Viralização de feminicídios expõe vítimas, gera corrida por audiência e força reação de órgãos de Segurança em Sergipe

Casos recentes, como o de uma mulher morta por um policial penal em Aracaju, acendem um sinal de alerta ao evidenciar que a circulação descontrolada de informações pode reforçar o efeito contágio.

A rapidez com que conteúdos sobre feminicídio circulam evidencia uma mudança na forma como a violência é narrada e consumida. (Créditos: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Em 22 de março, a baiana Flávia Barros foi morta a tiros no quarto de um hotel em Aracaju (SE) nas primeiras horas da manhã. O principal suspeito, seu namorado e policial penal, Tiago Sóstenes Miranda de Matos, foi denunciado há duas semanas pelo Ministério Público de Sergipe (MPSE) pelo crime de feminicídio. 

No mesmo dia, outro caso foi registrado em Sergipe. Uma mulher foi morta no município de Capela, a 62 km da capital, também vítima de feminicídio. Em poucas horas, dois crimes com a mesma tipificação ocorreram em cidades diferentes, revelando um cenário de violência que ultrapassa casos isolados e se insere em uma realidade mais ampla no estado.

Antes mesmo das primeiras notícias serem publicadas, e apesar de a Polícia ainda estar no local realizando as últimas diligências, vários perfis no Instagram que compartilham informações em tempo real já divulgavam foto, nome e – pasmem! – até imagens do corpo de Flávia sendo retirado do hotel. O crime, embora estivesse sob investigação, passou a circular como conteúdo consumível, replicado em alta velocidade. Não se tratava apenas de informar. Tratava-se de disputar atenção.

A rapidez com que esses conteúdos circularam evidencia uma mudança na forma como a violência é narrada e consumida. Se antes a mediação jornalística funcionava como um filtro, hoje a lógica das redes sociais permite que qualquer usuário publique, compartilhe e amplifique informações sensíveis em tempo real, muitas vezes sem qualquer compromisso ético ou cuidado com os impactos dessa exposição.

Esse cenário já vem sendo discutido por pesquisas acadêmicas e por organismos internacionais de saúde. Estudos sobre o chamado “Efeito Werther” indicam que a divulgação detalhada de atos violentos pode estimular comportamentos imitativos, especialmente quando há repetição, identificação e forte carga emocional nas narrativas.

Diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Suicide Prevention Resource Center recomendam evitar a descrição minuciosa de métodos, não romantizar a violência e incluir informações que incentivem a busca por ajuda. A lógica é simples, mas difícil de aplicar em ambientes guiados por engajamento: quanto mais detalhado e impactante o conteúdo, maior tende a ser sua circulação. 

No contexto da violência de gênero, os efeitos dessa dinâmica são ainda mais graves. A pesquisadora Kamilla Abely Dias Gomes, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), afirma que a cobertura desses casos precisa ser repensada com urgência. “Existe um cuidado e uma atenção redobrada na cobertura de casos de violência de gênero, mas muitas práticas ainda reforçam a exposição excessiva e a revitimização das mulheres”, diz.

Segundo ela, o ambiente digital contribui para esse problema. “Com as mídias sociais, qualquer usuário pode produzir e compartilhar conteúdos. Isso acontece sem mediação ética e dificulta o controle sobre a circulação de informações sensíveis”.

A pesquisadora também chama atenção para o papel dos algoritmos. “Os conteúdos que mais geram engajamento são aqueles que despertam emoções fortes, como choque e indignação. Isso faz com que narrativas violentas circulem mais e permaneçam em evidência por mais tempo”, explica.

Na prática das redações, esse tensionamento também é vivido no dia a dia. A editora executiva do programa Tolerância Zero, da TV Atalaia, Camila Mendes, afirma que há um esforço crescente para evitar o sensacionalismo e construir uma narrativa mais responsável.“A gente continua fazendo o que já era feito antes, sempre averiguando e entrando em contato com a SSP, com a polícia, antes de divulgar qualquer informação”, explica.

Ela destaca que a forma de contar essas histórias precisa mudar. “Não romantizando os personagens, falando minimamente da pessoa que cometeu o crime e focando no fato em si. Quando a notícia é bem construída, a imagem vira um mero detalhe”, completa Mendes, que reforça o papel social do jornalismo. “A gente sempre evidencia os canais de denúncia, seja na fala do apresentador ou na tela. Reforça antes, durante e depois da notícia. Isso é fundamental, porque pode salvar vidas”.

