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“O sionismo é uma doutrina racista e colonial”. Em entrevista exclusiva à Mangue, Breno Altman explica sobre o genocídio de Israel contra o povo palestino

CRISTIAN GÓES, HENRIQUE MAYNARD e THIAGO LEÃO, da Mangue Jornalismo
@manguejornalismo

No último dia 6 de maio, o Estado de Israel bombardeou uma escola da Organização das Nações Unidas (ONU) localizada no centro da Faixa de Gaza, um os territórios palestinos ocupados e uma das áreas com a maior densidade populacional do mundo. Em mais esse ataque, foram mortas 40 pessoas, sendo 14 crianças e nove mulheres.

A atual rodada de violentos ataques israelenses teve início depois de uma revolta contra a colonização do povo palestino, quando membros do braço armado do partido Hamas e da Jihad Islâmica Palestina realizaram uma ofensiva em 7 de outubro do ano passado ao sul de Israel, onde 1,2 mil pessoas teriam morrido e outras 251 foram feitas reféns.

Em razão disso, o Estado de Israel, com apoio dos Estados Unidos e de diversos países, lançou uma investida genocida contra o povo palestino, matando cerca de 37 mil pessoas, grande parte delas crianças e mulheres.

Apesar dos pedidos da ONU por um cessar-fogo, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu segue com a agressão no sentido de exterminar o povo palestino.

Em Sergipe, pouco depois do ataque de outubro do ano passado, o Governo do Estado hasteou em frente ao Palácio do Governo a bandeira de Israel em lugar da bandeira do Brasil, sinalizando de que lado se colocava naquele cenário. Depois de intensa repercussão negativa, a bandeira de Israel foi retirada.

No dia 17 de abril, Breno Altman, jornalista e organizador do site e canal Opera Mundi, (https://operamundi.uol.com.br) lançou em Aracaju o livro “Contra o sionismo: retrato de uma doutrina colonial e racista” (Alameda Editorial). Antes do evento, ele concedeu entrevista exclusiva para a Mangue Jornalismo.

Leia abaixo a seguir a entrevista.

Mangue Jornalismo (MJ) – Como você caracteriza o conflito entre o Estado de Israel e o Hamas?

Breno Altman (BA) – Este é um conflito entre o Estado de Israel e o povo palestino, não é entre o Estado de Israel e o Hamas. É um conflito muito antigo, data de mais de um século, muito antes mesmo da existência do Hamas, que é de 1988.

MJ – Qual a origem do conflito?

BA – O sistema colonial. O Estado de Israel é um estado colonial na Palestina. Os palestinos são um povo colonizado por Israel, que surge a partir do nascimento de um movimento, uma doutrina chamada de sionismo. O que propunha o sionismo? Criar um Estado Judaico e propôs construir esse estado de supremacia racial na Palestina, porque 1800 anos antes do sionismo era dali que partiam os judeus, da antiga Canaã, a antiga Palestina. Só que quando o estado Sionista propõe criar um estado de supremacia racial judaica, apenas 5% da população dentro da Palestina era judia, 85% eram árabes mulçumanos ou árabes palestinos, 5% eram cristãos e outros 5% de distintos grupos étnicos. Como é que ia fazer para criar um estado de supremacia racial judaica na Palestina que tinha só 5% de judeus? Só tinha um jeito, a colonização: expulsar, dominar, subjugar os palestinos árabes. Essa é a origem do conflito.

MJ – O Holocausto, de algum modo, impulsiona isso, não é?

BA. Sim. Esse movimento de colonização sionista foi crescendo na primeira metade do século XX e ganha muita força depois da segunda guerra mundial, porque no conflito mundial são assassinados 6 milhões de judeus, durante o Holocausto. Isso cria uma enorme comoção no mundo, e essa comoção leva ao consenso favorável ao projeto sionista entre as potências vitoriosas na Segunda Guerra, ou seja, que os judeus deveriam ter direito a esse estado de supremacia racial judaica dentro da Palestina. Então, diante daquela comoção provocada pelo Holocausto, as Nações Unidas aprovam em 1947 uma resolução (nº 181) que torna possível criar o Estado de Israel, resolução conhecida como “partilha da Palestina”. Por esse documento, 53,5% da Palestina se destinava à criação de um Estado judeu, embora os judeus fossem apenas 700 mil habitantes. E os 46,5% restantes eram destinados para a futura criação do Estado palestino, embora os palestinos fossem 1,4 milhões naquele lugar. Essa partilha leva à criação do Estado de Israel em 1948.

MJ – Mas os palestinos não aceitam essa absurda partilha, não é?

