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O Cine Walmir Almeida — carinhosamente conhecido como o Cinema do Centro — suspenderá suas atividades por tempo indeterminado a partir do próximo dia 15 de setembro. Como a gestão do espaço é realizada de forma compartilhada entre a AVBR Produções (Rosângela Rocha e Deyse Rocha) e a Secretaria Municipal da Cultura de Aracaju, a continuidade operacional da sala depende da formalização de um novo Termo de Cessão até que um novo edital seja publicado.
Segundo nota da Secretaria, “a continuidade e o fortalecimento das atividades no local permanecem entre as prioridades da gestão municipal”. A realidade, no entanto, contraria a declaração: os trâmites internos de renovação poderiam e deveriam ter sido antecipados. A burocracia jamais pode se sobrepor à vida cultural da cidade, visto que, em nosso setor, a descontinuidade é sempre devastadora.
O que diríamos se uma escola pública fosse fechada? Um cinema público possui exatamente essa mesma força formadora. Ele não é mero passatempo: educa, expande sensibilidades, molda personalidades e nos ensina a enxergar o outro. Por isso, suspender as operações do Cine Walmir Almeida, ainda que em caráter temporário, equivale a fechar as portas de uma escola. Além disso, manter uma sala de exibição no centro de Aracaju tem um peso urbanístico, social e político incalculável. Significa preservar a região central, mantendo-a viva e ocupada para além do horário comercial, combatendo o esvaziamento urbano noturno e devolvendo as ruas à população. O centro de Aracaju precisa ser vivo, humano e pulsante.
A importância do Cine Walmir Almeida sobressai quando analisamos o circuito exibidor de Aracaju em sua totalidade. Atualmente, a cidade conta com seis cinemas: o Cinemark do Shopping Jardins (9 salas), o Cinemark do Shopping RioMar (7 salas), o Centerplex do Aracaju Parque Shopping (7 salas), o Cinesercla do Shopping Praia Sul (5 salas), além de duas opções de rua: o Cine Alquimia (no Espaço Alquimia) e o próprio Cine Walmir Almeida, ambos de sala única.
À primeira vista, percebemos dois grupos distintos nesse cenário: as grandes redes situadas em shoppings (multiplex) e os cinemas independentes localizados fora deles. Na prática, contudo, o Cine Alquimia acaba reproduzindo rigorosamente a mesma lógica de mercado dos multiplex. Seu histórico de curadoria apresenta uma alta aderência à programação das grandes redes. Se historicamente não podemos esperar muito dos cinemas de shopping — que sempre cederam pouquíssimo espaço ao cinema brasileiro e não hollywoodiano —, é lamentável constatar que uma sala de rua, sem vínculos com megacorporações, renda-se à mesma mentalidade comercial focada em blockbusters.
É nesse cenário que o Cine Walmir Almeida surge como o grande contraponto ao circuito tradicional de Aracaju. Focado em cinematografias diversas e atento a filmes que exploram linguagens e estéticas para além dos blockbusters, o espaço destaca-se por oferecer uma programação praticamente exclusiva na cidade, além de ser o único cinema a exibir produções sergipanas. Para ilustrar essa relevância, basta observar o caso de Nosso Segredo, de Grace Passô. Vencedor do prêmio de melhor filme brasileiro no Festival de Gramado deste ano, a obra só chegou aos espectadores de Aracaju graças ao Cine Walmir Almeida. Quando a obra vencedora de Gramado é ignorada pelos demais cinemas da cidade, a importância do Cine Walmir Almeida torna-se incontestável.
O preço do ingresso no Cine Walmir Almeida é praticamente a metade do que é cobrado nos outros cinemas da cidade. É um diferencial social imenso, mas que torna a bilheteria insuficiente para cobrir os custos operacionais de uma programação regular ao longo de toda a semana. Em qualquer lugar do mundo, os cinemas voltados para a exibição de filmes que não sejam blockbusters sobrevivem com incentivos e aportes públicos. Cultura não é gasto, e sim investimento para o futuro de sua população.
A construção de uma política pública estruturante para o audiovisual em Aracaju é urgente. A gravidade da situação fica evidente diante da não adesão do município aos Arranjos Regionais do Fundo Setorial do Audiovisual, o que resultou na perda de investimentos vitais para um setor essencial na geração de emprego, renda e identidade cultural.
Considerando que esse mercado movimentou R$ 70,2 bilhões no PIB brasileiro apenas no ano passado — representando 0,7% da economia nacional —, a criação de uma coordenação específica dentro da pasta da Cultura torna-se imprescindível, tanto por seu peso econômico quanto simbólico. Diante desse cenário, cabe à Secretaria Municipal da Cultura sair da inércia e agir com rapidez para impedir que o Cine Walmir Almeida feche as portas.