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Comunidade quilombola em Sergipe vai colher 180 toneladas de Arroz Agroecológico Velho Chico. Festa da Colheita será amanhã, em Brejo Grande

CRISTIAN GÓES, da Mangue Jornalismo

Uma grande festa estará acontecendo amanhã, sexta, 29, na Comunidade da Resina, no município sergipano de Brejo Grande, a 130 km de Aracaju. Quilombolas em torno do território de Brejão dos Negros vão se encontrar lá para comemorar a grande colheita de Arroz Agroecológico Velho Chico, isto é, cultivado sem uso de agrotóxicos na região do Baixo São Francisco. A festa será na comunidade da Resina a partir das 9 horas.

As justificativas para que seja uma grande festa são várias, mas principalmente porque se espera uma colheita de 180 toneladas de arroz agroecológico em apenas 23 hectares e, o mais importante, sem utilização de produtos químicos, usando outros produtos agroecológicos, a exemplo de pescados e muitos derivados de coco.

No pacote do arroz está escrito: “produzido pelo campesinato do Baixo São Francisco, em Sergipe, a partir de práticas agroecológicas: com redução do uso de agrotóxicos. Ao consumir nossos alimentos, você contribui com a preservação dos recursos naturais e promove a economia socialmente justa, solidária e sustentável”.

Arroz Velho Chico: social e ambientalmente justo, solidário e sustentável (Foto Mauro Cibulski)

Sim, o arroz agroecológico Velho Chico é carregado de história, lutas de resistência e profunda preocupação com o meio ambiente e a economia solidária. Ao contrário desse arroz, existe grande produção de arroz no mesmo Baixo Francisco e que é fruto de intenso despejo de agrotóxicos, inclusive alguns proibidos e que chegam às águas do rio São Francisco.

Segundo a professora Denise De Sordi, doutora em História Social e pesquisadora na USP e na Fiocruz, a produção desse arroz agroecológico envolve as famílias dos pequenos produtores, pois é a presença e a mão de obra familiar que caracteriza a pequena produção. Assim, o processo de transição acontece baseado não somente no apoio e na gestão de práticas agroecológicas, mas também, e principalmente, no trabalho sociocultural e educativo junto às comunidades produtoras:

Vale destacar a grande atuação na área do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) com apoio decisivo na produção e comercialização do arroz agroecológico da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 3, uma instituição ligada à Igreja Católica e que apoia a produção agroecológica por meio da Rede Balaio de Solidariedade.

Surgida em 2019, a Rede Balaio de Solidariedade agrega mais de 50 empreendimentos da economia popular solidária nos estados da Bahia e de Sergipe e vem somando esforços na comercialização e aquisição de insumos, além de contribuir para o fortalecimento de mulheres que atuam em coletivo gerando renda para o sustento de suas famílias. A rede possui lojas na Bahia.

Pequenos produtores preparam a colheita do arroz agroecológico (Foto Divulgação)

Comunidade terá recursos do Programa de Aquisição de Alimentos

Dentro da Festa da Colheita do Arroz Agroecológico serão assinados contratos permitindo que pela primeira vez na história uma comunidade quilombola possa a acessar os recursos do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), do Governo Federal.

Estarão na Comunidade da Resina o presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Edegar Pretto, além do representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA). A expectativa é que a Conab libere para o território verbas no valor de R$ 650 mil para a aquisição do arroz agroecológico produzido na comunidade.

“Primeiro, é importante celebrar a vida e a colheita, comemorar a conquista do acesso à política pública pelo quilombo e colocar [comida] na mesa do povo urbano. Com o PAA, a Conab fará a aquisição do arroz e este será doado em Aracaju a outras entidades que farão entrega a famílias carentes. É uma grande alegria para o quilombo, além de compartilhar sua produção, também oferecer alimento saudável para o povo sergipano que mais precisa”, festeja Mauro Luiz Cibulski, agente da Cáritas e coordenador na Rede Balaio de Solidariedade.

Mauro lembrou que há pelo menos 15 anos a Cáritas Diocesana de Propriá realiza um trabalho de apoio no processo de luta pela terra e contribui efetivamente com a produção do arroz agroecológico. São 400 hectares de terras quilombolas onde várias famílias vivem. O quilombo de Resina faz o cultivo do arroz em 23 hectares, às margens do Rio São Francisco. “Apoiamos no processo de produção onde viabilizamos a aquisição de insumos como adubo e sementes e no acompanhamento com assistência técnica”, lembrou o agente.

Desde 2016, o MPA, em parceria com a Cáritas e com a Rede Balaio de Solidariedade, desenvolve o processo de transição agroecológica junto aos pequenos produtores da região, permitindo que alterem a forma de produzir arroz no Baixo São Francisco, trocando o cultivo baseado em agrotóxicos para o cultivo baseado em práticas agroecológicas.

Mauro Cibulski e casal de pequenos produtores de arroz (Foto Arquivo Mauro)

Para Denise De Sordi, que vem se dedicando a pesquisas que analisam a emergência das Cozinhas Solidárias e comunitárias enquanto formas de mobilização social, a implantação do cultivo do Arroz Agroecológico Velho Chico é resultado de convencimento e trabalho constantes, pois a produção geral é baseada no largo uso de agrotóxicos.

No entender da pesquisadora, o processo de transição agroecológica, tanto pela ausência de subsídios, quanto de uma política pública que apoie essa transição em larga escala, é encarado pelos pequenos agricultores como um processo “muito desafiador”.

Ela entrevistou Rogério Sebastião, produtor no povoado Serrão, em Ilha das Flores. Ele informou que tinha muito receio, junto com sua família e vizinhos de lote, porque poderia ter perda da produção e consequentemente da renda, além de deixar de combater as pragas com químicos.

Porém, no primeiro ano de produção agroecológica, Rogério e sua família viram uma “produção até maior do que no ano anterior com a plantação convencional”.

Produzido pelos quilombolas a partir de práticas agroecológicas (Foto Divulgação)

Com informações da Cáritas NE3, MPA e Brasil de Fato.

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