

O nome de batismo era Clóvis Steiger de Assis Moura, mas sempre assinou como Clóvis Moura, um piauiense de Amarante, que faria 100 anos em 2025 e que, sem exagero, é um dos grandes intelectuais que este país já viu, na verdade, que pouco viu. E não o enxergou porque ele era negro e produziu um conjunto crítico de obras que deixa nuas as raízes da perversa realidade brasileira. Seu legado impressiona pela atualidade e desconcerta-se pela profundidade diante de rasteiras interpretações.
A Mangue Jornalismo entrevistou Ana Paula Procópio, professora de Serviço Social na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), certamente uma das maiores especialistas no trabalho de Clóvis Moura. Hoje, às 19 horas, ela abre um Seminário sobre os 100 anos dele, na Associação dos Docentes da Universidade Federal de Sergipe (Adufs). Lá, ela falará exatamente sobre a atualidade do pensamento de Clóvis Moura. A programação completa do seminário, que vai até quinta, 23, está no Instagram @adufs.sergipe
A entrevista da professora Ana Paula Procópio para Mangue é para ser lida sem pressa, refletindo sobre os caminhos do legado potente de Clóvis Moura. Ele morreu em 2003, mas produziu um trabalho incontornável diante dos dilemas do nosso tempo, especialmente sobre racismo e luta de classe. “Ele é um autor que colabora com o nosso reconhecimento como sujeitas e sujeitos da História. Podemos aprender com Moura que cada um de nós é potencialmente quilombola e que ser quilombola é revolucionário”, diz Ana.
Para a professora, Moura “situa como protesto negro as lutas e resistências empreendidas e avalia o seu conteúdo social e sua relevância para as dinâmicas sociais dos diferentes períodos históricos. A luta dos negros é identificada como quilombagem”. E ela completa: “Moura pesquisou, sistematizou e divulgou a memória da revolta como um fato histórico materializado nos quilombos, nas guerrilhas e nas insurreições e como um devir da rebeldia negra presente em todos nós que somos trabalhadores explorados”.
Ana Paula Procópio chama atenção que, para Clóvis Moura, “o conflito fundante da sociedade brasileira tem a relação entre trabalho e racismo como base. Isso significa dizer que a contradição central de nossa formação social está no sequestro de pessoas africanas para exploração do seu trabalho na condição de escravização, ou seja, está no conflito de classes entre escravos e senhores. Ter consciência negra não é uma ‘coisa de preto’. É coisa de classe trabalhadora, considerando que o racismo é um elemento dinâmico de hegemonia da sociabilidade burguesa, que articulado com o sexismo, com a homofobia e com a transfobia assume uma funcionalidade que o sistema não pode mais prescindir”.
Leia, reflita, comente e compartilhe a entrevista completa da professora Ana Paula Procópio.
Mangue Jornalismo (MJ) – Como a senhora apresentaria Clóvis Moura para uma grande parte da sociedade que não o conhece, que jamais ouviu falar sobre ele e o porquê de comemorar os seus 100 anos?
Ana Paula Procópio (APP) – Eu diria que o Clóvis Moura é um pensador do Brasil que consegue interpretar, escrever e falar para diferentes públicos sobre as nossas origens como sociedade. Um intelectual que revela uma forma resistente, guerreira e ao mesmo tempo contraditória de ser brasileira/brasileiro. É um autor que colabora com o nosso reconhecimento como sujeitas e sujeitos da História. E eu penso que quando nós aprendemos que também fazemos História, essa descoberta pode ser um recurso muito potente para a transformação social emancipatória. E nós precisamos muito da compreensão de que esses processos violentos, predatórios e opressivos que estamos vivendo nesse momento histórico, apesar de complexos, não são intransponíveis, são a forma do sistema capitalista reagir para a contenção das nossas potenciais resistências, que são sempre um risco para a sua permanência.
