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Uma mulher sobreviveu à violência doméstica e hoje conta a sua dor. Outras 1.571, não

A história de uma sobrevivente expõe como a violência praticada no ambiente familiar se repete na vida de milhares de brasileiras e continua matando mulheres em todo o País.

Em Sergipe, 15 casos de feminicídio foram registrados em 2025 (Créditos: Marcos Santos/USP).

Rafael* começou a agredir sua namorada de forma meticulosa, uma voz mais grossa em um dia, no outro um xingamento, se lamentava pelo que fez, o amor reacendia e horas depois era destruído com mais uma agressão. A tristeza chegava no peito de Júlia*, ele pedia desculpas, demonstrava carinho por ela. Depois ele fazia tudo de novo. 

Se conheceram em 2017, na cidade de Salgado, município sergipano distante cerca de 60km da capital. Ela com 20 anos e ele, 21. Tudo parecia perfeito. Um relacionamento que até então era estável, não comportava mentiras. Certo dia, Júlia* percebeu que o seu namorado mantinha conversas com outras mulheres, o chamou para conversar, disse que não aceitava qualquer tipo de traição. O primeiro empurrão veio. A mão que segurou firme o seu braço naquele instante, foi a mesma que, dias depois lhe feriu, deixando marcas duradouras. “Eu chegava para terminar, ele começava a chorar, falar que ia mudar e aí às vezes ele segurava forte nos meus meus braços. Com o tempo passou a me empurrar e chegou um dia que ele acabou realmente me agredindo, porque eu falei que eu não queria mais continuar”, disse a mulher, em relato inédito, à Mangue Jornalismo.

Poucos anos depois, Júlia* engravidou. Teve uma menina. Júlia* cursava psicologia, era um dos seus maiores sonhos. Mas com a gravidez e sem uma rede de apoio, precisou largar tudo para concentrar sua atenção na bebê. E nem mesmo a gravidez foi obstáculo para Rafael* continuar com as agressões, as traições e as manipulações. Júlia* se sentia cansada, sentava para conversar com Rafael* para tentar separar a vida dos dois, mas ele não permitia.

Em 2021, cinco anos depois do início do namoro, Júlia* deu um fim nessa relação de abismos. Foram cinco anos de tormento, brigas, beijos disfarçados de amor, reconciliações que se tornaram em um tapa. “Eu acho que quando eu decidi colocar um ponto final foi até pior porque ele começou a me perseguir e a me ameaçar de morte.”

Júlia* conseguiu sair dessa íngreme masmorra que a puxava sempre para o fundo. Rafael*, inconformado com a rejeição, voltava a persegui-la. Tentava, mais uma vez, a estratégia de encantá-la. Não dava certo. Então a perseguição começava. Mandava mensagem, ia atrás, fazia de tudo para que aquele relacionamento voltasse a ser mais uma obra de estocolmo.

Ela foi até a delegacia e conseguiu uma medida protetiva contra Rafael*. Era uma falsa sensação de segurança. Pois dias depois, Rafael* continuava indo na casa de Júlia*, gritava por ela, dizia que ia matá-la, balançava o portão com força. Ela, assustada dentro de casa, tentava proteger a sua filha de presenciar aquilo tudo. Ligava para a polícia, mas “demorava tanto para chegar que, quando chegava, ele já tinha fugido.”

Em 2024, Júlia conseguiu um trabalho em Aracaju, se mudou com a sua filha e começou a finalmente visualizar a tranquilidade em sua vida. Fez um curso técnico de enfermagem e segue trabalhando. A sua vida foi caminhando como ela desejava. Conheceu outro rapaz, um homem que a respeitava e a amava. Namoraram e tentaram construir uma vida juntos. Rafael* ficou sabendo desse namoro e fez da vida de Júlia* e do namorado um inferno.

Certa vez, Júlia* estava na garupa da moto do seu namorado enquanto passavam pelas ruas da cidade. Rafael* apareceu pilotando outra moto, chegou mais perto dos dois e deu um chute, derrubando-os. Mesmo arranhados no chão, Rafael* foi até o namorado da sua ex-companheira e começou a agredi-lo.

No dia seguinte, Júlia* foi até a delegacia, acompanhada do namorado, prestar um boletim de ocorrência. Estavam abalados, com ferimentos pelo corpo. Rafael* recebeu a intimação e logo encontrou uma advogada perfeita para lhe defender até o fim. Antes mesmo de chegarem à delegacia, a defensora de Rafael* começou a trabalhar. O seu plano era fazer com que Júlia* não falasse mal do seu cliente, que amenizasse a situação para que todos saíssem bem daquilo tudo. 

Coagida a prestar um depoimento falso, Júlia* cedeu. “E aí ela me ligou, conversou comigo, falou que ele iria me deixar em paz, que era para eu pensar direitinho, porque era o pai da minha filha. Que, dependendo do meu depoimento, eu ia complicar muito a vida dele.”

