
Até o próximo dia 27 de janeiro as pessoas trans poderão se inscrever para uma das 122 vagas criadas exclusivamente para elas na Universidade Federal de Sergipe (UFS) em todos os cursos da graduação presenciais e para o ingresso ainda no ano letivo de 2026, conforme estabelece a Resolução nº 78/2025/Conepe. O período de inscrição começa na quinta-feira, dia 22. Clique aqui para acessar o edital
A universidade informou que essas 122 vagas são novas e adicionais às já ofertadas por outros sistemas de seleção da UFS. As escolhas dos estudantes será realizada em fase única, com base exclusivamente nos resultados obtidos em uma das cinco últimas edições do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem): 2021, 2022, 2023, 2024 ou 2025.
Para fins de classificação, será considerada automaticamente a edição do Enem que resultar na melhor média ponderada, de acordo com os pesos e notas mínimas definidos pela UFS para cada curso. Cada pessoa candidata poderá se inscrever em apenas um curso de graduação. As inscrições devem ser feitas exclusivamente pela internet, no site da Coordenação de Concursos e Vestibulares, a partir das 9 horas do dia 22 de janeiro. O resultado do processo seletivo será divulgado no dia 30 de janeiro, em lista classificatória com as pessoas aprovadas e excedentes.
Paulo Lira, presidente da Associação em Defesa dos Direitos da Comunidade LGBTQIAPN+ de Sergipe (Dialogay) e diretor da CUT/SE, avaliou que o lançamento do edital para o ingresso de pessoas trans representa uma mudança histórica, resultado das lutas do movimento e da comunidade LGBTQIA+. “Isso é imprescindível. A universidade descortina essa questão do conservadorismo, dos preconceitos quanto à população LGBTQIA+ na medida que abre esse edital para as pessoas trans”, disse Paulo. A Dialogay, fundada em 1981, é reconhecida como o segundo grupo gay mais antigo do Brasil.
Paulo Lira lembrou que o Brasil é o segundo país que mais mata pessoas trans, a expectativa de vida delas é de apenas 35 anos e menos de 0,3% da população trans chega ao ensino superior. “A cota para ingresso na UFS de pessoas trans é uma grande avanço, mas temos muito ainda a fazer diante de tantos preconceitos, do conservadorismo e que, de fato, se reverberou bastante com essa visão fascista, nazifascista capitaneada pelo bolsonarismo”, completa Paulo.
O número de mortes violentas de pessoas LGBTQIAPN+ caiu 11,7% em 2025 com relação ao ano anterior, mas ainda manteve a média de uma morte a cada 34 horas. Segundo o Observatório 2025 do Grupo Gay da Bahia (GGB), o país registrou 257 mortes violentas dessa população em 2025. Os homens gays representaram 60,7% das vítimas, seguidos por mulheres trans e travestis, com 24,9%, grupo que, apesar de menor em número populacional, enfrenta um risco 19 vezes maior de assassinato.
Linda Brasil: cota para pessoas trans é política de reparação e emancipação
Uma das personagens importante para a conquista dessa cota para pessoas trans na UFS é a deputada estadual Linda Brasil (PSOL), a primeira mulher trans eleita para a Assembleia Legislativa de Sergipe. Ela esteve desde o início envolvida no processo de diálogo com a comunidade acadêmica, com os movimentos sociais e com a própria reitoria. A parlamentar, ainda em 2013, foi também a responsável pela ação que culminou na Portaria nº 2209/UFS, que passou a garantir o uso do nome social no âmbito acadêmico e administrativo da instituição.
Para ela, o edital com as 122 vagas da cota afirmativa para pessoas trans em todos os cursos de graduação presenciais da instituição é uma vitória da democratização do ensino superior e contra a transfobia em Sergipe. “Nossa mandata participou ativamente dessa importante conquista, resultado da mobilização da Frente por Cotas Trans e Travestis na UFS, dos movimentos sociais e de tantas pessoas comprometidas com a democratização da universidade. Sabemos que menos de 0,3% da população trans chega ao ensino superior. Diante disso, essas cotas são mais que uma política acadêmica: são uma política de reparação e emancipação”, declarou.
Linda Brasil lembrou ainda que a expectativa de vida da população trans e travesti no Brasil é de apenas 35 anos, e que 90% ainda são empurradas à prostituição pela violência e pela exclusão social. Para ela, a política de cotas é resposta concreta a esse cenário de violação de direitos e enfrentamento da discriminação. “Não é privilégio, é justiça social. É garantir que corpos e corpas trans possam ocupar todos os espaços. Seguiremos lutando para que essa política seja realidade também em todas as instituições federais do país”, salientou a parlamentar.

Em 2013, Linda Brasil ingressou na UFS, depois de ter sido compulsoriamente empurrada para a prostituição. “Naquela época, não tínhamos referências de mulheres trans e travestis ocupando esses espaços acadêmicos e espaços de poder. Éramos empurradas compulsoriamente para a prostituição”, relatou.
Desde o princípio da graduação, sofreu transfobia com o desrespeito ao seu nome social. Na sala de aula, um professor insistia em utilizar o seu nome de registro. Esse fato motivou um processo administrativo. A ação culminou na Portaria nº 2209/UFS, que regula a utilização do nome social na instituição. Além de ter sido a primeira mulher trans a concluir o curso de graduação na UFS, Linda conquistou o título de Mestra em Educação.
A luta pela garantia dos seus direitos aproximou Linda do movimento estudantil e LGBTQIA+ organizado. Ela foi uma das responsáveis pelo Coletivo Queer Transfeminista (Des)montadxs, criado para discutir questões de gênero e sexualidade dentro da UFS e em todo o estado. Em 2015, integrou o movimento que criou o projeto EducaTrans, através da Amosertrans (Associação do Movimento Sergipano de Travestis e Transexuais), com o propósito de ofertar curso preparatório para o ENEM voltado especialmente para pessoas trans.
Roda de Conversa: “Vozes trans em um diálogo transancestral”
No próximo dia 30 de janeiro, a Dialogay vai realizar uma Roda de Conversa com o tema “Vozes trans em um diálogo transancestral”. O encontro vai ocorrer às 16 horas na Casa Arco-Íris (Avenida Mamede Paes Mendonça, 903, Bairro Getúlio Vargas, em Aracaju). A roda de conversa será medida por Zaila Luz, pedagoga e pesquisadora da área de Educação sobre Justiça Social, e Maria Luz, pedagoga e militante pelos direitos da população trans e travesti. “Esperamos todas e todos lá para uma conversa cheia de acolhimento e fortalecimento das vozes trans e transancestrais”, convidou Paulo Lira, presidente da Dialogay.