Podemos aprender com Moura que cada um de nós é potencialmente quilombola e que ser quilombola é revolucionário. É importante que desde muito cedo, na infância, as crianças aprendam que as suas existências são potencialmente revolucionárias, aprendam a participar ativamente dos processos de transformação para uma sociedade que não seja baseada em exploração e opressão.
MJ – É exagero chamar o sociólogo, historiador e jornalista Clóvis Moura, que nasceu em 1925, no interior do Piauí, de um dos maiores intelectuais da história brasileira? E o pensamento de Moura parece ganhar a América Latina, é isso?
APP – Não é um exagero quando começamos a conhecer a magnitude da totalidade de sua produção, que começa na juventude e mostrou-se bastante profícua, com dezenas de livros e artigos. As suas produções vistas em conjunto são o resultado de pesquisas de uma vida inteira. Representam o movimento de um intelectual que se propôs ir às origens para pensar a realidade brasileira e a construção de estratégias coletivas de transformação da realidade. Construiu os fundamentos para radicalização do significado político do negro na sociedade brasileira e latino-americana. Um bom exemplo é o livro O negro: de bom escravo a mau cidadão?
MJ – O porquê a obra dele ‘O negro: de bom escravo a mau cidadão?’ é tão importante?
APP – Porque nela, Moura parte do seguinte dilema axiológico: o negro brasileiro foi ótimo escravo e atualmente é péssimo cidadão. No livro ele questiona sobre a função sociológica dessa afirmação. Indaga sobre as causas sociais, econômicas e culturais para a criação e perpetuação deste estereótipo que caracteriza o escravizado como bom colaborador braçal na construção das riquezas do país. Contesta a naturalização da ideia de liberdade atrelada à alforria ou à uma lei. Na assimilação de uma racionalidade normativa branca o direito à liberdade dos negros ficava subordinado ao direito de propriedade dos brancos, que só poderia ser anulado pelos proprietários, pelo Estado e nunca pelos próprios escravizados.
Na obra merecem destaque as reflexões de Moura sobre o deslocamento do negro como força de trabalho central do sistema produtivo no pós-abolição tornando-se excedente no campo de trabalho assalariado, a ausência de políticas para sua integração e a política de branqueamento do trabalho livre pelo incentivo à imigração de trabalhadores brancos europeus. Os negros não ficaram de fora mercado de trabalho devido aos resquícios com o sistema anterior, mas em função da forma e das necessidades de organização do novo sistema. Mesmo com diferenças regionais, Moura observa uma constante no processo histórico social: o lançamento compulsório dos negros nos últimos estratos da sociedade, integrado em uma economia de miséria ou marginalizado. Isso porque o racismo estrutural na sociedade competitiva opera com mecanismos de barragem disfarçados de exigências meritocráticas que apenas um grupo reservado consegue atender.
MJ – Além disso, nessa obra ainda tem a questão da América Latina, não é?
APP – Sim, no livro também estão presentes estudos sobre a participação do negro na emancipação da América Latina abordada a partir de um conceito dinâmico radical da categoria emancipação, que é abordada como um processo social, cultural, econômico e político em curso, imanente. O debate de Moura sobre a América latina baseia-se nos elementos que conferem unidade aos processos históricos ocorridos nos países: a pobreza, a concentração de riqueza, a situação de dependência econômica e os contínuos esforços dos países desenvolvidos em mantê-los nesta situação.

MJ – O professor Roberto Santana, da Faculdade de Educação e seu colega na UERJ, diz que Clóvis Moura é o autor de obras fundamentais para a compreensão das estruturas racistas da sociedade brasileira e da luta negra por emancipação, tendo marcado profundamente o pensamento social brasileiro. É isso mesmo?