Crime contra Flávia Barros ocorreu em um hotel de Aracaju. Ela era empresária e havia feito aniversário uma semana antes de ser morta por Tiago, um policial penal que chefiava o Complexo Penal de Paulo Afonso, na Bahia. (Créditos: reprodução/redes sociais)

Regras para conter danos após a viralização de crimes

Foi nesse contexto de exposição acelerada e potencial efeito de contágio que o Estado de Sergipe instituiu uma resposta normativa. Em 26 de março, a Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP/SE) editou a Portaria nº 478/2026, que estabelece regras obrigatórias para a comunicação de casos de feminicídio e violência contra a mulher.

A normativa determina que qualquer servidor da segurança pública deve realizar alinhamento prévio com as assessorias de comunicação antes de conceder entrevistas, divulgar informações à imprensa ou publicar conteúdos em redes sociais, inclusive em perfis pessoais vinculados à função. É uma forma de evitar a divulgação desencontrada de dados e garantir uma comunicação institucional mais responsável.

Além disso, o documento estabelece restrições claras de conteúdo. Fica proibido, por exemplo, o detalhamento minucioso da dinâmica do crime, justamente para evitar que outras pessoas sintam-se estimuladas a imitá-la.Também é vedada a emissão de juízo de valor sobre a vítima, prática comum em coberturas que acabam reforçando estigmas e culpabilização.

Outro ponto central é a proibição da divulgação de imagens, áudios ou vídeos que exponham vítimas e familiares, salvo em casos autorizados e alinhados institucionalmente. A norma também orienta evitar linguagem sensacionalista e limitar a exposição do agressor ao estritamente necessário, impedindo sua promoção indevida. A comunicação, segundo a diretriz, deve priorizar a gravidade do crime, a responsabilização penal do autor e o incentivo à denúncia, com divulgação de canais de apoio à população.

A professora Patrícia Rosalba, dos programas de Pós-Graduação em Antropologia e Profissional em Ensino de História da Universidade Federal de Sergipe, avalia que a medida representa um avanço, mas aponta desafios. “Preservar a vítima e a família é uma atitude prudente. Por outro lado, se a restrição for ampla demais, pode haver prejuízo à transparência e ao debate público”, afirma. Para ela, o equilíbrio é fundamental. “A sociedade precisa ter acesso à informação para cobrar políticas públicas eficazes. O feminicídio não é apenas um caso de polícia, é um problema social”, diz.

Essa dimensão estrutural é destacada também no campo acadêmico. No artigo “Ensaio teórico sobre metassistemas sociais do feminicídio”, as pesquisadoras Ana Raquel Rosas Torres e Elza Techio, membras do INCT-Preconceitos, e Ellen Araújo Lima Feitosa, defendem que o feminicídio é a manifestação extrema de um sistema baseado no sexismo e no patriarcado.

A partir dessa perspectiva, a forma como a mídia narra esses crimes deixa de ser neutra. 

Ao espetacularizar, justificar ou detalhar excessivamente a violência, a comunicação pode contribuir para a sua reprodução. Por outro lado, ao humanizar as vítimas e enfatizar a responsabilização, pode atuar como ferramenta de transformação social. Nesse contexto, especialistas também apontam a importância do chamado efeito protetivo da comunicação, conhecido como Efeito Papageno, que consiste em destacar caminhos de ajuda, redes de apoio e alternativas à violência.

Entre dois feminicídios registrados no mesmo dia e a criação de uma norma poucos dias depois, o que se evidencia é uma disputa entre velocidades distintas. De um lado, a rapidez das redes sociais e a lógica do engajamento. De outro, a tentativa institucional de impor limites e construir uma comunicação que não amplifique a violência.

No meio desse processo, histórias como a de Flávia Barros deixam de ser apenas tragédias individuais. Elas passam a ocupar um espaço coletivo, onde a forma de narrar pode influenciar não apenas a compreensão do caso, mas também os caminhos que a sociedade seguirá diante dele.

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Gabriella Salmeron

É jornalista, pesquisadora e criadora de conteúdo com atuação em jornalismo cultural e reportagens investigativas que atravessam temas como feminino, primeira infância, cultura digital, crimes ambientais e direitos humanos. Especializada em cultura pop, cinema e audiovisual, também desenvolve trabalhos sobre fandoms, comportamento nas redes e experiências de consumo digital.

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