
O transtorno depressivo pode estar subdiagnosticado entre idosos brasileiros, com um descompasso entre o número de pessoas que relatam seus sintomas e aqueles que afirmam ter recebido diagnóstico médico. A análise é de pesquisadores da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) e da University College London (Reino Unido), que avaliaram uma amostra de quase 6.900 idosos, representativa da população brasileira com 60 anos ou mais.
Os cientistas observaram e concluíram que, apesar de 15,6% dos entrevistados relatarem sintomas como sentimento de tristeza, solidão ou perda de prazer nas atividades, apenas quatro em cada dez deles receberam diagnóstico médico. Os resultados integram um artigo científico que acaba de ser publicado no periódico Epidemiologia e Serviços de Saúde: revista do SUS (RESS).
Os pesquisadores utilizaram dados do ELSI-Brasil (2019–2021), conduzido pela Fiocruz Minas e pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para mapear depressão, perguntaram se algum médico já havia dito ao participante que ele tinha depressão e se fazia uso de medicamentos para tratá-la. Já os sintomas foram aferidos por questões sobre avaliação da vida, qualidade do sono e sentimentos como felicidade, solidão e tristeza.
Dos 6.872 entrevistados, 12,2% disseram ter sido formalmente diagnosticados com o transtorno, e 8,1% afirmaram tomar medicamentos relacionados. Os principais fatores associados ao diagnóstico foram ser do sexo feminino, ter menos de oito anos de escolaridade e não praticar atividades físicas.
Um número maior relatou sentir-se deprimido (15,6%), e dentre eles, a grande maioria não está entre os diagnosticados — 62,7% dos idosos que se sentiam deprimidos não haviam recebido confirmação clínica.
“Isso revela que muitos idosos sofrem em silêncio ou com barreiras de acesso, demonstrando que a depressão ainda é subvalorizada no envelhecimento e reforçando a necessidade de estratégias mais sensíveis de detecção e acolhimento, especialmente na Atenção Primária”, diz Jefferson Traebert, um dos autores do estudo.
Em 2017, a estimativa era de que metade dos idosos com depressão não haviam sido diagnosticados na Atenção Primária, devido à semelhança de sintomas como fadiga, sono, falta de libido, problema de memória e irritabilidade com manifestações consideradas naturais do envelhecimento.
Para Traebert, isso reforça a importância de modelos diagnósticos que combinam autorrelato, rastreamento estruturado e avaliação clínica para detectar e manejar a depressão em idosos.
“O Brasil está envelhecendo rapidamente, e a saúde mental deve ser vista como um pilar fundamental do envelhecimento saudável. A depressão não é ‘parte natural’ do envelhecer e deve receber atenção igual à dada às doenças crônicas físicas. Inclusive, o estudo evidencia que ouvir o idoso — seu relato e sua percepção de sofrimento — é uma poderosa ferramenta clínica que não deve ser subestimada”, afirmou Traebert.

Prefeitura diz promover ações de promoção e inclusão da população idosa
Na cidade de Aracaju, como são tratados os idosos e o diagnóstico de depressão? Segundo a Secretaria Municipal da Família e da Assistência Social (Semfas), a capital desenvolve ações contínuas voltadas à promoção do bem-estar e da inclusão social da população idosa. “Nas 16 unidades do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do município, espalhados em todas as regiões, são ofertados os Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, com atividades como ações comunitárias, práticas esportivas e culturais, passeios e iniciativas que estimulam o convívio social e os laços familiares, contribuindo para a prevenção do isolamento e da solidão”, informou a secretaria.
A Semfas informou que o Cras Maria Diná conta com o projeto Conectividade, que promove a inclusão digital da pessoa idosa, ampliando o acesso à informação, à comunicação e aos serviços públicos. Ainda segundo a secretaria, a prefeitura mantém duas unidades de acolhimento institucional para pessoas idosas, na modalidade Casas Lares, destinadas ao acolhimento em ambiente residencial e voltadas ao cuidado humanizado de pequenos grupos, com até dez pessoas por unidade. É ideia da secretaria implantar duas Repúblicas para Idosos, ampliando as alternativas de moradia assistida.
Ainda segundo a secretaria, existem ações de conscientização sobre a violência contra a pessoa idosa, incentivo à autonomia e ao protagonismo, suporte emocional aos cuidadores familiares e o projeto “Eu com a Comunidade”, que tem como objetivo prevenir o isolamento social e garantir a permanência e/ou inserção da pessoa idosa na dinâmica social e política de sua região. “De forma integrada, a Secretaria atua em parceria com o Conselho Municipal da Pessoa Idosa e com a sociedade civil, incluindo edital de chamamento público que destina R$ 110 mil para cada organização contemplada, fortalecendo a rede de proteção à pessoa idosa no município”, garantiu.
Fonte: Agência Bori


