Aracaju tem 623 pessoas em situação de rua e quase 80% são negras, aponta censo independente após 40 anos de ausência de dados

De acordo com o Censo Pop Rua, 78,7% das 623 pessoas em situação de rua na capital sergipana são pessoas negras e 63% afirmaram que já ter sofrido algum tipo de violência na rua.

Censo Pop: quase 80% das pessoas em situação de rua em Aracaju são negras (Crédito: Anderson Barbosa/Quem Vem Das Ruas).

Há mais de 40 anos, Rosivania Ramos atua na Comunidade Católica Bom Pastor prestando auxílio a pessoas em situação de rua em Aracaju. Nessas quatro décadas, nunca houve um censo que contabilizasse a quantidade de pessoas em situação de rua entendendo as necessidades dessa população. 

Até que em 2024, um grupo de trabalho se reuniu para fazer esse levantamento de forma independente, resultando em um amplo relatório constatando que a capital sergipana possui 623 pessoas em situação de rua e enfrentando alta vulnerabilidade social.

O Censo Pop Rua foi realizado em duas etapas, a primeira sendo quantitativa e a segunda, qualitativa, em que os recenseadores conversaram com cada pessoa para entender os motivos de estarem ali e até mesmo os seus sonhos. 

Antes de irem às ruas, o grupo de trabalho passou dois anos estudando e analisando formas de construir o censo. Para isso, as associações Comunidade Católica Bom Pastor, Pastoral do Povo da Rua e Movimento Nacional da População em Situação de Rua – Sergipe (MNPR-SE) se uniram com pesquisadores, professores e estudantes de diferentes áreas da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Com pessoas de diferentes áreas, o censo pode ser formulado de uma maneira mais abrangente. Pesquisadores da Geografia contribuíram na articulação geográfica da capital, analisando os locais que os recenseadores atuariam. Os profissionais da Psicologia elaboraram os questionários. Os do Direito, as questões jurídicas e burocráticas, como documentações, enquanto o pessoal da Assistência Social ficou responsável pela viabilização de recursos para a realização do censo.

Mas, para além disso, as pessoas em situação de rua tiveram um papel ativo na formulação de todo o projeto, o que diferencia ainda mais o censo. “Foi muito na escuta da rua. Os questionários foram feitos junto com eles nos locais onde mais tinha a população para fazer uma contagem, porque às vezes eles estão em uso [de substâncias], e estando eles na frente, que já são conhecidos, a gente não seria rejeitado nem hostilizado. Então foi uma construção muito boa, muito bonita, muito forte. E a gente fez pensando exatamente na melhoria desse público”, explicou Rosivania.

Um dos grandes diferenciais do Censo Pop é a participação de pessoas em situação de rua desde a concepção do projeto (Crédito: Grupo de Trabalho Censo Pop).

O censo foi um primeiro passo dado para entender o cenário da população em situação de rua de Aracaju. De acordo com o decreto 7.053/2009, a população em situação de rua é um grupo heterogêneo de pobreza extrema, com vínculos familiares fragilizados, ou até mesmo rompidos, e sem moradia convencional regular, utilizando lugares públicos para dormir. O texto também incita as prefeituras a elaborarem políticas públicas de moradia, saúde, trabalho e educação.

O que se espera, agora, é a formulação dessas políticas públicas para essas pessoas, utilizando como base o relatório. Até o momento, não há perspectivas para a construção desses projetos, muito menos a elaboração de um próximo censo por falta de investimento.

“A gente vê pelos estudos que o Censo tem que acontecer a cada dois anos. Então, precisa se tornar lei para que isso possa prevalecer e possa ter mais apoio, mais recursos financeiros para essa aplicação. Mas o nosso grande objetivo é poder mostrar esses dados e problematizar junto com as pessoas em situação de rua, provocar possibilidades de novas políticas públicas, seja estaduais ou municipais”, relatou Jayane Trindade, mestra em Psicologia e uma das integrantes do grupo de trabalho.

Entendendo os resultados

Para constituir a pesquisa, o grupo considerou excepcionalmente as pessoas que vivem em situação de rua, desconsiderando quem vive em moradia irregular ou ocupações, por exemplo. Também não foram contabilizados menores de 18 anos, pois quando o grupo foi às ruas realizar a pesquisa, que aconteceu majoritariamente pela noite, não encontrou crianças, que poderiam estar em abrigos ou em casas de familiares.

De acordo com o Censo Pop, em Aracaju existem 623 adultos em situação de rua. Desses, homens cisgênero são maioria (81,1%) e 78,7% são negros. Cerca de 68,2% das pessoas em situação de rua permanecem nessa condição por períodos que vão de 1 a mais de 5 anos. Esse dado é importante porque indica que, para muitos, a situação de rua não é temporária.

Outro ponto que chama a atenção é o local onde essas pessoas dormem por mais tempo: 78% dormem, na maioria das vezes, em espaços abertos. Na capital sergipana existem três abrigos voltados a adultos em situação de rua, sendo dois municipais e um estadual. Cada unidade tem a capacidade média de 50 vagas, que, somadas, não chegam nem a 25% da necessidade atual.

Procurada pela Mangue Jornalismo, a Prefeitura Municipal de Aracaju afirmou que “a partir dos dados do Censo, o município segue avançando no planejamento de ações mais amplas, que considerem a moradia como parte das estratégias para superação da vulnerabilidade, respeitando as diferentes realidades e necessidades desse público”. 