BA – Não. Eles se sentem roubados de seus legítimos territórios e fazem uma guerra e Israel ganha esse conflito que durou quase um ano. Terminada a guerra, Israel não tinha somente os 53,5% da resolução do território da Palestina, mas já controlava 79% de toda área em 1949. Dezoito anos depois, Israel começa um novo conflito, conhecido como Guerra dos Seis Dias (de 5 a 10 de junho de 1967). Terminada essa guerra, Israel controlava 100% do território da Palestina e algumas coisas mais, como a Península do Sinai, que era egípcia, e controlava também as Colinas de Golã, da Síria. Em 1979, num acordo de paz com o Egito, Israel devolveu o Sinai, mas as colinas foram anexadas ilegalmente em 1981.

MJ – Havia uma resolução das Nações Unidas que partilhava o território da Palestina, mas Israel não tomava conhecimento e avançava ficando com tudo.

BA – Isso, Israel foi se constituindo como Estado e regime colonial, apesar das resoluções das Nações Unidas. Os palestinos foram lutando contra a colonização. Em alguns momentos, tentou-se encontrar algum acordo, mas Israel nunca cumpriu. Por isso a luta constante do povo palestino pelo direito de existir livre.

MJ – Num processo de trégua, tem-se eleições para a Autoridade Palestina, elege-se presidente, primeiro-ministro (que é do Hamas), todo conselho legislativo. Ou seja, existia uma unidade, um governo de unidade Palestina. Parecia que as coisas iam bem, mas desandou. O que houve?

BA – Ocorre que os Estados Unidos, a União Europeia e Israel não aceitam o resultado das eleições legislativas que o Hamas ganhou e nem a existência desse governo de unidade palestina. Estados Unidos, a União Europeia e Israel decretam boicote total ao povo palestino. Depois de intensa pressão, Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, demite Ismail Haniya (primeiro-ministro), que era do Hamas. Como o Hamas tinha muita força na Faixa de Gaza, ele expulsa daquela área o Fatah, partido de Abbas. E aí se dividem os palestinos: a Autoridade Palestina mantém o governo sobre a Cisjordânia, e o Hamas sobre a Faixa de Gaza. Assim que termina esse conflito entre os palestinos, Israel muralha a Faixa de Gaza, cerca o povo com muros, arame farpado, isolando e controlando a entrada e saída de todas as pessoas e mercadorias naquela área, cercando por terra, mar e ar. Gaza se transformou no maior campo de prisioneiros do mundo, nada entrava e saía da Faixa de Gaza sem autorização do Estado de Israel.

MJ – E a resistência?

BA – Qualquer tentativa de reação, qualquer ação de resistência a isso tudo era e é retaliada por Israel com extrema brutalidade, com punições coletivas como estamos vendo agora. Essas ações de resistência do Hamas entre 2007 e 2023, antes do 7 de outubro, levaram à morte de aproximadamente 150 israelenses, a maioria soldados. As ações de Israel em retaliação à luta do povo palestino levaram à morte mais de 8 mil palestinos. Vivia-se um quadro de enorme repressão e opressão sobre a Faixa de Gaza. O que aconteceu em 7 de outubro do ano passado, a ação do Hamas, é uma resposta a isso. O conflito não começa em 7 de outubro, mas ali é um novo capítulo que começa lá atrás quando o sionismo decidiu pela colonização da Palestina, quando constituiu o Estado de Israel usurpando territórios que pertenciam ao povo palestino.

MJ – O que é o sionismo? É possível separar o Estado de Israel e o sionismo?

BA – O sionismo é uma corrente ideológica criada por um jornalista austro-húngaro Theodor Herzl. Ele escreve um livro, quase um panfleto, chamado “O Estado Judeu”, onde ele propõe uma solução para aquilo que se chamava de “questão judaica”, ou seja, a perseguição que os judeus sofriam na Europa há muitos anos. Qual solução ele indica? A criação do Estado Judeu. Só que os judeus não eram uma nacionalidade no final do século XIX, quando surge o sionismo. Eles tinham uma nacionalidade, na Palestina, por volta do primeiro século da nossa era. Os judeus emigraram numa pequena tribo da Mesopotâmia para a antiga Canaã e lá iriam constituir um reino unido de Israel e Judá, isso no ano 1000 antes de Cristo. Esse reino depois se dividiria entre o Reino de Israel e o Reino de Judá, uma cisão entre as tribos judaicas. Depois, o Reino de Israel é liquidado pelo Império Assírio e o Reino de Judá é liquidado pelo Império Babilônico. O Império Persa derrota os babilônicos e traz de volta para Palestina os judeus e lá existiria uma reconstituição de Israel com Judá. Entretanto esse novo reino é abatido pelo Império Romano no ano 70 quando, Jerusalém é destruída. Existe resistência, mas os judeus são expulsos, vão para a diáspora, saem da Palestina, dispersando-se num primeiro momento pela Europa, do sul ao norte, do leste ao oeste, ou seja, os judeus vão deixando de ser uma nacionalidade, porque não se tem mais a interseção entre povo e território. É aí que surge o sionismo com a proposta de criar não um estado nacional, mas um estado étnico-racial judeu e que viria a ser um estado teocrático, pois a religião vai costurar isso.

