora defendeu que a preservação das lagoas de restinga são essenciais para a drenagem da região.

Manguezal destruído e lagoas naturais aterradas: o progresso da prefeitura (Crédito Graziela dos Passos)

O terapeuta Matheus Caetano, que vive há muitos anos na região e atua também com bioconstrução, questionou a superficialidade dos estudos apresentados. Ele afirma que na extensa área que está sendo construída a obra e possíveis construções posteriores, diversas espécies poderão desaparecer da região. O estudo apresentado pela prefeitura não mostra essa riqueza local. “Na hora de dizer qual a fauna local, ficou bem evidente a pobreza do estudo. Meia dúzia de pássaros, meia dúzia de peixes, menos de meia dúzia de répteis. Não existe cobra, tartarugas marinhas, cágados, botos, raposas, teiús”, revelou Caetano.

Análise semelhante é endossada pelo biólogo e doutor em ciências ambientais Marcus Aurélio D’Alencar e que também mora há uma década na região. “O estudo da prefeitura é fraquíssimo, feito às pressas, com insuficiências e lacunas evidentes de dados, mas convenientes; de baixa qualidade técnico-científica, tanto na parte ambiental quanto social. Mas é o que se espera de um estudo encomendado”, pontuou Marcus.

Trecho final do canal principal do Projeto de Macrodrenagem na Zona de Expansão de Aracaju, mostrando acúmulo de resíduos antes mesmo da entrada em funcionamento (Crédito: Myrna Landim, junho de 2025)

PROGRESSO PARA QUEM?  

Um ponto central dos questionamentos e que os estudos não conseguem responder é: a obra traz progresso para quem? Está sendo usada uma antiga e contraditória noção de progresso e que não leva em consideração as formas de vida de uma população que secularmente convive com a natureza: marisqueiras e pescadores. O avanço de condomínios de luxo na região prejudica essa população e eles são favorecidos pela falta proposital de um Plano de Diretor atualizado e atende apenas os interesses das empreiteiras na cidade.

Em sua página do Instagram, os membros da Instituição Casa de Mar, Martha Sales e Herbert Aragão, que também integram o movimento, reforçaram que “há um ano e meio estamos todos na luta, mas não somos ouvidos. Essa audiência foi a oportunidade para debatermos aspectos do projeto e seus impactos que nos afetam, mas a gestão não considera essa comunidade como comunidade tradicional de pescadores, marisqueiras e outros povos. Há toda uma invisibilização dessa particularidade e identidade territorial. Quanto a essas obras, apesar de serem necessárias trazem impactos ambientais, sociais e culturais que podem ser irreversíveis”, disse Martha.

O movimento #SalvemosoVazaBarris pretende mobilizar diversos movimentos para pressionar o poder público e sociedade para:

– Denunciar as devastações ambientais e o flagrante desrespeito às comunidades envolvidas;

– Propor e cobrar compensações e contrapartidas; 

– Replantio de manguezais, matas ciliares e árvores nativas no entorno das áreas devastadas pelas obras;  

– Repovoamento com alevinos de peixes adequados para o estuário do rio vaza-barris;  

– Garantir acesso aos rios construindo ruelas estratégicas para as comunidades ribeirinhas, marisqueiras e de pescadores;  

– Aplicar pavimentação em paralelepípedo ou piso intertravado nas vias, ruas dos povoados;

– Destinação de recursos públicos para financiar projetos ambientais e culturais na região (Anjos do Rio, Samba de Côco, Canoas Sergipanas, Festivais culturais, etc; 

– Mapeamento e construção de portos e cais estratégicos para mobilidade aquaviária entre os povoados ribeirinhos da região.

– Construção de calçadas de acesso aos povoados.

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Uma resposta

  1. Thiago, vc herdou o saber do seu querido pai, o saudoso e querido Zé Paulino, parabéns!

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