APP – Certamente. Clóvis Moura, em sua abordagem teórico-metodológica marxista demonstra o caráter intrínseco entre formação social brasileira e resistências negras no escravismo. O seu primeiro livro Rebeliões da senzala: quilombos, guerrilhas e insurreições, publicado em 1959 é um grande exemplo da afirmação do professor Roberto. Moura inaugura na historiografia brasileira sobre a escravidão a categoria do negro como sujeito político subvertendo o padrão de despersonalização posto na ideia do escravo como uma identidade natural do grupo negro. No livro ele articula história e sociologia para chegar a um tipo de conhecimento sobre a formação social brasileira que é ao mesmo tempo teórico e prático. Quando nos dá a conhecer o dinamismo interno das lutas dos escravizados traduzidas como processos históricos, mostra que a sociedade escravista não era harmônica, pois tratava-se de um sistema de exploração do trabalho que estava assentado no antagonismo entre senhores e escravos. Ele expõe criticamente a contradição social do escravismo brasileiro e desse modo alcança aspectos da formação social que contém os nexos explicativos de condições de iniquidade que se perpetuam no país. Moura adota a máxima de que a vida determina a consciência, porém a vida social estudada por ele não é estática, os sujeitos movem-se nela e são movidos a partir de múltiplas determinações, cuja complexidade e dinâmica não podem ser convertidas em esquemas hierárquicos de oposição e/ou sobredeterminação.
MJ – Para Clóvis Moura, enxergar as relações de produção é fundamental, não é?
APP – Sim, um ponto importante destacado por Moura para o estudo crítico da história social trata exatamente de não secundarizar o conteúdo das relações de produção, uma medida impeditiva para o desvelamento das forças que deram dinâmica à passagem do trabalho escravizado para o livre. Ele nos orienta para investigação dos elementos determinantes para o modelo de capitalismo nacional que foi implementado: quais os mecanismos de barragem da radicalização da transição do modo de produção, quais os componentes objetivos e subjetivos presentes no processo, quais as forças sociais que atuaram nessa transformação e o nível de contribuição de cada uma e quais os principais beneficiados por uma abolição sem direitos. No Brasil, o cenário do pós-abolição e da República, dados os níveis de subordinação econômica e extraeconômica das classes e segmentos, foi construído a partir da reelaboração da ideologia das relações de produção escravistas, na qual o racismo entra como componente do pensamento social e municia os mecanismos da classe dominante para impedir a mobilidade social das camadas marginalizadas, majoritariamente negras.

MJ – Ao que parece, Clóvis Moura foi decisivo na desconstrução de mitos persistentes sobre a escravidão e o período pós-abolicionista. A senhora poderia explicar um pouco mais sobre isso?
APP – As pesquisas de Moura demonstram que os quilombos no Brasil ocorreram ao longo de todo período escravista. E a suposta passividade dos escravos é um mito criado pelas classes dominantes e seus intelectuais orgânicos para justificar os critérios de subordinação no passado e no presente. Toda e qualquer reação dos escravizados implicava em desajustes na economia escravista e tinham o potencial de afetar negativamente as suas bases materiais. Uma outra marca importante das suas pesquisas sobre a escravidão é sua caracterização em dois grandes períodos interligados, mas com processos específicos: escravismo pleno (1550-1850) e escravismo tardio (1850-1888). No longo escravismo brasileiro e no pós abolição Moura situa como protesto negro as lutas e resistências empreendidas e avalia o seu conteúdo social e sua relevância para as dinâmicas sociais dos diferentes períodos históricos. Assim como a escravidão foi uma instituição nacional, a luta dos negros é também identificada nessa dimensão como quilombagem. No escravismo os quilombos foram a unidade básica de resistência dos negros e o principal elemento de desgaste do sistema.
MJ – É Moura que ilumina na história o escravizado “rebelde”?
APP – Veja, ele rebate os ensaios de história e sociologia que abordam a dicotomia escravo-senhor de forma invertida, em que o escravizado passivo que construía com seu trabalho a riqueza do proprietário colonial e da metrópole é apresentado como padrão de normalidade e elogiado por sua contribuição à formação da nação. E por outro lado ocultavam o escravizado rebelde, o quilombola ou insurreto destituindo dos sujeitos as suas qualidades dinâmicas e humanas, transformando-os em figuras folclóricas, elementos mortos ou negativos, distantes dos acontecimentos reais. Em sua percepção, os estudos que afirmam a contribuição do escravizado ao desenvolvimento da sociedade exclusivamente pelo seu trabalho conformado cumprem um papel ideológico que encobre os processos sociais, criando estereótipos funcionais aos interesses conservadores.
