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“A mangaba vai acabar”. Alto risco de extinção da fruta símbolo de Sergipe tem afetado o árduo trabalho das mulheres extrativistas

DÍJNA TORRES, da Mangue Jornalismo

Quem é sergipano com certeza já provou ou já ouviu falar da mangaba. Fruto pequeno, arredondado, de cor amarela e vermelha, a mangaba, além de saborosa, tem inúmeros benefícios para a saúde, como o efeito anti-inflamatório e que auxilia no tratamento de doenças como hipertensão, ansiedade e estresse. Além disso, o extrativismo da mangaba é a principal fonte de renda de muitas famílias sergipanas que habitam na região litorânea do estado.

A Mangue Jornalismo recebeu denúncias sobre a possível e provável extinção de uma das mais tradicionais e saborosas frutas do Nordeste, que vem desaparecendo diante da forte especulação imobiliária e desmatamento para criação de gado, viveiros de camarão ou plantio de eucaliptos.

Pesquisa realizada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Tabuleiros Costeiros (Aracaju/SE), em 2017, estimava que Sergipe já tinha perdido 90% das áreas originais de mangaba. O engenheiro agrônomo, mestre em Fruticultura Tropical e pesquisador da Embrapa, Josué Francisco da Silva Junior, afirma que o documento, apesar de ter sido disponibilizado em 2017, já trazia dados alarmantes que merecem a atenção, uma vez que houve uma diminuição nas áreas naturais de ocorrência de mangabeira em quase 30%, em apenas seis anos, entre 2010 e 2016. “Essa devastação vem sendo continuada atualmente, haja vista a expansão imobiliária desenfreada na Região Metropolitana de Aracaju e cidades praianas, e a ampliação de plantios de eucalipto e cana-de-açúcar”, destacou.

O pesquisador ainda ressalta que, com a perda dos territórios onde praticavam a cata da mangaba, famílias extrativistas têm buscado ocupação nos postos de trabalhos assalariados e vendido o dia de trabalho nas usinas de cana-de-açúcar, no caso do litoral Norte sergipano. “O processo de urbanização crescente em todo litoral sergipano é mais um instrumento de pressão sobre as áreas naturais de mangabeira, sobretudo em Barra dos Coqueiros, Itaporanga d’Ajuda e Estância. Seria recomendável uma atuação mais incisiva dos órgãos ambientais, com a finalidade de coibir e punir os desmatamentos ilegais. A destinação de áreas de livre acesso, sobretudo da União, para as catadoras de mangaba também é uma necessidade”, pontuou.

Mulheres extrativistas e a luta pelo território

Realizada de forma manual e passada de geração a geração, o extrativismo da mangaba é uma atividade realizada por meio de um modelo de desenvolvimento que respeita os modos tradicionais de vida. Quando há a cata da mangaba para a sobrevivência de diversas famílias, observa-se o tempo para a colheita e o de reposição natural da mangabeira. Para que haja extração, é preciso que o recurso natural se renove e as mulheres extrativistas conhecem e respeitam o tempo da natureza.

Tainara Vidal, catadora de mangaba do município de Ribuleirinha, em Estância, viveu esse processo através de sua família, que passou o conhecimento da cata da mangaba para a sua geração. “Eu vivia no quintal de meu avô, na minha infância, que tinha bastante pé de mangaba. Hoje, me entristece, eu chego lá e você conta nos dedos os pés de mangaba, quase não tem mais. É muito triste, meu pai mora em frente a esse terreno e eu vejo e me entristeço. A mangabeira é a árvore símbolo do estado de Sergipe, mas a gente sabe que não há essa preservação. Há uma Lei que deveria impedir que retirassem as mangabeiras, mas aí as grandes construtoras pagam a multa e fica por isso mesmo. Nós estamos de mãos atadas. Eu tenho medo de daqui a 5 anos a gente não ter mais mangaba, é triste demais”, lamentou.

O extrativismo vive em constante disputa, visto que grandes empresas privatizam espaços de subsistência de muitas famílias, derrubando mangabeiras para instalar grandes construções que agridem o meio ambiente de forma irreversível. Para Alicia Salvador, catadora de mangaba e presidente da Associação das Catadoras de Mangaba de Indiaroba (Ascamai), nas cidades de Indiaroba e Estância, ainda há o agravante da carcinicultura, que prejudica tanto a pesca e a água, como o solo, matando e modificando as plantações da mangabeira, do cajueiro, do coqueiro, com o descarte de produtos químicos utilizados nos viveiros de camarões.

