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“Vampiros de recursos naturais”: data centers previstos para Sergipe devem consumir mais energia do que todo o estado

Documentário realizado por estudantes da UFS a partir de prêmio do Instituto Vladimir Herzog revela ao menos dois projetos de data centers em Sergipe com protocolo de intenção assinados; um deles consumirá mais energia do que todo o estado.

Vista aérea do data center do Google em New Albany, região central do estado de Ohio, nos Estados Unidos. Foto: Reprodução/Google.

Cerca de 186% mais eletricidade do que o atual consumo de todo o estado de Sergipe: esse é o custo energético do primeiro data center de hiperescala previsto para instalação no menor estado do Brasil. Projetado para uma área às margens da BR-101, no município de Nossa Senhora do Socorro, o empreendimento consumirá 2 gigawatts quando estiver em total funcionamento; o atual consumo de Sergipe é de 700 megawatts.    

Com o avanço das Inteligências Artificiais (IAs), cresceu a necessidade de grandes empresas de tecnologia como Meta (dona do Instagram, Facebook e WhatsApp), Alphabet (dona do Google), ByteDance (dona do TikTok), Amazon e Microsoft por data centers de hiperescala. Essas são estruturas pensadas para o processamento e armazenamento de enormes volumes de dados, como os necessários para treinar IAs e possibilitar operações com criptomoedas.  

Com o grande interesse no Brasil devido à sua larga oferta de energia de fontes renováveis, água e falta de regulamentação, empresas de data centers nacionais e estrangeiras têm negociado diretamente com estados e municípios os termos dos acordos de instalação, lógica aplicada também em Sergipe.  

Há cerca de dois anos, o governo de Fábio Mitidieri (PSD) negocia a instalação de um data center da empresa estadunidense Optimus Technology Group, que inaugurará a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Sergipe. Empreendimentos instalados em ZPEs recebem generosas desonerações fiscais e devem exportar pelo menos 80% de sua produção. O data center da Optimus ocupará 440 mil m² do total de 880 mil m² da ZPE de Sergipe e terá um centro de formação em IA, segundo comunicados oficiais do governo estadual.

O que parece uma boa notícia para a economia do estado esconde, na verdade, a altíssima demanda de energia para manter as operações ininterruptamente, além da água para resfriamento das máquinas, inclusive com a possibilidade de utilizar captação do Rio São Francisco.  

O curta-metragem documental “Vampiros de recursos naturais”, dirigido por Sarah Lima e as repórteres da Mangue Jornalismo Ana Paula Rocha e Rossella Cecília apresenta essas e outras informações resultantes de meses de investigação. A proposta foi selecionada na 18ª edição do Prêmio Fernando Pacheco Jordão para Jovens Jornalistas, organizado pelo Instituto Vladimir Herzog. Foram repassados R$ 6 mil para a realização do curta, que teve orientação da professora Ana Carolina Cavalcanti (DCOS/UFS) e mentoria da jornalista Angelina Nunes.

Rossella Cecília, Sarah Lima e Ana Paula Rocha na noite de exibição pública do documentário “Vampiros de recursos naturais”, no Centro Cultural de São Paulo. Foto: Alice Carvalho/Instituto Vladimir Herzog.

Uma das descobertas foi o avanço não de um, mas dois projetos de data centers – o segundo está previsto para o município de Barra dos Coqueiros, mas não foram publicizados números sobre consumo de energia ou água. A localização exata também não foi definida ainda, porém, em entrevista para o documentário, o gestor da Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Sergipe, Carlos Augusto de Albuquerque, afirmou que o data center estará próximo à termelétrica da Eneva, no povoado de Jatobá.

As realizadoras percorreram diferentes localidades para entender qual a situação energética e hídrica dos municípios possivelmente afetados caso as estruturas sejam instaladas. Elas constataram a cooperação entusiasmada das administrações públicas locais.

Nossa Senhora do Socorro, por exemplo, aprovou uma lei em julho de 2025 que “Institui o Programa Municipal de Incentivo à Instalação de Data Centers mediante concessão de benefícios tributários e urbanísticos, e dá providências correlatas”. Dentre as benesses, está a isenção do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) “pelo prazo de até 10 (dez) anos, prorrogável por mais 5 (cinco) anos, mediante requerimento fundamentado”.

Já em Barra dos Coqueiros, a proximidade com a termelétrica da Eneva e a construção de uma segunda unidade a gás da mesma empresa sugerem que o data center que irá para a cidade pode ser alimentado com energia fóssil, caminho inverso ao preconizado por cientistas climáticos de todo o mundo. Apesar de menos poluente que o carvão mineral ou a queima de petróleo e seus derivados, o consumo de gás é um dos causadores do efeito estufa. Hoje, 20% de toda a reserva conhecida de gás fóssil no Brasil está em Sergipe, e o lobby pró-gás no estado é forte, como mostrou o segundo episódio do podcast Sergipe verde, Sergipe fóssil, lançado pela Mangue em dezembro de 2025.

Segundo levantamento do site Data Center Map, o Brasil tem 218 data centers em operação, mas nem todos são de hiperescala. A região Sudeste concentra a quantidade dessas estruturas no país. 

Errata: Corrigimos a informação que afirmava que o secretário- executivo da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia (Sedetec), Marcelo Menezes, havia dado detalhes sobre a localização do data center previsto para a Barra do Coqueiros; na verdade, a afirmação foi feito por Carlos Augusto de Albuquerque, gestor da Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Sergipe.

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Wendal Carmo

Editor-chefe da Mangue Jornalismo. É jornalista investigativo (DRT 2796/SE) com atuação na cobertura de política, direitos humanos e judiciário. Também colabora com a revista CartaCapital direto de Sergipe. Já trabalhou nas redações do Correio Sabiá, da revista In Magazine do Expresso Jornalismo. Foi vencedor nacional do Expocom 2024, na categoria “reportagem em jornalismo impresso”, e finalista do Prêmio Mosca 2025 com dois trabalhos. Apaixonado por café e pelos bastidores do poder, está sempre em busca de historias cativantes para contar. Também é membro do Conselho Gestor do Centro de Estudos em Jornalismo e Cultura Cirigype.

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