MJ – Como ele entendia o racismo no pós-abolição?
APP – No pós-abolição a estrutura ocupacional foi mediada pelos processos de diferenciação econômica da sociedade e pela diversificação da divisão do trabalho. Acompanhados por mecanismos reguladores do mercado de trabalho, sendo o racismo o principal. O racismo em relação aos negros no mercado de trabalho competitivo foi mantido, de acordo com Moura, por um conjunto de mecanismos ideológicos, inconscientes ou não, que se materializam na inserção desigual que negros e brancos têm na estrutura ocupacional. Na sua análise dos aspectos que conformam a ideologia do racismo no pós-Abolição ele constata que muitos abolicionistas brancos eram também imigrantista e acreditavam que o caminho de progresso para Brasil era ser branco e capitalista considerando que a extinção da escravidão não resolveria o problema do desenvolvimento da nação. O que se colocava também em pauta era como melhorar a composição social do país, visto que os negros seriam inferiores, não apenas por suas próprias condições genéticas, mas por supostamente terem se embrutecido durante a escravização. O auge do pensamento racista no Brasil (1880 a 1930) foi também de expansionismo da economia cafeeira, o que contribuiu para justificar o adensamento da importação de mão-de-obra branca europeia.
Em todos os períodos os grupos sociais negros corresponderam com instituições paralelas e antagônicas à ideologia dominante. Sendo o associativismo negro uma tendência demandada por sua própria condição na sociedade. Esta forma de defesa criou anteparos sociais, primeiro contra a brutalidade da escravidão e no capitalismo para sobreviver à marginalização, sendo o ajuntamento negro uma resistência política ao individualismo e à competição inerentes ao sistema.

MJ – Ao que parece, Clóvis Moura soube como poucos não desassociar em hipótese alguma a questão racial com a luta de classes, sem separação, o que à luz de hoje uma séria crítica e um alerta ao que se chama identitarismo?
APP – Para Moura o conflito fundante da sociedade brasileira tem a relação entre trabalho e racismo como base. É uma premissa para o restante de suas formulações. Isso significa dizer que a contradição central de nossa formação social está no sequestro de pessoas africanas para exploração do seu trabalho na condição de escravização, ou seja, está no conflito de classes entre escravos e senhores.
O tripé do sistema colonial era formado pela exploração do trabalho escravizado, pelo latifúndio e pela monocultura. Essa dinâmica exploratória nas colônias, que perdurou por mais de três séculos, foi um dos elementos principais no processo de acumulação primitiva do capital. Então o racismo que originalmente legitima as invasões e a expansão colonial, posteriormente atua na manutenção do sistema capitalista em articulação intrínseca com a classe, o gênero e a sexualidade. O que temos aprendido apenas como divisão social do trabalho se constituiu no capitalismo como uma divisão racial, sexual e de gênero do trabalho. Desse modo, a consciência da negritude, do antirracismo, do antissexismo e da anti-Lgbtfobia pela classe trabalhadora, nesse século de crise estrutural do capital, de aprofundamento da precarização das relações de trabalho em nível mundial – que afetam mais fortemente os segmentos historicamente mais oprimidos – trata-se de uma necessidade para o enfrentamento coletivo das explorações e opressões.
MJ – A classe, como uma categoria social, é a que une?
APP – Sim, a classe como categoria social é o que nos une, mas é a intermitente violência das opressões o que nos assemelha como seres humanos em nossa diversidade. Ter consciência negra não é uma “coisa de preto”. É coisa de classe trabalhadora, considerando que o racismo é um elemento dinâmico de hegemonia da sociabilidade burguesa, que articulado com o sexismo, com a homofobia e com a transfobia assume uma funcionalidade que o sistema não pode mais prescindir.