MJ – E onde se criaria esse Estado? Prepara-se o retorno para a Palestina?

BA – Sim, porque é de lá que vieram os judeus 1800 anos antes e porque era muito importante para o sionismo, que nasceu como movimento laico, ganhar o apoio de grupos religiosos judaicos, construindo um discurso místico – de retorno do povo eleito à terra prometida – para oferecer às massas judaicas empobrecidas, especialmente na Europa oriental. Há uma reforma na religião judaica para acomodar os grupos religiosos e o sionismo. Há uma inversão nos escritos fundantes da religião. Antes estava escrito que o povo eleito somente poderia retornar à terra prometida e reconstruir o Reino de Israel depois da chegada do Messias. Com o sionismo, inverte-se, o Messias só chegará depois que o povo eleito já tiver retornado e reconstruído o Reino de Israel na forma do moderno estado sionista judeu. Isso é importante porque as massas judaicas da Europa que poderiam imigrar para a Palestina tinham a convicção de que elas estavam indo para uma missão mística, um ato divino, ou seja, dependia delas a chegada do Messias. Tem-se aí o primeiro pilar. Para isso, precisava-se colonizar a Palestina, o segundo pilar. Em resumo, o sionismo é uma doutrina que propõe uma solução racista e colonial para a perseguição contra os judeus, é uma doutrina racista e colonial, que se baseia na criação do Estado de Israel e a colonização do povo palestino.

MJ – O sionismo é um bloco homogêneo ou tem dissidências? Tem esquerda no sionismo, pessoas que seja contra a colonização do povo palestino?

BA – O sionismo, como qualquer doutrina tem muitas alas, mas o sionismo tem um consenso ideológico formado pelos dois pilares que tratei antes: a criação de um Estado de supremacia racial judaica e o direito de ocupação da Palestina para construir esse Estado. O que ocorre é que as diferentes alas do sionismo terão estratégias diferentes para atingir esses dois objetivos. Em situações de crise como a atual, todos estão juntos na defesa do Estado de Israel e da colonização do povo palestino e vão se alinhar com o que existe de pior nos Estados Unidos, no sistema imperialista, na extrema-direita, sem problemas. Não existe sionismo de esquerda, mas existe uma pequeníssima esquerda sionista. É o mesmo que acontecia com o nazismo e o fascismo.

MJ – Parece que o sionismo é uma estratégia do capital internacional, não é?

BA – Isso, o sionismo sempre foi uma estratégia e uma engrenagem imperialista, primeiro do Reino Unido, depois dos Estados Unidos. Quando surge o sionismo, o principal Estado imperialista era a Inglaterra. Depois, passaram a ser os Estados Unidos, que viram em Israel um porto seguro para a sua presença no Oriente Médio e a relação entre petróleo e países árabes. Então, Israel tem um peso militar e de pressão para que os Estados Unidos possam se movimentar no Oriente Médio junto às elites árabes. Ou seja, Israel faz parte do sistema imperialista desde o início. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, um tempo atrás chegou a dizer que se o Estado de Israel não existisse, os Estados Unidos o criariam. Estamos falando de um movimento político, econômico e cultural que só tem paralelo com o nazismo. É barra pesada.

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Uma resposta

  1. A história de Israel tem na sua origem duas vertentes religiosas baseadas em um só Deus – JAVÉ: o que defende a vida do povo trabalhador e escravizado (os oprimidos) e o que defende os interesses dos poderosos (a classe dominante). Duas teologias que atravessam toda a história de Israel e chegam até Jesus Cristo, que escolhe como aliados os oprimidos e por isso foi perseguido e morto pelos representantes da burguesia. Essa dicotomia do EU e do OUTRO, como bem retrata Cristian Góes em seu livro “Quem somos nós na fila do pão? A construção dos invisíveis na história do Brasil”, é fruto dessas barbáries milenares…

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