A mulher acreditou nas promessas rasas de paz. Após a audiência, Rafael* continuou a persegui-la. O namoro que ela tinha, já não existia mais. Ela voltou a conviver com as ameaças do ex e com o sentimento constante de culpa. “E hoje em dia inclusive ele tá com a advogada se relacionando.”

As culpas vieram como foice em seu peito. Primeiro, pelas escolhas que fez na vida, principalmente por ter se relacionado com ele. Depois, com os julgamentos de outras pessoas sobre ela, que não faziam ideia do que estava acontecendo. E piorou quando se viu mal enquanto a sua filha necessitava que ela estivesse bem.

“A gente também acaba se sentindo muito culpada, pelo menos foi a forma como eu me senti, sabe? Eu ficava sem entender, porque mesmo ele tendo aquelas atitudes tão horríveis, cometendo crimes, algumas pessoas ainda me julgavam, sendo que eu só saí daquilo porque já não era algo [bom], nunca foi na verdade, eu que fantasiava na minha cabeça. Já era algo que não era bom para mim. Então, eu quis sair daquilo e mesmo assim fui julgada.”

As sucessivas violências que Júlia* passou pelo seu ex-companheiro afetaram drasticamente o seu psicológico. “Eu desenvolvi uma ansiedade muito forte, muito mesmo, tanto que no tempo que iniciou essas agressões, essa perseguição, eu tava fazendo um curso, e aí eu não conseguia me concentrar. As minhas notas eram ótimas e a partir do momento que começaram [as violências], começou a desandar tudo.”

Hoje, Júlia* segue bem como pode. O amor incondicional por sua filha lhe dá forças para continuar indo atrás de uma vida de paz. Mesmo que Rafael* continue solto, aparecendo uma hora ou outra, se mostrando presente na ausência do seu caos.

Muitas Júlias vivas, outras assassinadas

As violências que Júlia foi acometida estão longe de serem casos únicos. No Brasil, muitas mulheres sofrem violência doméstica de diferentes formas todos os anos. A Lei Maria da Penha elenca cinco tipos: física, psicológica, moral, patrimonial e sexual. Para quem sofre ou já sofreu algum tipo de violência doméstica, ligue 180 ou vá em uma delegacia especializada mais próxima.

O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado no último dia 23 de julho, mostrou que houve um aumento de casos notificados de violência doméstica em todo o país. Mais de 280 mil mulheres denunciaram violência física e quase 800 mil registraram ameaças. A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a violência doméstica é um grave problema de saúde pública. Ou seja, não se trata apenas de casos jurídicos, mas também sociais e psicológicos.

Também há uma diferença entre as nomenclaturas. Violência doméstica é um termo mais amplo, utilizado para se referir a uma violência praticada por uma ou mais pessoas que moram na mesma residência. Já a violência por parceiro íntimo não faz essa delimitação, podendo ser feita por namoros, relações afetivas ou até mesmo relacionamentos anteriores.

Essas violências são feitas de diferentes formas, desde xingamentos, manipulações psicológicas, perseguições, chantagens, e até mesmo agressões físicas e sexuais, proibição de uso de anticoncepcionais ou a retirada de preservativo sem o consentimento durante o sexo.

As sucessivas violências podem fazer com que a vítima evolua quadros de doenças e transtornos psicológicos, sendo necessário criar protocolos para o atendimento dessas pessoas violentadas. No caso da psicologia, foi realizado um protocolo de psicoeducação.

“A psicoeducação não é feita só em contexto de violência, ela é feita em todo um contexto clínico, mas também é feita depois de violência. E é ensinar a paciente sobre os seus processos psicológicos, sobre o que é uma violência. Porque muitas não sabem o que é uma violência, quais são os sinais de uma. Muitas pacientes chegam nem reconhecendo que aquilo era violência. Elas chegam, por exemplo, se culpando ou culpando fatores externos”, explica a psicóloga Maria Clara Guimarães, especialista em saúde mental feminina.

Esses fatores externos são tentativas para justificar as atitudes do agressor. Como por exemplo, o uso de bebidas alcoólicas ou drogas, ciúmes, traições ou qualquer outra munição que possa responder pelos atos. “Isso é um discurso de culpabilização da vítima e de desresponsabilização do agressor”, acrescentou Maria Clara.

Mesmo diante de estados preocupantes em que muitas vítimas se encontram após as agressões, a psicologia não estabelece relações diretas entre a crise mental e a agressão. “A gente nunca vai dizer que a violência necessariamente desenvolveu ansiedade naquela vítima, mas a gente vai dizer que a violência contribuiu significativamente para o desenvolvimento da ansiedade daquela vítima. Porque o desenvolvimento de transtornos mentais é um fenômeno multifacetado, tem aspectos biológicos, aspectos sociais, aspectos culturais”, enfatizou a psicóloga.

