Pesquisar
Close this search box.

Arthur Bispo do Rosário está no mais importante museu de arte latino-americana. Em Buenos Aires, o Malba recebe as artes do sergipano de Japaratuba

CRISTIANO GUERRA, especial para Mangue Jornalismo
(@cristiano.guerra)

Peça Artur Bispo do Rosário intriga visitantes do Malba (Foto: Cristiano Guerra)

21 de março, uma quinta-feira nubladíssima, logo depois de vários dias de chuva, é um dia a ser celebrado. Enquanto chegava ao Malba, o aclamado Museu Latino-Americano de Arte de Buenos Aires, não podia deixar de pensar no como Buenos Aires é linda no outono. Sei que ainda não estamos nesta estação, mas vocês bem sabem que são as águas de março as que fecham o verão e para mim, o dia não pode ser mais bonito.

De onde eu venho, a chuva não pode ser considerada outra coisa que não bênção e durante toda a semana esteve transbordante, intensa, relampejante, mas justo hoje, não. É como se a chuva anunciasse a chegada de Arthur Bispo do Rosário, como ele mesmo dizia que um dia chegaria e não pude evitar um sorriso quando esse pensamento bonito me cruzou a cabeça.

Malba, o mais importante museu de arte latino-americana (Foto: Cristiano Guerra)

O Malba é um museu fabuloso, seja em termos de sua estrutura física e sua arquitetura impressionante, como em termos de curadoria e agenda cultural. Possui três pisos, em que o piso central, ou primeiro andar, abriga a coleção permanente do Malba, atualmente intitulada “Tercer Ojo”, e expõe artistas lendários do continente como os mexicanos Frida Kahlo e Diego Rivera, os argentinos Antonio Berni e Xul Solar, o colombiano Fernando Botero, o uruguaio Rafael Barradas e tantos, tantos artistas impressionantes. Me atrevo a dizer que não pensem que a representação brasileira é menor, Abaporu de Tarsila do Amaral se encontra neste mesmo museu, a maior joia do Modernismo Brasileiro e está acompanhada de Cândido Portinari, Emiliano di Cavalcanti, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Frans Krajcberg, Maria Martins, Wanda Pimentel, Antônio Dias, entre vários outros.

As colossais peças têxteis de Arthur Bispo do Rosário encantam (Foto: Cristiano Guerra)

Desta quinta-feira 21/03, que seria a inauguração, até o dia 27/05, grandiosas peças têxteis de Arthur Bispo do Rosário são exibidas no marco de um recorte de “Coreografias de lo Imposible”, da 35° Bienal de São Paulo. Se bem a exposição reuniu mais de 100 artistas entre Setembro e Dezembro de 2023 no Pavilhão Ciccillo Matarazzo do Parque Ibirapuera, nesta oportunidade se apresentam unicamente quatro artistas, Aline Motta, Elda Cerrato, Gabriel Gentil Tukano y Manuel Chavajay no Palácio Vereda, sede da Embaixada do Brasil na Argentina e quatro no Malba: a designer gráfica zimbábue Nontsikelelo Mutiti e os artistas brasileiros Aurora Cursino dos Santos, Ubirajara Ferreira e Arthur Bispo do Rosário.

Na exposição poderão ser vistas colossais peças têxteis de Arthur que se inserem num contexto de três artistas brasileiros cuja obra foi executada desde instituições psiquiátricas e traz a discussão como a arte pode prevalecer em qualquer circunstância. Nem a violência estrutural ocasionada pelo estado, nem as distintas formas de violência perpetradas por suas origens, etnia, pensamento e mesmo pelos tratamentos impostos puderam conter sua expressão artística que hoje se exibe numa das mais importantes instituições do mundo.

Arthur Bispo do Rosário (Foto: Domínio público)

Exibir “Coreografias do Impossível” no Malba também busca estender as discussões que traz Rosana Paulina, que ocupará o piso 2 do Malba, com exposição central neste mesmo período, de Março a Maio em Buenos Aires. Rosana Paulino é conhecida por sua incansável e necessária opinião em temas nevrálgicos do Brasil contemporâneo: o feminino, os corpos, a negritude, a brasilidade, a afro-brasilidade, a afro-latinoamericanidade, o sentido de pertencimento, as idiossincrasias sociais e vários outros conceitos ainda inesgotáveis.

O diálogo entre Rosana e Arthur, e os demais artistas apresentados se dá no âmbito do produzir desde a existência própria, sem interlocutores, com visões de mundo e uma clara ênfase na “desmarginalização” de sua voz e de sua arte. Capaz que nem Buenos Aires e nem nós mesmos estejamos preparados para este diálogo: o que sabemos e opinamos é muito pouco, frente a estes testemunhos de vida.


Cristiano Armando Diniz Guerra Silvestre é aracajuano e internacionalista pela Universidade Federal de Sergipe. É especialista em América Latina, fez um mestrado na Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales, sede Buenos Aires, cidade na qual se radicou há quase 10 anos. Ao longo de sua carreira, passou por Lima, Cidade de México e São Paulo. Nunca soube fazer somente uma coisa ao mesmo tempo. Entre seus temas de interesse estão pensamento latino.americano, arte e gastronomia, sustentabilidade e empreendedorismo.

Isso aqui é importante!

Fazer jornalismo independente, ousado e de qualidade é muito caro. A Mangue Jornalismo só sobrevive do apoio das nossas leitoras e leitores. Por isso, não temos vergonha em lhe pedir algum apoio. É simples e rápido! Nosso pix: manguejornalismo@gmail.com

Uma resposta

  1. Bispo é mais conhecido pelo mundo que por sergipanos, E isto é triste. Já participou da Bienal de Veneza também, entre outras exposições por museus renomados. Bispo e Rosana juntos é de matar qualquer um de amor rsrs Lindo texto Cristiano. Jaci

Deixe seu comentário:

Pular para o conteúdo