“A quantidade de produto químico acaba com tudo e isso é assustador e revoltante, pois eu sou catadora de mangaba desde o útero de minha mãe, somos catadoras de geração. Vendemos mangaba para sobreviver desde sempre. Hoje, sentimos uma dificuldade muito grande até de encontrar a fruta e a muda, pois, a especulação imobiliária está crescendo de maneira avassaladora e está indo justamente para o litoral onde tem as mangabeiras, e ainda para completar tem as plantações de eucaliptos. A gente vê a mangaba sendo reconhecida até fora do país, mas está cada dia diminuindo mais e mais aqui no estado e se continuar assim, ela vai acabar”, disse Alicia.

As mulheres extrativistas são reconhecidas pela incansável luta pela preservação dos territórios que são invadidos de maneira feroz pela especulação imobiliária, deixando diversas famílias sem o seu sustento, poluindo o meio ambiente e privatizando as áreas de cultivo. Dilva de Souza Santos, presidente da Associação de Catadoras de Mangaba de Manoel Dias (Ascamade), acredita que as mangabeiras são muito mais do que uma fonte de renda para essas famílias, elas são parte de uma identidade da comunidade, parte da vida, da história de famílias que utilizam a mangaba e seus derivados para viver e sobreviver.

 “Antes a gente vendia muito, mas agora estamos perdendo para os condomínios. A gente tem medo de pedir algumas coisas ao poder público porque é capaz da gente acordar com a boca cheia de formiga. Por isso, a nossa luta é constante, inclusive contra as queimadas aqui na nossa região, e estamos mobilizando a comunidade para que ninguém corte as mangabeiras e nem façam mais queimadas. Mas, precisamos também de um trabalho de conscientização para que a população reconheça os benefícios da mangaba, pois é a mangaba que nos dá tudo que temos, então é preciso aprender a preservar”, ressaltou.

Manual para a mangaba não se acabar

Em Sergipe, segundo a pesquisa de mapeamento da Embrapa, as áreas naturais de mangabeiras estão situadas ao longo do litoral abrigando recursos naturais de grande importância socioeconômica e ambiental para comunidades tradicionais de quilombolas, pescadores artesanais, marisqueiras e catadoras. Além da mobilização política para garantir o acesso às áreas nas quais praticam o extrativismo, com o apoio de diferentes instituições, as catadoras de mangaba conseguiram alguns avanços no que diz respeito às políticas públicas, a exemplo da criação do Movimento das Catadoras de Mangaba de Sergipe (MCM), o acesso ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), representações em diferentes comissões nacionais, bem como o reconhecimento como comunidade tradicional por lei estadual.

Porém, a ampliação do debate político e da busca por direitos também acirram os conflitos locais, especialmente com os proprietários de terra. Fora isso, as conquistas ainda são insuficientes para reverter problemas como a falta de acesso à terra, o acesso restrito às mangabeiras nativas, o desmatamento, entre outros.

“As catadoras de mangaba têm se mobilizado, muitas vezes recorrendo ao Ministério Público Federal, mas a sua articulação com o poder público ainda é frágil. No nosso mapeamento de 2017, que continua valendo, concluímos que é de competência do Estado reconhecer a importância das catadoras de mangaba para a conservação das áreas naturais de mangabeiras em Sergipe, por meio de políticas públicas que as fortaleçam como grupo culturalmente diferenciado. A Embrapa, a UFS e outras instituições têm auxiliado as comunidades na geração de estudos e pesquisas científicas que subsidiam os seus pleitos, bem como políticas públicas”, afirmou Josué Francisco.

Além da produção de pesquisas e promoção de políticas públicas, alguns instrumentos de compensação ambiental podem auxiliar as comunidades a restaurar os ecossistemas locais. A engenheira florestal e mestra em Ecologia e Conservação, Alyne Fontes, destaca que os viveiros de mudas são uma iniciativa que busca plantar espécies de ocorrência na Mata Atlântica, algumas frutíferas da região e outras espécies chaves para projetos de Recuperação de Áreas Degradadas, com o intuito de garantir a preservação dos ecossistemas, do conhecimento tradicional e promover um futuro sustentável.

“O cuidado com o meio ambiente já faz parte da vida das catadoras de mangaba, além de possuírem um conhecimento tradicional valioso sobre os ecossistemas em que vivem, inclusive, sobre práticas de manejo sustentável, o que permite a coexistência harmoniosa entre a atividade humana e a conservação da biodiversidade. Elas entendem que sua sobrevivência depende da manutenção desses recursos e têm na produção de mudas uma maneira de projetar um futuro melhor e deixar um legado para as próximas gerações pois, as árvores que serão plantadas além de cumprir sua função ecológica carregam em si todo o histórico de luta e resistência”, concluiu Alyne.

Crédito de imagens: Projeto Rede Solidária de Mulheres de Sergipe

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