O racismo como elemento estrutural e estruturante das relações sociais está presente desde a origem da formação social, participa dinamicamente na forma e na manutenção do capitalismo dependente e sua extinção depende da recomposição do mundo em bases diferentes das que estão postas. A classe trabalhadora negra, majoritária no país e duplamente espoliada (no caso das mulheres negras essa condição é tripla – de gênero, raça e classe) tem um papel predominante no desmantelamento do sistema e na transformação da sociedade. Concordamos com Moura que o racismo é uma arma ideológica de dominação do capitalismo.
MJ – Ou seja, a questão racial é fundamentalmente política?
APP – A questão racial é essencialmente política e não pode ser compreendida e enfrentada em suas múltiplas dimensões se for interpretada apenas como problema teórico ou como processo individual. A luta antirracista e anticapitalista requisita de sujeitas e sujeitos singulares a articulação coletiva de suas identidades raciais, de gênero, sexualidade e classe a partir de uma posição crítica e radical sobre a relação entre as identidades e as condições de vida com vistas a construção de uma sociedade de distribuição equânime da riqueza socialmente, livre de explorações e opressões de quaisquer tipos, por meio da transformação democrática das relações sociais.

MJ – No entender da senhora, que obra ou quais obras de Clóvis Moura e o porquê elas são vitais e deveriam ser lidas, relidas, estudadas, debatidas hoje?
APP – Destaco o livro Sociologia do negro brasileiro, uma obra que segundo o próprio autor foi escrita para contribuir com a formação militante. Na obra ele sintetiza de forma bastante acessível os seus estudos sobre a situação e as perspectivas do problema do negro no Brasil. Apresenta criticamente diversas abordagens tradicionais sobre a situação do negro: o caráter reflexo dos estudos que repetem imagens estereotipadas, as teorias de sincretismo, assimilação, acomodação, aculturação, miscigenação e democracia racial. E apresenta duas categorias importantes para análise das relações raciais na sociedade de classes: grupos específicos e grupos diferenciados. Também resgata as resistências negras nos diferentes contextos sócio-históricos salientando o caráter dinâmico desta inserção na sociedade brasileira no período da escravidão e posteriormente na sociedade de classes.
Moura debate a solução para o problema racial e social brasileiro nos níveis teórico-metodológico e prático-operativo apresentando um enfoque estruturando numa sociologia do e para o negro no Brasil que é diferente de uma sociologia sobre o negro brasileiro. Considerando a questão negra como conflito em uma sociedade competitiva, de modo a fazer a ponte com as questões estruturais e situando o modo de produção no qual as relações sociais ocorrem para então captar os processos particulares da dinâmica social.
MJ – Que outras questões relevantes a senhora gostaria de chamar atenção sobre Clóvis Moura nesse momento de lembrança do seu centenário?
APP – A produção de Clóvis Moura se destaca como uma importante contribuição para o debate das relações raciais, e além, como um pensamento para entender o mundo contemporâneo, particularmente na atualidade, com o acirramento do conservadorismo e de perspectivas fascistas na política em nível mundial. Em minha tese que tem como objeto o seu pensamento social eu afirmo com base nas suas produções que o contrário de casa grande não é a senzala, é o quilombo. Considero importante lembrar que isso não significa criar uma dicotomia, mas identificar a relação dinâmica entre a senzala e o quilombo, até porque é das senzalas que saem os primeiros quilombolas. Essa me parece uma das grandes sacadas do Moura. Sair do quadro estático que somente permitia ver uma relação de harmonia passiva entre escravos e senhores para uma dialética que tem o quilombola como elemento dinâmico. Moura pesquisou, sistematizou e divulgou a memória da revolta como um fato histórico materializado nos quilombos, nas guerrilhas e nas insurreições e como um devir da rebeldia negra presente em todos nós que somos trabalhadores explorados. Uma práxis forjada pelas resistências e enfrentamentos contra mais de quinhentos anos de violências, explorações e opressões.