Em 2025, a gestão Emília Corrêa, por meio da Secretaria Municipal da Família e da Assistência Social (Semfas), realizou a implantação da nova sede do Centro Pop, um espaço que dá assistência a pessoas em situação de rua. Com a revitalização, o local teve a capacidade de atendimento ampliada, e, segundo a prefeitura, pode alcançar 150 atendimentos diários.

Só que essa mudança não supre as necessidades reais da população de rua da capital. “Conseguimos mudar o Centro Pop de lugar em uma reforma no centro de acolhimento para a população de rua do município, mas não conseguimos efetivar o trabalho, emprego, renda e a moradia, que são os alicerces principais da política nacional”, declarou Alisson Oliveira, artista e coordenador estadual do MNPR-SE.

Segundo ele, a moradia deve ser a primeira etapa de solução para a população de rua. “Se dá a casa para a pessoa, dá uma qualificação para ela no CRAS [Centro de Referência de Assistência Social] do território, ela começa a acessar o serviço de saúde no território, para que ela possa ter uma outra perspectiva, um vínculo comunitário novamente reestruturado e talvez até uma renovação do vínculo familiar. Mas aí acaba que o fluxo não continua e as pessoas não arranjam emprego e os cursos apenas oferecem bolsa, são apenas paliativos, acaba que você não consegue ter emprego e você volta para o trabalho informal ou para o trabalho escravo”, detalhou Alisson.

Já a prefeitura ainda acredita em “ações que promovam a saída da situação de rua, como acesso a benefícios sociais, qualificação profissional e reinserção social”. Vale lembrar que a população em situação de rua não estava inserida, de forma clara, no plano de governo de Emília Corrêa (PL) em sua candidatura, em 2024, como a Mangue Jornalismo mostrou em reportagem.

O principal objetivo das pessoas em situação de rua é a obtenção de uma moradia (Crédito: Grupo de Trabalho Censo Pop).

O Censo Pop Rua também buscou entender o que levou essas pessoas a viverem na rua. A maioria (32,48%) afirmou que conflitos familiares foram o principal motivo, seguido de problemas com o uso de drogas (21,37%) e o desemprego (18,8%).

As substâncias mais consumidas são o álcool, tabaco, maconha e crack. Rosivania Ramos, que também é assistente social, destaca que os entorpecentes são um dos principais fatores que impedem a saída de pessoas da situação de rua. “Não é especificamente o que leva à rua, mas é o que faz dificultar a saída deles da rua, porque leva ao transtorno e ao uso abusivo. E faz com que eles se desanimem em relação a uma projeção de uma vida melhor”.

“Tem um imaginário do senso comum de que todo mundo que está na rua é ‘cracudo’, é ‘noiado’, e a gente viu que eles usam as mesmas drogas que uma pessoa que está em domicílio. Então, a gente foi quebrando alguns mitos”, completou Jayane Trindade.

Além disso, 63% das pessoas entrevistadas afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência na rua. Dessas, mais de 40% disseram que foram agredidas por agentes de segurança pública, em sua maioria policiais militares, em seguida guardas municipais e policiais civis.

O levantamento também trouxe informações que procuram saber sobre os sonhos e desejos das pessoas em situação de rua. Com o diálogo, a iniciativa mostrou que os sonhos mais almejados são o de moradia e autoconhecimento. Também foi possível saber que muitos nutrem o desejo de construir uma família, a superação do uso de drogas e a felicidade são bastante evidentes nesse público.

Números atuais podem ser incertos

O Cadastro Único (CadÚnico) é um instrumento federal que coleta dados de famílias de baixa renda de todo o território nacional. Com ajuda desses dados, os governos federal, estadual e municipal podem criar políticas públicas para incluir essas pessoas.

Segundo os dados do CadÚnico, Aracaju possui, atualmente, 1.344 pessoas em situação de rua, um número bem superior ao registrado pelo Censo Pop em 2024. No entanto, a metodologia utilizada pelo CadÚnico pode gerar uma duplicação dos valores obtidos. 

“Quem está no CadÚnico podem ser pessoas que estão em moradia irregular, que são as ocupações, como a Dandara e a Babilônia. A gente não contabilizou essas pessoas de ocupações irregulares, porque o IBGE, na sua pesquisa, entende que ocupações irregulares é um tipo de moradia”, explicou Jayane.

Com a falta de perspectiva para um próximo censo, não tem como saber os números exatos de quantas pessoas vivem em situação de rua em Sergipe atualmente. Mas para além desse primeiro passo necessário, existem outros entraves que atingem diretamente esse público. 

“Existem vários tipos de descaso do poder público, injustiças através da higienização por conta do incômodo causado pela presença do povo nas ruas, a falta de soluções concretas de enfrentamento dessa situação que é social e não pessoal, deve provocar em nós, desconforto, empatia e responsabilidade. Que possa nos lembrar que ninguém nasce para a exclusão e que toda sociedade é um pouco responsável pela forma como cuida dos seus  vulneráveis”, disse Rosivania.

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Valter Davi

Jornalista (DRT 2945/SE) e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Sergipe (PPGCOM/UFS), em que pesquisa Narrativa de Sofrimento no campo do Jornalismo. Fotojornalista e escritor, atua como repórter e tem experiência em assessoria de comunicação.

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