E, segundo Maria Clara, a violência doméstica e a violência por um parceiro íntimo estão associadas “ao desenvolvimento de transtornos mentais comuns, depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, de ação suicida, uso e abuso de álcool e outras drogas ou algum tipo de IST que a vítima pode vir a contrair.”

A violência não termina quando a boca é silenciada ou o punho é afastado do corpo. Permanece presa na memória. Ou dentro de um caixão. Os dados do Fórum ainda mostram que 1.571 mulheres foram mortas, em 2025, decorrentes de violência de gênero ou doméstica, denominado de feminicídio. Em Sergipe, no mesmo ano, 15 mulheres foram assassinadas, um aumento de 50% dos casos de feminicídio em comparação a 2024.

Sergipe tem 75 municípios. Apenas dez possuem uma Delegacia Especializada da Mulher (DEM). Em seis desses mesmos municípios também há Delegacia de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV/DEAGV), em que atende casos de violência contra a mulher, crianças, adolescentes, idosos e pessoas com deficiência.

Mulheres que sofrem violência nos outros 65 municípios do estado precisam ir até uma delegacia civil sem a garantia de receber o tratamento e acolhimento adequado ou deslocar-se para outra cidade que tenha uma delegacia especializada. 

Procurada pela Mangue Jornalismo, a Secretaria de Estado de Políticas para as Mulheres afirmou que “mantém diálogo permanente com os municípios para ampliar e fortalecer a rede de atendimento, incentivando a implantação e o fortalecimento de equipamentos especializados, como os Centros de Referência de Atendimento à Mulher e as Secretarias Municipais da Mulher, além de apoiar a articulação de ações de prevenção, acolhimento e acompanhamento dos casos.”

Organizações que acolhem

Nem sempre uma vítima de violência doméstica consegue retomar à vida de antes. As marcas, principalmente psicológicas, podem impedir a mulher de sair de casa, ir ao trabalho ou cuidar dos filhos. São essas características que também tornam a violência doméstica como um assunto urgente de responsabilidade governamental e civil.

O Instituto Social Ágatha, uma Organização da Sociedade Civil de Aracaju, nasceu em 2015 com o objetivo de dar autonomia às mulheres que passaram por violência doméstica. Durante esses mais de 10 anos, o Instituto vem atuando de forma direta na transformação da vida de mulheres, oferecendo cursos, capacitações, auxiliando na ingressão no mercado de trabalho e na realização de campanhas contra violência doméstica no estado e no Brasil.

Outro projeto do Instituto é o Alimentando Sonhos, a cozinha escola, um curso de gastronomia básica (Créditos: Instituto Social Ágatha).

De 2023 a 2025, a organização já atendeu quase 400 mulheres e inseriu mais de 40 no mercado de trabalho a partir do programa Formação Educacional Profissional Social (FOPS), em que são oferecidos cursos de qualificação.

“E a gente tem um outro programa, o Elas por Elas, que é todo o atendimento psicossocial, que a gente tem disponibilizado gratuitamente para essas mulheres. O nosso olhar para essa mulher, quando ela chega aqui na instituição, é um olhar integral. Então a gente tem os grupos de qualificação, de empreendedorismo, mas a gente não só ensina técnica, mas também prepara essa mulher”, destaca a diretora e cofundadora do Ágatha, Talita Verônica.

Por entender que muitas mães que passaram por violência doméstica não possuem uma rede de apoio, o Instituto também pensou em um espaço para que essas mulheres pudessem deixar os seus filhos.

“Um dos nossos valores é a escuta generosa, que é escutar a mulher com a intenção de dar alguma contribuição na resolução daquele problema. E uma das escutas que a gente fez foi justamente essa, que a gente estava tendo um nível de evasão muito alto e as mulheres estavam reclamando que não tinham com quem deixar as crianças, os seus filhos. Porque muitas delas tentam ir para creche, a gente às vezes consegue com a parceria com o município, mas tem outras que não. Então a gente atende crianças de 3 a 6 anos”, disse Talita.

O Instituto Ágatha está disponível para receber mulheres, Talita enfatiza que basta enviar uma mensagem no direct do Instagram, @somosagatha.

“90% das mulheres que a gente atende são mulheres em situação de vulnerabilidade econômica, mulheres que foram vítimas de violência doméstica, que estão com medida protetiva. Então é uma maneira também da gente cultivar esse futuro, da gente cultivar essa perspectiva de que ela pode reescrever a história dela”, completou.

*Nome fictício para não expor os donos dos relatos

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Valter Davi

Jornalista (DRT 2945/SE) e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Sergipe (PPGCOM/UFS), em que pesquisa Narrativa de Sofrimento no campo do Jornalismo. Fotojornalista e escritor, atua como repórter e tem experiência em assessoria de comunicação.

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